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Arau-gigante

Arau-gigante ou alca-gigante é uma espécie extinta de ave da família dos alcídeos que vivia no Atlântico Norte. Seu território original compreendia uma vasta região do Canadá a Noruega, incluindo a Islândia, ilhas Britânicas, França e norte da Espanha. Incapaz de voar, passava a maior parte da vida na água, de onde saía apenas na época do acasalamento. Formava grandes colônias em ilhas rochosas isoladas, com fácil acesso ao mar e alimento em abundância por perto. Poucos locais preenchiam esses requisitos, de modo que a ave, provavelmente, nunca teve mais que vinte colônias de reprodução, das quais apenas seis são conhecidas. Durante o inverno migrava para o sul, aos pares ou em pequenos grupos.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 31/07/2026
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Etimologia

Em português, a ave é conhecida popularmente como arau-gigante, torda-grande, pega-gigante, e alca-gigante. Na língua irlandesa é chamado falcóg mhór, que significa "grande ave marinha". Em basco seu nome é arponaz ("bico de lança"), em francês antigo apponatz, e em inglês great auk. Os viquingues o chamavam de geirfugl ("ave com lança"); para os inuítes era isarukitsok ("pequena asa"). A palavra "pingouin" aparece pela primeira vez no século XVI como sinônimo de arau-gigante. Crê-se que a mesma possa ter derivado do galês pen gwyn ("cabeça branca"), embora a etimologia ainda seja controversa. Quando os exploradores europeus chegaram ao Hemisfério Sul, repararam nas aves hoje conhecidas como pinguins e, notando a sua aparência similar ao arau-gigante, deram-lhes esse nome (pinguim), que ainda persiste até à atualidade. Apesar de parecidos, os araus e os pinguins não têm nenhum parentesco próximo e nem sequer pertencem à mesma ordem de aves.

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Taxonomia e evolução

A espécie foi descrita cientificamente pela primeira vez em 1735 pelo naturalista sueco Carlos Lineu, o "pai da taxonomia". A ave foi um dos 4 400 animais descritos na obra Systema Naturae, recebendo o nome Alca impennis. Alca é um termo latino derivado de palavras escandinavas para os diversos tipos de tordas (alk, alka, alke). Mais tarde, em 1791, a espécie foi alocada em seu próprio gênero, Pinguinus, que é derivado dos nomes antigos em espanhol e português para a espécie (pinguim). O epíteto específico impennis vem do latim e é uma referência à falta de penas de voo. A análise das sequências de DNA mitocondrial confirmou os estudos morfológicos e biogeográficos que apontavam a torda-mergulheira (Alca torda) como o "primo" vivo mais próximo do arau-gigante. Graças às semelhanças físicas entre essas espécies, e apesar do tamanho menor e da habilidade de voar da torda-mergulheira, o arau-gigante foi diversas vezes classificado no gênero Alca, inclusive por Lineu. O animal também está intimamente relacionado com a torda-anã (Alle alle), que passou por um processo evolutivo radicalmente diferente; ficando menor e se especializando em comer plâncton.

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Descrição

Um arau-gigante adulto pesava 5 kg e, de pé, atingia 75 a 85 centímetros de altura. Foi o segundo maior membro da família dos alcídeos e também da ordem Charadriiformes, sendo superado apenas pelo Miomancalla howardi. Os araus que viviam mais ao norte tinham, em média, tamanhos maiores que os do sul. Machos e fêmeas possuíam plumagens parecidas, embora haja evidência de diferenças de tamanho, especialmente no comprimento do bico e do fêmur. A traseira era predominantemente preta brilhante, e o estômago branco. O pescoço e pernas eram curtas, e a cabeça e as asas pequenas. O arau parecia rechonchudo devido a uma espessa camada de gordura, necessária para evitar a perda de calor. Durante o verão, a ave desenvolvia um amplo tapa-olho branco sobre o olho, o qual tinha uma íris cor de avelã ou acastanhada. Já no inverno, ocorria a muda das penas e ele perdia o tapa-olho, que era substituído por uma grande faixa branca e uma linha de penas cinzas que se estendia dos olhos aos ouvidos. No verão, o queixo e o pescoço do arau eram castanho-escuros, e o interior da boca amarelo. No inverno, a garganta ficava branca. Alguns indivíduos tinham uma plumagem cinza em seus flancos, mas o propósito desta característica ainda é desconhecido. Seu grande bico media 11 centímetros de comprimento e a parte de cima era curvada para baixo; o bico tinha ainda sulcos brancos profundos em ambas as mandíbulas, até sete na mandíbula superior e doze na mandíbula inferior no verão, sendo que havia menos no inverno. As asas tinham apenas 15 cm de comprimento e as maiores penas das asas apenas 10 cm. Seus pés e suas garras curtas eram pretos, enquanto a membrana entre os dedos era preto-acastanhada. As pernas estavam na extremidade traseira do corpo da ave, o que proporcionava um nado poderoso e muita habilidade durante o mergulho.

