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Catarismo

O catarismo foi um movimento cristão de ascese extrema na Europa Ocidental entre os anos de 1100 e 1200, que teve suas raízes no movimento pauliciano na Armênia e no bogomilismo na Bulgária, que tiveram influências dos seguidores de Paulo de Samósata.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 18/07/2026
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Origens

A origem das crenças dos cátaros não é clara, mas a maioria das teorias concorda que elas se originaram no Império Bizantino e se propagaram através das rotas de comércio, que espalharam ideias heréticas desde o Primeiro Império Búlgaro até os Países Baixos. O nome búlgaros (Bougres) também foi aplicado aos albigenses, e eles mantiveram associação com o movimento cristão similar dos bogomilos ("Amigos de Deus") da Trácia. "Que houve uma transmissão substancial de rituais e ideias do bogomilismo para o catarismo está além de qualquer dúvida razoável." Suas doutrinas têm numerosas semelhanças com a dos bogomilos e a dos paulicianos, assim como com a dos marcionistas (que estavam na mesma área dos paulicianos), dos maniqueístas e dos cristãos gnósticos dos primeiros séculos depois de Cristo, embora muitos estudiosos, principalmente Mark Gregory Pegg, tenham apontado que seria errôneo extrapolar as conexões históricas diretas com base nas semelhanças teóricas percebidas pelos estudiosos modernos.

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Crenças

Os cátaros, em geral, formavam um partido antissacerdotal em oposição à Igreja Católica, protestando contra o que consideravam ser a corrupção moral, espiritual e política da Igreja. G. K. Chesterton, autor inglês católico-romano, afirmou: "…o sistema medieval começou a ser quebrado em pedaços intelectualmente, muito antes de mostrar o menor indício de estar caindo aos pedaços moralmente. As enormes primeiras heresias, como os albigenses, não tinham a menor desculpa de superioridade moral." Jennifer Deane comenta que de facto, poucos clérigos católicos em qualquer parte da Europa ocidental pareciam particularmente santos em comparação com os ascéticos, inspiradores "homens bons". O factor mais importante para o sucesso do catarismo, diz Michael Thomsett, foi a bem conhecida avareza e a mundanização do clero. Nesse tempo, padres e bispos levavam vidas luxuosas, possuíam castelos, usavam as melhores roupas, e tinham muita riqueza. Em comparação, o comum dos camponeses levava uma vida de privações e pobreza.

Cosmologia

A cosmologia cátara identificava duas divindades gêmeas opostas. A primeira era um Deus bom, retratado no Novo Testamento e criador do espírito, enquanto a segunda era um Deus maligno, descrito no Antigo Testamento e criador da matéria e do mundo físico; frequentemente chamado Rex Mundi ("Rei do Mundo"), era identificado como o Deus no judaísmo, e também foi confundido com Satanás ou considerado pai, criador ou sedutor de Satanás. Os cátaros resolveram o problema do mal declarando que o poder do Deus bom para fazer o bem era limitado pelas obras do Deus Mau e vice-versa. Toda a matéria visível, incluindo o corpo humano, foi criada por esse Rex Mundi; a matéria foi, portanto, contaminada com pecado. Sob essa visão, os humanos foram seduzidos por Satanás antes de uma guerra no céu contra o exército de Miguel depois do qual teriam sido forçados a passar uma eternidade presos no reino material do Deus do mal. Os cátaros ensinaram que, para recuperar o status angelical, era preciso renunciar completamente ao eu material e até que estivesse preparada para fazê-lo, a pessoa ficaria presa em um ciclo de reencarnação, condenada a viver na Terra corrupta.:11

Cristologia

Os cátaros veneravam Jesus Cristo e seguiam o que consideravam seus verdadeiros ensinamentos, rotulando-se como "bons cristãos". Os cátaros negavam a encarnação física de Jesus. Autores acreditam que as concepções deles de Jesus se assemelhavam ao docetismo, considerando Jesus a forma humana de um anjo, cujo corpo físico era apenas aparência. Esta forma ilusória poderia ter sido dada pela Virgem Maria, outro anjo em forma humana. A maioria não aceitava a compreensão trinitária de Jesus, assemelhando-se ao monarquianismo modalístico (sabelianismo) não trinitário no oeste e adocionismo no leste, que pode ou não ser combinado com o docetismo mencionado.

Outras crenças

Alguns cátaros acreditavam em uma versão da narrativa enoquiana, segundo a qual as filhas de Eva copularam com os demônios de Satanás e deram à luz gigantes (Nefilins). O Dilúvio teria sido provocado por Satanás, que desaprovou os demônios, revelando que ele não era o deus real, ou alternativamente, uma tentativa do Pai Invisível de destruir os gigantes. Acreditavam em um Juízo Final que chegaria quando o número de justos se igualasse ao número de anjos que caíram, nos quais os crentes ascenderiam ao reino espiritual enquanto os pecadores seriam lançados ao fogo eterno junto com Satanás. Acreditavam que os animais eram portadores de almas reencarnadas e, por isso, proibiam a matança de toda a vida animal, exceto peixes, adotando uma dieta pescatariana, além disso não comiam queijo, ovos, carne ou leite, pois consideravam que eram subprodutos de relações sexuais, por outro lado, acreditavam que os peixes podiam ser consumidos, pois seriam produzidos por geração espontânea.

