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Raça (categorização humana)

Raça é uma categorização de humanos baseada em características físicas (fenotípicas) e/ou socioculturais compartilhadas por grupos geralmente vistos como distintos dentro de uma determinada sociedade. O termo passou a ser de uso comum durante o século XVI, quando era utilizado para se referir a grupos de vários tipos, incluindo aqueles caracterizados por relações estreitas de parentesco. No século XVII, o termo começou a se referir a qualidades físicas e, mais tarde, a afiliações nacionais. A ciência moderna considera que o conceito de "raças humanas" é uma construção social, uma identidade atribuída com base em regras estabelecidas pela sociedade. Embora parcialmente baseada em semelhanças físicas dentro dos grupos, o termo "raça" não tem um significado físico ou biológico inerente na espécie humana. O conceito de "raça" é fundamental para o racismo, a crença de que os humanos podem ser divididos com base na superioridade de uma raça sobre outra.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 06/07/2026
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Definição

Alguns estudiosos argumentam que embora "raça" seja um conceito taxonômico válido em outras espécies, não pode ser aplicada a humanos. Muitos cientistas têm argumentado que definições de raça são imprecisas, arbitrárias, oriundas do costume, possuem muitas exceções, têm muitas gradações e que o número de raças descritas varia de acordo com a cultura que está fazendo as diferenciações raciais; assim, rejeitaram a noção de que qualquer definição de raça pertinente a humanos possa ter rigor taxonômico e validade. Hoje em dia, a maioria dos cientistas estudam as variações genotípicas e fenotípicas humanas usando conceitos tais como "população" e "gradação clinal". Muitos antropólogos debatem se enquanto os aspectos nos quais as caracterizações raciais são feitas podem ser baseados em fatores genéticos, a ideia de raça em si, e a divisão real de pessoas em grupos de características hereditárias selecionadas, seriam construções sociais.

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História das classificações raciais

Os grupos de humanos sempre se identificaram como distintos dos grupos vizinhos, mas tais diferenças nem sempre foram entendidas como naturais, imutáveis e globais. Desta forma, a ideia de raça tal como a entendemos hoje surgiu durante o processo histórico de exploração e conquista que colocou os europeus em contato com grupos de diferentes continentes, e da ideologia da classificação e tipologia encontrada nas ciências naturais. O termo raça foi frequentemente usado em um sentido taxonômico biológico geral, a partir do século XIX, para denotar populações humanas geneticamente diferenciadas definidas pelo fenótipo. O conceito moderno de raça surgiu como produto dos impérios coloniais das potências europeias dos séculos XVI a XVIII, que identificavam as raças pela cor da pele e por diferenças físicas. A autora Rebecca F. Kennedy argumenta que os gregos e romanos antigos teriam achado tais conceitos confusos em relação aos seus próprios sistemas de classificação de pessoas. De acordo com Bancel et al., o momento epistemológico em que o conceito moderno de raça foi inventado e racionalizado situa-se entre 1730 e 1790.

Colonialismo

Smedley e Marks argumentam o conceito europeu de "raças humanas", juntamente com muitas das ideias agora associadas ao termo, surgiu na época da Revolução Científica, que introduziu e privilegiou o estudo das espécies naturais, e na era do imperialismo europeu e da colonização que estabeleceu relações políticas entre europeus e povos com tradições culturais e políticas distintas. À medida que os europeus encontravam pessoas de diferentes partes do mundo, especulavam sobre as diferenças físicas, sociais e culturais entre os vários grupos humanos. A ascensão do comércio de escravos no Atlântico criou um incentivo adicional para categorizar grupos humanos, a fim de justificar a subordinação dos escravos africanos.

Modelos taxonômicos iniciais

A primeira classificação pós-greco-romana de "raças humanas" que se tem registro é a obra Nouvelle division de la terre par les différents espèces ou races qui l'habitent ("Nova divisão da Terra pelas diferentes espécies ou raças que a habitam") de François Bernier, publicada em 1684. No século XVIII, as diferenças entre os grupos populacionais humanos tornaram-se um foco de investigação científica. No entanto, a classificação científica da variação fenotípica foi frequentemente associada a ideias racistas sobre predisposições inatas de diferentes grupos, atribuindo sempre as características mais desejáveis à raça branca europeia e organizando as outras raças ao longo de um continuum de atributos progressivamente indesejáveis. A classificação de 1735 de Carl Linnaeus, inventor da taxonomia zoológica, dividiu a espécie humana Homo sapiens em variedades continentais, como europaeus, asiaticus, americanus e afer, cada uma associada a um humor diferente: sanguíneo, melancólico, colérico e fleumático, respectivamente. O Homo sapiens europaeus era descrito como ativo, perspicaz e aventureiro, enquanto o Homo sapiens afer era considerado astuto, preguiçoso e descuidado.

