Angela Davis
Angela Yvonne Davis é uma professora, filósofa e ativista socialista estadunidense, que alcançou notoriedade mundial na década de 1970 como integrante do Partido Comunista dos Estados Unidos, do grupo Panteras Negras, por sua militância pelos direitos das mulheres e contra a discriminação social e racial nos Estados Unidos, por ser uma referência entre os marxistas e ser personagem de um dos mais polêmicos e famosos julgamentos criminais da recente história dos EUA.
Angela nasceu no estado do Alabama, um dos mais racistas do sul dos Estados Unidos, e desde cedo conviveu com humilhações de cunho racial em sua cidade. Leitora voraz quando criança, aos 14 anos participou de um intercâmbio colegial, que oferecia bolsas de estudo para estudantes negros sulistas em escolas integradas do norte do país, o que a levou a estudar no Greenwich Village, em Nova Iorque, onde travou conhecimento com o comunismo e o socialismo teórico marxista, sendo recrutada para uma organização comunista de jovens estudantes. Na década de 1960, Angela tornou-se militante do partido e participante ativa dos movimentos negros e feministas que sacudiam a sociedade norte-americana da época, primeiro como filiada da SNCC de Stokely Carmichael e depois de movimentos e organizações políticas como o Black Power e os Panteras Negras. Angela lecionou por 17 anos no Departamento de História da Consciência na prestigiada Universidade da Califórnia-Santa Cruz. Recebeu o título de professora emérita da Universidade da Califórnia e se aposentou em 2008. Após sua aposentadoria continuou sua rotina de palestras e cursos em diversas universidades e centros culturais por todo o mundo. Em 2019 passou a integrar o National Women’s Hall of Fame dos Estados Unidos.
Notoriedade e prisão
Em 18 de agosto de 1970, Angela Davis tornou-se a terceira mulher a integrar a Lista dos Dez Fugitivos Mais Procurados do FBI, ao ser acusada de conspiração, sequestro e homicídio, por causa de uma suposta ligação com uma tentativa de fuga do tribunal do Palácio de Justiça do Condado de Marin, em São Francisco. Durante o verão daquele ano, Angela estava envolvida nos esforços dos Panteras Negras para conquistar o apoio da sociedade a três militantes presos, George Jackson, Fleeta Drumgo e John Clutchette, conhecidos como os “Irmãos Soledad”, por terem sido enviados à Prisão de Soledad, em Monterey. No dia 7 de agosto, Jonathan Jackson, o irmão de 17 anos de George, em companhia de dois outros rapazes, irrompeu de armas na mão um julgamento num tribunal, na tentativa de ajudar a fuga do réu do caso, o amigo James McClain, acusado de ter esfaqueado um policial. Jonathan e seus amigos se levantaram do meio da assistência na sala do júri e renderam todos no recinto, conduzindo o juiz, o promotor e vários jurados para uma van estacionada do lado de fora. Ao entrar na van, Jackson gritou que queria os “Irmãos Soledad soltos até o meio dia e meia em troca da vida dos reféns”.
Celebridade e liberdade
Finalmente livre, Angela foi temporariamente para Cuba, seguindo os passos de seus amigos, os ativistas radicais Huey Newton e Stokely Carmichael. Sua recepção na ilha pelos negros cubanos num comício de massa foi tão entusiástica que ela mal pôde discursar. De acordo com Carlos Moore, um escritor bastante crítico das relações raciais na Cuba comunista, sua visita ao país causou grande impacto entre a população negra, num tempo em que expressões de identidade racial eram bem raras em Cuba. Suas credenciais revolucionárias permitiram às pessoas da ilha se identificarem com seus pensamentos em público, sem medo de serem apontados como contrarrevolucionários pelo governo cubano.
Posteridade
Angela Davis candidatou-se a vice-presidente dos Estados Unidos em 1980 e 1984 como companheira de chapa de Gus Hall, presidente do Partido Comunista Americano, tendo votação irrisória. Continuou sua carreira de ativista política e escreveu diversos livros, principalmente sobre as condições carcerárias no país. Não se considera uma reformista prisional, mas uma abolicionista. Em suas palestras, refere-se sempre ao sistema carcerário dos Estados Unidos como um complexo industrial de prisões. Davis advoga, como solução para o problema, a extinção do cumprimento de penas em presídios, apontando que a maioria dos presidiários do país são negros e latinos, e atribui essa constatação, à origem de classe e raça dos apenados.
O pensamento de Angela Davis é caracterizado pela interseccionalidade, articulando as categorias de raça, classe e gênero para compreender as estruturas de poder e opressão na sociedade capitalista contemporânea.