Textos

Os textos sagrados dos cátaros, além do Novo Testamento, incluíam: Eles rejeitavam quase todos os textos do Antigo Testamento, exceto alguns escritos pelos profetas. Acreditavam que o Livro do Apocalipse não era uma profecia sobre o futuro, mas uma crônica alegórica do que havia acontecido na Rebelião de Satanás. Sua reinterpretação desses textos continha numerosos elementos característicos da literatura gnóstica.

Sacramentos

Em contraste com a Igreja Católica, os cátaros tinham apenas um sacramento, o Consolamentum, ou Consolação, que envolvia uma breve cerimônia espiritual para remover todo o pecado do crente e empossar-lhe para o próximo nível superior como um perfeito ("parfait", em francês, ou "perfectus", em latim). Ao contrário da Penitência católica romana, o Consolamentum só poderia ser tomado apenas uma vez. Assim, tem sido alegado que muitos crentes acabariam por receber o Consolamentum apenas quando a morte se aproximava, realizando o ritual de libertação num momento em que as obrigações pesadas de pureza exigidas para ser um perfectus seriam temporalmente curtas. Algumas das pessoas que receberam o consolamentum em seus leitos de morte podem, posteriormente, evitar comida ou bebida, a fim de acelerar a morte. Isso era chamado de endura. Alegou-se por alguns escritores católicos que, quando um dos cátaros, depois de receber o Consolamentum, começasse a mostrar sinais de recuperação, ele ou ela seria sufocada, a fim de garantir sua entrada no paraíso. Tais momentos de extremis têm pouca evidência para sugerir que essa era uma prática comum dos cátaros.

Relações sociais

O assassinato era considerado abominável pelos cátaros. Consequentemente, abstenção de comida animal (com o ocasional consumo de peixe) era praticada pelos perfeitos. Estes evitavam o consumo de qualquer produto que tivesse se originado de relação sexual. A guerra e a pena de morte também eram condenadas, em nítido contraste com a cultura da Europa medieval. Num mundo em que poucos podiam ler, sua rejeição aos juramentos os marcavam como marginalizados socialmente. Os cátaros também rejeitavam o casamento. Isso era baseado principalmente na crença de que o mundo físico, incluindo a carne, era irremediavelmente diabólico, por ter sido criado pelo princípio diabólico ou "demiurgo". Consequentemente, a reprodução era vista como um mal a ser evitado, pois propiciava a continuação da cadeia de renascimento e sofrimento no mundo material. Era argumentado pelos críticos do catarismo que essa repugnância à reprodução levava os cátaros à sodomia. Tão forte era essa crítica que, quando um cátaro era acusado de heresia, geralmente bastava a ele provar que era legalmente casado para que fosse absolvido.[carece de fontes?]

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Supressão

Em 1147, o papa Eugênio III enviou um legado ao distrito cátaro de modo a deter a expansão da heresia. Os poucos sucessos isolados de Bernardo de Claraval não puderam obscurecer os pobres resultados da missão, que claramente mostraram o poder da seita no Languedoc na época. As missões do cardeal Pedro de São Crisógono a Toulouse em 1178, e de Henrique de Marcy, cardeal-bispo da diocese de Albano, em 1180-81, obtiveram apenas sucessos momentâneos. A expedição armada de Henrique, que tomou a fortaleza de Lavaur, não extinguiu o movimento. Decisões dos concílios da Igreja Católica (em particular, as do concílio de Tours em 1163 e as do Terceiro Concílio de Latrão em 1179) tampouco tiveram muito efeito sobre os cátaros. Quando o papa Inocêncio III chegou ao poder em 1198, ele estava resolvido a lidar com os cátaros. De início, Inocêncio tentou a conversão pacífica dos cátaros, e enviou vários legados às regiões cátaras. Estes tiveram de enfrentar não apenas os cátaros, os nobres que os protegiam e as pessoas que os respeitavam, mas também os muitos bispos da região, que se ressentiam da considerável autoridade que o papa conferia a seus legados. Em 1204, Inocêncio III suspendeu vários bispos na Occitânia; em 1205, indicou um novo e vigoroso bispo de Toulouse, o antigo trovador Folquet de Marselha. Em 1206, Diego de Osma e seu cônego Domingos de Gusmão (o futuro são Domingos) começaram um programa de conversão no Languedoc; como parte disso, debates públicos entre católicos e cátaros aconteceram em Verfeil, Servian, Pamiers, Montréal (Aude) e outros locais.

