Isabel da Rússia
Isabel, Elizaveta, ou ainda, Elizabeth foi a Imperatriz da Rússia de 1741 até sua morte. Era filha do imperador Pedro I da Rússia com sua segunda esposa a imperatriz Catarina I da Rússia, tendo ascendido ao trono em um golpe de Estado contra seu primo distante Ivã VI da Rússia.
Isabel era a segunda filha do Imperador Pedro, o Grande e de Catarina I da Rússia. Seus pais casaram-se secretamente na Catedral da Divina Trindade, em São Petesburgo, em novembro de 1707. A cerimônia pública aconteceu em Fevereiro de 1712. Como o casamento de seus pais não havia sido reconhecido publicamente à época de seu nascimento, Isabel poderia ser considerada ilegítima por seus adversários políticos para contestar seu direito ao trono. Foi proclamada princesa em 6 de março de 1711 e Csesarevna em 23 de dezembro de 1721. Dos doze filhos de Pedro e Catarina, cinco meninos e sete meninas, apenas duas, Ana e Isabel, sobreviveram à infância. Sua irmã Ana Petrovna foi prometida a Carlos Frederico, Duque de Holsácia-Gottorp, sobrinho do rei Carlos XII da Suécia, antigo adversário de seu pai. Pedro também tentou encontrar um bom pretendente para Isabel na corte real francesa, quando visitou o país. Sua intenção era casar sua segunda filha com o jovem Luís XV de França, mas os Bourbon recusaram a oferta. Isabel foi então prometida ao príncipe Carlos Augusto de Holsácia-Gottorp. Politicamente era uma aliança útil e respeitável. Porém, poucos dias antes do noivado, Carlos Augusto morreu e, até a morte de Pedro, nenhum plano de casamento para Isabel havia se concretizado.
Durante o reinado de sua prima Ana (1730-1740) e a regência de Ana Leopoldovna (em nome do recém nato Ivã VI, um período marcado por altos impostos e problemas econômicos), Isabel procurou conquistar aliados nos bastidores da corte. O curso dos acontecimentos compeliram-na a derrubar o governo fraco e corrupto. Sendo filha de Pedro, o Grande, ela contava com grande apoio dos regimentos de guardas. Isabel visitava frequentemente esses regimentos, organizando eventos especiais com os oficiais e tornando-se madrinha de seus filhos. Sua bondade foi recompensada quando, na noite de 25 de novembro de 1741, Isabel assumiu o poder com a ajuda do Regimento Preobrazhensky. Chegando à sede do regimento, vestindo uma couraça de metal sobre seu vestido e segurando uma cruz de prata, ela declarou: Quem vocês querem servir: Eu, a soberana natural, ou aqueles que têm roubado a minha herança? De lá, as tropas marcharam para o Palácio de Inverno, onde prenderam o jovem czar, seus pais e seu próprio comandante, o Conde von Munnich. Foi um golpe ousado, que transcorreu sem derramamento de sangue. Isabel prometeu que, se fosse czarina, não assinaria uma única sentença de morte; uma promessa inusitada que ela, de forma notável, manteve ao longo de sua vida.
Após a substituição do sistema de conselho de ministros, favorável à czarina Ana da Rússia, pelo senado com chefes de departamento, como nos tempos de Pedro, o Grande, a primeira tarefa da nova soberana foi resolver a disputa com a Suécia. Em 23 de janeiro de 1743, iniciaram-se as negociações, que culminaram com o Tratado de Turku, firmado em 7 de agosto, onde a Suécia cedeu à Rússia toda a parte sul da Finlândia a leste do rio Kymmene que, posteriormente, tornou-se a fronteira entre os dois países. As disposições do tratado incluíam também as fortalezas de Villmanstrand e Fredricshamn. Esse triunfo pode ser creditado à habilidade diplomática do novo vice-chanceler, Alexey Bestuzhev-Ryumin. Mas, suas políticas teriam sido impossíveis sem o apoio de Isabel que, sabiamente, o colocou à frente das Relações Exteriores imediatamente após ter assumido o trono. Ele representou a parte anti franco-prussiana de seu conselho e seu objetivo era conseguir uma aliança anglo-austro-russa, algo que, na época, seria bastante vantajoso para a Rússia. Isso motivou a chamada Conspiração Lopukhina e outras tentativas de Frederico II da Prússia e Luís XV de França para se livrarem de Bestuzhev (fazendo da corte russa o centro de um emaranhado de intrigas durante os primeiros anos de reinado de Isabel).
