Anne Frank
Annelies "Anne" Marie Frank foi uma adolescente alemã de origem judaica, vítima do Holocausto. Tornou-se uma das figuras mais discutidas da história após a divulgação póstuma do Diário de Anne Frank (1947), no qual documentou suas experiências enquanto vivia escondida em cômodos ocultos de uma empresa durante a ocupação alemã nos Países Baixos na Segunda Guerra Mundial. Desde então, passou a ser referida como um "símbolo da luta contra o preconceito" e teve sua história servindo como base para diversas peças de teatro e filmes ao longo dos anos. Em 1999, foi contemplada como uma das pessoas mais importantes do século XX em uma lista organizada pela revista Time.
Imigração e educação (1929–1941)
Annelies Marie Frank[n 2] nasceu no dia 12 de junho de 1929 em Frankfurt, Prússia, na República de Weimar, sendo a última filha de Otto Heinrich Frank (1889–1980) e Edith Holländer-Frank (1900–1945). Sua irmã mais velha era Margot (1926–1945). A família Frank eram asquenazitas liberais, ou seja, não seguiam todos os costumes e tradições do judaismo; desta forma, viviam em uma comunidade assimilada com outros cidadãos judeus e não judeus de diversas religiões. Edith e Otto eram pais dedicados, demonstravam interesse principal em atividades acadêmicas e possuíam em sua residência uma extensa biblioteca; além disso, costumavam incentivar suas filhas a lerem desde cedo. O patriarca da família era um veterano de guerra, tendo servido o Exército Imperial Alemão na Primeira Guerra Mundial; após sua atuação na Batalha de Cambrai, foi promovido a tenente. Após a guerra, Frank e seus irmãos assumiram a propriedade de um banco de negócios na cidade que anteriormente pertencia à seu pai, de onde tirava a maior parte da renda da família, mas o negócio entrou em declínio no início da década de 1930 como um resultado da Grande Depressão.
Antecedentes e esconderijo (1942)
No início de 1942, Anne lidou com a morte da sua avó, Rosa Holländer, e começou a frequentar uma instituição de ensino destinada apenas para judeus, passando a ser proibida de ter contato com crianças de outras etnias. Em seu aniversário de treze anos, em 12 de junho, foi presenteada por seus pais com um livro de autógrafos que havia demonstrado interesse anteriormente enquanto passava por uma vitrine; encadernado com um tecido xadrez em vermelho e branco, o material era composto por um pequeno cadeado em sua parte frontal. Anne decidiu que o usaria como diário, nomeando-o como "Kitty", escrevendo pela primeira vez em 20 de junho; embora suas primeiras anotações fossem relacionadas aos aspectos mundanos de sua vida, discutia também sobre mudanças no bairro onde residia, além de listar as diversas restrições impostas sobre a comunidade judaica pelo governo de ocupação nos Países Baixos. Além disso, esboçou em algumas passagens o sonho em tornar-se uma atriz, destacando que assistir filmes era um de seus passatempos favoritos; porém, os judeus foram proibidos de frequentarem as salas de cinema a partir de 8 de janeiro de 1941.
Relações e amadurecimento (1943–1944)
Ao passar do tempo no esconderijo, Anne aprimorou sua escrita e passou a examinar sua relação com membros da família, além de enfatizar as fortes diferenças de personalidades de cada um deles. Particularmente, ela se sentia mais próxima emocionalmente de seu pai, Otto Frank, que mais tarde avaliou: "Eu tive um melhor [relacionamento] com Anne do que com Margot, que era mais próxima de sua mãe. A razão para isso talvez seja porque ela raramente mostrava seus sentimentos e não precisava de tanto apoio por não sofrer de mudanças de humor como Anne". As irmãs Frank desenvolveram um relacionamento mais próximo do que havia existido entre elas antes do período de confinamento no Anexo Secreto; por outro lado, Anne costumava expressar ciúmes de sua irmã mais velha, principalmente quando membros do grupo criticavam sua falta de gentileza e tranquilidade, principalmente quando comparada às características da personalidade de Margot. Ao passo em que Anne amadurecia, as irmãs foram capazes de confiarem uma na outra; em 12 de janeiro de 1944, ela escreveu no diário que "Margot estava muito mais agradável" e que caminhava para se tornar uma "verdadeira amiga".
