Reino Suevo
O Reino Suevo, também denominado Reino da Galécia, foi um reino germânico pós-romano que existiu no noroeste da Península Ibérica entre o ano 411 e 585 e um dos primeiros reinos a separar-se do Império Romano. O reino foi fundado pelos Suevos, um povo de origem germânica que, no ano 409, invadiu a Península Ibérica juntamente com os Vândalos e os Alanos. Tendo ocupado inicialmente as regiões costeiras das províncias romanas da Galécia e do norte da Lusitânia e estabelecido a capital em Braga, o reino manteve a sua independência até 585, data em que foi anexado pelos Visigodos e convertido na sexta província do Reino Visigótico.
A Galécia e o norte da Lusitânia eram províncias remotas do Império Romano. Ao contrário de outros povos bárbaros, como os Vândalos, os Visigodos, os Ostrogodos ou os Hunos, que tiveram um papel importante na perda das províncias ocidentais de Roma, os Suevos praticamente não constituíam uma ameaça para os interesses de Roma. Ao longo da sua história enquanto nação independente, os Suevos mantiveram uma atividade diplomática significativa, principalmente com o Império Romano do Ocidente, com os Vândalos, Visigodos e, mais tarde, com os Francos. Em 1 de maio de 561, o rei Ariamiro, no terceiro ano de reinado, convocou o Primeiro Concílio de Braga, sendo denominado nas atas por "glorioso rei". Tendo sido o primeiro Concílio Católico realizado no reino, foi na sua maioria dedicado à condenação do Priscilianismo, nunca mencionando o Arianismo, e condenando uma única vez os clérigos por adornarem o vestuário com granos, um termo germânico para trança, barba comprida, bigode ou nó suevo, um costume declarado pagão.
Origem e migração dos Suevos
Pouco se conhece sobre os Suevos que na noite de 31 de dezembro de 406 atravessaram o Reno para ocupar o Império Romano. Especula-se que estes Suevos sejam o mesmo grupo que alguns registos da época mencionam como Quados, povos que viviam a norte do Danúbio no território que é hoje a Áustria oriental e e a Eslováquia ocidental. Este povo desempenhou um papel significativo nas guerras marcomanas do século II quando, em conjunto com os Marcomanos, lutaram contra as forças romanas comandadas pelo imperador Marco Aurélio. A principal razão para associar os Suevos e os Quados no mesmo grupo tem origem numa carta escrita por Jerónimo de Estridão que lista os invasores que em 406 atravessaram a Gália, na qual lista os Quados, mas não os Suevos. No entanto, o argumento para esta teoria baseia-se apenas no desaparecimento da menção aos Quados e na emergência dos Suevos, e contrasta com o testemunho de outros autores contemporâneos, como Orósio, que cita os Suevos entre os povos que atravessaram o Reno em 406, a par dos Quados, Marcomanos, Vândalos e Sármatas.[a]
Fundação do Reino Suevo (409-416)
A guerra civil que irrompeu na Península Ibérica entre as forças de Constantino e Gerôncio deixou as passagens pelos Pirenéus propositada ou inadvertidamente negligenciadas, tornando a Gália do sul e a Península Ibérica vulneráveis a uma eventual invasão bárbara. Idácio de Chaves documenta que a travessia dos Vândalos, Alanos e Suevos para a Península Ibérica teve lugar ou a 28 de setembro ou a 12 de outubro de 409. Alguns historiadores assumem que as duas datas correspondem ao princípio e ao fim da travessia dos Pirenéus, uma vez que não seria possível para um grupo de milhares de pessoas atravessar uma barreira de tal magnitude em apenas 24 horas. Idácio escreve ainda que, após entrarem na Hispânia, os povos bárbaros e os próprios soldados romanos passaram os anos de 409 e 410 a pilhar comida e valores das cidades. Este processo causou uma fome generalizada que, ainda segundo Idácio, forçou os locais ao canibalismo.
