Teologia da aliança
Teologia da Aliança é, a um só tempo, uma visão geral conceitual e hermenêutica, ou interpretativa, bíblica, bem como uma Confissão ou Denominação Cristã, com princípios próprios, que se propõe à compreensão da estrutura geral da Bíblia, naturalmente, segundo suas concepções e métodos e princípios, que consistem no uso do conceito teológico chave de "Aliança" como um princípio organizador geral para a Teologia Cristã. A forma padrão pela qual se organiza a Teologia da Aliança considera a história do relacionamento de Deus com a humanidade, desde a Criação, a Queda até a Redenção para a Consumação, sob o marco de três abrangentes alianças teológicas: Aliança das Obras, Aliança da Graça e Aliança da Redenção.
O relacionamento Deus com Sua criação por alianças não é feito automaticamente ou por necessidade. Pelo contrário, Deus escolhe estabelecer esse relacionamento como uma Aliança, cujos termos são estabelecidos unilateralmente por Deus somente de acordo com Sua Própria Vontade.
Aliança das Obras
A Aliança das Obras (do latim foedus operum, também "Aliança da Vida") foi feita no Jardim do Éden entre Deus e Adão, que então representava toda a humanidade como seu "chefe federal" (Romanos 5:12-21). Yahweh Deus ofereceu a Adão uma vida perfeita e perpétua se ele não violasse Seu mandamento proibitivo único, de sequer tocar na Árvore do Conhecimento, e dela jamais comer, e advertiu que a morte seguir-se-lhe-ia se desobedecesse esse mandamento. Adão quebrou o mandamento, sendo, pois, condenado, e, por meio dele (o representante), toda a humanidade. O termo foedus operum foi usado pela primeira vez por Dudley Fenner em 1585, embora Zacharias Ursinus tenha mencionado uma Aliança de Criação em 1562. O conceito "Aliança das Obras" tornou-se comumente reconhecido na Teologia Reformada em 1590, embora não por todos; alguns membros da Assembleia de Westminster discordaram do ensino na década de 1640. João Calvino escreve sobre um período probatório para Adão, sua chefia representativa e uma promessa de vida por sua obediência, mas nada escreve sobre Aliança das Obras. Com efeito, esse evento não é referido como aliança em Gênesis.
Aliança da Graça
A Aliança da Graça promete a vida eterna para todas as pessoas que têm fé em Jesus Cristo. Ele também promete o Espírito Santo aos eleitos, para dar-lhes disposição e capacidade de crer. Cristo é o representante substituto da Nova Aliança que cumpre plenamente a Aliança das Obras em seu favor, tanto nas exigências positivas da justiça como nas suas consequências penais negativas (comumente descritas como sua obediência ativa e passiva). É a expressão histórica da Aliança Eterna da Redenção. Gênesis 3:15, com a promessa de uma "semente" da mulher que esmagaria a cabeça da serpente, é geralmente identificado como a inauguração bíblica e histórica da Aliança da Graça.
Aliança da Redenção
A Aliança da Redenção é o Acordo Eterno e Divino pelo qual Deus Pai designou Seu Filho para encarnar, sofrer e morrer como um chefe federal da humanidade para fazer expiação por seus pecados. Como decorrência divina, Cristo ressuscitaria dos mortos, seria glorificado e receberia Seu povo. Dois dos primeiros teólogos a escreverem sobre a Aliança da Redenção foram Johannes Cocceius e John Owen, embora Caspar Olevian tivesse insinuado a ideia diante deles. Essa aliança não é mencionada nos Padrões de Fé de Westminster, mas a ideia de uma dita relação contratual entre o Pai e o Filho está presente. O apoio bíblico para tal aliança pode ser encontrado em Salmos 2 e 110, Isaías 53, Filipenses 2: 5-11 e Apocalipse 5: 9-10. Alguns Teólogos da Aliança negaram a aliança intra-trinitária de redenção, ou questionaram a noção das obras do Filho levando à recompensa de ganhar um povo para Deus, ou desafiaram a natureza da aliança desse arranjo. Robert Letham criticou a ideia de uma aliança entre as pessoas da Trindade como um afastamento da ortodoxia trinitária, tendendo para um triteísmo, apontando para o fato histórico da heresia triteística nos círculos Presbiterianos durante as gerações imediatamente seguintes à Assembleia de Westminster.
