Max Weber
Maximilian Carl Emil Weber foi um sociólogo, historiador, jurista e economista político alemão. Participou da formação da sociologia e das ciências sociais, e suas ideias seguem presentes na teoria social e na pesquisa social.
Infância e formação
Maximilian Carl Emil Weber nasceu em 21 de abril de 1864, em Erfurt, na Província da Saxônia, então parte do Reino da Prússia. Sua família mudou-se para Charlottenburg em 1869. Era o mais velho dos oito filhos de Max Weber Sr. e Helene Fallenstein. O pai exerceu a advocacia, ocupou cargos públicos e foi parlamentar pelo Partido Nacional Liberal no Landtag da Prússia e no Reichstag.[nota 1] Sua casa recebia estudiosos e figuras públicas[nota 2], entre eles o filósofo Wilhelm Dilthey, o jurista Levin Goldschmidt e o historiador Theodor Mommsen. Max e seu irmão Alfred, que também se tornou sociólogo, cresceram nesse ambiente. Pelo lado materno, Weber descendia em parte da família huguenote francesa Souchay, que havia enriquecido com o comércio internacional e a indústria têxtil. As tensões entre os pais o afetaram: o pai apreciava o conforto material e dava pouca atenção à religião e à filantropia, enquanto a mãe era uma calvinista devota e filantropa.
Casamento, primeiros trabalhos e crise de saúde
De 1887 até 1892, quando a piora da saúde mental de Emmy Baumgarten o levou a encerrar a relação, Weber manteve com a filha de Hermann Baumgarten uma espécie de noivado informal. Em 1893, iniciou um relacionamento com sua prima de segundo grau Marianne Schnitger, com quem se casou em 20 de setembro daquele ano, em Oerlinghausen. O casamento lhe trouxe independência financeira e permitiu que deixasse a casa dos pais. O casal não teve filhos. Marianne era ativista feminista e escritora. Na vida acadêmica, entre a dissertação e a habilitação, Weber se interessou pela política social de seu tempo e ingressou, em 1888, na Verein für Socialpolitik, a Associação para a Política Social.[nota 8] A organização reunia pensadores reformistas, em geral ligados à escola histórica da economia. Weber também entrou na política e participou, em 1890, da fundação do Congresso Social Evangélico, de orientação à esquerda, que abordava a questão social sob uma perspectiva protestante.[nota 9] Naquele ano, a Verein criou um programa de pesquisa sobre a Ostflucht, a migração para o oeste de trabalhadores agrícolas de origem alemã da Élbia Oriental e a chegada correspondente de trabalhadores rurais poloneses.[nota 10] Weber dirigiu o estudo e redigiu parte do relatório final, que chamou atenção e provocou controvérsia política.
Recuperação e retorno à vida acadêmica
Após se recuperar, Weber tornou-se, em 1904, um dos editores do Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik[nota 14], ao lado de Edgar Jaffé e Werner Sombart. Sob sua direção, o Archiv passou a figurar entre os periódicos de ciências sociais mais conhecidos. Nele publicou alguns de seus trabalhos, entre eles A ética protestante e o espírito do capitalismo, sua obra mais difundida, que orientou pesquisas posteriores sobre a relação entre religião e desenvolvimento dos sistemas econômicos. Ainda em 1904, participou do Congresso de Artes e Ciências, realizado durante a Exposição Universal de 1904, a exposição universal de St. Louis.[nota 15] Viajou com Marianne, Werner Sombart, Ernst Troeltsch e outros estudiosos alemães. Os Weber aproveitaram a ocasião para percorrer os Estados Unidos por quase três meses, numa viagem circular que começou e terminou em Nova Iorque. Visitaram comunidades de imigrantes alemães e comunidades afro-americanas. Weber também conheceu parentes da família Fallenstein na Carolina do Norte. A viagem lhe permitiu examinar as condições sociais, econômicas e religiosas do país à luz de sua tese. Mesmo depois disso, sentiu-se incapaz de retomar as aulas e continuou a pesquisar por conta própria, amparado por uma herança recebida em 1907.