Poligenismo vs monogenismo

Nas últimas duas décadas do século XVIII, a teoria do poligenismo, a crença de que diferentes raças evoluíram separadamente em cada continente e não compartilharam nenhum ancestral comum, era defendida na Inglaterra pelo historiador Edward Long e pelo anatomista Charles White, na Alemanha pelos etnógrafos Christoph Meiners e Georg Forster, na França por Julien-Joseph Virey e nos Estados Unidos por Samuel George Morton, Josiah Nott e Louis Agassiz. O poligenismo foi popular e mais difundido no século XIX, culminando com a fundação da Sociedade Antropológica de Londres (1863), que, durante o período da Guerra Civil Americana, rompeu com a Sociedade Etnológica de Londres e sua postura monogênica por conta da chamada "questão negra": uma visão racista substancial por parte da primeira e uma visão mais liberal sobre raça por parte do última.

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Ciência moderna

Modelos de evolução humana

Atualmente, todos os humanos são classificados como pertencentes à espécie Homo sapiens. No entanto, esta não é a primeira espécie de hominídeos: a primeira espécie do gênero Homo, o Homo habilis, evoluiu na África Oriental há pelo menos 2 milhões de anos e membros desta espécie povoaram diferentes partes da África num tempo relativamente curto. O Homo erectus evoluiu há mais de 1,8 milhão de anos e, há 1,5 milhão de anos, já havia se espalhado pela Europa e pela Ásia. Praticamente todos os antropólogos físicos concordam que o Homo sapiens arcaico (um grupo que inclui as possíveis espécies H. heidelbergensis, H. rhodesiensis e H. neanderthalensis) evoluiu a partir do H. erectus africano (sensu lato) ou do H. ergaster. Os antropólogos apoiam a ideia de que os humanos anatomicamente modernos (Homo sapiens) evoluíram no Norte ou no Leste da África a partir de uma espécie humana arcaica como o H. heidelbergensis e depois migraram para fora da África, misturando-se e substituindo as populações de H. heidelbergensis e H. neanderthalensis em toda a Europa e Ásia e populações de H. rhodesiensis na África Subsaariana (uma combinação dos modelos da origem única e multirregional).

Classificação biológica

No início do século XX, muitos antropólogos ensinavam que o conceito de raça era um fenômeno inteiramente biológico e fundamental para o comportamento e a identidade de uma pessoa, uma posição comumente chamada de essencialismo racial. Isto, juntamente com a crença de que grupos linguísticos, culturais e sociais existiam fundamentalmente de acordo com linhas raciais, formaram a base do que atualmente é chamado de racismo científico. Após o programa de eugenia nazista durante a Segunda Guerra Mundial, juntamente com a ascensão dos movimentos anticoloniais no pós-guerra, o essencialismo racial perdeu popularidade. Novos estudos sobre a cultura e o incipiente campo da genética populacional minaram a posição científica do essencialismo racial, levando os antropólogos raciais a rever as suas conclusões sobre as fontes da variação fenotípica. Um número significativo de antropólogos e biólogos modernos ocidentais passou a ver o conceito de "raças humanas" como uma designação genética ou biológica inválida.

Construções sociais

À medida que os antropólogos e outros cientistas evolucionistas se afastaram da linguagem da raça para o termo população para falar sobre diferenças genéticas, os historiadores, os antropólogos culturais e outros cientistas sociais reconceituaram o termo "raça" como uma categoria ou identidade cultural, ou seja, uma entre muitas maneiras possíveis pelas quais uma sociedade escolhe dividir seus membros em categorias. Craig Venter e Francis Collins, dos Institutos Nacionais da Saúde dos Estados Unidos, anunciaram conjuntamente o mapeamento do genoma humano em 2000. Ao examinar os dados do mapeamento do genoma, Venter percebeu que embora a variação genética dentro da espécie humana seja da ordem de 1–3% (em vez do 1% anteriormente assumido), os tipos de variações não suportam a noção de raças geneticamente definidas. Venter disse: "Raça é um conceito social. Não é científico. Não há linhas claras (que se destacariam), se pudéssemos comparar todos os genomas sequenciados de todas as pessoas do planeta. ... Quando tentamos aplicar a ciência para tentar resolver essas diferenças sociais, tudo desmorona".

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Disciplinas acadêmicas

Antropologia

O conceito de classificação racial na antropologia física perdeu credibilidade por volta da década de 1960 e agora é considerado insustentável. Uma declaração de 2019 da Associação Americana de Antropólogos Físicos declara: O termo raça não fornece uma representação precisa da variação biológica humana. Não era preciso no passado e permanece impreciso quando se refere às populações humanas contemporâneas. Os seres humanos não estão divididos biologicamente em tipos continentais ou grupos genéticos raciais distintos. Em vez disso, o conceito ocidental de raça deve ser entendido como um sistema de classificação que emergiu em apoio ao colonialismo, à opressão e à discriminação europeias.