Aliança adâmica
A Teologia da Aliança vê a primeira aliança celebrada entre Deus, o Criador e o homem primordial, Adão, e a mulher primordial, sua companheira-esposa Eva, o Qual, em sendo feitos à Sua Imagem e Semelhança [(Gênesis 1:26,27), fato que pode ser acolhido como ordenança implícita, inata, ou originária, em íntima com a ordenança preparatória, que foi Sua bênção primeira (Gênesis 1:28a)], deu-lhes, pois, Sua ordenança direta primeira de fertilização, multiplicação e dominação sobre toda a natureza, a partir do Jardim do Éden, que se pode entender como o princípio do trabalho (ou da "Aliança das Obras"). Provido, pois, o sustento alimentar (Gênesis 1:29,30 e satisfeito con'Sigo Mesmo sobre a Perfeição da Criação (Gênesis 1:31), ordenou então O Senhor Deus o mandamento comportamental de santidade, ao prescrever Seu mandamento proibitivo único, de sequer tocar na Árvore do Conhecimento, e dela jamais comer, cuja desobediência levaria à morte, sua, de sua esposa e de toda a humanidade. Isso, efetivamente aconteceu, trazendo, como consequência, as demais alianças ou pactos de resgate, sempre no Amor e Graça do Altíssimo.
Aliança noética
Decaída a humanidade, pela conduta desobediente de Adão (responsável primordial, em lugar de Eva, porque ele foi o ser humano primordial e era sobre ele o penhor da responsabilidade primeira), a história humana seguiu, na genealogia dos Patriarcas Bíblicos, em Sete, o segundo, substituto (em vista da morte de Abel por Caim); Enos, o terceiro, "quando se começou a invocar o Nome do Senhor Yahweh (Sete foi pai e deu a seu filho o nome de Enos, que foi o primeiro a invocar o Nome de Yahweh!, Gênesis 4:26), Cainã; o quarto, Maalaleel, o quinto; Jarede, o sexto; Enoque, o sétimo, que foi arrebatado (Enoque andou sempre em comunhão com Deus e um dia desapareceu, porquanto Deus o arrebatou!, Gênesis 5:24); Matusalém, o oitavo, o mais longevo, 969 anos de vida; Lameque, o nono; e Noé, o décimo patriarca, dos primordiais. Sob a égide de Noé e com ele, que foi achado digno e justo diante de Deus, Ele, O Senhor Yahweh Deus celebrou uma nova aliança.
Aliança abraâmica
A Aliança abraâmica acha-se em Gênesis 12, 15 e 17. Em contraste com as alianças celebradas com Adão e com Noé, que eram de âmbito universal, essa aliança celebrou-se com um povo em particular, o povo hebreu, o futuro povo de Israel. A Abraão, então Abrão, são prometidas uma semente (sua descendência numerosíssima) e uma terra, embora ele não veja sua fruição dentro de sua própria vida, havendo-as concebido e crido pela fé, razão pela qual é chamado de "O Pai da Fé". O Livro de Hebreus explica que ele estava olhando para uma terra melhor e celestial, uma cidade com fundamentos, cujo construtor e arquiteto é o próprio Deus (Hebreus 11:8-16). O Apóstolo Paulo escreve que a semente prometida refere-se em particular a Cristo (Gálatas 3:16).
Aliança mosaica
A Aliança Mosaica, encontrada em Êxodo 19 a 24 (especialmente em Êxodo 20:1-17 e no Deuteronômio (especialmente em Deuteronômio 5:4-21, expande a promessa abraâmica de um povo e uma terra. Repetidamente citada é a promessa do Senhor: "Eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo" (Êxodo 6:7 e Levítico 26:12), particularmente apresentada como a Presença de Sua Glória a habitar no meio das pessoas. Essa aliança é o mais lembrada ao citar a Antiga Aliança . Embora seja uma aliança graciosa, começando com a ação libertadora e redentora por parte de Deus (Êxodo 20:1,2), um conteúdo de lei é proeminente. Com relação a esse aspecto da Aliança Mosaica, Charles Hodge faz três considerações, em seu comentário sobre a Segunda Carta aos Coríntios: (1) a Lei de Moisés foi, em primeiro lugar, uma reconstituição da Aliança das Obras; vista dessa maneira, é o ministério da condenação e da morte; (2) foi, também, uma aliança nacional, dando bênçãos nacionais, baseadas na obediência nacional; dessa forma, era puramente legal; (3) no sistema sacrifical, aponta para o Evangelho da Salvação por meio de um Mediador, Cristo Jesus.