Abolicionismo prisional
Um dos pilares de sua obra é a crítica ao que denomina "complexo industrial-prisional". Davis argumenta que o sistema carcerário nos Estados Unidos e em outros países não funciona apenas como um mecanismo de controle de crime, mas como uma ferramenta de gestão social voltada para a marginalização de populações racializadas e empobrecidas. Ela defende a abolição das prisões, propondo que os recursos investidos no encarceramento sejam redirecionados para serviços públicos de educação, saúde, moradia e programas de justiça restaurativa.
Interseccionalidade e Feminismo Antirracista
Davis estabeleceu um marco fundamental ao criticar a perspectiva de gênero do feminismo hegemônico estadunidense, que, em meados do século XX, tendia a ignorar a realidade específica das mulheres negras e operárias. Em sua análise, ela demonstra que a luta pelo direito ao voto e por melhores condições de trabalho esteve sempre atravessada por tensões de raça e classe. Para Davis, a libertação das mulheres é impossível sem a desmantelação simultânea do racismo e do sistema capitalista.
Crítica ao Capitalismo
Como militante e teórica marxista, Davis entende que a exploração econômica é o motor que mantém a desigualdade social. Ela defende que o combate ao racismo não pode ser dissociado de uma crítica ao sistema de acumulação de capital. A autora sustenta que, enquanto o lucro for a lógica central da organização social, as disparidades raciais serão perpetuadas por instituições que visam preservar a ordem estabelecida.
Justiça Restaurativa e Cura
Nos últimos anos, sua agenda política tem se alinhado aos esforços por formas alternativas de resolução de conflitos, focadas na reparação e na cura comunitária em vez do modelo punitivo estatal. Ao lado de figuras como sua irmã, Fania Davis, Angela promove a ideia de que a transformação social requer um processo de "cura coletiva" que enfrente os traumas históricos herdados da escravidão e da violência sistêmica.
Documentários
A trajetória de Ângela Davis foi registrada em Angela Davis: Portrait of a Revolutionary (1972), dirigido por Yolande du Luart, estudante da escola de cinema da UCLA. O documentário acompanha Davis entre 1969 e 1970, registrando o período de sua demissão da UCLA e as tensões políticas que precederam os eventos que levaram ao seu encarceramento. Posteriormente, o documentário Libertem Angela Davis (Free Angela and All Political Prisoners, 2012), dirigido por Shola Lynch, é uma obra central na recuperação histórica da trajetória da ativista. O filme utiliza imagens de arquivo inéditas e entrevistas com a própria Angela Davis para narrar o período de sua militância no final da década de 1960, sua prisão sob acusação de conspiração e a subsequente campanha internacional pela sua libertação.
Imagem: Abode of Chaos · BY · Openverse
1950: Frédéric Joliot-Curie - Soong Ching-ling - Hewlett Johnson - Eugénie Cotton - Arthur Moulton - Pak Chong Ae - Heriberto Jara Corona • 1951: Guo Moruo - Monica Felton - Oyama Ikuo - Pietro Nenni - Anna Seghers - Jorge Amado • 1952: Johannes Becher - Elisa Branco - Ilya Ehrenburg - James Gareth Endicott - Yves Farge - Saifuddin Kitchlew - Paul Robeson • 1953: Andrea Andreen - John Desmond Bernal - Isabelle Blume - Howard Fast - Andrew Gaggiero - Leon Kruczkowski - Pablo Neruda - Nina Vasilevna Popova - Sahib-singh Sokhey - Pierre Cot • 1954: Alain Le Léap - Baldomero Sanincano - Prijono - Bertolt Brecht - André Bonnard - Thakin Kodaw Hmaing - Felix Iversen - Nicolás Guillén - Denis Nowell Pritt • 1955: Lázaro Cárdenas - Mohammed Al-Ashmar - Joseph Wirth - Ton Duc Thang - Akiko Seki - Ragnar Forbeck • 1957: Louis Aragon - Emmanuel d'Astier - Heinrich Brandweiner - Danilo Dolci - Maria Rosa Oliver - Chandrasekhara Venkata Raman - Udakandawala Saranankara Thero - Nikolay Semenovich Tikhonov • 1958: Josef Lukl Hromádka - Artur Lundkvist - Louis Saillant - Kaoru Yasui - Arnold Zweig • 1959: Otto Buchwitz - W. E. B. Du Bois - Nikita Khrushchov - Ivor Montagu - Kostas Varnalis


