Alcides Ghiggia
Alcides Edgardo Ghiggia Pereyra foi um futebolista uruguaio que jogava como ponta-direita. Celebrizou-se como o iluminado que fez o gol do título do Uruguai sobre o Brasil em pleno Maracanã na Copa do Mundo de 1950. Era um dos mais inexperientes uruguaios, tendo estreado pela seleção havia apenas dois meses. Veloz, habilidoso, grande cabeceador e de chute forte com ambas as pernas, também marcou em todos os jogos daquela edição, ficando em terceiro na artilharia. Ele era o último jogador ainda vivo do Maracanaço, vindo a falecer exatamente no aniversário de 65 anos daquela partida.
Era filho de uma uruguaia, Gregoria Pereyra, com um argentino proveniente da cidade de Tucumán, Felipe Alfonso Ghiggia. Teve como irmãos Ulises, Rubén, Lilián e Nélida, todos uruguaios. A família torcia pelo Peñarol, o que chegou a impedir Ghiggia de aceitar oferta para defender aos treze anos o rival Nacional no basquetebol, outro esporte que apreciava. Decidido a jogar futebol, seu primeiro time fora da várzea foi o Sud América, onde foi inscrito como amador em 1944, após ser levado ao clube por um de seus irmãos. A contragosto do pai, abandonou o curso de mecânica na universidade técnica do Uruguai. Ghiggia viria a se casar com Clara Rodríguez, com quem teve dois filhos, Arcadio Alcides e Lilián. Ghiggia posteriormente tornou-se viúvo; veio depois a casar com a afro-uruguaia Beatriz Masui.
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No Sud América ele foi inicialmente centroavante, realocando-se paulatinamente na ponta-direita. Lá, iniciou amizade com o centroavante Óscar Míguez. A equipe não vivia bom momento, ausente da primeira divisão do campeonato uruguaio entre 1945 (quando foi rebaixada) e 1952.[carece de fontes?] Ghiggia viria a estrear em 1947 no time adulto do Sud América. Antes, no início daquele ano, atravessou o Rio da Prata junto com dois colegas do clube para realizar testes no Atlanta, na época uma das poucas equipes de menor porte a jamais ter sido rebaixada no campeonato argentino. O clube da comunidade judaica de Buenos Aires vinha montando um elenco com astros adquiridos perante o River Plate, notadamente Adolfo Pedernera, descrito em dados momentos por Alfredo Di Stéfano - e por Obdulio Varela - como o melhor jogador que viram. Pelo Atlanta, Ghiggia realizou um amistoso contra o Independiente, mas acabou não aprovado e foi substituído no intervalo, voltando ao Sud América. O Atlanta, ironicamente, meses depois terminaria pela primeira vez rebaixado, ao fim do ano. Se Ghiggia houvesse permanecido, possivelmente o Maracanaço não ocorreria, pois somente na década de 1970 a seleção uruguaia passou a admitir a convocação de quem jogasse no exterior.
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Diferentemente de Míguez, logo artilheiro do elenco em 1948, Ghiggia não conquistou de imediato a titularidade no Peñarol. Julio César Britos era o ponta-direita titular havia alguns anos, tendo prestígio reforçado também por vir das categorias de base. O reserva imediato era José Ortiz. Ghiggia era inicialmente usado apenas no segundo quadro. Quando estava para estrear no time principal em 1948, sobreveio uma longa greve, que paralisou o campeonato após a primeira rodada do segundo turno. A greve duraria até o ano seguinte e definiu-se que o título de 1948 seria do então líder Nacional. Em 1949, o Peñarol contratou o húngaro Emérico Hirschl como novo treinador. Sem nenhum reforço relevante, o clube, sob Hirschl, arrasaria os concorrentes. Foi justamente Hirschl, em sua segunda semana de trabalho, o primeiro treinador a apostar em Ghiggia, ainda que precisasse insistir em sua opinião em função de descontentamento de alguns dirigentes presentes no treino em que ela foi tomada: "muito obrigado, mas o ponta-direita vai ser aquele magro", declarou o treinador.