Aliança davídica
A Aliança davídica é encontrada em 2 Samuel 7. O Senhor Yahweh proclama que Ele construirá uma casa e uma linhagem para David, estabelecendo seu reino e trono para sempre. Essa aliança é provida para que Deus preserve os descendentes de David apesar de sua maldade(1 Reis 11:26-39, 2 Reis 8:19; 19:32-34), embora isso não tenha impedido o julgamento que certamente viria, em razão dos atos (ver 2 Reis 21:7;23:26-27; Jeremias 13:12-14). Entre os profetas do exílio, há esperança de restauração sob um rei davídico que trará paz e justiça (Ezequiel 37:24-28).
Aliança cristã
A Aliança cristã é antecipada com a esperança do messias davídico e, mais explicitamente, prevista pelo profeta Jeremias (Jr 31:31-33). Na Última Ceia, Jesus faz alusão a essa profecia, bem como a profecias como Is 49:8, quando ele diz que o cálice da Ceia da Páscoa é "a Nova Aliança no Seu Sangue". Esse uso da tipologia do Antigo Testamento é desenvolvido mais adiante na Carta aos Hebreus ( especialmente nos capítulos 7 a 10 ). Jesus é o último Adão e a esperança e consolação de Israel: Ele é o cumprimento da Lei e dos Profetas (Mt 5:17-18). Ele é o Profeta Maior que Jonas (Mt 12:41), e o Filho sobre a Casa onde Moisés era um servo (Hb 3:5,6), conduzindo seu povo à Terra Celestial Prometida. Ele é o Sumo Sacerdote Maior que Aarão, oferecendo-Se como Sacrifício Perfeito, de uma vez por todas (Hb 9:12,26). Ele é o Rei Maior que Salomão (Mt 12:42), governando para sempre no trono de Davi (Evangelho de Lucas|Lc 1:32]]). O termo "Novo Testamento" vem da tradução latina da versão grega da Nova Aliança e é mais frequentemente usado para a coleção de livros na Bíblia, mas também pode referir-se à Nova Aliança como um conceito teológico.
Na teologia reformada, um sacramento é geralmente definido como um sinal e um selo da Aliança da Graça. Como a Teologia da Aliança hoje é principalmente protestante e reformada em sua perspectiva, vê o Batismo e a Ceia do Senhor como os únicos dois sacramentos, os quais às vezes são chamados de "ordenanças da igreja". Junto com a Palavra de Deus pregada, são identificados como meio comum de Graça para a Salvação. Os benefícios desses ritos não ocorrem pela participação no próprio rito (ex opere operato), mas pelo poder do Espírito Santo, como são recebidos pela fé. Às vezes os teólogos da Aliança Reformada definem sacramento de modo a incluir sinais e selos da Aliança das Obras. O Jardim do Éden, a Árvore da Vida, a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal e o sábado são comumente considerados sacramentos na Aliança das Obras.
Ceia do Senhor
A Ceia do Senhor foi instituída por Jesus numa celebração de Páscoa, à qual Ele conferiu uma radical reinterpretação. A festa judaica da Páscoa lembra ao povo de Israel sua libertação do cativeiro do Egito, "pelo Braço Forte do Altíssimo, sob a liderança do libertador Moisés, mais especificamente, como o sangue de cordeiro que Deus ordenou-lhes aplicar nos seus umbrais poupou-os do Anjo da Morte, em sua visitação para matar todos os primogênitos do Egito, por ocasião da última praga. Os escritores do Novo Testamento entendem isso arquetipica e tipologicamente: assim como o sangue de cordeiro salvou os Israelitas da praga da morte no Egito, Jesus Cristo, pelo Seu Sangue derramado na cruz do calvário, proveu, como substituto (vigário) de toda a humanidade e de tudo perante Deus (Cl 1, em especial Cl 1:14, Cl 1:20 e Cl 1:21, a Redenção plena, isto é, a passagem da morte para a Vida Eterna, livrando as pessoas de serem julgadas e condenadas por seus pecados. Essa é a essência da Nova Aliança. O Calvinismo tem geralmente visto a Ceia do Senhor como uma participação misteriosa na Real Presença de Cristo mediada pelo Espírito Santo (que é real presença espiritual ou presença pneumática). Nisso difere do Catolicismo e do Luteranismo que creem na Presença Real como presença corporal de Cristo, bem como, ainda, da visão Batista de que a ceia é apenas um memorial comemorativo.