Primeira Guerra Mundial e atividade política
Com o início da Primeira Guerra Mundial em 1914, Weber ofereceu-se para servir e foi nomeado oficial da reserva responsável pela organização dos hospitais militares de Heidelberg, função que exerceu até o fim de 1915. Sua opinião sobre a guerra e a expansão do Império Alemão mudou nesse período. De início, apoiou firmemente o esforço de guerra alemão. Mais tarde, tornou-se um crítico da política expansionista e das decisões de guerra do imperador Guilherme II. Condenou em público a possível anexação da Bélgica prevista no Programa de Setembro e a guerra submarina irrestrita.[nota 21] Passou a apoiar a reforma constitucional, a democratização e o sufrágio universal. A morte de seu irmão mais novo Karl, arquiteto, em combate nas proximidades de Brest-Litovsk em 1915, fez com que se sentisse mais próximo dele, a quem antes desprezara.
Últimos anos
Weber retomou o magistério em parte porque ele e a família haviam perdido dinheiro investido em títulos de guerra.[nota 24] Lecionou primeiro na Universidade de Viena, em 1918, e depois na Universidade de Munique, em 1919. Em Viena, ocupou uma cátedra vaga de economia política para a qual vinha sendo cogitado desde outubro de 1917. Deu a oficiais do Exército Austro-Húngaro uma palestra sobre socialismo. Também teve uma discussão acalorada com Joseph Schumpeter no Café Landtmann sobre a possibilidade de usar a República Socialista Federativa Soviética Russa como caso para estudar o comunismo. Em Munique, assumiu a cátedra de ciências sociais, história econômica e economia política de Lujo Brentano. Aceitou o posto para ficar mais perto de Else von Richthofen. A pedido dos estudantes, ministrou um curso de história econômica, cujas transcrições foram editadas por Siegmund Hellmann e Melchior Palyi e publicadas em 1923 como História econômica geral. Na política bávara, Weber se opôs ao perdão de Anton Graf von Arco auf Valley, assassino do chefe de governo Kurt Eisner. Estudantes de direita interromperam suas aulas e protestaram diante de sua casa. No início de 1920, discutiu A decadência do Ocidente, de Oswald Spengler, em um seminário. Alunos que conheciam Spengler propuseram um debate entre os dois e outros estudiosos. A discussão durou dois dias na prefeitura de Munique, mas os estudantes saíram sem resposta para a questão de como resolver os problemas alemães do pós-guerra.
A ação social ocupava o centro da sociologia de Weber e, para ele, era também parte do caráter científico da disciplina. Dividiu-a em quatro tipos:[nota 25] afetiva, tradicional, racional com relação a fins e racional com relação a valores. A primeira decorria das emoções do agente, a segunda se baseava no costume, a terceira calculava os meios para atingir objetivos e a quarta buscava pôr em prática valores. Sua metodologia diferia das de Émile Durkheim e Karl Marx por se concentrar sobretudo nos indivíduos e na cultura. Durkheim dava maior atenção à sociedade, enquanto Weber examinava as pessoas e suas ações. Marx atribuía primazia ao mundo material em relação às ideias, ao passo que Weber via nas ideias motivos para agir. Suas concepções de estrutura e ação e de macroestrutura também se distinguiam das deles: aceitava que os fenômenos sociais pudessem ter muitas causas e dava atenção à interpretação que os agentes faziam de suas próprias ações.
Verstehen
O resultado do que foi dito até aqui é que um tratamento "objetivo" dos acontecimentos culturais, no sentido de que o objetivo ideal do trabalho científico seria reduzir a realidade empírica a "leis", é absurdo. Não porque, como tantas vezes se afirmou, o curso dos processos culturais ou, digamos, dos processos da mente humana seria, "objetivamente", menos sujeito a leis, mas por duas razões: 1. o conhecimento das leis sociais não constitui conhecimento da realidade social, sendo apenas um dos instrumentos de que nosso intelecto precisa para tal fim; 2. só se pode conhecer os acontecimentos culturais tomando como ponto de partida a importância que a realidade da vida, sempre individual, tem para nós sob determinados aspectos particulares. Nenhuma lei pode nos revelar em que sentido e sob quais aspectos isso ocorre, pois a resposta depende das ideias de valor à luz das quais contemplamos a "cultura" em cada caso.
