Alfarrábios
Alfarrábios: cronicas dos tempos coloniaes é uma trilogia de romances históricos do escritor brasileiro José de Alencar. Publicada em 1873, Alencar reuniu três histórias em dois volumes, dedicadas à vida no período colonial. No primeiro, veio O Garatuja romancete baseado num episódio narrado por Baltasar da Silva Lisboa, nos Anais do Rio de Janeiro; no segundo, duas novelas escritas ainda no tempo de estudante, A alma de Lázaro e O ermitão da Glória. O perfil e a história dos textos vêm descritos no texto de apresentação da coletânea, intitulado Cavaco.
O romance transcorre na “leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro em meados do século XVII (1659), quando a cidade sequer era capital, e tem por pano de fundo um conflito entre a Igreja (mais especificamente, o prelado Doutor Manuel de Sousa e Almada) e a administração colonial que resulta na excomunhão do ouvidor, gerando um grande "alvoroto" (alvoroço). O personagem central, Ivo do Val, é um enjeitado, “filho de criação” da “donzela recatada” Rosalina das Neves, que o teria “achado uma noite à porta da casa, onde morava então com sua família”, mas segundo as más línguas – das quais a mais ferina era da Pôncia, que gostava de “espreitar por detrás da rótula o que ia pela rua, para enredar os vizinhos e falar mal da vida alheia” – “fruto dos amores da donzela com um alferes”. Ivo recebe a alcunha de Garatuja devido à mania, como um precursor dos grafiteiros atuais, de “trocar as pernas pelas ruas de São Sebastião, e riscar toda a parede que lhe caía debaixo do carvão”.
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Uma história de fé, milagres e amor impossível que conta os antecedentes (romanceados) que levaram à construção da Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro. Transcorre em 1608, quando “a cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro tinha apenas trinta e três anos de existência” e os invasores franceses, embora expulsos, mantinham uma feitoria em Cabo Frio e ocasionalmente chegavam a “penetrar pela baía a dentro e bombardear o coração da cidade”. Conta a história do Senhor Aires de Lucena que, após dilapidar no jogo e nos amores a fortuna herdada do pai, um sargento-mor, recupera uma balandra (embarcação a vela) danificada de seu amigo de infância Duarte de Morais, parte para Cabo Frio para combater os “pechelingues” (piratas) sem esperar mais nada além de “uma morte gloriosa que legasse um triunfo à sua pátria” e acaba voltando trazendo consigo uma órfã bebê loira francesa cujo pai Aires matou em batalha e cuja mãe matou-se em seguida. Ao retornar, Aires entrega-a para ser criada pelo casal Duarte e Úrsula (“Roubei a essa inocente criança pai e mãe; quero reparar a orfandade a que voluntariamente a condenei”). Ela é batizada e recebe o nome de Maria da Glória “pela razão de a ter Aires salvado no dia daquela invocação”.
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O antigo diário de um lázaro (leproso), que jazia enterrado (por um pescador) por longas décadas, é redescoberto por um estudante em Olinda. Nesse diário o lázaro exprime sua alma, contrapondo-se ao seu corpo roído pela lepra, daí o título da obra. A segunda parte reproduz o próprio diário com as reflexões pungentes daquele “poeta desconhecido” que vivia como um [pária]], rejeitado pela sociedade. A certa altura, consola-se com sua fama: embora fujam dele, todos na cidade o conhecem, enquanto pessoas com muito mais méritos foram esquecidas: “Os feitos do guerreiro, os livros do sábio, serviços à republica, e linhagens de fidalgos, andam ignorados ou esquecidos pela turba, vária nas suas paixões. Ninguém sabe, ninguém lembra porque aquela cabeça encaneceu, porque aquela face rugou. E eu tenho, sem buscar, o que tanto eles buscam sem achar! Toda a cidade repete meu nome. Que importa que esse nome seja o de lazaro? Toda a gente me conhece. Que importa que me evite?” O lázaro procura aliviar suas dores contemplando uma inocente menina enquanto ela canta umas “endechas” à Virgem Maria e chega a se comunicar com ela: “A menina canta-as todas as noites, ao nascer da estrela d'alva. É uma Ave-Maria graciosa e pura; inspirou-a o amor filial santificado pela religião.” Mas acaba sendo descoberto e rechaçado.