Batismo cristão
Os teólogos da Aliança Pedobatista argumentam que a Aliança Abraâmico ainda está em vigor, e que a promessa da aliança de Deus a Abraão "para ser o seu Deus e o Deus de teus descendentes depois de ti" ainda alcança cada crente. O argumento de que a administração de todas as outras alianças bíblicas, incluindo a Nova Aliança, incluem um princípio familial, inclusão corporativa, ou sucessão geracional, portanto, é considerado de importância secundária para acolher se bebês devem ser batizados ou não. Posto que a natureza familiar da Aliança Abraâmico é indiscutível, e, dessa forma, dado que prescrevia a circuncisão de crianças a partir de oito dias de nascidas, em princípio e por continuidade — ainda e até na era da Nova Aliança — apoiaria ou convalidaria a ideia e a prática do batismo de crianças também nessa idade:
Conceitos fundamentais para a teologia da aliança podem ser encontrados nos escritos dos chamados Pais da Igreja, como Irineu e Agostinho. Ulrico Zuínglio e Johannes Oekolampad estavam entre os primeiros reformadores a falar da economia de salvação de Deus sob as categorias de um pacto de obras e um pacto de graça. João Calvino (Institutos, 2:9-11), como Heinrich Bullinger (Uma Breve Exposição do Um e Eterno Testamento ou Aliança de Deus), focada na continuidade da Aliança da Graça, mas ensinou a substância do que se tornou a Teologia Clássica da Aliança, em termos de Lei e Evangelho. Os primeiros escritos pós-reforma, incluindo Zacharius Ursinus (1534-83) em Comentário sobre o Catecismo de Heidelberg (publicado postumamente, 1591), Caspar Olevianus (1536-87) em Concernente à Substância da Aliança da Graça entre Deus e os Eleitos ( De ( 1585), e o teólogo escocês Robert Rollock (1555-1599) em Um Tratado de nosso chamado eficaz (Tractatus de vocatione efficaci), 1597), desenvolveram o esquema Aliança das Obras e Aliança da Graça ao longo das linhas da distinção Lei-Evangelho.
Houve desenvolvimentos relativamente recentes na Teologia Clássica da Aliança, levados a efeito por pastores e teólogos Calvinistas e Presbiterianos. A Teologia Wesleyana da Aliança, uma variação da Teologia Clássica da Aliança, foi concebida por John Wesley, fundador do Metodismo.
Teologia Clássica
Meredith G. Kline fez um trabalho pioneiro no campo dos estudos Bíblicos, nos anos 1960 e 1970, a partir de trabalho prévio por George E. Mendenhall, buscando identificar a forma de Aliança com as políticas "Suserania - Vassalagem", os tratados do Antigo Oriente Próximo no 2.º milênio a.C. Um dos destaques de seu trabalho foi a comparação da Aliança Mosaica com o a fórmula do Tratado de Suserania Heteia. Uma comparação sugerida da estrutura do tratado com o livro de Deuteronômio é a seguinte: Kline argumentou que as comparações entre os tratados vassalo-suserano e as concessões reais do Antigo Oriente Médio fornecem ideias intuitivas (insights), ao destacarem certos aspectos distintivos da Aliança Mosaica como uma aliança legal, em contraste com as outras alianças históricos pós-queda. Muitos que adotaram as ideias de Kline ainda insistiram, no entanto, de acordo com a Confissão de Fé de Westminster, que a Aliança Mosaica foi, fundamentalmente, uma prévia administração da Aliança da Graça.
Teologia Wesleyana
O Metodismo mantém a estrutura da Teologia Clássica da Aliança, mas, sendo arminiana na soteriologia, rejeita, pois, o "modelo predestinacionista da teologia Reformada, que foi parte e parcela de seu desenvolvimento histórico" A principal diferença entre a Teologia Wesleyana da Aliança e a Teologia Clássica da Aliança é a seguinte: O ponto de divergência é a convicção de Wesley de que não apenas a inauguração da aliança da graça é coincidente com a queda, mas também o término da aliança das obras. Essa convicção é de suprema importância para Wesley ao facilitar uma adaptação arminiana da teologia da aliança - primeiro, reconfigurando o alcance da aliança da graça; e segundo, rejeitando qualquer noção de que há um revigoramento do pacto de obras após a queda.