Individualismo metodológico
Weber formulou o princípio do individualismo metodológico, pelo qual os cientistas sociais deveriam entender as coletividades a partir das ações das pessoas que as compõem.[nota 32] O economista austro-americano Joseph Schumpeter cunhou a expressão "individualismo metodológico" em 1908 para nomear essa maneira de explicar os fenômenos sociais. Embora seu interesse de pesquisa recaísse sobre a interpretação da história econômica, o princípio o afastava da escola histórica da economia e o aproximava de Carl Menger, fundador da Escola Austríaca, na Methodenstreit. No primeiro capítulo de Economia e Sociedade, Weber afirmou que somente os indivíduos "podem ser tratados como agentes de um curso de ação subjetivamente compreensível". Apesar do termo "individualismo", ele não via o indivíduo como a verdadeira fonte isolada da explicação sociológica. Apenas pessoas podem agir intencionalmente, mas suas ações não estão necessariamente separadas do grupo. O individualismo metodológico tinha, a seu ver, estreita relação com a sociologia interpretativa, pois as ações podiam ser interpretadas subjetivamente, e também com os tipos ideais, empregados em modelos abstratos e racionais do comportamento humano.
Tipo ideal
O tipo ideal ocupava uma posição central na metodologia de Weber, que o julgava indispensável às ciências sociais. Ao considerar o sentido atribuído às ações, era próprio desse campo. Tratava-se de um esquema que representava uma ação social e levava em conta o papel do sentido nela. Acentuava determinados traços de uma situação empírica[nota 33]; ao construir um tipo de ação racional, podia supor que os envolvidos conhecessem plenamente as circunstâncias, compreendessem seus atos e não cometessem erros. O pesquisador então confrontava o modelo com a realidade empírica para compreendê-la melhor. Weber advertia que os tipos ideais não eram retratos diretos da realidade. Serviam para formular conceitos, classificações e hipóteses, sendo esta última sua função principal. Não impunha limites aos fenômenos que podiam ser examinados por esse recurso. Por considerar a racionalidade inseparável do método científico, construía os tipos ideais racionalmente. Tomou a expressão "tipo ideal" de Georg Jellinek e apresentou o conceito em "A objetividade do conhecimento na ciência social e na política social" e no primeiro capítulo de Economia e Sociedade.
Neutralidade axiológica
Artigo principal: Neutralidade axiológica Weber defendia que os cientistas sociais evitassem juízos de valor em suas pesquisas. Isso lhes permitiria buscar a objetividade, desde que reconhecessem as maneiras pelas quais a própria pesquisa se relacionava com valores.[nota 34] Como parte dessa posição, opunha-se à promoção de opiniões políticas por professores e alunos em sala de aula. Expôs inicialmente essas ideias em textos sobre filosofia da ciência, entre eles "A objetividade do conhecimento na ciência social e na política social" e "A ciência como vocação". Foi inspirado pelo conceito de relevância valorativa de Heinrich Rickert, que relacionava os objetos históricos aos valores sem abandonar a objetividade, por meio de distinções conceituais explícitas. Weber, porém, não aceitava que um pesquisador pudesse manter a objetividade enquanto adotasse uma hierarquia de valores nos termos de Rickert. Essa concepção estava ligada à sua participação na Werturteilsstreit, na qual sustentou que as ciências sociais deviam ser livres de juízos de valor. Também tentou, sem sucesso, fazer da Associação Alemã de Sociologia uma organização comprometida com essa posição.
Perto do fim da vida, Weber proferiu na Universidade de Munique duas conferências sobre a vocação científica e a política: "A Ciência como Vocação" e "A Política como Vocação". Immanuel Birnbaum, representante da Juventude Estudantil Livre, uma organização estudantil liberal de esquerda, convidou-o a falar. Na primeira conferência, Weber sustentou que o pesquisador precisava sentir uma vocação interior. Julgava que apenas certas pessoas podiam seguir a carreira acadêmica, pois ela exigia método e a disposição de aceitar a possibilidade de fracasso. A especialização também fazia parte da pesquisa moderna. O desencantamento e a racionalização intelectual, temas de sua reflexão sobre o pesquisador na modernidade, levavam ao questionamento do valor da ciência. Weber argumentava que, embora ela não pudesse dar respostas absolutas, suas premissas iniciais permitiam alcançar algum grau de certeza. "A política como vocação" tratou da instabilidade dos primeiros anos da República de Weimar. Para Weber, o político precisava de paixão, discernimento e responsabilidade. Convicção e responsabilidade eram distintas, mas uma mesma pessoa, sobretudo o político ideal, podia reuni-las. Na palestra, ele também distinguiu a autoridade tradicional, a carismática e a racional-legal. Perto do fim, definiu a política como "a perfuração lenta e vigorosa de tábuas duras". Os problemas de sua época exigiam, a seu ver, trabalho persistente, e não soluções rápidas como as que os estudantes desejavam.
