Anita Peçanha
Ana Belisário Peçanha, mais conhecida como Anita Peçanha, foi a primeira-dama do país entre 1909 e 1910, durante a presidência de seu marido, Nilo Peçanha, o 7.º presidente do Brasil. Também acompanhou o marido durante períodos em que ele exerceu a presidência do estado do Rio de Janeiro, a Vice-presidência da República e o Ministério das Relações Exteriores.
Ana de Castro Belisário Soares de Sousa era filha do advogado João Belisário Soares de Sousa e de Anna Ribeiro de Castro e Sousa. Seu nome aparece nos registros arquivísticos sob diferentes formas: a Casa de Oswaldo Cruz adota “Ana Belisário Peçanha” como forma autorizada, “Ana de Castro Belisário Soares de Sousa” como forma paralela e “Anita Peçanha” como denominação alternativa. Nasceu em Campos dos Goytacazes, no norte da então província do Rio de Janeiro. As fontes divergem quanto ao dia exato de seu nascimento. O Museu da República registra 22 de março de 1873, enquanto o registro de autoridade da Fundação Oswaldo Cruz informa apenas o intervalo entre 1873 e 1960. Algumas publicações secundárias apresentam datas diferentes, razão pela qual o registro da instituição responsável pelo principal fundo documental da família é adotado com ressalva. A família Belisário Soares de Sousa estava relacionada aos círculos tradicionais da sociedade campista. Segundo Francisco José Ribeiro de Vasconcellos, João Belisário pertencia a uma família ligada à magistratura e a personagens da elite política e intelectual do Império, enquanto a família materna de Anita possuía vínculos com o visconde de Santa Rita.
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Anita conheceu Nilo Peçanha durante uma viagem de trem ao Rio de Janeiro, na qual estava acompanhada de seu pai. Nilo havia nascido em Campos dos Goytacazes em 2 de outubro de 1867, era filho de Sebastião de Sousa Peçanha e Joaquina Anália de Sá Freire e, depois de formar-se em Direito, participou dos movimentos republicano e abolicionista na região. O casamento foi realizado em 6 de dezembro de 1895, no Rio de Janeiro, então capital federal. Segundo o Instituto Histórico de Petrópolis, a cerimônia religiosa ocorreu na Igreja de São João Batista da Lagoa e foi celebrada pelo padre José Severino de Azevedo, conhecido como padre Pelinca. Anita tinha 22 anos e Nilo, 28. A união enfrentou forte oposição de integrantes da família de Anita. Seu pai já havia falecido, e sua mãe e suas irmãs não compareceram à cerimônia. A resistência é relacionada, pelas fontes, à origem econômica de Nilo, ao racismo dirigido contra sua ascendência e aparência e à sua atuação no movimento abolicionista, que se chocava com os valores e interesses de setores da elite agrária fluminense.
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Governo do estado do Rio de Janeiro
Nilo Peçanha assumiu a presidência do estado do Rio de Janeiro em 1903, permanecendo no cargo até 1906, quando tomou posse como vice-presidente da República. Durante esse período, Anita participou da vida social associada ao governo estadual e acompanhou o marido em recepções e compromissos públicos. Ela voltou à posição social de primeira-dama estadual entre 1914 e 1917, durante o segundo governo fluminense de Nilo. Documentos preservados na Coleção Nilo Peçanha, como cartões de visita, convites e registros de eventos dirigidos conjuntamente ao casal, mostram que Anita era incluída na representação social do governo. Sua participação, entretanto, não correspondia a um cargo público formal, pois as funções das esposas dos governantes não possuíam definição administrativa ou legal durante a Primeira República.
Vice-presidência e Presidência da República
Com a posse de Afonso Pena em 15 de novembro de 1906, Nilo Peçanha tornou-se vice-presidente da República. Após a morte do presidente, em 14 de junho de 1909, Nilo assumiu a Presidência e completou o mandato constitucional até 15 de novembro de 1910. Anita passou, assim, a ocupar a posição convencionalmente denominada primeira-dama do Brasil. Sua atuação esteve ligada principalmente às dimensões sociais e cerimoniais da Presidência, incluindo recepções, encontros com autoridades e compromissos diplomáticos. A documentação disponível não demonstra que tenha exercido cargo administrativo ou participado formalmente da formulação das políticas governamentais.
