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Ana da Dinamarca

Ana da Dinamarca foi a esposa do rei Jaime VI e I e rainha consorte do Reino da Escócia de 1589 até sua morte, bem como da Inglaterra e do Reino da Irlanda a partir de 1603.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 11/07/2026
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Início de vida

Ana nasceu em 12 de dezembro de 1574 no Castelo de Skanderborg, Dinamarca. Seu nascimento foi um grande golpe para seu pai, o rei Frederico II, que desesperadamente esperava por um filho. Sua mãe Sofia de Mecklemburgo-Güstrow tinha apenas dezessete anos; três anos depois ela deu à luz um menino, o futuro rei Cristiano IV da Dinamarca. Ana foi enviada para ser criada em Güstrow por seus avós maternos Isabel e Ulrico III, Duque de Mecklemburgo-Güstrow, junto com sua irmã mais velha Isabel. Ao contrário da itinerante corte dinamarquesa, onde Frederico era notório por seus banquetes grandiosos, bebedeiras e comportamento inadequado (incluindo infidelidade conjugal), Güstrow deu a Ana uma vida frugal e estável durante seus primeiros anos de vida. Cristiano também foi enviado a Güstrow em 1579, depois do Riksråd (conselho privado dinamarquês) ter conseguido pedir sua retirada da Dinamarca, com Ana e Isabel eventualmente retornando com ele.

Noivado

A posição constitucional de Sofia tornou-se difícil em 1588 com a morte de Frederico,[nota 3] e ela ficou envolvida em uma luta por poder contra o Riksråd pelo controle de Cristiano. Como casamenteira Sofia mostrou-se mais diligente que seu marido e, superando pontos de atrito como a quantia do dote e a situação de Órcades,[nota 4] conseguiu selar um acordo em julho de 1589.[nota 5] Ana aparentemente ficou animada com a união. O espião inglês Tomás Fowler relatou em 28 de julho de 1589 que ela estava "tão apaixonada pela Majestade do Rei como se fosse a morte para ter isso quebrado, tendo feito várias e boas provas para mostrar a afeição que sua Majestade é apto em nenhuma maneira de retribuir". A insinuação de Fowler que Jaime preferia homens[nota 6] foi escondida da jovem Ana, que bordou camisas para seu noivo enquanto trezentos costureiros trabalhavam em seu vestido de casamento.

Casamento

Ana partiu para a Escócia dez dias depois, porém sua frota foi afligida por vários infortúnios: em duas ocasiões em Helsingør os canhões navais dispararam e feriram ou mataram pessoas próximas e tripulantes, tempestades atrapalharam a viagem, dois navios que a acompanhavam colidiram, seu navio Gideon teve vários vazamentos e foi obrigado a parar na Noruega para realizar reparados, porém começou a vazar novamente mais tarde e as tripulações começaram a ficar inseguras quanto a viagem. Eles foram forçados a voltar para a costa da Noruega, de onde ela viajou para Oslo por terra acompanhada por Keith e outros embaixadores escoceses e dinamarqueses.

Coroação

Ana é coroada no dia 17 de Maio de 1590 na Abadia de Holyrood na primeira coroação protestante da história escocesa. Durante a cerimónia de sete horas, o seu vestido foi aberto pela condessa de Mar para que o padre Robert Bruce vertesse "uma boa quantidade de óleo" em "partes do seu seio e braço", tornando-a assim rainha. (os padres da igreja escocesa mostram-se completamente contra este elemento da cerimónia, considerando-o um ritual pagão e judeu, mas Jaime insistia que este tinha a sua origem no Velho Testamento.) O rei entregou a coroa ao chanceler Maitland que a colocou na cabeça de Ana. Depois Ana pronunciou um juramento onde prometia defender a verdadeira religião, a veneração a Deus e "opor-se e desprezar todas as superstições papistas e qualquer cerimónia ou ritual contrários à palavra de Deus."