Racionalização
A racionalização foi um tema constante na obra de Weber. Ele a examinou em relação às motivações psicológicas, aos valores e crenças culturais e à estrutura da sociedade. Entendia que ela trazia maior conhecimento, relações mais impessoais e maior controle da vida social e material. Sua avaliação era ambivalente: reconhecia avanços, como a libertação de normas sociais tradicionais[nota 35], restritivas e ilógicas, mas criticava a perda de humanidade e de liberdade das pessoas, aprisionadas na racional gaiola de ferro da burocracia.[nota 36] Começou a estudá-la em A ética protestante e o espírito do capitalismo. Ali argumentou que a nova relação estabelecida pelo protestantismo, sobretudo pelo calvinismo, entre trabalho e piedade orientou as pessoas para a busca racional do ganho econômico. A piedade protestante podia ser expressa na vocação secular. Os princípios religiosos que haviam participado da formação do capitalismo deixaram de ser necessários quando o sistema passou a se reproduzir sem eles.
Desencantamento
O desencantamento do mundo retirava aos poucos da magia o lugar central que ela ocupava na interpretação do mundo.[nota 38] Explicações anteriores dos acontecimentos recorriam à crença na intervenção sobrenatural na realidade material. Weber entendia que a atividade religiosa começara com atos do mundo material aos quais se atribuíam sentidos mágicos e que eram relacionados a espíritos pouco definidos. Essas crenças foram organizadas de forma progressiva: os espíritos se tornaram deuses e surgiram o politeísmo e a religião organizada. Com o avanço da racionalidade, formou-se o monoteísmo ocidental. Grupos voltados a determinados deuses por razões políticas e econômicas deram origem a uma religião universal. O protestantismo estimulou a busca da racionalidade até que esta contribuiu para a desvalorização da própria religião. A ciência moderna passou a oferecer uma alternativa considerada válida à crença religiosa. Ela também deixou de fornecer valores universais, pois não podia criar valores. Em seu lugar, surgiram sistemas de valores distintos, incapazes de substituí-los adequadamente. A situação lembrava o antigo politeísmo ocidental, embora seus novos "deuses" não tivessem as qualidades místicas dos anteriores.
A ética protestante e o espírito do capitalismo
O desenvolvimento da ideia de vocação logo deu ao empresário moderno uma consciência fabulosamente tranquila e lhe deu também trabalhadores diligentes. Como pagamento pela dedicação ascética deles à vocação e pela colaboração na exploração implacável que deles fazia por meio do capitalismo, oferecia-lhes a perspectiva da salvação eterna. A ética protestante e o espírito do capitalismo é a obra mais difundida de Weber e sua primeira investigação da relação entre religiões e desenvolvimento de sistemas econômicos. O estudo saiu inicialmente em dois artigos no Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik, em 1904 e 1905; Weber preparou uma versão revista em 1920. Nela apresentou a tese de que a ética protestante do trabalho, derivada das ideias teológicas da Reforma Protestante, participou do desenvolvimento do capitalismo. Buscou afinidades eletivas entre essa ética e o sistema econômico[nota 39], expressão que talvez tenha tomado de As Afinidades Eletivas, de Johann Wolfgang von Goethe. Argumentou que a vocação dos puritanos para o trabalho os levava a acumular riqueza sistematicamente, como forma de provar a si mesmos que estavam predestinados à salvação.[nota 40] Usou a ética pessoal de Benjamin Franklin, exposta em "Conselhos a um jovem comerciante", como exemplo da ética econômica das seitas protestantes.[nota 41] Conceitos que depois se tornariam centrais em seus estudos, entre eles racionalização e tipo ideal, já figuravam no estudo.
