Alexandre da Etiópia
Alexandre, entronizado como imperador Constantino II da Etiópia e membro da dinastia salomónica, foi filho do imperador Baida-Mariam I e da rainha Romna. Seu reinado é notável por ter sido o período em que Pêro da Covilhã, o primeiro português a estabelecer contato com o império etíope na busca pelo Preste João, foi recebido em sua corte. A ascensão de Alexandre ao trono ocorreu em tenra idade, marcando um período de regência e intrigas políticas.
Pontos-chave
- Alexandre ascendeu ao trono etíope aos sete anos, sendo Constantino II da dinastia salomónica.
- Seu reinado foi marcado por uma regência complexa e intrigas palacianas, lideradas inicialmente por sua mãe e depois pela rainha-mãe Eleni.
- O principal feito militar de Alexandre foi o saque de Dacar, capital do Sultanato de Adal, em 1478.
- A presença europeia na Etiópia era notável durante seu reinado, com italianos já estabelecidos na corte.
- Pêro da Covilhã, o primeiro português a chegar à Etiópia, foi recebido na corte de Alexandre, mas impedido de retornar a Portugal.
Alexandre subiu ao trono com apenas sete anos após a morte de seu pai, o imperador Baida-Mariam I. Devido à sua pouca idade, um conselho de regência foi estabelecido, composto por sua mãe, a rainha Romna, o abade Tasfa Jorge e o bitwoded Ámeda Micael. Contudo, a rainha Romna logo se retirou para um convento, e o abade Tasfa Jorge mostrou-se incapaz de conter o poder de Ámeda Micael, que governou o reino com grande autonomia. A regência de Ámeda Micael terminou por volta de 1486, quando um golpe palaciano, orquestrado pela rainha-mãe Eleni (uma das viúvas do pai de Alexandre), depôs a junta e executou Ámeda Micael. A partir desse momento, a rainha Eleni assumiu a liderança do governo e a orientação dos assuntos do jovem imperador.
Imagem: Senado Federal · BY · Openverse
Logo após assumir a governação, Alexandre empreendeu uma ação de retaliação contra as incursões do vizinho Sultanato de Adal. Em 1478, no que seria o principal feito de seu reinado, ele saqueou Dacar, a capital do Sultanato de Adal. Apesar dessa vitória, no caminho de volta à Etiópia, uma força mais poderosa, comandada pelo emir Maomé ibne Azaradim, atacou o exército etíope, resultando em muitas mortes e aprisionamentos. A lenda narra que Alexandre escapou da captura com a ajuda de anjos, o que o levou a construir uma igreja chamada Debere Meshwa'e, ou 'Lugar de Sacrifício'. O contexto desta campanha é complexo: enquanto Zasilus, governador de Amara, mobilizava forças no sul, Alexandre fazia o mesmo em Angote e Tigré, decidindo responder aos ataques de Mafuz de Zeilá. Historiadores recentes sugerem que o saque de Dacar por Alexandre pode ter levado o emir Muhammad a buscar negociações de paz com a Etiópia, mas foi superado por Mafuz, que discordava da necessidade de paz.
A morte prematura de Alexandre desencadeou imediatamente uma guerra civil. Enquanto a corte tentava manter o falecimento em segredo, o governador Zasilus de Amara marchou com suas tropas até a prisão real de Amba Geshen. Lá, ele libertou Naode, meio-irmão de Alexandre que estava detido, e o aclamou como o novo imperador. Contudo, outro nobre, Tacla Cristo, que permaneceu na corte imperial, defendeu que a sucessão deveria caber ao filho de Alexandre, uma criança chamada Ámeda-Sion. Embora as forças leais a Tacla Cristo tenham derrotado os apoiantes de Zasilus, a guerra civil persistiu em várias partes do império. A vitória dos apoiantes de Ámeda-Sion, que reinou como Ámeda-Sion II, foi de curta duração. Naode se tornaria imperador apenas seis meses depois, pois a luta culminou com a morte do imperador-criança, que tinha cerca de sete anos de idade na época.
Durante o reinado de Alexandre, a presença europeia na Etiópia já era notável. Um manuscrito de Francesco Suriano, datado de 1482, descreve a existência de dez italianos de boa reputação vivendo na corte de Alexandre, alguns há mais de 25 anos. Suriano acrescenta que, desde 1480, mais sete italianos haviam partido para a corte etíope. Eles buscavam riquezas, mas o imperador impedia seu retorno, o que os mantinha insatisfeitos, embora recebessem recompensas conforme seus méritos. Foi também durante o reinado de Alexandre que Pêro da Covilhã chegou à Etiópia, tornando-se o primeiro explorador português conhecido a visitar a região. Apesar de se apresentar como enviado do rei D. João II de Portugal, Covilhã, assim como os outros europeus, foi impedido de regressar e obrigado a fixar-se no país, onde se casou e teve descendência. Ele assumiu funções de conselheiro da corte, chegando a aconselhar a rainha Eleni a buscar ajuda portuguesa quando o império foi ameaçado por seus vizinhos muçulmanos.


