Controvérsias envolvendo a Nestlé
A Nestlé esteve envolvida em um número significativo de controvérsias e foi criticada diversas vezes pelas suas práticas comerciais. Desde a década de 1970, as críticas à Nestlé aumentaram devido ao uso relatado pela empresa deescravidão; trabalho infantil; incidentes de produtos alimentares contaminados e infestados; impedindo o acesso à água não engarrafada em países empobrecidos; espalhando ativamente desinformação sobre reciclagem; bombeamento ilegal de água de reservas indígenas afetadas pela seca; fixação de preços; extensa atividade antissindical; desmatamento.
A preocupação com o "marketing agressivo" da Nestlé em relação aos seus substitutos do leite materno, especialmente nos países economicamente menos desenvolvidos, surgiu pela primeira vez na década de 1970. Críticos acusaram a Nestlé de desencorajar as mães a amamentar e sugerir que sua fórmula infantil é mais saudável do que a amamentação por meio de campanhas publicitárias que sugeriam que a fórmula era usada por profissionais de saúde. Isso incluía vendedores da Nestlé se vestindo como enfermeiras para convencer clientes da falsa alegação de que a fórmula melhoraria os resultados de saúde dos bebês. Isto levou a um boicote que foi lançado em 1977 nos Estados Unidos e posteriormente alastrou-se à Europa. O boicote foi suspenso nos EUA em 1984, após a Nestlé ter concordado em seguir um código internacional de marketing aprovado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), mas foi relançado em 1989. Desde 2011, a empresa está incluída no FTSE4Good Index [en], criado para facilitar investimentos éticos.
Escravidão e trabalho infantil na indústria do cacau
Vários relatórios documentaram o uso generalizado de trabalho infantil na produção de cacau, bem como a escravatura e o tráfico de crianças, nas plantações da África Ocidental, das quais a Nestlé e outras grandes empresas de chocolate dependem. De acordo com o documentário de 2010, The Dark Side of Chocolate, as crianças que trabalham têm normalmente entre 12 e 15 anos. A Fair Labor Association criticou a Nestlé por não realizar verificações adequadas. Em 2005, após a indústria do cacau não ter cumprido o prazo do Protocolo Harkin-Engel para certificar que as piores formas de trabalho infantil (de acordo com a Convenção n.º 182 da Organização Internacional do Trabalho) haviam sido eliminadas da produção de cacau, o International Labor Rights Forum entrou com uma ação judicial sob o Alien Tort Statute [en] contra a Nestlé e outras empresas em nome de três crianças malinesas. A ação alegava que crianças eram traficadas para a Costa do Marfim, forçadas à escravidão e frequentemente espancadas em uma plantação de cacau. Em setembro de 2010, o Tribunal Distrital dos EUA para o Distrito Central da Califórnia determinou que as corporações não podem ser responsabilizadas por violações do direito internacional e rejeitou o processo. O caso foi apelado ao Tribunal de Apelações dos EUA. O Tribunal de Apelações do Nono Circuito reverteu a decisão. Em 2016, A Suprema Corte dos EUA recusou-se a ouvir o recurso da Nestlé à decisão do Nono Circuito.
Trabalho forçado na indústria pesqueira tailandesa
Ao final de uma investigação autoimposta de um ano, em novembro de 2015, a Nestlé divulgou que os produtos de frutos do mar adquiridos na Tailândia foram produzidos com trabalho forçado. A Nestlé não é um grande compradora de frutos do mar no Sudeste Asiático, mas realiza alguns negócios na Tailândia — principalmente com sua linha de ração para gatos Purina. O estudo concluiu que praticamente todas as empresas dos estadunidenses e europeias que compram frutos do mar da Tailândia estão expostas aos mesmos riscos de abuso nas suas cadeias de suprimento. Esse tipo de divulgação surpreendeu muitos na indústria, pois empresas internacionais raramente reconhecem abusos em suas cadeias de suprimento.
