Ana Gabriela de Campos Sales
Ana Gabriela de Campos Sales foi uma brasileira pertencente a uma família da elite cafeeira de Campinas que, como esposa de Manuel Ferraz de Campos Sales, o 4.º presidente do Brasil, desempenhou o papel de primeira-dama do país entre 1898 e 1902. Anteriormente, durante a presidência de Campos Sales no estado de São Paulo, entre 1896 e 1897, ocupou a posição de primeira-dama paulista.
Ana Gabriela nasceu em Campinas, na então Província de São Paulo, em 24 de janeiro de 1850. Era filha do comendador José de Campos Sales e pertencia a uma família ligada à elite econômica e social campineira. Uma biografia de Campos Sales publicada por Lúcio de Mendonça em 1878 descreveu-a como integrante de uma das famílias mais importantes e relacionadas de Campinas. Em 8 de julho de 1865, aos quinze anos, casou-se com seu primo-irmão Manuel Ferraz de Campos Sales, então advogado formado pela Faculdade de Direito de São Paulo. O casal teve dez filhos e permaneceu casada até a morte de Campos Sales, em 1913. A relação de parentesco entre os cônjuges e o casamento realizado ainda na adolescência estavam inseridos nas práticas familiares das elites oitocentistas. Além dos vínculos afetivos, esses matrimônios contribuíam para a preservação de propriedades, relações econômicas e alianças sociais entre famílias da mesma região.
A maior parte da trajetória conhecida de Ana Gabriela esteve ligada à vida familiar e à carreira política do marido. Estudos sobre as primeiras-damas brasileiras apontam que ela apoiou Campos Sales durante sua participação na causa republicana e assumiu a organização da família enquanto ele desenvolvia suas atividades jurídicas e políticas. Parte dessa relação pode ser observada nas correspondências enviadas por Campos Sales à esposa. Em carta datada de 17 de novembro de 1889, poucos dias depois da Proclamação da República, ele relatou a Ana a recepção popular que havia encontrado e as manifestações em favor do novo regime. As cartas demonstram que ela integrava o círculo familiar ao qual o político comunicava acontecimentos de sua vida pública. A documentação disponível, contudo, não indica que Ana tenha exercido mandato, função administrativa ou atividade partidária formal. Sua participação conhecida permaneceu principalmente nos espaços familiar, doméstico e social.
Chegada ao Rio de Janeiro
Campos Sales foi eleito presidente da República em 1898. Na véspera de sua posse, Ana Gabriela e algumas de suas filhas acompanharam o presidente eleito em sua chegada ao Rio de Janeiro, então capital federal. O jornal O Paiz noticiou a recepção oferecida à família, a utilização de carruagens colocadas à sua disposição pela Presidência da República e a chegada de Ana e das filhas ao Hotel dos Estrangeiros, onde receberam visitantes. Em setembro daquele ano, o periódico em língua inglesa The Brazilian Bulletin publicou retratos do presidente eleito e de Ana Gabriella. A publicação apresentou-a como a mulher que ocuparia o Palácio do Catete na qualidade de “primeira-dama do país”, evidenciando o emprego social da expressão no final do século XIX.
Vida doméstica no Palácio do Catete
Durante o mandato presidencial, Ana Gabriela foi responsável pela organização da vida doméstica da família e da residência presidencial no Palácio do Catete. Essa atividade abrangia a supervisão dos empregados, das roupas, dos enxovais e da estrutura utilizada tanto no cotidiano da família quanto nos banquetes e recepções oficiais. Não foram encontradas evidências de que tenha dirigido instituições assistenciais, ocupado função pública ou desenvolvido um programa próprio ligado ao governo. Sua experiência corresponde ao caráter predominantemente privado e doméstico da atuação das primeiras-damas brasileiras daquele período.
Transição para o governo Rodrigues Alves
Próximo ao término do mandato de Campos Sales, Ana Gabriela escreveu a Catita Alves, filha mais velha do presidente eleito Rodrigues Alves. Como Rodrigues Alves era viúvo, Catita assumiria parte das funções sociais e domésticas habitualmente atribuídas à esposa do presidente. Na carta, Ana recomendou a permanência temporária do copeiro e da cozinheira que a haviam servido, ofereceu-se para indicar a lavadeira utilizada durante o mandato e explicou que o palácio possuía roupas de cama e de mesa destinadas ao uso diário e aos banquetes. Também relatou as dificuldades que enfrentara ao chegar à residência, quando encontrou empregados que considerava despreparados.
Campos Sales morreu em 28 de junho de 1913. Ana Gabriela permaneceu viúva durante os seis anos seguintes. Ela morreu na cidade de São Paulo, às duas horas da madrugada de 31 de julho de 1919, aos 69 anos. A notícia foi publicada no dia seguinte pelo jornal carioca O Imparcial, que a identificou como viúva do ex-presidente da República.
As representações de Ana Gabriela produzidas durante a presidência de Campos Sales seguiram os padrões destinados às mulheres das elites no final do século XIX. Em 1901, a revista Illustração Brasileira descreveu-a como uma mulher de virtudes e profundamente respeitada pela sociedade paulista. No mesmo período, publicações estrangeiras apresentaram-na como influência moral e doméstica sobre o marido. A escritora norte-americana Marie Robinson Wright reproduziu uma narrativa segundo a qual Ana teria encorajado Campos Sales a colocar os deveres para com o país acima dos interesses da família durante a mobilização republicana. A afirmação, entretanto, integra uma obra de caráter promocional sobre o Brasil e deve ser compreendida como parte da construção pública e idealizada de sua imagem, e não como prova isolada de um episódio histórico. Estudos contemporâneos destacam que pouco se conhece sobre a vida individual de Ana Gabriela para além do casamento e da família. Esse silêncio está relacionado tanto à estrutura patriarcal da sociedade em que viveu quanto a uma tradição historiográfica que privilegiou os atos públicos dos homens e raramente registrou o trabalho doméstico, relacional e social realizado pelas mulheres.


