Bucara
Bucara ou Bukhara é a quinta maior cidade do Usbequistão e capital da província homónima. Em 2020 tinha 280 187 habitantes, a maior parte deles falantes de tajique, uma variante do persa. A área de Bucara é habitada pelo menos desde há 5 000 anos e a cidade existe desde o século VI a.C. É uma cidade histórica, situada na Rota da Seda, que durante muito tempo foi um centro de comércio, estudo, cultura e religião. Foi capital do Império Samânida e do Canato de Bucara e nela nasceu o proeminente erudito e teólogo islâmico al-Bukhari (810–870). Conta com cerca de 140 monumentos importantes do ponto de vista arquitetónico e histórico e em 1993 o seu centro histórico, onde se encontram várias mesquitas e madraças, foi declarado Património Mundial pela UNESCO.
O nome exato de Bucara na Antiguidade é desconhecido. O oásis onde se situa tinha esse nome e possivelmente foi só no século X que a cidade tomou o nome. Há várias teorias para a origem do nome. Uma delas é que deriva do sânscrito vihāra ("mosteiro budista"), muito próxima dos termos usados pelos uigures e chineses budistas apar designar os seus locais de culto. No entanto, não foram encontrados quaisquer artefatos relacionados com cultos budistas ou maniqueístas na cidade ou no seu oásis.[carece de fontes?] No século XIX e início do século XX, a cidade era referido como Bokhara nas publicações em inglês e como Buhe ou Puhe (捕喝) entre os chineses han. Segundo a Encyclopædia Iranica, o nome Bucara deriva possivelmente do termo soguediano βuxārak ("Lugar de Boa Fortuna"). Na sua História de Bucara, terminada em 943 ou 944, Maomé ibne Jafar Narshakhi escreveu: «Bucara tem muitos nomes. Um deles era Numijkat. Também se chamou Bumiskat. Tem dois nomes em árabe. Um é "Madinat al Sufriya", que significa cidade do cobre e outro "Madinat al Tujjar", que significa cidade dos mercadores. Mas o nome Bucara é mais conhecido do que todos os outros nomes. No Grande Coração não há outra cidade com tantos nomes».
A cidade foi fundada no século VI a.C. numa área onde há vestígios de povoamento que remontam ao 3.º milénio a.C.. O oásis de Bucara atraiu o interesse dos estados vizinhos muito cedo. O mais tardar no século VI a.C., durante o reinado de Dario, o Grande, já tinha sido conquistado pelos persas aqueménidas. Em 329 a.C., após a conquista da Pérsia por Alexandre, o território de Soguediana, do qual fazia parte Bucara, tornou-se uma possessão grega até ao século II a.C. Entre o fim do século I a.C. e meados do século IV d.C., a cidade fez parte do Império Cuchana; foi no início desta época que se começou a estabelecer o comércio com os países a ocidente e a oriente. No século V Bucara foi integrada no Império Heftalita. Em 710 a cidade foi ocupada pelas tropas árabe-islâmicas durante o Califado Omíada: o general Cutaiba ibne Muslim, governador da província omíada de Coração, estabeleceu a sua autoridade sobre o príncipe local. Aparentemente, o herdeiro do trono de Bucara, Tuguechada, converteu-se rapidamente ao islão e reinou entre 710 e 739. Nesse período a cidade tornou-se um importante centro de cultura e fazia parte da província de Coração, cuja capital era Merv. Bucara ocupava então cerca de 30 a 35 hectares e tinha uma muralha com sete portas; as ruas estavam orientadas segundo os pontos cardeais e estavam organizadas como um tabuleiro de xadrez.
Conjuntos arquitetónicos
Também chamado ou escrito Po-i-Kalan (em persa: پای کلان, que significa "ao pé do grande [minarete]") é o conjunto arquitetónico da Mesquita Kalyan, conhecida especialmente pelo seu grande minarete, o Minarete Kalyan (Minâra-i Kalân; "grande minarete" em persa e tajique), que é a construção mais antiga do conjunto e está na origem do nome original do conjunto em persa. Além da mesquita e do minarete, o complexo inclui ainda as madraças Miriárabe (Mir-i Arab) e Emir Alim Cã (século XVIII-XIX). A praça, que até à segunda metade do século XX foi o local dum mercado de algodão, é um dos ícones turísticos do Usbequistão. O conjunto de Lyab-i Hauz (também escrito Labi-Hauz, Labi Hovuz, Lyab-i Khauz e Lab-e hauz; do persa لب حوض,, que significa "junto ao lago"), que significa "junto ao lago") é uma área que rodeia um dos últimos hauz (lagos ou tanques) em Bucara. Antes do período soviético existiam vários desses lagos, que funcionavam como as principais fontes de água da cidade, mas também contribuíam para a propagação de doenças, o que levou a que fossem drenados durante as décadas de 1920 e 1930. O Labi Hovuz foi mantido devido a ser o centro dum conjunto arquitetónico datado dos séculos XVI e XVII. Dele fazem parte a Madraça Kukeldash, do século XVI, a maior da cidade, situada na margem norte do lago. Nas margens oriental e ocidental do lago encontram-se o khanqah (albergue para sufis itinerantes) de Nadir Divambegui e a madraça de Nadir Divambegui, ambos do século XVII.