Consolidação e expansão territorial (416-448)
Em 416, os Visigodos entram na Península Ibérica, enviados pelo imperador ocidental para combater os bárbaros que aí chegaram em 409. Por volta de 418, os Visigodos, liderados pelo rei Vália, tinham devastado os Vândalos Silingos e os Alanos. De parte desta campanha ficaram os Vândalos Asdingos e os Suevos, que permaneceram as duas restantes forças na Península. Em 419, depois da partida de Vália para o território da Aquitânia, irrompeu um conflito entre os Vândalos, liderados pelo rei Gunderico, e os Suevos, liderados pelo rei Hermerico. Os dois exércitos defrontaram-se na Batalha dos montes Nervasos, mas a intervenção das forças romanas comandadas pelo general Astério foi decisiva no conflito, atacando os Vândalos e forçando-os a deslocar-se para sul, na atual Andaluzia, o que deixou toda a Galécia praticamente na posse dos Suevos. O restante reinado de Hermerico foi dedicado à consolidação do governo Suevo na província da Galécia. Em 430 rompeu com a paz mantida com os povos locais, pilhando a Galécia central e forçando os galécios, pouco romanizados, a ocupar os antigos castros da Idade do Ferro. Embora tenha sido estabelecida uma nova paz, firmada com a troca de prisioneiros, em 431 e 433 surgiram novos focos de conflito. Em 438, Hermerico adoece. Tendo anexado ao seu reino a totalidade da antiga província romana da Galécia, estabeleceu a paz com a população local e abdicou do trono dos Suevos em favor do seu filho Réquila.
Reinado de Requiário I (448-456)
Em 448, Réquila morre, deixando o trono suevo ao seu filho Requiário I. Ao contrário do seu pai, pagão, Requiário foi um dos primeiros reis Cristãos entre os povos germânicos e o primeiro a cunhar moedas em seu nome. Alguns historiadores acreditam que a cunhagem é um sinal claro da autonomia do reino Suevo, uma vez que na fase final do império a cunhagem de moeda própria está associada à declaração de independência. Com a pretensão de dar continuidade às carreiras do pai e do avô, Requiário deu início a uma série de manobras políticas ambiciosas no reino. A primeira foi o seu casamento com a filha do rei Godo Teodorico I em 448, de modo a estreitar os laços políticos entre os dois povos. Também liderou uma série de pilhagens na Vascónia, Saragoça e Lérida, na Hispânia Tarraconense, que à data ainda se encontrava sob domínio de Roma. Estas pilhagens eram muitas vezes realizadas em coligação com os Bagaudas, insurgentes hispano-romanos locais. Em Lérida chegou a capturar prisioneiros, que foram levados como servos para as províncias suevas da Galécia e da Lusitânia.
Crise de sucessão e guerra civil (456–470)
Quando os Visigodos executaram Requiário, desapareceu também a linha de sucessão dinástica. Em 456, um rei obscuro de nome Agiulfo assumiu a liderança dos Suevos. A origem da sua ascensão não é clara. Idácio menciona que se tratava de um desertor Godo, enquanto Jordanes afirma que foi um Varno apontado por Teodorico para governar a Galécia, mas que foi persuadido pelos Suevos. Agiulfo foi morto no Porto em junho de 457, mas a sua rebelião, a par das ofensivas do imperador Majoriano contra os Visigodos, aliviaram a pressão sobre os Suevos. Ainda em 456, no mesmo ano da execução de Requiário, Idácio afirma que os Suevos escolheram Maldras para seu rei. Esta afirmação sugere que o povo Suevo pode ter tido influência na seleção do novo monarca. No entanto, a eleição de Maldras provocou uma divisão profunda entre os Suevos. Uma parte significativa da população sueva a norte não aceitou a eleição de Maldras e elegeu outro pretendente, denominado Frantano. É provável que esta fosse a mesma facção que anteriormente tinha apoiado Agiulfo.
Período ariano ou período obscuro (470-550)
Pouco se sabe sobre o período entre 470 e 550 para além do testemunho de Isidoro de Sevilha que, no século VII, mencionou que durante este intervalo reinaram vários monarcas, todos eles arianos. Um documento medieval pouco confiável denominado Divisão de Vamba (Divisio Wambae) menciona um rei desconhecido denominado Teodemundo. Outras crónicas menos fidedignas e posteriores mencionam vários reis sob os nomes Hermenerico II, Riciliano e Requiário II. De maior confiança é uma inscrição encontrada em Portugal, que regista a fundação de uma igreja por uma freira em 535, sob o domínio do rei Veremundo, o qual é mencionado como "sereníssimo rei Veremundo", embora esta inscrição também possa ser atribuída ao rei Bermudo II de Leão. Numa carta escrita pelo Papa Vigílio ao bispo Profuturo de Braga, datada por volta do ano 540, é mencionado que alguns católicos se tinham convertido ao arianismo e que algumas igrejas católicas tinham sido demolidas em circunstâncias desconhecidas.
