Ainsa
Ainsa é um princípio ético-religioso adotado principalmente pelo jainismo e presente no hinduísmo e no budismo, e que consiste em não cometer violência contra outros seres. O ainsa é inspirado pela premissa de que todos os seres vivos têm uma centelha da energia espiritual divina; consequentemente, ferir alguém é ferir a si próprio. O ainsa também se relaciona à ideia de que qualquer violência tem consequências cármicas. Antigos estudiosos do hinduísmo foram pioneiros na formulação do conceito de ainsa e o desenvolveram ao longo do tempoː contudo, o princípio do ainsa veio a atingir particular importância na ética jainista.
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A palavra sânscrita deriva do radical hiṃs, "bater, golpear"; hiṃsā significa "dano", a-hiṃsā significa o oposto, isto é, "ausência de dano", "não violência". Existe um debate sobre a origem do termo e sobre a forma como seu sentido evoluiu. Manfred Mayrhofer e Dumot sugerem que a etimologia da palavra possa ser han, "matar", o que leva à interpretação de que ainsa significa "não matar". Já Schmidt e Henk Bodewitz defendem que a etimologia correta da palavra é hiṃs e o verbo sânscrito hinasti, o que leva à interpretação de que ainsa significa "não ferir". Wackernagel-Debrunner concorda com a segunda explicação. Na literatura clássica sânscrita do hinduísmo, a palavra adroi é, algumas vezes, usada no lugar de ainsa, como uma das virtudes cardeais para a vida moral. Um exemplo está no Baudhayana Dharmasutra 2.6.23: वाङ्-मनः-कर्म-दण्डैर् भूतानाम् अद्रोही ("Aquele que não fere outros com palavras, pensamentos ou atos é chamado de adrohi".).
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Antigos textos védicos
O conceito de ainsa se desenvolveu ao longos dos textos védicos. Os textos mais antigos, enquanto discutem os rituais de sacrifício de animais, mencionam, indiretamente, o ainsa, porém sem enfatizá-lo. Ao longo do tempo, os rituais e o conceito de ainsa foram sendo continuamente refinados e enfatizados, até que, no período védico tardio (por volta de 500 a.C.), o ainsa se tornou a virtude máxima. Por exemploː o hino 10.22.13 do Rigueveda usa as palavras satya (verdade) e ainsa numa oração ao deus Indra. Mais tarde, o Iajurveda, datado de 1000 a 600 a.C., dizː "possa todo ser me olhar com olhos benévolos, possa eu fazer o mesmo, e que ambos possamos nos olhar com os olhos de amigo."
Literatura épica
O Mahabharata menciona, várias vezes, a frase Ahimsa Paramo Dharma (अहिंसा परमॊ धर्मः), que significa, literalmente, "a não violência é a mais alta virtude moral". Por exemploː o Mahaprasthanika Parva, que é o 17º dos dezoito livros que compõe o Mahabharata, tem o versoː अहिंसा परमॊ धर्मस तथाहिंसा परॊ दमः। अहिंसा परमं दानम अहिंसा परमस तपः। अहिंसा परमॊ यज्ञस तथाहिस्मा परं बलम। अहिंसा परमं मित्रम अहिंसा परमं सुखम। अहिंसा परमं सत्यम अहिंसा परमं शरुतम॥ Esse trecho enfatiza a importância capital do ainsa dentro do hinduísmo, significando, literalmenteː "O ainsa é a mais alta virtude, o ainsa é o mais alto autocontrole, o ainsa é o maior presente, o ainsa é o melhor sofrimento, o ainsa é o mais alto sacrifício, o ainsa é a melhor força, o ainsa é o maior amigo, o ainsa é a melhor felicidade, o ainsa é a verdade mais elevada, o ainsa é o melhor ensinamento". Outros livros do Mahabharata que discutem a frase Ahimsa Paramo Dharma são o Adi Parva, o Vana Parva e o Anushasana Parva. O Bagavadguitá, entre outros temas, discute qual a resposta apropriada diante da violência da guerra, desenvolvendo os conceitos de violência legítima e guerra justa. Entretanto, não há consenso sobre esta interpretação. Gandhi, por exemplo, interpreta este trecho como uma metáfora para a guerra interna que se processa dentro de todo ser humano que é confrontado por dilemas morais.