Produtos lácteos e alimentos para bebês
No final de setembro de 2008, o governo de Hong Kong encontrou melamina em um produto lácteo da Nestlé fabricado na China. Seis bebês morreram devido a danos renais e outros 860 bebês foram hospitalizados. O leite da Dairy Farm foi produzido pela divisão da Nestlé na cidade costeira chinesa de Qingdao. A Nestlé afirmou que todos os seus produtos eram seguros e não continham leite adulterado com melamina. Em 2 de outubro de 2008, o Ministério da Saúde de Taiwan anunciou que seis tipos de leite em pó produzidos na China pela Nestlé continham vestígios de melamina em níveis baixos e foram "retirados das prateleiras". Desde 2013, a Nestlé implementou iniciativas para prevenir contaminações e utiliza o que chama de modelo "fábrica e fazendeiros", que elimina o intermediário. Os fazendeiros levam o leite diretamente para uma rede de centros de coleta de propriedade da Nestlé, onde um sistema computadorizado coleta amostras, testa e marca cada lote de leite. ara reduzir ainda mais o risco de contaminação na fonte, a empresa oferece aos fazendeiros treinamento contínuo e assistência em áreas como seleção de vacas, qualidade da alimentação, armazenamento e outras áreas. Em 2014, a empresa inaugurou o Nestlé Food Safety Institute (NFSI) em Pequim, com o objetivo de atender à crescente demanda da China por alimentos saudáveis e seguros, uma das três principais preocupações dos consumidores chineses. O NFSI anunciou que trabalharia em estreita colaboração com as autoridades para fornecer uma base científica para políticas e normas de segurança alimentar, oferecendo suporte na gestão precoce de questões de segurança alimentar e promovendo colaborações com universidades locais, institutos de pesquisa e agências governamentais.
Massa de biscoito
Em junho de 2009, um surto de E. coli O157:H7 foi associado à massa de biscoito (cookie) refrigerada da Nestlé, originária de uma fábrica em Danville, Virgínia. Nos Estados Unidos, causou doenças em mais de 50 pessoas em 30 estados, metade das quais precisou ser hospitalizada. Após o surto, a Nestlé recolheu 30 000 caixas da massa de biscoito. A causa foi determinada como farinha contaminada obtida de um fornecedor de matéria-prima. Quando as operações foram retomadas, a farinha usada passou a ser tratada termicamente para eliminar bactérias.
Macarrão Maggi
Em maio de 2015, os órgãos reguladores de segurança alimentar do estado de Utar Pradexe, na Índia, descobriram que amostras de macarrão Maggi da Nestlé Índia continham até 17 vezes mais chumbo do que a quantidade segura permitida. Devido a isso, em 3 de junho de 2015, o Governo de Nova Deli proibiu a venda de Maggi nas lojas de Nova Deli por 15 dias. Alguns dos maiores varejistas da Índia, como o Future Group, Big Bazaar, Easyday e Nilgiris, impuseram uma proibição nacional ao Maggi a partir de 3 de junho de 2015. Em 4 de junho de 2015, o Departamento de Defesa de Guzerate proibiu a venda do macarrão por 30 dias, depois de 27 das 39 amostras terem sido detectadas com níveis questionáveis de chumbo metálico, entre outras coisas. Em 5 de junho de 2015, a Autoridade de Segurança e Normas Alimentares da Índia ordenou a proibição de todas as nove variantes aprovadas de macarrão instantâneo Maggi na Índia, considerando-as "inseguras e perigosas" para consumo humano, e o Nepal proibiu indefinidamente o Maggi devido a preocupações com os níveis de chumbo no produto. Os macarrões Maggi foram retirados de cinco países africanos – Quênia, Uganda, Tanzânia, Ruanda e Sudão do Sul – por uma cadeia de supermercados, após uma queixa da Federação de Consumidores do Quênia, como reação à proibição na Índia.