A Igreja Cristã estava implantada no noroeste peninsular desde o século III. Os Suevos, de religião ariana, estabeleceram uma relação de distanciamento em relação à Igreja, o que lhe permitiu ter uma certa autonomia, embora com algumas dificuldades. Apesar de nem todas as atividades eclesiásticas terem sido interrompidas, aumentaram as práticas pagãs entre a população autóctone, a disciplina eclesiástica foi diminuindo e os clérigos desqualificados. Por outro lado, a Igreja não se intrometia em questões políticas da monarquia, que possuía um carácter vincadamente militar. É provável que a maioria dos Suevos se tenha mantido pagã até ao fim do século V. Em 466, um missionário ariano de nome Ájax, enviado pelo rei visigótico Teodorico II, converteu a maioria dos suevos e fundou uma igreja ariana que dominou a região até à sua conversão para o catolicismo na década de 560. A partir de meados do século VI inicia-se um processo de conversão dos suevos ao Cristianismo e consequente aproximação entre as autoridades religiosas e políticas. A conversão favoreceu não só a coesão interna do reino, entre os conquistadores suevos e a população autóctone, como também as relações externas, proporcionando uma maior aproximação aos Reino Franco e ao Império Bizantino, o que lhes permitiu uma maior autonomia em relação aos visigodos. A política de favorecimento da Igreja, adotada pelos reis suevos a partir deste século, permitiu a realização de vários concílios, o investimento na organização interna da Igreja e a fundação de uma grande quantidade de mosteiros.
Conversão ao catolicismo
As fontes primárias apresentam a conversão dos suevos ao cristianismo de forma bastante diferente. Um dos registos da época, as minutas do Primeiro Concílio de Braga, que teve lugar em 1 de maio de 561, afirmam explicitamente que o sínodo foi realizado sob as ordens do rei Ariamiro. Embora não haja dúvidas de que Ariamiro tenha sido católico, tem sido contestada a alegação de que se trata do primeiro monarca católico suevo desde Requiário, uma vez que as minutas não citam explicitamente esse facto. No entanto, foi o primeiro rei a realizar um sínodo católico. Por outro lado, a Historia de regibus Gothorum, Vandalorum et Suevorum de Isidoro de Sevilha afirma que foi Teodemiro que realizou a conversão do seu povo com a ajuda do missionário São Martinho de Dume. E de acordo com o historiador franco Gregório de Tours, teria sido o rei Carriarico, uma figura de que não existem outros registos, que após ter ouvido falar de Martinho de Tours jurou converter-se ao catolicismo se o seu filho fosse curado da lepra. Tendo o seu filho sido alegadamente curado, a corte ter-se-á convertido ao Credo Niceno. No entanto, como esta lenda faz coincidir a conversão de Carriarico com a chegada de Martinho de Dume, por volta de 550, esta narração tem sido interpretada enquanto alegoria da obra pastoral de Martinho de Dume e da sua devoção a Martinho de Tours. Finalmente, segundo o cronista visigodo e católico João de Biclaro, a conversão Sueva só ocorreu muito mais tarde, quando o Reino Suevo já estava em processo de integração com o Reino Visigótico, após a morte de Leovigildo em 586. Teria sido o seu filho e sucessor, Recaredo I (r. 586-601), a adotar o catolicismo, tendo a maior parte do clero ariano sido convertida no ano seguinte. Para assinalar a conversão definitiva dos Visigodos à fé católica, foi convocado o Terceiro Concílio de Toledo em 589.
Devido ao seu relativo isolamento e afastamento, as fontes sobre os Suevos são escassas. Os períodos em que se conhece a sua história de forma mais detalhada e através de diversas de fontes coincidem com os períodos em que Suevos se tornam uma ameaça para Roma, como durante a expansão de Réquila e durante o reinado de Miro, no último terço do século VI, quando se encontrava coligado com outros reinos católicos, como os Francos e os Bizantinos, no apoio a Hermenegildo contra o rei visigótico Leovigildo.
Idácio de Chaves
A fonte mais importante para a história dos Suevos durante o século V é a crónica escrita pelo bispo Idácio de Chaves em 470, a qual é uma continuação da crónica de São Jerónimo. Idácio nasceu por volta do ano 400 na cidade de Chaves, na região dos Límicos no vale do rio Lima. Idácio testemunhou a fixação dos povos Suevos na Península em 409, e a passagem da Galécia de província romana para um reino bárbaro independente. Embora durante grande parte da vida tenha sido forçado a permanecer em comunidades romanas isoladas, sob ameaça constante dos Suevos e dos Vândalos, sabe-se que em diversas ocasiões viajou para fora da Hispânia, como embaixador ou com o intuito de aprendizagem, e que mantinha correspondência com outros bispos. Em 460 foi capturado pelo senhor da guerra suevo Frumário, acusado de traição por vários locais. Depois de preso durante três meses, enquanto os Suevos pilhavam a região de Chaves, foi libertado ileso. A Crónica de Idácio, embora pretenda ser universal, vai-se tornando progressivamente numa história local. Acompanhando os assentamentos bárbaros, relata o conflito entre as diversas nações e os conflitos frequentes entre os Suevos os os Galécios locais pouco romanizados, o declínio do poder romano na Hispânia, a expansão dos Suevos a sul e a leste, a sua derrota contra os Visigodos, a reconstrução do reino sob Remismundo e a conversão ao Arianismo. Embora seja considerado um historiador importante, a sua narrativa é por vezes obscura e feita do ponto de vista de um estrangeiro que considerava os suevos saqueadores sem lei. Muitas vezes não oferece qualquer explicação para as decisões dos movimentos suevos e menciona apenas o que os Suevos fizeram, mas raramente com que objetivo.