Permanência no Palácio Rio Negro
No verão de 1910, o casal presidencial permaneceu por aproximadamente cinquenta dias no Palácio Rio Negro, em Petrópolis. A viagem, inicialmente planejada para janeiro, foi adiada em razão de problemas de saúde de Anita e das recomendações médicas contrárias ao seu deslocamento durante o período de mau tempo. O casal chegou a Petrópolis em 20 de fevereiro. Durante a temporada, Anita participou de compromissos cerimoniais e recepções. Em 7 de março, o casal recebeu representantes do corpo diplomático. Em 2 de abril, foi realizada uma grande recepção no Palácio Rio Negro, para a qual, segundo a imprensa histórica consultada pelo Instituto Histórico de Petrópolis, foram distribuídos cerca de trezentos convites.
Anos posteriores à Presidência
Depois de deixar a Presidência, Nilo voltou ao Senado e, em 1914, assumiu novamente o governo do estado do Rio de Janeiro. Em 1917, deixou o governo fluminense para ocupar o Ministério das Relações Exteriores, função que exerceu até 1918. Fotografias conservadas pelo Museu da República documentam momentos públicos e privados do casal, incluindo viagens, recepções, atividades políticas e períodos de lazer. O catálogo do acervo também reúne imagens de Nilo e Anita em viagens ao exterior e durante a campanha presidencial da Reação Republicana.
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Em 1921, Nilo Peçanha tornou-se candidato à Presidência da República pela Reação Republicana, movimento de oposição à candidatura oficial de Artur Bernardes. A Reação reuniu dissidências políticas do Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Distrito Federal, apresentando o baiano José Joaquim Seabra como candidato a vice-presidente. O movimento defendia maior equilíbrio entre os estados da Federação, mudanças nos costumes políticos, ampliação da educação pública, diversificação da agricultura e medidas de enfrentamento da crise financeira. A campanha procurou mobilizar setores urbanos, lideranças regionais, militares, intelectuais e grupos descontentes com a sucessão presidencial conduzida pelas principais oligarquias da Primeira República. Anita acompanhou o marido em parte das viagens eleitorais. Fotografias preservadas pelo Museu da República mostram o casal a bordo do navio Íris, utilizado durante a campanha. Sua presença demonstra que sua participação pública não se limitou às recepções realizadas durante os mandatos oficiais de Nilo.
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Nilo Peçanha morreu no Rio de Janeiro em 31 de março de 1924. Após sua morte, Anita tornou-se uma das principais destinatárias das manifestações de pesar e das homenagens dirigidas ao ex-presidente. A Coleção Nilo Peçanha conserva cartas, cartões, bilhetes e telegramas enviados por autoridades, correligionários, instituições e admiradores. O arquivo conserva 220 cartas, cartões e bilhetes enviados a Anita entre 31 de março de 1924 e 2 de outubro de 1956, predominantemente com condolências e pêsames pela morte do marido. O acervo também reúne 941 telegramas enviados a Anita entre 1924 e 1952. As mensagens incluem condolências, manifestações de saudade e lembranças relacionadas aos aniversários de nascimento e morte de Nilo Peçanha. Entre os documentos preservados encontra-se ainda uma relação de alunos matriculados, em abril e maio de 1924, em uma instituição denominada Escola Dona Anita Peçanha. O inventário comprova a existência da homenagem, mas não apresenta informações suficientes sobre a localização, o funcionamento ou uma eventual participação de Anita na administração da escola.
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Anita Peçanha morreu no Rio de Janeiro em 9 de abril de 1960, aos 87 anos, considerando-se a data de nascimento de 22 de março de 1873 registrada pelo Museu da República. Sua morte ocorreu aproximadamente 36 anos depois da de Nilo Peçanha. Durante a viuvez, recebeu correspondências de antigos aliados e admiradores, participou de homenagens, promoveu doações bibliográficas e contribuiu para a transferência do arquivo político e familiar do marido a uma instituição pública.
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Grande parte das informações atualmente disponíveis sobre Anita encontra-se na Coleção Nilo Peçanha, custodiada pelo Museu da República. O conjunto compreende mais de 21 mil documentos textuais e centenas de documentos iconográficos, incluindo cerca de vinte mil correspondências, fotografias, telegramas, convites, diplomas, documentos administrativos, registros familiares, discursos e recortes de imprensa. A coleção possui 547 fotografias, principalmente relacionadas a inaugurações, visitas, viagens e eventos públicos de Nilo Peçanha. Entre elas encontram-se imagens de Anita ao lado do marido em momentos de lazer, viagens e atividades da campanha da Reação Republicana, além de registros das homenagens realizadas após a morte do ex-presidente. A doação efetuada por Anita em 1948 constituiu o principal núcleo formador da coleção. Sua atuação na preservação documental permitiu que cartas, telegramas, imagens e documentos políticos permanecessem disponíveis para pesquisas sobre eleições, relações partidárias, administração pública, política externa e sociabilidade durante a Primeira República.