Biologia, anatomia e medicina

Na mesma pesquisa de 1985 (Lieberman et al. 1992), 16% dos biólogos pesquisados e 36% dos psicólogos do desenvolvimento pesquisados discordaram da proposição: “Existem raças biológicas na espécie Homo sapiens”. Os autores do estudo também examinaram 77 livros universitários de biologia e 69 de antropologia física publicados entre 1932 e 1989. Até os anos 1970, os textos de antropologia física argumentavam que raças biológicas humanas existiam, mas começaram pararam de afirmar isso desde então. Em contraste, os livros didáticos de biologia não sofreram tal reversão, mas muitos abandonaram completamente o debate sobre raça. Os autores atribuíram isso às implicações políticas das classificações raciais e às discussões em curso na biologia sobre a validade da ideia de "subespécie". Os autores concluíram: "O conceito de raça, mascarando a esmagadora semelhança genética de todos os povos e os padrões de variação em mosaico que não correspondem às divisões raciais, não é apenas socialmente disfuncional, mas também biologicamente indefensável (pp. 5 18-5 19)." (Lieberman et al. 1992, pp. 316–17)

Sociologia

Lester Frank Ward (1841–1913), considerado um dos fundadores da sociologia estadunidense, rejeitou noções de que existiam diferenças fundamentais que distinguiam uma raça de outra, embora reconhecesse que as condições sociais diferiam dramaticamente por raça. Na virada do século XX, os sociólogos viam o conceito de raça de uma forma que foi moldada pelo racismo científico do século XIX e início do século XX. Muitos sociólogos se concentraram nos afro-americanos e alegaram que eles eram inferiores aos americanos brancos. A socióloga branca Charlotte Perkins Gilman (1860–1935), por exemplo, usou argumentos biológicos para reivindicar a inferioridade dos afro-americanos. O sociólogo americano Charles H. Cooley (1864–1929) teorizou que as diferenças entre as raças eram "naturais" e que as diferenças biológicas resultam em diferenças nas habilidades intelectuais. Edward Alsworth Ross (1866–1951), eugenista e também uma figura importante da sociologia estadunidense, acreditava que os brancos eram a raça superior e que havia diferenças essenciais de "temperamento" entre as raças. Em 1910, o Journal publicou um artigo de Ulysses G. Weatherly (1865–1940) que pedia a supremacia branca e a segregação racial para proteger a pureza racial.

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Usos políticos e práticos

Biomedicina

Em ambientes clínicos, a raça tem sido por vezes considerada no diagnóstico e tratamento de condições médicas. Os médicos notaram que algumas condições médicas são mais prevalentes em certos grupos raciais ou étnicos do que em outros, sem ter certeza da causa dessas diferenças. O interesse recente na medicina baseada na raça, ou na farmacogenômica dirigida à raça, foi alimentado pela proliferação de dados genéticos humanos que se seguiram à descodificação do genoma humano na primeira década do século XXI. Há um debate ativo entre pesquisadores biomédicos sobre o significado e a importância da raça em suas pesquisas. Os defensores do uso de categorias raciais na biomedicina argumentam que o uso continuado de categorizações raciais na pesquisa biomédica e na prática clínica torna possível a aplicação de novas descobertas genéticas e fornece uma pista para o diagnóstico. As posições dos investigadores biomédicos sobre raça enquadram-se em dois campos principais: aqueles que consideram que o conceito de raça não tem base biológica e aqueles que o consideram como tendo potencial para ser biologicamente significativo. Os membros deste último campo baseiam frequentemente os seus argumentos no potencial de criação de medicina personalizada baseada no genoma.

Aplicação da lei

Em muitos países, como a França, o Estado está legalmente proibido de manter dados baseados na raça. Nos Estados Unidos, a prática do perfilamento racial foi considerada inconstitucional e uma violação dos direitos civis. Há um debate ativo sobre a causa de uma correlação acentuada entre os crimes registados, as punições aplicadas e as populações do país. Muitos consideram o perfil racial de facto um exemplo de racismo institucional na aplicação da lei. O encarceramento em massa nos Estados Unidos tem um impacto desproporcional nas comunidades afro-americanas e latinas. Michelle Alexander, autora de The New Jim Crow: Mass Incarceration in the Age of Colorblindness (2010), argumenta que o encarceramento em massa é melhor compreendido não apenas como um sistema de prisões superlotadas, mas também como "a rede mais ampla de leis, regras, políticas e costumes que controlam aqueles rotulados como criminosos dentro e fora da prisão". Ela define como "um sistema que tranca pessoas não só atrás de grades reais em prisões reais, mas também atrás de grades e muros virtuais", ilustrando a cidadania de segunda classe que é imposta a um número desproporcional de pessoas de cor, especificamente afro-americanos. Ela compara o encarceramento em massa às leis Jim Crow, afirmando que ambas funcionam como sistemas de castas raciais.

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Fontes consultadas

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