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Relação com Jaime

Segundo todos os relatos da época, Jaime teria, a principio, ficado enfeitiçado pela sua noiva, mas esta paixão evapora-se rapidamente e o casal passa a discutir frequentemente apesar de nos primeiros anos de casamento Jaime ter tratado Ana com paciência e afecto. Entre 1593 e 1595 Jaime tem uma relação com Anne Murray, depois Lady Glamis, a quem se dirigiu em verso como "minha amante e meu amor"; e a própria rainha Ana passa também a ser alvo de boatos escandalosos. Em Basilikon Doron, escrito pelo rei entre 1597 e 1598, Jaime descreve o casamento como "o maior tormento ou miséria terrena que pode acontecer a um homem." Desde o primeiro momento do casamento que Ana é colocada sob pressão para dar um herdeiro masculino a Jaime e à Escócia, mas os anos de 1591 e 1592 passam sem sinais de uma gravidez, levando a que as calúnias sobre o gosto de Jaime por companhia masculina e trazendo sussurros contra Ana "pois ela se demonstra ainda sem criança." Assim, há um grande alívio quando, a 19 de Fevereiro de 1594, Ana dá à luz o seu primeiro filho, o príncipe Henrique Frederico.

Custódia do príncipe Henrique

Ana é rapidamente informada de que não terá qualquer influência na educação do seu filho. Jaime escolhe a sua antiga ama, Helen Little, como chefe do berçário e Henrique é colocado no mesmo berço de carvalho que tinha pertencido ao seu pai. Para angústia de Ana, Jaime insiste em enviar o filho para o Castelo de Stirling sob os cuidados do conde de Mar para cumprir a tradição escocesa. Em finais de 1594, Ana começa uma campanha furiosa pela custódia de Henrique, recrutando uma facção de apoiantes da sua causa, incluindo o chanceler John Maitland de Thirlestane. Temendo até onde Ana poderia ir, Jaime exigiu que Mar prometesse por escrito que nunca entregaria Henrique a ninguém excepto se tivesse ordens para o fazer vindas da própria boca do rei, "porque na segurança do meu filho está a minha segurança", e nunca entregar Henrique à rainha, nem no caso da sua própria morte. Ana exige que o assunto seja levado ao Conselho, mas Jaime recusa-se a fazê-lo. Depois de várias cenas publicas em que Jaime a reduz a lágrimas por causa deste assunto, Ana fica tão perturbada que em Julho de 1595 sobre um aborto espontâneo. A partir desse momento, Ana abandona a sua campanha, mas acredita-se que os danos no casamento foram incuráveis. Em Agosto de 1595, John Colville escreve: "Não há nada mais senão ódio escondido com dissimulação astuta entre o rei e a rainha, cada um tentando com desrespeito superar o outro."

Zangas matrimoniais

Os observadores da época notam vários incidentes de discórdia matrimonial entre Ana e Jaime. A chamada Conspiração de Gowrie em 1600, na qual o jovem conde de Gowrie, John Ruthven, e o seu irmão Alexander Ruthven são mortos por criados de Jaime por supostamente terem atacado o rei, levando à expulsão das suas irmãs Beatrix e Barbara Ruthven como damas-de-companhia de Ana que tinha delas "o maior crédito". A rainha, grávida de cinco meses, recusa-se a sair da cama a não ser que as suas damas sejam chamadas de volta e passou também dois dias sem comer. Quando Jaime a tenta forçar, a rainha avisa-o para ter cuidado com a forma como a trata já que ela não é o conde de Gowrie. Jaime acalma-a temporariamente, pagando a um famoso acrobata para a entreter, mas ela nunca desiste e o seu apoio incansável pelos Ruthvens nos três anos seguinte é levado suficientemente a sério pelo governo para ser visto como um problema de segurança. Em 1602, depois de se descobrir que Ana tinha feito Beatrix Ruthven passar clandestinamente para Holyrood, Jaime examina minuciosamente a casa; em 1603 Jaime cede finalmente à campanha de Ana e providencia Beatrix Ruthven com uma pensão de 200 libras por ano.

