Concílio Vaticano I
O Concílio Vaticano I foi o vigésimo concílio ecumênico da Igreja Católica, realizado entre 8 de dezembro de 1869 e 18 de dezembro de 1870, por convocação do Papa Pio IX. Reuniu-se na Basílica de São Pedro, em Roma, num contexto de profundas transformações políticas e culturais na Europa do século XIX.
Em 6 de dezembro de 1864, dois dias antes da publicação do Sílabo dos erros, o papa Pio IX anunciou, durante uma sessão da Sagrada Congregação dos Ritos, sua intenção de convocar um concílio ecumênico. Ele solicitou aos cardeais residentes em Roma que expressassem por escrito suas opiniões sobre a necessidade de um concílio e indicassem os temas que, em sua visão, deveriam ser discutidos. Dos 21 pareceres recebidos, apenas um — o do cardeal Francesco Pentini — afirmou que não havia razão para a realização de uma reunião desta natureza naquele momento. Os demais reconheceram a relativa necessidade de um concílio, com cinco deles considerando o momento inadequado. Quase todos os cardeais enviaram listas de questões que, em suas opiniões, precisariam ser debatidas em um eventual concílio. Em março de 1865, o Papa nomeou uma comissão de cinco cardeais para tratar das questões preliminares relacionadas ao Concílio. Essa comissão, denominada "Congregação especial diretora para os assuntos do futuro concílio geral" (Congregazione speziale direttrice per gli affari del futuro concilio generale), foi ampliada com a inclusão de mais quatro cardeais, além de um secretário e oito consultores. A Congregação especial se reuniu com frequência entre 9 de março de 1865 e dezembro de 1869.
A bula que convocava o Concílio foi recebida de de modo diverso no mundo católico, levando ao máximo a oposição entre as diferentes correntes que se enfrentavam há duas décadas: galicanos e liberais de um lado, ultramontanos e intransigentes do outro.[c] O temor predominante dos descontente era de que o Concílio definisse de maneira precisa as prerrogativas primaciais do papa e proclamasse oficialmente a doutrina da infalibilidade papal. Na França, o bispo HenrI Maret, decano da Faculdade de Teologia da Universidade de Paris, publicou a obra Du concile générale et de la paix religieuse (1869), em que se opunha abertamente a tais doutrinas. Pouco depois, o bispo Félix Dupanloup de Orléans lançou Observations sur la controverse soulevée relativement à la définition de l’infaillibilité au prochain concile (1869). Essas posições foram contestadas por diversos bispos franceses e pelo arcebispo Edward Manning, da Inglaterra. Também o arcebispo Dechamps, de Malinas (Bélgica), defensor da infalibilidade em seu livro L’infaillibilité et le concile générale (1869), entrou em polêmica direta com Dupanloup.
Em paralelo às polêmicas, Roma continuou com os preparativos para o Concílio. Além da orientação geral que exercia, a Congregação especial elaborou um regulamento exaustivo para reger os debates. O regulamento havia sido elaborado, a partir de agosto de 1867, com base nos regulamentos esquemáticos do Concílio Latrão V. Esta foi a primeira vez que um concílio ecumênico teve um regulamento para seus trabalhos elaborado previamente, sem a participação dos padres conciliares. Essa abordagem foi um passo crucial para o funcionamento eficaz de uma assembleia moderna e numerosa, mas também foi um instrumento de tutela dos trabalhos, especialmente considerando que a preparação ocorreu em total sigilo e sem a inclusão dos próprios membros do Concílio. Previa a constituição de cinco comissões de trabalho (deputações), cada uma presidida por um cardeal e compostas, ao todo, por oitenta e oito consultores : quatro — fé, missões, disciplina, religiosas— eleitas pelos padres e uma, dos postulados, nomeada pela papa, competente para admitir novos temas à pauta.
No mundo, havia aproximadamente mil e cinquenta prelados com direito a participar do concílio, dos quais compareceram setecentos e setenta e quatro. Na primeira sessão pública estiveram presentes 47 cardeais, 9 patriarcas, 7 primazes, 117 arcebispos, 479 bispos, 5 abades nullius, 9 abades gerais e 25 superiores gerais de ordens, somando 698 participantes. Na terceira sessão pública votaram 47 cardeais, 9 patriarcas, 8 primazes, 107 arcebispos, 456 bispos, 1 administrador apostólico, 20 abades e 20 superiores gerais de ordens, num total de 667 votantes.