Na manhã de 4 de agosto de 1944, a localização do Anexo Secreto foi invadida por um grupo da polícia uniformizada alemã, liderado pelo SS-Oberscharführer Karl Silberbauer do serviço de inteligência Sicherheitsdienst. Desta forma, a família Frank, os van Pels e Fritz Pfeffer foram presos e levados para a sede da RSHA, onde foram interrogados e passaram a noite. No dia seguinte, foram transferidos para a casa de detenção Huis van Bewaring, uma prisão superlotada em Weteringschans. Em 7 de agosto, foram transportados para o campo de concentração de Westerbork onde, naquela época, já havia servido como destino para cerca de 100 mil judeus, principalmente neerlandeses e alemães. Depois de terem sido presos por viverem em um esconderijo, eles foram considerados criminosos e, como consequência, foram enviados para o quartel de punição para realizarem trabalho forçado. Victor Kugler e Johannes Kleiman foram detidos e encarceradas no campo penal em Amersfoort, considerados como inimigos da Alemanha Nazista. Embora Kleiman tenha sido libertado após sete semanas, Kugler foi transportado para diversos campos de trabalho até o final da guerra. Miep Gies e Bep Voskuijl foram interrogadas e ameaçadas pela policia de segurança, mas não foram presas. Ambas retornaram para o esconderijo, onde encontraram trechos do diário de Frank espalhados pelo chão; após recolherem os papéis, bem como algumas fotografias, elas decidiram que iriam devolver os pertences para Anne após o final da guerra. Em 7 de agosto, Gies tentou subornar Silberbauer para que realizasse a libertação do grupo, mas ele se recusou.
Em 3 de setembro de 1944, integrantes do Anexo Secreto fizeram parte do grupo que foram deportados para o que seria o último transporte do campo de concentração de Westerbork para o de Auschwitz, chegando após uma viagem de três dias; no mesmo trem, estava Bloeme Evers-Emden, natural de Amsterdã, que iniciou uma amizade com Anne e Margot Frank na instituição de ensino para judeus em 1941. Bloeme relembra ter visto com regularidade as irmãs e Edith Frank em Auschwitz, sendo entrevistada diversas vezes para relatar suas memórias sobre elas no campo de concentração, incluindo no documentário The Last Seven Months of Anne Frank (1988) por Willy Lindwer, bem como para o especial da BBC, Anne Frank Remembered (1995). Após o desembarque em Auschwitz, a Schutzstaffel forçou uma divisão entre homens, mulheres e crianças, com Otto Frank sendo separado do restante de sua família. Após uma avaliação inicial, os que foram considerados aptos para o trabalho foram admitidos, enquanto os inaptos para cumprirem as tarefas do campo foram imediatamente executados; em relatórios divulgados, dos 1.019 passageiros do trem, 549 — incluindo todas as crianças menores de quinze anos — foram enviados para as câmaras de gás. Anne, que havia completado quinze anos três meses antes, foi uma das pessoas mais jovens poupadas da morte que haviam chegado naquele transporte. Posteriormente, ela foi informada de que mais da metade dos passageiros haviam sido mortos nas câmaras de gás após o desembarque e nunca teve conhecimento de que todo o grupo do Anexo Secreto havia sido selecionado para executarem o trabalho forçado. Imediatamente, ela pensou que seu pai, Otto Frank — com mais de cinquenta anos e não particularmente robusto —, teria sido executado após a separação.
Publicação
Em julho de 1945, depois que a Cruz Vermelha confirmou a morte das irmãs Frank, Miep Gies entregou à Otto Frank o diário e um maço de notas soltas que ela havia recolhido na esperança de devolvê-los à Anne. Mais tarde, Otto comentou que não havia percebido que ela tivesse mantido um registro tão preciso e bem escrito durante o seu tempo em esconderijo; além disso, descreveu o processo de leitura como "doloroso", reconheceu os acontecimentos narrados no diário e lembrou que já havia ouvido alguns dos episódios mais divertidos lidos em voz alta por sua filha. Otto comentou que havia visto pela primeira vez o lado mais privado de Anne naquelas seções do diário que ela jamais discutiria com ninguém, observando: "Para mim foi uma revelação... Eu não tinha ideia da profundidade de seus pensamentos e sentimentos. Ela guardou todos esses sentimentos para si mesma". Movido pelo constante desejo de sua filha em tornar-se uma autora, ele começou a considerar a possibilidade de publicá-lo.