Vidas separadas

Em Londres, Ana adopta um estilo de vida cosmopolita enquanto Jaime prefere refugiar-se da capital no seu chalé de caça em Royston. O capelão de Ana, Godfrey Goodman, resume mais tarde a relação real: “O próprio rei era um homem muito casto e havia pouco na rainha que o tornasse dedicado a ela; contudo amavam-se como marido e mulher conseguiam, quando não viviam juntos.” Ana muda-se para o Palácio de Greenwich e depois para Somerset House que rebaptiza de Casa da Dinamarca. Depois de 1607, Ana e Jaime raramente vivem juntos, numa altura em que a rainha tinha já tido sete crianças e sofrido pelo menos três abortos espontâneos. Após a curta vida da sua última bebé, Sofia, em 1607, Ana decide que não quer ter mais filhos, algo que pode ter aumentado ainda mais a distância entre o casal.

Reacção aos favoritos

Apesar de Jaime sempre ter escolhido favoritos masculinos entre os seus cortesãos, nesta altura começa a encorajá-los a desempenhar um papel no governo. Ana reage de forma muito diferente aos dois mais poderosos que dominaram a segunda metade do reinado inglês, Robert Carr, conde de Somerset e George Villiers, o futuro duque de Buckingham. Odiava Carr, mas encorajou a subida ao poder de Villiers, que Jaime viria a nomear duque no quarto da rainha, e cria uma amizade com ele, chamando-lhe o seu “cão”. Mesmo assim, Ana sente-se cada vez mais ignorada após a subida ao poder de Buckingham e torna-se numa figura cada vez mais solitária perto do final da sua vida.

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Religião

Outra fonte de discórdia entre Ana e Jaime é a questão da religião; por exemplo, Ana absteve-se da comunhão anglicana durante a sua coroação. A rainha tinha sido criada como luterana, mas pode ter-se convertido discretamente ao catolicismo em alguma altura, um cenário político embaraçoso que alarma ministros da igreja protestante escocesa e levanta suspeitas na Inglaterra anglicana. A rainha Isabel I também se preocupa com esta possibilidade e envia várias mensagens a Ana, avisando-a para que não desse ouvidos a conselheiros papistas e pedindo nomes de qualquer pessoa que a tentasse converter; Ana responde que não há necessidade de dar nomes já que todos os esforços nesse sentido tinham falhado. Ana chega a ser alvo de críticas por parte da igreja protestante escocesa por manter Henrietta Gordon, esposa do católico exilado George Gordon, marquês de Huntly, como confidente. após o regresso de Huntley em 1596, o padre de St. Andrews David Black apelida Ana de ateísta e afirma durante um sermão que "a rainha da Escócia era uma mulher por quem, em nome da moda, o clérigo pode ter rezado, mas de quem não se poderia esperar nenhum bem."

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Corte e política

Na Escócia, Ana explora divisões na corte para seu beneficio, particularmente apoiando inimigos do conde de Mar. Como resultado, Jaime não lhe conta segredos de estado. Henry Howard, um homem activo na diplomacia mais secreta relacionada com a sucessão inglesa, relembrava frequentemente Jaime que apesar de Ana possuir todas as virtudes, Eva tinha sido corrompida pela serpente. Na prática, Ana interessava-se pouco pela política mais importante a não ser que esta dissesse respeito aos seus filhos ou amigos. Em Inglaterra Ana vira-se largamente da política para as actividades artísticas. Apesar de participar completamente na vida da corte de Jaime e de manter a sua própria corte, onde recebia frequentemente aqueles que não eram aceites pelo marido, raramente escolhia lados na política contra ele. Quaisquer que fossem as dificuldades que tinham em privado, a rainha provou ser uma boa possessão para Jaime em Inglaterra, levando uma conduta discreta e graciosa em público. Ana teve um papel crucial, por exemplo, em convencer visitantes e embaixadores estrangeiros do prestígio da dinastia Stuart e das suas ligações dinamarquesas.