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Distribuição e habitat

O arau-gigante vivia nas frias águas costeiras do Atlântico Norte ao longo dos litorais do Canadá, nordeste dos Estados Unidos, Noruega, Groenlândia, Islândia, Ilhas Faroé, Irlanda, Grã-Bretanha, França e norte da Espanha. A ave saía da água e ia para a terra firme somente para procriar, inclusive repousava no mar quando não estava em época de reprodução. As colônias da espécie se localizavam desde a baía de Baffin e o golfo de São Lourenço no Canadá, atravessando todo o extremo norte do Atlântico, incluindo a Islândia e as ilhas Britânicas, até a Noruega. Para servir como local adequado de nidificação, era preciso que as ilhas rochosas tivessem praias com declive a fim de facilitar o acesso ao mar. Tais exigências eram muito limitantes e acredita-se que a ave nunca teve mais que 20 colônias de reprodução. O lugar para procriar também precisava estar perto de áreas ricas em alimento e ser longe o suficiente do continente para desencorajar a visitação por seres humanos e ursos polares. São conhecidos os locais de apenas seis ex-colônias de reprodução: Papa Westray nas ilhas Órcades, Saint Kilda na costa da Escócia, ilhas Grímsey e Eldey próximas a Islândia, ilha Funk em Terra Nova, e a ilha Madalena no golfo de São Lourenço. Os registros sugerem que esta espécie pode ter se reproduzido também no cabo Cod, em Massachusetts. Do final do século XVIII ao início do século XIX, a área de reprodução do arau-gigante estava restrita às ilhas Funk, Grímsey, Eldey, Saint Kilda, e ao golfo de São Lourenço. A ilha Funk abrigou a maior colônia conhecida.

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Ecologia e comportamento

O arau-gigante nunca foi observado nem descrito por cientistas modernos durante a sua existência. Praticamente tudo que se sabe hoje sobre seu comportamento é baseado em relatos de pessoas leigas, a exemplo dos marinheiros. Mas muita coisa também pode ser inferida a partir do seu "primo" vivo mais próximo, a torda-mergulheira, bem como do que restou de seus tecidos moles. Eles caminhavam lentamente e às vezes usavam as asas para ajudá-los a atravessar terrenos acidentados. Quando corriam, eram desajeitados e com passos curtos em linha reta. Eles tinham poucos predadores naturais: seus maiores inimigos eram grandes mamíferos marinhos, como a orca, e a águia-rabalva. Ursos polares também predavam suas colônias de nidificação. O arau-gigante não tinha medo inato dos seres humanos, e sua incapacidade de voar e dificuldade de se locomover em terra agravavam a sua vulnerabilidade. Eles foram caçados por sua carne, penas, e como espécimes de museus e coleções particulares. Reagiam a ruídos, mas raramente se assustavam com a visão de alguma coisa. Usavam o bico de forma agressiva tanto nos locais de nidificação mais apinhados como quando ameaçados ou capturados por humanos. Acredita-se que viviam cerca de 20 a 25 anos. Durante o inverno, o arau-gigante migrava para o sul, quer em pares ou em pequenos grupos, e nunca com toda a colônia de nidificação.

Dieta

Normalmente se alimentava em águas pouco profundas, as quais eram mais rasas do que aquelas frequentadas por outros alcídeos, embora após a estação reprodutiva tenham sido avistados a até 500 km do litoral. Acredita-se que se alimentava cooperativamente em bandos. Sua dieta era composta principalmente por peixes, geralmente os que mediam de 12 a 20 cm de comprimento e pesavam 40 a 50 gramas, mas ocasionalmente suas presas tinham até a metade do comprimento da ave. Com base em resquícios relacionados a ossos de araus-gigantes encontrados na ilha Funk, e levando em consideração aspectos ecológicos e morfológicos, aparentemente as espécies de peixes Brevoortia tyrannus e Mallotus villosus eram suas presas favoritas. Outros alimentos apontados como potenciais itens do "cardápio" do arau incluem os ciclopterídeos, Myoxocephalus scorpius, bacalhaus, crustáceos e amoditídeos. Acredita-se que os filhotes comiam plâncton e, possivelmente, peixes e crustáceos regurgitados pelos adultos.

Reprodução

Descrições históricas sobre o comportamento reprodutivo do arau-gigante são pouco fiáveis. A ave começava a formar pares no começo a meados de maio. Acredita-se que era monogâmica, embora alguns teorizam que possam ter se acasalado com outros indivíduos além de seu par, um comportamento visto na torda-mergulheira. Após encontrar seu parceiro, construíam o ninho na base de penhascos nas colônias, onde provavelmente ocorria o acasalamento. Os casais tinham um comportamento de exibição social, no qual eles balançavam as cabeças, mostrando a mancha branca dos olhos, as marcas do bico e a boca amarela. As colônias tinham uma densidade populacional bastante elevada, algumas estimativas chegam a apontar que havia um ninho em cada metro quadrado de terreno. Estas colônias eram muito sociais. Quando existia outras espécies de alcídeos no local, os arau-gigantes dominavam devido ao seu tamanho.