Ghiggia foi contratado pela Roma, que acabava de voltar de sua única passagem pela segunda divisão. Buscando retomar o sucesso, mudou-se para o estádio Olímpico e contratou o uruguaio. Porém, Ghiggia era um dos poucos jogadores de nível mais alto no elenco, ao lado de Giacomo Losi e do brasileiro Dino da Costa. Ainda assim, o uruguaio não demorou a se adaptar. Chegou a ponto de ser requisitado pela seleção uruguaia para a Copa do Mundo FIFA de 1954, mas sua participação foi vetada pelo clube. Sua inclusão seria histórica, pois jamais a seleção havia convocado um jogador que atuasse no exterior; os primeiros que jogavam no estrangeiro a serem admitidos só viriam já na década de 1970. O uruguaio foi posteriormente peça-chave na campanha de 1955, a melhor da Roma na época. Foi um terceiro lugar em tempos em que os giallorossi não se viam em condições de competir com o trio Juventus, Internazionale e Milan, que venceram cada um duas vezes os seis campeonatos entre 1950 e 1955. Ghiggia foi considerado à frente de seu tempo, por ter preocupações defensivas que só seriam popularizadas décadas depois para os pontas.
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Desligado do Milan em 1962, apenas em 1964 ele voltou ao Uruguai. De início, suas partidas eram beneficentes, destinadas a arrecadar fundos para hospitais infantis. Foi então convidado a defender o Danubio, jogando pelos alvinegros até 1966. O clube foi sétimo colocado nas duas primeiras temporadas com Ghiggia e quinto na outra.[carece de fontes?] Após nova pausa de um ano, o ponta-direita retornou ao Sud América para um último ano de carreira, em 1968. Foi sexto colocado.[carece de fontes?]
Ghiggia estreou pela Seleção Uruguaia em 1950, a tempo de figurar na Copa do Mundo daquele ano. Estreou justamente em vitória por 4-3 sobre o Brasil, pela Copa Rio Branco,[carece de fontes?] que ficou com os brasileiros após estes vencerem as outras duas partidas por 3-2 e 1-0. O Uruguai veio à Copa do Mundo com um ambiente turbulento: o técnico Juan López fora escolhido apenas um mês antes do torneio, após a Celeste Olímpica obter resultados ruins contra os próprios brasileiros, o que, além das derrotas pela Copa Rio Branco, incluíam ainda uma derrota para o Brasil de Pelotas e, em Montevidéu, dois empates contra o Fluminense. Essa partida não-oficial contra o Brasil de Pelotas acabou sendo a única de Ghiggia em solo uruguaio pela seleção. Todos os seus jogos oficiais pelo Uruguai, contra outras seleções nacionais reconhecidas pela FIFA, foram fora do país. Antes da escolha da Associação Uruguaia de Futebol por López, o Peñarol chegara a vetar a convocação de seus jogadores: a AUF desprezava o técnico da equipe aurinegra, o húngaro Emérico Hirschl, desejado pela torcida e mídia. Com pouco tempo para entrosar o time, López chamou exatamente os jogadores que disputaram a Copa Rio Branco.
Copa do Mundo de 1950
Na estreia, o Uruguai realizou a maior goleada da Copa, um 8-0 sobre a Bolívia, com Ghiggia marcando o último gol. Foi o único jogo do grupo dos dois países, composto apenas por eles, em razão das desistências das classificadas seleções de Escócia e Turquia. Em função disso, a partida ocorreu na mesma data da última rodada dos demais grupos. Classificado para a fase final, decidida em um grupo de quatro seleções, o Uruguai começou ela empatando com a Espanha, com Ghiggia marcando novamente o primeiro gol do empate em 2-2 com sua jogada mais repetida na partida: recuava até o meio-de-campo para atrair seu marcador, o meia adversário Antonio Puchades, para Julio Pérez lançar a bola para o ataque pelas costas da defesa espanhola. O gol veio em corrida e sem muito ângulo, tal como aquele que o celebrizaria posteriormente. Foi um jogo de vaivém entre as seleções, com certa carga dramática; antes do gol, Obdulio Varela chegou a salvar em cima da linha uma chance dos espanhóis, que dominavam a partida contra a lentidão uruguaia. No segundo tempo, o panorama mudou: a Espanha reverteu o placar para 2-1 e os uruguaios buscaram com bravura o empate. Ele veio em jogada individual de Obdulio, em chute de longa distância. Ainda assim, os espanhóis chegaram a ter outra chance de gol impedida em cima da linha, por Matías González.
Após a Copa
O Uruguai só voltou a fazer partidas no ano de 1952, pelo Campeonato Pan-Americano daquele ano. Ghiggia foi chamado e foi nesse torneio que ele jogou pelas últimas cinco vezes pela Celeste.[carece de fontes?] Sua última partida foi justamente contra o Brasil, que mantinha alguns dos derrotados no Maracanaço, como Ademir de Menezes, Friaça e Bauer. Foi derrotado por 4-2, resultado que na época foi visto como uma revanche para os brasileiros. No ano seguinte, transferiu-se para a Roma. A moradia na Itália acabou atrapalhando a continuação de sua trajetória na Seleção Uruguaia. Quando a Celeste convocou seus jogadores para a Copa do Mundo de 1954, para a qual estava automaticamente classificado por ser o detentor do título, a Associação Uruguaia de Futebol chamou-o, mas a Roma não lhe liberou, mesmo com o torneio sendo disputado na vizinha Suíça.