Reputação

Ana é tradicionalmente vista pelos historiadores, que enfatizam a sua trivialidade e extravagância, com desdém. Juntamente com Jaime, há uma tendência por parte da tradição histórica para lhe dar pouca importância, tradição essa que começa com os historiadores anti-Stuart em meados do século XVII, que viam no comodismo e vaidade da corte jacobina as origens da Guerra Civil inglesa. O historiador David Harris Wilson, nos seus instintos liberais, dá o seguinte veredicto condenatório na sua biografia de Jaime de 1956: "Ana tinha pouca influência sobre o seu marido. Não conseguia partilhar dos seus interesses intelectuais e confirmava a adversão ridícula com a qual Jaime via as mulheres. Valha-nos Deus! O rei casou-se com uma esposa estúpida.” A biógrafa do século XIX, Agnes Strickland condena as acções de Ana para ganhar a custódia do príncipe Henrique: “O carácter de Ana da Dinamarca deve ter sido muito baixo aos olhos de todos, tanto como mulher como rainha por ter (…) preferido ceder o mero instinto da maternidade com o risco de envolver o marido, o filho e o seu reino no conflito e miséria de um bem-estar pouco natural."

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Mecenas das artes

Ana partilha com Jaime o defeito da extravagância, apesar de ter levado vários anos a gastar o seu vasto dote. Adorava danças e concursos de beleza, actividades geralmente condenadas pela igreja presbiteriana escocesa, mas que tinham muito sucesso na Londres jacobina, onde a rainha cria um clima cultural "rico e hospitaleiro" na corte real, torna-se uma frequentadora assídua do teatro e organiza festas de máscaras prodigiosas. Sir Walter Cope, quando lhe é pedido por Robert Cecil para escolher uma peça para a rainha durante a visita do duque Ulrich de Holstein, escreve, "Burbage esteve aqui e diz que não existe nenhuma peça recente que a rainha não tenha visto, mas renovaram uma antiga chamada "Love's Labour's Lost" que, diz ele, pela sua perspicácia e júbilo, a agradaram tremendamente.” Os bailes de mascaras de Ana, marcados por uma grande escala de representações dramáticas e espectáculo, são muito frequentados por embaixadores e dignitários estrangeiros, servindo como uma demonstração poderosa da importância da coroa inglesa na Europa. Zorzi Giustinian, embaixador veneziano, escreve no Natal de 1604 sobre um baile de máscaras que “na opinião de todos, não existe outra corte que tenha mostrado tanta pompa e riqueza.”

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Morte

Em finais de 1617, os períodos de doença de Ana tornam-se mais frequentes e debilitantes; o escritor de cartas John Chamberlain relata que “a rainha ainda continua mal disposta e apesar de colocar todas as queixas na gota, a maioria dos médicos teme que a doença ou estado se esteja a espalhar por todo o seu corpo.” Em Janeiro de 1619, o médico real Sir Theodore de Mayerne aconselha Ana a serrar madeira para melhorar a sua circulação sanguínea, mas estas actividades pioram ainda mais o seu estado de saúde. Jaime visita Ana apenas três vezes durante a sua doença final, apesar de o príncipe Carlos dormir frequentemente no quarto adjunto ao da rainha em Hampton Court e estar a seu lado durante as suas horas finais, quando a mãe tinha já perdido a visão. Também com ela até ao fim esteve a sua criada, Anna Roos, que a tinha acompanhado da Dinamarca em 1590. A rainha Ana morre aos quarenta e quatro anos de idade, no dia 2 de Março de 1619 de um edema grave.

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