Paulo Orósio
Outra fonte importante para a história dos Suevos durante a fase de estabelecimento é o Livro 7 das Histórias Contra os Pagãos do historiador Paulo Orósio.<re name=oros7/> Este autor deixa transparecer uma imagem bastante diferente da conquista dos Suevos e dos Vândalos e menos catastrófica do que aquela narrada por Idácio. Na sua narrativa, após uma entrada violenta nas Hispânias, os Suevos e Vândalos são descritos como um povo pacífico de camponeses e guardiões, aos quais se juntaram os locais que procuravam escapar aos impostos e imposições romanas. No entanto, e como tem sido salientado, a sua descrição é influenciada pela sua agenda, uma vez que no livro tentava desculpar a cristandade da queda e decadência de Roma.
Gregório de Tours e Martinho de Dume
O conflito entre Vândalos e Suevos também é narrado por Gregório de Tours que, no século VI, narrou o bloqueio, a morte de Gunderico em circunstâncias misteriosas, a resolução do conflito num duelo e a retirada forçada dos Vândalos para a Galécia. Entre os Vândalos, a narrativa era diferente, uma vez que Procópio de Cesareia escreveu que na sua tradição o rei Gunderico foi capturado e empalado por germânicos em Espanha. O final da Crónica de Idácio, em 469, marca o início de um período obscuro e sem fontes na história dos Suevos, que só voltaria a ver luz em meados do século VI, data em que existem novamente bastantes fontes. Entre estas, as mais notáveis são as obras do panoniano São Martinho de Dume e do franco Gregório de Tours. Nos "Milagres de São Martinho", Gregório narra e atribui a conversão de Carriarico ao catolicismo a um milagre de São Martinho de Tours, enquanto na "História dos Francos" dedica vários capítulos às relações entre Suevos, Visigodos e Francos e ao fim da independência dos Suevos, anexados pelos Visigodos em 585.
João de Biclaro e Isidoro de Sevilha
Também importante é a Chronica escrita pelo visigodo João de Biclaro por volta de 590. Embora provavelmente parcial, a sua narração é um dado precioso para os últimos quinze anos de independência dos Suevos e para os primeiros anos sob domínio visigótico. Também de grande interesse é a história escrita por Isidoro de Sevilha. Isidoro baseou-se nos relatos de Idácio de Chaves e na Crónica de João de Biclaro para compilar a história dos Suevos na Hispânia. A controvérsia em torno da historiografia de Isidoro centra-se nas suas omissões e acrescentos, que muitos historiadores e investigadores consideram bastante numerosas para serem apenas erros. Ao longo da "História dos Reis dos Godos, Vândalos e Suevos", alguns detalhes de Idácio são inclusivamente alterados. Muitos historiadores atribuem estas alterações ao facto de Isidoro poder ter tido disponíveis outras fontes para além de Idácio.
Uma vez que os Suevos rapidamente adotaram o latim vulgar em uso na Península Ibérica, são hoje em dia poucos os vestígios de língua germânica nas línguas galega e portuguesa. É difícil fazer uma distinção entre empréstimos linguísticos godos ou suevos, embora existam uma série de palavras características da Galiza e do norte de Portugal que são atribuídas aos Suevos ou aos Godos, embora não se conheça qualquer imigração visigótica para a Galiza anterior ao século VIII. Estas palavras são de natureza essencialmente rural e relativas a animais, agricultura e à vida no campo. Entre alguns exemplos: laverca (do proto-germânico *laiwazikōn); brita (de *breutanan", "partir"), marco (do proto-germânico *markan – "fonteira", "limite"), maga e esmagar (do proto-germânico *magōn – "estômago"); brêtema, bruma (do proto-germânico *breþmaz – "vapor", "respiração"); gabar; fita; ou sá (do proto-germânico *salaz – "origem", geração, casa").