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Relação com humanos

O arau-gigante era uma fonte de alimento para os neandertais há mais de 100 mil anos, conforme evidenciado por ossos bem limpos da ave encontrados nas fogueiras de seus acampamentos. Imagens que os cientistas acreditam retratar o arau-gigante também foram esculpidas nas paredes da caverna de El Pendo, na Espanha, há mais de 35 mil anos, e pinturas rupestres de 20 mil anos de idade foram encontradas na caverna de Cosquer, na França. Os nativos americanos valorizavam o arau-gigante como fonte de alimento durante o inverno e como um importante símbolo. Imagens da ave foram encontradas em colares de ossos. Uma pessoa enterrada num sítio do Arcaico Marítimo em Port au Choix, Terra Nova, que data de cerca de 2.000 a.C., foi encontrada rodeada por mais de 200 bicos de arau-gigante, que se acredita ter sido parte de uma vestimenta feita de suas peles, com as cabeças restantes anexadas como adorno. Quase a metade dos ossos de aves que aparecem em sepulturas neste local eram de araus-gigantes, sugerindo que ele tinha um significado cultural relevante para esse povo. Os extintos Beothuks da Terra Nova faziam pudins de ovos de arau. Os esquimós Dorset também os caçava; os Saqqaq da Groenlândia caçaram excessivamente a espécie, causando uma redução local na sua área de distribuição.

Extinção

A Pequena Idade do Gelo pode ter reduzido a população de araus-gigantes, aumentado a exposição de seus locais de reprodução ao ataque de ursos polares, mas a exploração comercial maciça de suas penas diminuiu ainda mais drasticamente sua população. Em meados do século XVI, as colônias de nidificação do lado europeu do Atlântico foram quase todas exterminadas pelos caçadores, que matavam a ave para obter suas plumas, usada na época para fazer travesseiros. Em 1553, o arau recebeu a sua primeira proteção oficial, e em 1794 a Grã-Bretanha proibiu a matança da espécie para extração de penas. Em St. John's, no Canadá, aqueles que violassem a lei de 1775 que proibia a caça do arau-gigante por suas penas ou ovos eram açoitados publicamente, embora a captura para uso como isca de pesca ainda fosse permitida. No lado norte-americano, as penas das aves do gênero Eider eram inicialmente as preferidas, mas após terem sido quase levadas à extinção na década de 1770, coletores de penas direcionaram seu foco para o arau-gigante, ao mesmo tempo que diminuía a caça para alimentação, isca de pesca e óleo.

Espécimes preservados

Atualmente, 78 peles do arau-gigante ainda existem, a maioria em coleções de museus, junto com cerca de 75 ovos e 24 esqueletos completos. Todas essas peles, a exceção de quatro delas, estão com a plumagem de verão, e apenas dois indivíduos são imaturos. Não há exemplares de filhotes. Os especialistas atribuíram um número a cada um dos ovos e peles. Apesar de milhares de ossos isolados terem sido coletados na ilha Funk no século XIX e em sambaquis do Neolítico, existem apenas alguns esqueletos completos. Múmias naturais também foram encontradas na ilha Funk, e os olhos e órgãos internos das duas últimas aves de 1844 estão armazenados no Museu Zoológico da Universidade de Copenhague. Não se sabe ao certo onde suas peles estão abrigadas hoje, mas de acordo com Errol Fuller, há três exemplares "suspeitos" devido a sua ligação com um determinado revendedor em Copenhague: os espécimes do Natural History Museum of Los Angeles County, do Instituto Real Belga de Ciências Naturais, e o do Übersee-Museum Bremen.

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Relevância cultural

O arau-gigante é uma das aves extintas mais frequentemente citadas na literatura de língua inglesa. Ele aparece em vários livros infantis, a exemplo de The Water-Babies, A Fairy Tale for a Land Baby de Charles Kingsley e The Island of Adventure de Enid Blyton. Ambos narram o desaparecimento do animal: no primeiro, um arau-gigante conta o processo de extinção de sua própria espécie, e no segundo o protagonista busca sem sucesso uma colônia perdida da ave. O animal aparece ainda em muitas outras obras de ficção. No romance histórico de Patrick O'Brian The Surgeon's Mate, um arau-gigante é capturado pelo naturalista fictício Stephen Maturin. Este livro narra também a captura de uma colônia inteira de araus-gigantes. A ave é o tema do romance The Last Great Auk: A Novel escrito por Allan W. Eckert, que conta como o arau-gigante viu pouco a pouco a extinção de sua espécie. Aparece ainda na obra Sea of Slaughter de Farley Mowat. É o tema de um balé, Still Life at the Penguin Cafe, e de uma canção, A Dream too Far, da Rockford's Rock Opera.

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