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Três anos depois após sua última partida pelo Uruguai, Ghiggia voltava a defender a seleção, desta vez a da Itália. Mesmo aos 31 anos, foi chamado em meio às eliminatórias para a Copa do Mundo de 1958. Sua convocação veio em uma reformulação no elenco da Squadra Azzurra após uma humilhante derrota de 1 x 6 para a Iugoslávia, em um amistoso, voltando a jogar ao lado de Schiaffino. Schiaffino também tinha dupla cidadania e jogava no país, onde defendia o Milan. A Seleção Italiana disputava uma vaga no mundial da Suécia em um triangular com Portugal e Irlanda do Norte e, antes do vexame contra os iugoslavos, vencera os norte-irlandeses em Roma. Ghiggia estreou no primeiro jogo contra os portugueses, em derrota por 3-0 em Lisboa.[carece de fontes?] A estreia deu-se curiosamente exatos sete anos depois de sua estreia oficial pelo Uruguai. Como os lusitanos haviam empatado contra a Irlanda do Norte anteriormente, os italianos ficariam em boa situação se conseguissem empatar contra os britânicos em Belfast. O empate (em 2-2) foi alcançado e Ghiggia marcou o que seria seu único gol pela Itália nessa partida,[carece de fontes?] mas ela fora tornada previamente como não-oficial por pressão dos italianos, pois o jogo seria apitado por um árbitro local em função da neblina no aeroporto de Londres, que impediria o voo do juiz escalado para a partida (o húngaro István Zsolt) de chegar a tempo. Uma nova partida em Belfast, desta vez válida pelas Eliminatórias, foi marcada para janeiro.
Como o futebol na época não era uma atividade que remunerava tão bem quanto os dias atuais, a maior parte dos jogadores procurava exercer alguma outra profissão após deixarem os gramados. Mesmo o título de 1950 não rendeu muitas recompensas financeiras a Ghiggia e ao restante do elenco: a maior parte da premiação pelo título sumiu juntamente com o tesoureiro da delegação, e os jogadores tiveram de reunir o pouco dinheiro que tinham para fazer uma pequena comemoração com sanduíches e cervejas. A maioria deles ingressou no funcionalismo público após deixar os gramados, e Ghiggia não foi diferente, aposentando-se como funcionário do Cassino de Montevidéu. Trabalhou ali ao lado do ex-colega de Peñarol e Seleção Uruguaia Obdulio Varela; o emprego no cassino havia sido garantido aos campeões de 1950. Antes, tentara por alguns meses uma carreira de técnico. Ghiggia havia ganho muito dinheiro no futebol italiano, mas não soube geri-lo, gastando-o com mulheres e vinhos. Chegou a depender dos rendimentos do salão de cabelo da esposa para se manter. Passou a levar uma vida modesta no subúrbio de Montevidéu. Ele e os colegas do Maracanaço costumavam se reunir em churrascos, que ocasionalmente recebiam também os brasileiros derrotados. Em respeito, o assunto da partida jamais era mencionado. No aniversário de vinte anos do estádio do Maracanã, Ghiggia e Barbosa se reencontraram no gramado antes da partida festiva entre Flamengo e seleção carioca e, comovidos, trocaram cumprimentos e abraços. Por aqueles dias, ambos haviam sido requisitados por diversos jornalistas também em função do reencontro entre Brasil e Uruguai na Copa do Mundo FIFA, dessa vez pelas semifinais da 1970.
Imagem: Sam Kelly · BY-NC-ND · Openverse
Ghiggia morreu em 16 de julho de 2015, devido a uma parada cardíaca. Ele faleceu enquanto assistia a reprise da partida entre Internacional e Tigres, pela Copa Libertadores da América. Um dia depois da morte, seu corpo foi velado no Palácio Legislativo do Uruguai e em seguida foi enterrado no Cemitério do Buceo, em Montevidéu, ao lado de ex-companheiros da Copa de 1950. Ele morreu exatamente no dia do aniversário de 65 anos do Maracanaço, do qual era o único jogador sobrevivente, coincidências que reforçaram sua lenda perante o público.