Mausoléus
O mausoléu de Ismail Samani, o proeminente soberano do Império Samânida do virar do século IX para o século IX, é uma das obras mais importantes da arquitetura da Ásia Central. Situado perto do complexo de Bahoutdin, foi construído entre 892 e 943 e é único pelo seu estilo arquitetónico, que combina motivos islâmicos e zoroastrista. A fachada é coberta de tijolos ricamente decorados, com padrões circulares reminiscentes do sol, uma imagem comum na arte zoroastriana da região, que evocam o deus Aúra-Masda, tipicamente representado por fogo e luz. O edifício tem forma cúbica e tem reminiscências da Caaba de Meca; o teto em abóbada é típico da arquitetura das mesquitas. O estilo sincrético do santuário reflete o panorama religioso do período em que foi construído, quando a região ainda tinha uma população numerosa de zoroastristas, que começaram a converter-se ao islão nessa altura.
Mesquitas
O seu nome, também grafado Mesquita Kalon ou Kalan significa "grande mesquita". É um dos monumentos que formam o conjunto histórico Po-i Kalyan e é a mesquita congregacional (de sexta-feira) de Bucara e é a maior da Ásia Central, a seguir à de Bibi Canum em Samarcanda e, segundo alguns autores, à Grande Mesquita de Herate, no Afeganistão. Contando com o pátio, tem lotação para cerca de dez a doze mil fiéis. O edifício atual, sucessor de outros anteriores que foram sendo erigidos, destruídos e reconstruídos ao longo dos séculos, o primeiro deles na segunda década do século VIII, foi terminado na primeira metade do século XVI. É um dos primeiros grandes monumentos erigidos pela dinastia xaibânida, que fundou o Canato de Bucara no século XVI, e é um símbolo da ascensão da cidade nesse século. Tem planta retangular, com 130 por 80 metros, quatro ivãs, um amplo pátio interior, uma cúpula alta sobre o mirabe e longos corredores hipostilos abobadados com centenas de pequenas cúpulas (288 na Mesquita Kalyan). A superfície exterior do ivã frontal é coberta de ricos e elaborados mosaicos de faiança. A câmara abobadada em frente mirabe é coberta por uma grande cúpula coberta de ladrilhos vidrados azuis, que assenta sobre um tambor alto coberto de inscrições em cúfico.
Madraças
Chamada Koʻkaldosh em usbeque, é a maior madraça de Bucara e uma das maiores da Ásia Central, tendo um perímetro de 86 por 69 metros. Foi construída entre 1568 e 1569 por Qul Baba Kukeldash, um alto dignitário do cã xaibânida Abedalá Cã II. Faz parte do conjunto Lyab-i Hauz e é um dos monumentos que ilustra a expansão económica de Bucara no final do século XVI, durante o reinado de Abedalá Cã. A madraça foi construída por Kukeldash, cujo nome significa "irmão de leite" (por ser filho da ama de leite de Abedalá Cã) um homem muito poderoso ligado à ascensão ao poder de Abedalá Cã. Como a maior parte das madraças da Ásia Central, a madraça tem planta retangular e um ivã monumental (portal) como entrada principal. Provavelmente o ivã era originalmente decorado com mosaicos de faiança (à semelhança da Madraça Miriárabe), que foram substituídos por tijolos de majólica, mais baratos, a seguir a um sismo devastador. Originalmente, o telhado da madraça incluía duas cúpulas de telhas azuis, como as da Madraça Miriárabe, mas essa cobertura foi retirada para ser usada noutras construções por um governante posterior.
Fortaleza (Ark)
A Ark é uma cidadela originalmente construída c. século V d.C. Além de ser uma fortaleza militar, é também uma pequena cidade que ao longo da história foi a sede de várias cortes reais que existiram em Bucara e na região em volta. Foi usada comom fortaleza até ser tomada pelos soviéticos em 1920 e atualmente é uma atração turística onde há vários museus que mostram a sua história.
O Aeroporto Internacional de Bucara (IATA: BHK, ICAO: UTSB) tem voos regulares para cidades no Usbequistão e Rússia. A fronteira com o Turquemenistão encontra-se 100 km a sudoeste da cidade por estrada e a cidade turquemena mais próxima é Türkmenabat, que dista 132 km pela autoestrada M37, que continua para outras cidades do Turquemenistão, nomeadamente a capital Asgabade. Samarcanda fica 270 km a leste de Bucara pela autoestrada M37. A cidade é o polo de transportes ferroviários e rodoviários mais importante do Usbequistão a seguir a Tasquente e tem ligações para todas as cidades importantes do Usbequistão e países vizinhos e até para Mazar-e Sharif, no Afeganistão, através da autoestrada M39. A cidade tem 45 linhas de autocarros urbanos.
Segundo as estatísticas oficiais, a população da cidade é constituída por 82% de usbeques, 6% russos, 4% tajiques, 3% de tártaros, 1% de coreanos, 1% de turquemenos, 1% de ucranianos e 2% de outras etnias. No entanto, os dados oficiais usbequistaneses há muito que são criticados e refutados por vários observadores e fontes ocidentais [a] e para muitos autores a maioria da população é formada por falantes de tajique, e os usbeques são uma minoria em crescimento. Os números exatos são difíceis de estimar, porque muitas pessoas do Usbequistão identificam-se como usbeques apesar de usarem o tajique como primeira língua ou porque são registadas como uzbques pelo governo central não obstante a sua língua materna e identidade étnica tajique. As estimativas soviéticas do início do século XX, baseadas em dados de 1913 e 1917, registavam uma esmagadora maioria de tajiques na cidade. Até ao século XX, Bucara foi também a terra dos judeus bucaranos, cujo idioma, o buhori é um dialeto do tajique. Os seus antepassados instalaram-se na cidade durante o período romano. A maior parte dos judeus de Bucara abandonaram a cidade entre 1925 e 2000, emigrando para Israel e Estados Unidos.[carece de fontes?]