A ética econômica das religiões mundiais
Artigo principal: A ética econômica das religiões mundiais Os estudos de Weber em sociologia da religião começaram com A ética protestante e o espírito do capitalismo e prosseguiram na série A ética econômica das religiões mundiais, formada por A religião da China, A religião da Índia e O judaísmo antigo. Estudos planejados sobre o cristianismo, o judaísmo talmúdico e o islamismo não chegaram a ser escritos. A série se organizava em torno de três questões: o efeito das ideias religiosas sobre as atividades econômicas, a relação entre estratificação social e religião e as características que Weber via como próprias da civilização ocidental. Seu objetivo era explicar por que o Ocidente e o Oriente haviam seguido caminhos de desenvolvimento distintos. Propôs também um modelo de evolução social das religiões[nota 42], pelo qual as sociedades passavam da magia ao monoteísmo ético, atravessando o politeísmo, o panteísmo e o monoteísmo. Para ele, a maior estabilidade econômica permitia a profissionalização e a formação de um sacerdócio mais elaborado. À medida que as sociedades cresciam e reuniam grupos diferentes, desenvolvia-se uma hierarquia de deuses; com a centralização do poder, a ideia de um deus universal ganhava força.
Teodiceia
Weber empregou a ideia de teodiceia ao longo de seus escritos sobre teologia e religião. O assunto lhe interessava como pesquisador e pessoalmente, e ocupava um lugar em sua concepção do ser humano como alguém que busca sentido. Dizia-se "religiosamente sem ouvido musical", mas "nem antirreligioso nem irreligioso". A teodiceia era tema comum entre estudiosos alemães que procuravam entender como um mundo criado por um ser inteiramente bom e onipotente podia conter sofrimento.[nota 47] Weber a estudou com cuidado, por uma perspectiva social, e não como questão teológica ou ética. Também incorporou o ressentiment de Friedrich Nietzsche à discussão.[nota 48] Discordava, porém, do tratamento emocional que Nietzsche dava ao conceito e de sua interpretação como expressão, derivada do judaísmo, de uma moralidade de escravos. Dividiu as teodiceias em três formas: o dualismo, no qual a desgraça resultava de uma luta divina maniqueísta; o carma, pelo qual ela era consequência de atos anteriores; e a predestinação, segundo a qual apenas alguns eleitos escapariam da condenação.
Estado, política e governo
Weber definiu o Estado como a comunidade humana que reivindica com êxito o uso legítimo da força física em determinado território. Definiu também a política como a participação no poder do Estado ou a tentativa de influenciar sua distribuição entre Estados e entre grupos dentro de um Estado. A seu ver, o político precisava de paixão, capacidade de julgar e responsabilidade. Distinguia a Gesinnungsethik, ou ética da convicção, da Verantwortungsethik, a ética da responsabilidade.[nota 49] Quem seguia a ética da responsabilidade justificava os atos por suas consequências; quem seguia a ética da convicção, pelos princípios. Embora associasse cada ética a disposições e tipos de pessoa diferentes, Weber entendia que o político ideal reunia as duas. Isso exigia paixão pelos objetivos e pragmatismo para alcançá-los.
Weber recebeu forte influência do idealismo alemão, sobretudo do neokantismo da escola do sudoeste alemão, na qual se destacavam Heinrich Rickert e Wilhelm Windelband. Lia Immanuel Kant a partir da psicologia moral e da antropologia filosófica. Kant também participou da formação de sua metodologia e de sua ética. Weber empregou conceitos neokantianos para elaborar suas próprias categorias e, em matéria ética, aderiu ao imperativo categórico e buscou uma liberdade definida sem arbitrariedade. Achava, porém, que a ética kantiana se tornara obsoleta numa época sem certezas religiosas. Suas respostas às questões formuladas por Kant e pelos neokantianos eram, por isso, pessimistas. Weber também respondia aos efeitos da filosofia de Friedrich Nietzsche sobre o pensamento moderno. Na ética, buscava uma liberdade definida sem arbitrariedade no que via como uma época pós-metafísica, marcada pela tensão entre os elementos kantianos e nietzschianos de seu pensamento. Depois de debater com Oswald Spengler em 1920, afirmou que o mundo intelectual devia muito a Nietzsche e Marx. Em A ética protestante e o espírito do capitalismo e em "A ciência como vocação", referiu-se de modo crítico aos die 'letzten Menschen ou "últimos homens" nietzschianos, os "especialistas sem espírito". Recorreu também ao ressentiment de Nietzsche ao discutir a teodiceia, mas rejeitava o tratamento emocional dado por ele ao conceito e não o interpretava como uma moralidade de escravos proveniente do judaísmo.