Estado da água potável
No segundo Fórum Mundial da Água, em 2000, a Nestlé e outras corporações persuadiram o Conselho Mundial da Água a mudar sua declaração, mudando o acesso à água potável de um "direito" para uma "necessidade". A Nestlé continua a assumir o controle de aquíferos e a engarrafar a sua água com fins lucrativos. Peter Brabeck-Letmathe, presidente da Nestlé, mais tarde mudou sua declaração, dizendo em uma entrevista de 2013: "Sou o primeiro a dizer que a água é um direito humano". Na mesma entrevista, ele afirmou que era a "responsabilidade primária de cada governo" fornecer 30 litros de água por dia aos cidadãos.
Garrafas de plástico
Uma coalizão de grupos ambientais apresentou uma queixa contra a Nestlé ao Advertising Standards Canada após a empresa veicular anúncios em páginas inteiras em outubro de 2008, com mensagens como "A maioria das garrafas de água evita aterros sanitários e é reciclada", "Nestlé Pure Life é uma escolha saudável e ecológica" e "Água engarrafada é o produto de consumo mais ambientalmente responsável do mundo". Um porta-voz de um dos grupos ambientais declarou: "Não é possível apoiar a afirmação da Nestlé de que seu produto de água engarrafada é ambientalmente superior a qualquer outro produto de consumo no mundo". Em seu Relatório de Cidadania Corporativa de 2008, a própria Nestlé declarou que muitas de suas garrafas acabam no fluxo de resíduos sólidos e que a maioria de suas garrafas não é reciclada. A campanha publicitária foi chamada de greenwashing. A Nestlé defendeu seus anúncios, afirmando que provarão que foram verdadeiros em sua campanha.
Operações de engarrafamento de água na Califórnia, Oregon e Michigan
Uma considerável controvérsia envolveu a marca de água engarrafada da Nestlé, Arrowhead Water, que é extraída de poços ao lado de uma nascente em Millard Canyon, situado em uma reserva indígena na base das Montanhas de San Bernardino, na Califórnia. Embora os representantes da empresa e os representantes da tribo Morongo tenham afirmado que a empresa, que iniciou as suas operações em 2000, está gerando empregos significativos na área e que a nascente está sustentando os fluxos de água superficial atuais, vários grupos de cidadãos locais e comitês de ação ambiental começaram a questionar a quantidade de água retirada devido à seca em curso e às restrições que foram impostas ao uso residencial de água. Além disso, evidências recentes sugerem que representantes do Serviço Florestal não deram continuidade ao processo de revisão da licença da Nestlé para extrair água dos poços de San Bernardino, que expirou em 1988. Em San Bernardino, a Nestlé paga ao Serviço Florestal dos Estados Unidos 524 dólares por ano para bombear e engarrafar cerca de 30 milhões de galões, mesmo durante secas. Peter Gleick, um dos fundadores do Pacific Institute, que investiga questões relacionadas com a água doce, observou: "Cada galão de água que é retirado de um sistema natural para ser engarrafado é um galão de água que não flui por um riacho, que não sustenta um ecossistema natural". Ele também disse: "As nossas agências públicas falharam".
Fixação de preços de chocolate
No Canadá, o Competition Bureau fez uma busca nos escritórios da Nestlé Canadá (junto com os da Hershey Canadá e da Mars Canadá) em 2007 para investigar a questão da fixação de preços de chocolates. Alega-se que os executivos da Nestlé (fabricante do KitKat, Coffee Crisp e Big Turk) conspiraram com concorrentes no Canadá para inflacionar os preços. O Bureau alegou que os executivos dos concorrentes se reuniam em restaurantes, cafeterias e convenções, e que o CEO da Nestlé Canadá, Robert Leonidas, certa vez entregou a um concorrente um envelope contendo informações sobre preços de sua empresa, dizendo: "Quero que você ouça da alta direção – eu levo meus preços a sério."
Fixação do preço do leite
Em fevereiro de 2024, a Audiência Nacional da Espanha multou a Nestlé em 6,86 milhões de euros por formar um cartel com outras empresas de laticínios para evitar concorrência na compra de leite de produtores espanhóis entre 2000 e 2013. Os agricultores podem agora continuar a processar por danos.