Recepção e impacto
Após sua disponibilização, o diário tem sido elogiado por profissionais e parte do público por seus méritos literários. Em uma análise sobre o estilo de escrita de Anne, o dramaturgo Meyer Levin prezou por sua capacidade de "sustentar a tensão de um romance bem construído". Além disso, Levin relembrou ter se impressionado pela qualidade de suas escritas ao colaborar diretamente com Otto Frank em uma dramatização do livro pouco depois de sua primeira edição vir à público. Em 2000, o poeta John Berryman descreveu o diário como "uma representação única, não apenas da adolescência, mas da conversão de uma criança para uma pessoa como aconteceu em um estilo preciso, seguro e com honestidade impressionante".
Contestações de autenticidade
No final da década de 1950, após o livro se tornar amplamente conhecido, diversas alegações contra a sua veracidade começaram a ser disseminadas, com as primeiras críticas sendo publicadas na Suécia e na Noruega. Em 1957, o autor Harald Nielsen utilizou a publicação oficial do partido neonazista Liga Nacional da Suécia, onde desenvolveu uma matéria para desacreditar que o diário havia sido escrito por Anne Frank. No ano seguinte, Simon Wiesenthal foi desafiado por um grupo de protestantes que duvidavam da existência da jovem e desejavam que ele provasse o contrário encontrando o homem responsável pela prisão da família Frank. Karl Silberbauer foi encontrado em 1963 e, durante uma entrevista, admitiu seu papel na prisão do grupo e identificou Anne Frank em uma fotografia como uma das pessoas capturadas; além disso, relembrou ter esvaziado e jogado uma pasta cheia de papéis no chão. Desta forma, sua declaração corroborou a versão dos eventos que haviam sido anteriormente apresentada por testemunhas como Miep Gies e Otto Frank.
Seções censuradas e controvérsias
Em 1995, foi publicado pela primeira vez uma versão integral do Diário de Anne Frank, onde veio à público seções do livro que haviam sido removidas por Otto Frank. Entre as novas passagens adicionadas ao trabalho, havia Anne Frank descrevendo sobre a exploração de seus órgãos genitais, sua perplexidade em relação ao sexo e o parto, bem como suas opiniões relacionadas à menstruação. Em uma nova edição da versão integral, publicada em 1998, foram incorporadas ao diário páginas anteriormente censuradas onde Frank expressava críticas a cerca do casamento de seus pais, opinando que não havia "amor entre eles", além de reafirmar o difícil relacionamento que possuía com a mãe, Edith Frank. Em 2018, mais duas novas páginas foram adicionadas à uma nova remessa do livro, nas quais Anne tentava explicar à Kitty[n 6] sobre o que era educação sexual e contava diversas piadas de cunho sexual.
Ao longo dos anos, Anne Frank tem sido reconhecida por historiadores e jornalistas como "um símbolo contra a intolerância" e uma das figuras mais discutidas da história contemporânea. Em 1999, foi eleita pela revista Time uma das 100 pessoas mais importantes do século XX, enquanto a revista Ladies Home Journal a considerou uma das mulheres mais importantes do período. Na consideração da Encyclopædia Britannica, Frank figura entre as mulheres pioneiras da história; de maneira semelhante, em reconhecimento aos seus esforços na luta pela igualdade racial e pelo direito da independência das mulheres, a Marie Claire a listou entre as mulheres que mudaram o mundo. Sua obra também foi reverenciada por seu impacto na humanidade; em 2019, a BBC destacou o Diário de Anne Frank (1947) entre os livros que mudaram o mundo, considerando-o como "um dos relatos históricos mais importantes do Holocausto", além de ser apontado como um dos livros mais famosos de todos os tempos por diversas publicações.


