Anhangá
Anhanga, Anhangá ou Anhá é uma entidade presente na mitologia tupi-guarani como parte da cosmovisão de diversos povos originários do Brasil e da literatura indianista.
Anhangá, comumente retratado como um cervídeo branco, de porte atroz e olhos vermelhos de fogo, reconhecido pelos tupis como o protetor da caça e da pesca, associado pelos colonizadores portugueses à figura do diabo para fins catequéticos. Os diversos topônimos brasileiros de nome Anhangabaú receberam esse nome de Anhanga, vindo de anhanga + obá(t) + *y: "água da face do diabo".
Na cultura tupinambá
Os tupinambás acreditavam que o Anhangá poderia assumir muitas formas diferentes. Apesar de ter considerado maior ameaça para os mortos, seria visto com frequência e mesmo os vivos podiam ter corpo e alma punidos. A mera lembrança dos sofrimentos impostos pelos anhangás bastava para atormentá-los. Os tupinambás afirmavam temer esse espírito maligno mais do que qualquer outra coisa. Esse espírito foi uma das maiores preocupações ao preparar os mortos para a viagem a Guajupiá. Ofereciam-se oferendas de comida e mantinham uma fogueira para aquecer o corpo. Comida era oferecida tanto para sustentar os mortos quanto para que o Anhangá consumisse a comida ao invés do morto. O fogo tinha como objetivo fornecer calor e proteção aos mortos, mantendo o Anhangá afastado. Os vivos também encorajaram os mortos, incentivando seus falecidos pais e avós, já em Guajupiá a não deixarem seus fogos se apagarem.
Na cultura mawé
Para os mawés, Anhangás são retratados como uns dos vários demônios seguidores de Yurupari (Jurupari). Essas criaturas são conhecidas e temidas por se transformar em diversas formas para enganar as pessoas, amaldiçoá-las, possuí-las, sequestrá-las, matá-las e comê-las. Anhangá não sabe nadar ou tem medo de entrar na água por medo do Sukuyu'wera, espírito protetor das águas, seu inimigo.
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Anhá ou Anhã (também grafado Añá ou Añag) representa os poderes destrutivos da natureza e é responsável por desencadear forças brutais e hostis contra a humanidade. Assim como seu equivalente tupi Anhanga, ele foi considerado como o Diabo no sincretismo religioso com o cristianismo. Mas, diferentemente da tradição tupi, na guarani Anhá é por vezes identificado com a entidade-jaguar chamada Xariã/Chariã ou Xivi (“Onça” na língua guarani) que matou e devorou Jaxi quando este e seu irmão Quaraí pregaram peças nele, atrapalhando sua pescaria (Jaxi foi depois ressuscitado pelo irmão, e sua morte e renascimento representam as fases da Lua e o eclipse lunar). Anhá/Xariã também matou um filho de Quaraí, e então este lutou com ele, e essa luta é representada pelo eclipse solar. Xariã também é conhecido como o Jaguar Azul (Jaguarovy) celeste, destinado a devorar o Sol e a Lua, levando o mundo ao fim dos tempos. Para os nhandevas (apapocuvas), é o guardião do paraíso de Yvy Marã Ey, dormindo sob a rede de Nhande Ru Vusu.
Anhanga é descrito como “gênio da floresta protetor da fauna e da flora na mitologia tupi”, que “[...] não devora nem mata. Vinga os animais vitimados pela insaciabilidade dos caçadores”. Há descrições de que assume a forma de um veado branco com olhos de fogo e é o protetor da caça nas florestas, protegendo os animais contra os caçadores, sobretudo fêmeas com filhotes. Quando a caça conseguia fugir, os indígenas diziam que Anhangá a havia protegido e ajudado a escapar. O Anhanga é um mito de confusão verbal. O Anhanga que sacudia de pavor a selvagem era o Anga, a alma errante, o fantasma, o espírito dos mortos. Apavorador. Não tinha corporificação. Era a coisa-má, o medo informe, convulso, prendendo os tímidos dentro das ocas ao calor do fogo, cercado pela noite escura dos trópicos. O Anhanga dos olhos de fogo e com o corpo de veado seria o nume protetor da espécie, convenção totêmica, superstição regional dos tupis, pois não se transmitiu aos outros indígenas e, passando para os mestiços, já perdera a função de padroeiro da caça de campo. [....] é de lógica pensar que o mito inicial, o ur-mythus, seria apenas Anga, a alma sem corpo, espalhando medo.
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Machado de Assis, em Americanas, alerta para o fato de que segue a prosódia oxítona por ser a de uso corrente e comum na poesia, mas que a verdadeira pronúncia do vocábulo seria a paroxítona. [...] A pronúncia original parecer ter sido a paroxítona [anhanga], mas anhangá começa a ocorrer desde o século XVII, sendo mais empregada na poesia.
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No missionarismo jesuíta
O missionário José de Anchieta, nos seus auto Tupi-Medieval dá o nome Anhangupiara, palavra criada a partir da aglutinação dos substantivos anhangá e jupiara, a um anjo, cujo significado na tradução latinizante do tupi anchietano seria inimigo dos anhangás. Outro jesuíta, António Vieira, descreveu “Añangá” no Sermão das Incontinências, como entidade dúplice cultuada pelos indígenas. O substantivo caça em imbundo é n’hanga e caçador é ri-nhanga. Sendo Anhanga um mito de caça, é natural que os negros caçadores o conhecessem no Brasil, assimilando-o aos vocábulos quase homófonos de seu idioma.
Na literatura moderna e missionarismo contemporâneo
Anhangá é presente nas obras indianistas do romanticista brasileiro Gonçalves Dias. Em "O Canto do Piaga" e "Deprecação" Anhangá é caracterizado como entidade cruel e impiedosa, aliado dos colonizadores. Em "Caramuru", o autor apresenta Anhangá ou Anhangás tomando papel de demônios, assim como apresenta Tupã com papel de criador, na criação de um mito colonialista paralelo ao mito de criação da doutrina católica. Igrejas neopentecostais com forte presença em comunidades mawés fazem a releitura do Anhangá como anúncio do mal e manifestação demoníaca, a ser combatido por orações e cantos.