A Nestlé Brasil tem praticado maquiagem de produtos e foi processada e multada pelo Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor (DPDC) inúmeras vezes ao longo dos anos. Segundo o DPDC, investigações demonstraram que os casos de maquiagem de produtos feitos pela Nestlé Brasil remontam a 2001. A marca frequentemente modifica as embalagens de seus produtos, reduzindo o peso e a quantidade sem avisar previamente os consumidores, o que é ilegal. Entre os produtos afetados estão alimentos infantis, biscoitos, bebidas, cereais, chocolates em barra, leite em pó, sorvetes, rações para animais, entre outros.
Em 2002, a Nestlé exigiu que a Etiópia pagasse 6 milhões de dólares em dívidas com a empresa, numa época em que o país sofria uma grave fome. A Nestlé recuou em sua demanda depois que mais de 8 500 pessoas reclamaram por e-mail à empresa sobre o tratamento dado ao governo etíope. A empresa concordou em reinvestir no país qualquer dinheiro que recebesse da Etiópia. Em 2003, a Nestlé concordou em aceitar uma oferta de 1,5 milhões de dólares americanos e doou o dinheiro a três instituições de caridade ativas na Etiópia: Cruz Vermelha, Caritas e ACNUR.
Em agosto de 2015, o canal de TV ucraniano Ukrayina se recusou a contratar uma funcionária da revista semanal Krayina, Alla Zheliznyak, como apresentadora de um programa de culinária porque ela fala ucraniano. A exigência de contratar apenas um apresentador que falasse russo foi alegadamente definida por um patrocinador do programa – Nesquik, que é uma marca da Nestlé S.A. Ativistas do movimento civil Vidsich realizaram uma manifestação perto do escritório da empresa em Kiev, acusando a Nestlé de discriminar pessoas que falam ucraniano e de apoiar a russificação da Ucrânia. Eles também criticaram produtos vendidos na Ucrânia que são fabricados na Rússia e ameaçaram um boicote. Após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, que começou em 24 de fevereiro, muitas empresas internacionais, principalmente ocidentais, se retiraram da Rússia. Ao contrário da maioria dos seus concorrentes ocidentais, a Nestlé foi lenta para anunciar desinvestimentos ou redução de suas operações na Rússia, o que gerou críticas. A Nestlé emprega 7 000 trabalhadores na Rússia e declarou que pretende protegê-los. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, apelou à cessação das atividades empresariais que ajudam a financiar a invasão da Ucrânia. A Nestlé suspendeu o envio de itens não essenciais, mas continuou a produzir alimentos essenciais na Rússia. A empresa afirmou que "nossas atividades na Rússia irão concentrar-se no fornecimento de alimentos essenciais, como alimentos para bebês e nutrição médica/hospitalar".
A Nestlé tem se envolvido em extensas atividades de combate aos sindicatos na Colômbia desde que chegou ao país. Segundo um porta-voz do Sinaltrainal, o Sindicato Colombiano dos Trabalhadores da Alimentação: "A Nestlé converte as fábricas em acampamentos para as forças de segurança pública, a fim de criar terror na comunidade, destruir a unidade dos trabalhadores e desinformar os membros do sindicato, com o objetivo de colocá-los contra os líderes e destruir o movimento".
Em setembro de 2017, uma investigação conduzida pela ONG Mighty Earth concluiu que uma grande quantidade do cacau utilizado no chocolate produzido pela Nestlé e outras grandes empresas de chocolate era cultivada ilegalmente em parques nacionais e outras áreas protegidas na Costa do Marfim e no Gana. Os países são os dois maiores produtores de cacau do mundo. O relatório documenta como em vários parques nacionais e outras áreas protegidas, 90% ou mais da massa de terra foi convertida para o cultivo de cacau. Menos de 4% da Costa do Marfim continua densamente florestada e a abordagem laissez-faire das empresas de chocolate em relação à obtenção de matéria-prima impulsionou uma vasta desflorestação também em Gana. Na Costa do Marfim, a desflorestação empurrou os chimpanzés para apenas algumas pequenas áreas e reduziu a população de elefantes do país de várias centenas de milhares para cerca de 200–400.