Autodefesa, direito penal e guerra
Os textos clássicos do hinduísmo dedicam vários capítulos à discussão sobre o que um praticante de ainsa pode e deve fazer quando confrontado com situações de guerra, ameaça de violência ou necessidade de sentenciar alguém culpado por um crime. Essa discussão levou à formulação de várias teorias sobre a guerra justa, sobre a autodefesa aceitável e sobre a punição proporcional. O Artaxastra discute, entre outras coisas, o que constitui a resposta e a punição proporcionais. Dentro do hinduísmo, o ainsa prega que toda guerra deve ser evitada através de um diálogo sincero. A força deve ser o último recurso. Se a guerra é necessária, sua causa deve ser justa, seu propósito deve ser virtuoso, seu objetivo deve ser limitar o mal, sua finalidade deve ser a paz, seu método deve ser correto. A guerra somente pode ser iniciada e finalizada por uma autoridade legítima. As armas utilizadas devem ser proporcionais ao oponente e ao objetivo da guerra, e não devem produzir destruição aleatória. Todas as estratégias e as armas utilizadas devem visar à vitória sobre o adversário, e não a causar dor ao adversário. Por exemploː o uso de flechas é permitido, mas não o uso de flechas embebidas em veneno doloroso. Os guerreiros devem usar o discernimento no campo de batalha. Crueldade para com o oponente durante a guerra é proibido. Guerreiros feridos ou desarmados não devem ser atacados ou mortos, e sim recolhidos e tratados. Crianças, mulheres e civis não devem ser feridos. Durante a guerra, o diálogo sincero em busca da paz deve ser mantido.
Vida não humana
O preceito hindu de "não causar injúria" se aplica aos animais e a todas as formas de vida. O preceito não se encontra nos versos mais antigos dos Vedas, mas se tornou progressivamente uma das ideias principais dos Vedas entre 500 a.C. e 400. Nos textos mais antigos, numerosos ritos de sacrifício de animais como vacas e cavalos são destacados, e não há, praticamente, menção ao ainsa aplicado a vida não humana. Escrituras hindus datadas entre os séculos V e I a.C., enquanto discutem a dieta humana, inicialmente sugerem que carne kosher pode ser consumida; posteriormente, sugerem que somente carne obtida em rituais de sacrifício pode ser consumida. Finalmente, diz que os homens não devem comer carne pois isso causa sofrimento aos animais, e versos descrevem que a vida nobre é a que vive apenas de flores, raízes e frutas.
Tempos atuais
Do século XIX até hoje, proeminentes figuras da espiritualidade indiana como Swami Vivekananda,Ramana Maharshi, Swami Sivananda, Bhaktivedanta Swami Prabhupada e Vijaypal Baghel enfatizaram a importância do ainsa. Gandhi promoveu o princípio do ainsa em todas as esferas da vida, principalmente na política (swaraj). Seu movimento satyagraha de não violência teve um imenso impacto na Índia, impressionou a opinião pública ocidental e influenciou líderes de vários movimentos por direitos políticos e civis como Martin Luther King Jr. e James Bevel. No pensamento de Gandhi, o ainsa proíbe não apenas infligir dor física, mas também estados mentais agressivos, comportamento violento, palavras duras, desonestidade e mentira. Gandhi acreditava que o ainsa era uma força criativa que conduzia todo ser humano a encontrar satya, a "verdade divina". Sri Aurobindo criticou o conceito de ainsa de Gandhi por ser pouco realista e não aplicável a todas as situações; ele adotou uma posição pragmática não pacifista, dizendo que a justificação da violência depende das circunstâncias específicas de cada situação. Seri Aurobindo também afirmou que a postura de Gandhi levou à partição da Índia na medida em que teria bloqueado a ação do povo indiano durante as décadas de 1920 e 1930, atrasando a independência indiana e permitindo, dessa forma, o crescimento dos movimentos que queriam uma Índia dividida.
Ioga
O ainsa é imperativo para os praticantes do rajaioga de oito partes de Patânjali. Faz parte da primeira parte, sendo o primeiro dos cinco iamas (autoproibições). A primeira parte, junto com a segunda parte, constitui o código de conduta da ioga. O ainsa ainda é um dos dez iamas do hataioga de acordo com o verso 1.1.17 do clássico manual Hatha Yoga Pradipika. O significado do ainsa como a primeira proibição da primeira parte da ioga é a de que ele é o fundamento para o progresso futuro do praticante. É o precursor do asana, ensinando que o sucesso da prática da ioga requer a purificação prévia dos pensamentos, palavras e intenções do praticante através do ainsa.