Weber é frequentemente incluído, com Karl Marx e Émile Durkheim, entre os fundadores da sociologia moderna. Participou do desenvolvimento de uma corrente antipositivista e hermenêutica nas ciências sociais, e suas ideias foram retomadas por autores de diferentes posições políticas. Teóricos de esquerda, como Theodor W. Adorno, Max Horkheimer, György Lukács e Jürgen Habermas, recorreram à sua análise da modernidade e das tensões ligadas à modernização. Seus trabalhos sobre modernidade e racionalização tiveram repercussão na teoria crítica da Escola de Frankfurt. Entre os autores de direita, Carl Schmitt, Joseph Schumpeter, Leo Strauss, Hans Morgenthau e Raymond Aron se interessaram por sua discussão dos líderes democráticos fortes, da relação entre ética política, neutralidade e relativismo dos valores e da possibilidade de enfrentar a burocracia por meio da ação política. Pesquisadores que examinaram sua obra filosoficamente, entre eles Strauss, Hans Henrik Bruun e Alfred Schütz, costumavam lê-la pela filosofia continental.
No Brasil
No Brasil, pesquisadores examinaram a presença das ideias de Weber em Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, e em Os Donos do Poder, de Raymundo Faoro, com atenção especial ao conceito de patrimonialismo. Em 1974, Maurício Tragtenberg publicou Burocracia e ideologia, em diálogo com a obra de Weber. A partir do fim da década de 1970, Crítica e resignação, de Gabriel Cohn, abriu espaço para estudos centrados na própria obra de Weber. Antônio Flávio Pierucci, Jessé Souza e Carlos Eduardo Sell também escreveram sobre ela.
Estudos sobre Weber
As primeiras pesquisas dedicadas à obra de Weber foram retardadas pela desorganização da vida acadêmica na República de Weimar. A hiperinflação enfraqueceu o respeito dos professores alemães pela democracia parlamentar que Weber havia defendido. Muitos se afastaram da política, tornaram-se pessimistas e se aproximaram das interpretações históricas de Oswald Spengler em A decadência do Ocidente. As universidades ficaram cada vez mais submetidas ao Estado, processo acelerado após a chegada dos nazistas ao poder. A sociologia de Alfred Vierkandt e Leopold von Wiese, antes predominante, foi substituída em grande parte por outra alinhada ao nazismo, representada por Hans Freyer e Othmar Spann; Werner Sombart também passou a apoiar o coletivismo e o nazismo. A ascensão do partido afastou os estudos weberianos da universidade alemã. Alguns de seus pesquisadores deixaram o país e se estabeleceram sobretudo nos Estados Unidos e no Reino Unido.
Max Weber-Gesamtausgabe
Horst Baier defendeu em 1972 a publicação de uma edição das obras completas de Weber. No ano seguinte, começou a ser planejada a Max Weber-Gesamtausgabe, uma coleção em muitos volumes. Os editores iniciais foram Wolfgang J. Mommsen, Wolfgang Schluchter, Johannes Winckelmann, M. Rainer Lepsius e Baier. A editora Mohr Siebeck foi escolhida para o projeto. Em 1981, um prospecto conhecido informalmente como "brochura verde"[nota 60] o apresentou à comunidade acadêmica, dividindo a coleção em "Escritos e discursos", "Cartas" e "Manuscritos e apontamentos de aulas". A publicação começou quatro anos depois. Os escritos foram organizados por assunto e cronologia, enquanto os textos que Weber não pretendia publicar seguiram apenas a ordem cronológica. Os editores adotaram as últimas versões de cada obra, com exceção de A ética protestante e o espírito do capitalismo, incluída tanto na forma original quanto na revista. Após a morte de Mommsen em 2004, Gangolf Hübinger o sucedeu. Winckelmann, Lepsius e Baier também morreram antes da conclusão. A coleção foi encerrada em junho de 2020, com 47 volumes, dois deles de índices.