Cruzada Albigense

Em janeiro de 1208, o legado papal Pierre de Castelnau (monge cisterciense, teólogo e advogado canônico) foi enviado para se encontrar com o governante da região, Raimundo VI de Toulouse.:68-69 Conhecido por excomungar nobres que protegiam os cátaros, Castelnau excomungou Raimundo por incitamento a heresia após uma feroz discussão em que Raimundo teria ameaçado Castelnau com violência.:72-73 Logo após, Castelnau foi assassinado durante sua volta a Roma, supostamente por um cavaleiro a serviço de Raimundo. O corpo de Castelnau foi sepultado na abadia de Santo Egídio, em Saint-Gilles (Gard). Assim que soube do assassinato, o papa ordenou a seus legados que pregassem uma cruzada contra os cátaros e escreveu uma carta a Filipe II de França apelando para sua intervenção ou para uma intervenção de seu filho Luís VIII de França. Este não foi o primeiro apelo mas alguns veem o assassinato como um ponto de mudança na política papal. Outros alegam que o assassinato foi um evento fortuito que permitiu que o papa excitasse a opinião pública e renovasse seus pedidos de intervenção na região. O cronista da cruzada que se seguiu, Pedro de Vaux de Cernay, retratou a sequência de eventos de modo que ficasse claro que o papa havia esgotado todos os meios pacíficos de resolver a questão e só então tinha apelado para a violência.[carece de fontes?]

Massacre

O exército cruzado chegou liderado espiritual e militarmente pelo legado papal Arnaud Amalric, abade de Cister. No primeiro confronto da guerra, a cidade de Béziers foi sitiada em 22 de julho de 1209. Aos habitantes católicos da cidade, foi permitido que saíssem livres e desarmados da cidade, mas muitos preferiram ficar e lutar ao lado dos cátaros.[carece de fontes?] Os cátaros passaram grande parte de 1209 evitando os cruzados. O exército de Béziers tentou uma investida mas foi logo repelido, sendo então perseguido pelos cruzados até o portão da cidade e dentro da cidade. Teria sido perguntado a Arnaud Amalric como distinguir católicos de cátaros entre os habitantes da cidade. Sua resposta, registrada por seu colega cisterciense Caesarius de Heisterbach, um historiador, trinta anos depois, teria sido: Caedite eos. Novit enim Dominus qui sunt eius ("Mate-os. Pois Deus sabe quem são os seus."). A veracidade da frase é muitas vezes posta em dúvida. O certo é que as portas da igreja de Santa Maria Madalena foram derrubadas e os que nela se tinham refugiado foram massacrados sem distinção, assim como todos os habitantes de Béziers. Segundo os registros, pelo menos 7 000 homens, mulheres e crianças foram mortos pelos cruzados.

Tratado e perseguição

A guerra oficial terminou com o Tratado de Paris (1229), através do qual o rei da França retirou, da casa de Toulouse, a maior parte de seus feudos, e, dos Trencavels (viscondes de Béziers e Carcassone), a totalidade dos feudos. A independência dos príncipes do Languedoc havia terminado. Mas, apesar do massacre aos cátaros, o catarismo ainda não havia se extinguido e as forças católicas continuaram a perseguir os cátaros. Em 1215, os bispos católicos se reuniram no Quarto Concílio de Latrão sob o papa Inocêncio III: parte da agenda era o combate à heresia cátara. A inquisição foi estabelecida em 1234 para acabar com os cátaros remanescentes; operando em Toulouse, Albi, Carcassonne e outras cidades do sul da França durante o século XIII e parte do século XIV, ela foi bem sucedida em esmagar o catarismo enquanto movimento popular e em levar seus últimos simpatizantes para o túmulo.:230-232 Os cátaros que se recusavam a renunciar a sua fé eram enforcados ou queimados.

Aniquilação

Após várias décadas de assédio, reproselitismo e, principalmente, destruição sistemática de seus textos religiosos, a seita estava exaurida e não conseguia encontrar mais adeptos. Peire Autier, o líder do revivalismo cátaro nos contrafortes dos Pireneus, foi capturado e executado em abril de 1310 em Toulouse. Depois de 1330, os registros da Inquisição contêm pouquíssimos processos contra os cátaros. O último perfectus cátaro no Languedoc, Guillaume Bélibaste, foi executado no outono de 1321.:10-12 De meados do século XII em diante, o catarismo italiano sofreu uma crescente pressão por parte do papa e da inquisição, "prenunciando o início do fim".:230 Outros movimentos, como os valdenses e o panteístico Irmãos do Livre Espírito, que sofreram perseguição na mesma região, sobreviveram em áreas remotas e em pequeno número nos séculos XIV e XV. Algumas ideias valdenses foram absorvidas pelas seitas protestantes iniciais, como os hussitas, lollardos e a igreja dos Irmãos Morávios.

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Fontes consultadas

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