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No jainismo, a compreensão e a implementação do ainsa são mais radicais, escrupulosas e detalhadas do que em qualquer outra religião. Matar qualquer criatura viva sem que a pessoa esteja transtornada por paixões é considerado hiṃsā (ferir), e se abster de tal ato é considerado ainsa (não ferir). O voto de ainsa é considerado o mais importante dentre os cinco votos do jainismo. Outros votos, como satya (verdade), foram idealizados para proteger o voto de ainsa. Na prática do ainsa, os requerimentos são menos estritos para leigos (śrāvaka) que assumiram os votos menores (anuvrata) do que para os monges jainistas que assumiram os grandes votos (mahavrata). A afirmação ahimsā paramo dharmaḥ está inscrita nas paredes de todos os templos jainistas. Como no hinduísmo, o objetivo é se prevenir da acumulação de carma ruim. Quando Mahavira reviveu e reorganizou a fé jainista no século VI ou V a.C., o ainsa já era uma regra estabelecida e observada estritamente. Rishabhanatha (Ādinātha), o primeiro tirthankara jainista, que os historiadores ocidentais atuais consideram ter sido um personagem histórico real, foi sucedido por Parshvanatha (Pārśvanātha), que viveu por volta do século VIII a.C. Este fundou a comunidade à qual pertenciam os pais de Mahavira. O ainsa já fazia parte da quádrupla proibição (Caujjama), que eram os votos tomados pelos seguidores de Parshva. No tempo de Mahavira e nos séculos seguintes, os jainistas entraram em conflito com os budistas e com os hindus, a quem eles acusavam de negligência e inconsistência na implementação do ainsa. De acordo com a tradição jainista, é obrigatório o lactovegetarianismo ou o veganismo.
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Nos textos budistas, o ainsa (ou seu cognato páli avihiṃsā) é o primeiro dos cinco preceitos, e se aplica tanto aos leigos como aos monges. O preceito de ainsa não é um mandamento e sua transgressão não implica sanções religiosas, porém tem consequências cármicas e influi na reencarnação do praticante. Matar pode conduzir ao inferno, e matar um monge pode conduzir a um inferno mais severo e por um período de tempo mais prolongado. Acredita-se que salvar animais de serem mortos para alimentar humanos gera méritos que conduzem a uma reencarnação mais favorável. Os textos budistas não apenas recomendam o ainsa, mas também recomendam se evitar o comércio de produtos que contribuem ou são resultado de violência: Estes cinco comércios não devem ser praticados pelos seguidores leigos: comércio de armas, comércio de seres vivos, comércio de carne, comércio de intoxicantes, comércio de venenos. Ao contrário do que é válido para leigos budistas, a prática de ainsa implica sanções para os monges. Matar conduz à expulsão do monge do sanga, assim como cometer qualquer ofensa ao código de conduta budista Nicaia.
Guerra
Formas violentas de se punir os criminosos e prisioneiros de guerra não são explicitamente condenados pelo budismo, mas este encoraja formas pacíficas de resolução de conflitos e punições com o menor grau possível de sofrimento. Os textos mais antigos condenam os estados mentais que conduzem a comportamento violento. A não violência é um tema predominante no Cânon Páli. Embora os textos mais antigos condenem o assassinato nos termos mais fortes possíveis, e idealizem o rei ideal como um pacifista, tal rei é protegido por um exército. Parece que o ensino de Buda sobre a não violência não foi interpretado ou posto em prática como um sistema rígido de pacifismo e não serviço militar pelos primeiros budistas. Os textos mais antigos assumem que a guerra é um fato da vida, e que guerreiros bem treinados são necessários para a guerra defensiva. Nos textos em páli, recomendações para se abster da violência e de envolvimento com assuntos militares são direcionados aos membros do sanga; textos maaianas posteriores, que costumam estender as normas monásticas para os leigos, requerem tal conduta também para os leigos.
Leis
Os imperadores das dinastias Sui, Tangue e Sungue inicial proibiram matar animais nos meses 1, 5 e 9 do calendário chinês. A imperatriz Wu Zetian proibiu matar animais por mais de um semestre durante o ano de 692. Existiram proibições após a morte de imperadores, após orações budistas e taoistas e após desastres naturais, como a seca em Xangai em 1926. Houve uma proibição de oito dias após uma enchente em 1959. As pessoas evitam matar animais durante alguns festivais, como o Festival dos Fantasmas e o Festival Vegetariano.