Como soberana solteira e sem filhos, era imperativo que Isabel encontrasse um herdeiro legítimo que assegurasse a continuidade da dinastia Romanov. A escolha recaiu sobre seu sobrinho, Pedro de Holstein-Gottorp. Isabel estava muito consciente de que o deposto Ivã VI, a quem ela havia aprisionado na Fortaleza de Schlusselburg em confinamento solitário, ainda representava um grande perigo para seu trono. Ela temia um golpe de Estado em favor de Ivã e começou a destruir documentos, moedas e qualquer outra coisa que pudesse lembrar o czar deposto. Também emitiu uma ordem que determinava a eliminação imediata de Ivã à qualquer tentativa de fuga. Catarina II revalidou a ordem e, quando a tentativa de fuga concretizou-se, Ivã foi morto e enterrado secretamente dentro da própria fortaleza. O jovem Pedro perdeu a mãe, a grão-duquesa Ana, aos três meses de idade e o pai aos onze anos. Isabel convidou seu sobrinho a São Petersburgo, onde ele foi recebido na Igreja Ortodoxa e proclamado herdeiro em 17 de novembro de 1742. Foram providenciados tutores russos para cuidar da educação do futuro czar. Ansiosa por ver o futuro da dinastia assegurado, Isabel escolheu a princesa Sofia Friederica von Anhalt-Zerbst-Dornburg como noiva para seu sobrinho. Em sua conversão à Igreja Ortodoxa Russa, Sofia recebeu o nome de Catarina, em homenagem à mãe de Isabel. O casamento foi celebrado em 21 de agosto de 1745 e o herdeiro, futuro Paulo I, nasceria em 20 de setembro de 1754. Há especulações sobre a real paternidade de Paulo I. Sugere-se que ele não seria filho de Pedro III, mas de um jovem oficial chamado Serge Saltykov, com quem Catarina teria se envolvido com o consentimento de Isabel. De qualquer forma, Pedro nunca deu nenhuma indicação de que acreditasse que Paulo não era seu filho. Este, por sua vez, também não tinha nenhum interesse na paternidade. Entretanto Isabel tinha um grande interesse nisso, a ponto de retirar Paulo do convívio com a mãe para atuar, ela mesma, como mãe do herdeiro. A czarina ordenou que a parteira pegasse Paulo e a seguisse. Catarina não viu seu filho por mais de um mês, só tendo um breve contato com ele na cerimônia de batismo. Seis meses depois, Isabel permitiu que Catarina visse seu filho novamente. A criança havia se tornado uma extensão do Estado ou, num sentido mais amplo, uma propriedade do Estado. Em sua infinita capacidade de enganar-se consigo própria, Isabel acreditava que ele devia ser criado como um verdadeiro herdeiro e neto de seu pai, Pedro, o Grande.
O grande acontecimento dos últimos anos de reinado de Isabel foi a Guerra dos Sete Anos. Ela considerava o Tratado de Westminster, de 17 de janeiro de 1756 (onde a Grã-Bretanha aliou-se à Prússia com o objetivo único de defender o Eleitorado de Hanôver), como totalmente subversiva às convenções anteriores entre Grã-Bretanha e Rússia. Ademais, a oposição de Isabel à Prússia também residia na antipatia pessoal que a czarina nutria por Frederico II. Ela desejava mantê-lo dentro dos limites adequados, para que deixasse de representar um perigo para o Império. Em 1 de maio de 1757, a Rússia aderiu ao Tratado de Versalhes, aliando-se à França e à Áustria contra a Prússia. Em 17 de maio, o exército russo, com 85 mil homens, avançou contra Königsberg. Nem a doença grave da czarina, que começou com um desmaio em Tsarskoye Selo (19 de setembro de 1757), nem a queda de Bestuzhev (14 de fevereiro de 1758), nem as intrigas dos vários poderes estrangeiros em São Petersburgo, interferiram com o progresso da guerra e a esmagadora derrota na Batalha de Kunersdorf (12 de agosto de 1759) finalmente levou Frederico à beira da ruína. Daquele dia em diante ele entrou em desespero, embora tenha se beneficiado dos ciúmes entre comandantes russos e austríacos, que terminaram por arruinar os planos militares dos aliados.
Sob o reinado de Isabel, a francófila corte russa foi uma das mais belas de toda a Europa. Os estrangeiros ficavam surpresos com o puro luxo dos bailes suntuosos e de máscaras. A czarina orgulhava-se de suas habilidades como dançarina e usava os vestidos mais requintados. Ela emitiu decretos que regulavam os estilos das roupas e enfeites usados pelos cortesãos. Ninguém foi autorizado a ter o mesmo penteado que a soberana. Isabel possuía quinze mil vestidos de baile, vários milhares de pares de sapatos, bem como um número ilimitado de meias de seda. Apesar de seu amor pela corte, Isabel era profundamente religiosa. Ela visitou conventos e igrejas e passava longas horas na igreja. Quando solicitada a assinar uma lei de dessacralização das terras da igreja, ela disse: Façam o que quiserem depois da minha morte. Eu não vou assinar isto. Todos os livros estrangeiros tinham que ser aprovados pelo censor da igreja. Vasily Klyuchevsky a chamou de gentil e inteligente, mas desordenada mulher russa que combinava as novas tendências europeias com 'devotas tradições' nacionais.
No final de 1750, a saúde de Isabel começou a degenerar-se. Passou a sofrer uma série de tonturas e recusou-se a tomar os medicamentos prescritos, mas proibiu a palavra "morte" em sua presença. Sabendo que estava morrendo, Isabel usou suas últimas forças restantes para fazer a sua confissão, recitar com seu confessor a oração dos moribundos e dizer adeus às poucas pessoas que desejava ter junto a ela, incluindo Pedro e Catarina e os condes Alexey e Kirill Razumovsky. Finalmente, em 25 de dezembro de 1761, a czarina morreu. Ela foi sepultada na Catedral de São Pedro e São Paulo em São Petersburgo, em 3 de fevereiro de 1762, após seis semanas de ritos fúnebres.


