Panda-vermelho
O panda-vermelho ou panda-ruivo, também conhecido como raposa-de-fogo ou gato-de-fogo, é um pequeno mamífero arborícola e a única espécie do gênero Ailurus. Pertence à família Ailuridae, mas já foi classificado nas famílias Procyonidae (guaxinins) e Ursidae (ursos).
O termo panda foi aplicado por Thomas Hardwicke, quando o introduziu aos europeus em 1821. A origem do termo panda é desconhecida. Um dos poucos candidatos conhecidos para raiz da palavra panda é "pónya", possivelmente derivada de um termo da língua nepalesa para a protuberância arredondada da pata — talvez uma observação atenta de como este animal come bambu com um osso do pulso (sesamoide radial) adaptado para a função de polegar opositor e sexto dedo; outros autores acreditam que panda vem de "wah", termo nepalês para panda-vermelho, e originário do som semelhante a uma criança, que esta espécie às vezes produz. Outros nomes utilizados em diversas línguas são: Lesser Panda, Red Panda, Cloud Bear, Bright Panda, Common Panda, Fire Cat, Fire Fox, Red Fox, Fox Bear, Himalayan Raccoon, Red Cat-bear, Small Panda (inglês); Panda Éclatant, Petit Panda (francês); Panda Chico, Panda Rojo (espanhol); Kleiner Panda, Katzenbär (alemão); Nigalya Ponya, Poonya, Wah, Ye, Sankam, Thokya, Vetri (nepalês); Wokdonka (butanês); Hun-Ho, Pinyin (chinês); Wob, Thomtra marchung (tibetano).
Frédéric Cuvier (1825) descreveu inicialmente o panda-vermelho como um parente próximo dos guaxinins (Procyonidae), embora ele tenha dado o nome Ailurus baseado em suas semelhanças superficiais com os gatos domésticos. A classificação do panda-vermelho tem sido controversa desde sua descoberta, e já foi posicionado entre os Ursidae, Procyonidae, Ailuropodidae, ou então numa família própria, a Ailuridae. Essa incerteza surgiu da dificuldade em determinar se certas características do gênero Ailurus são filogeneticamente conservativas ou são derivadas e convergentes com espécies de hábitos ecológicos similares. Diversas hipóteses filogenéticas, baseadas em análises moleculares e morfológicas, têm surgido ao longo dos anos, posicionando o panda-vermelho: (1) mais próximo a Procyonidae que a Ursidae; (2) mais relacionado a Ursidae do que com a Procyonidae; (3) intermédio entre a Ursidae e a Procyonidae; (4) aparentado ao panda-gigante mas de posicionamento incerto; (5) mais relacionado a Musteloidea; ou (6) representa uma linhagem monotípica dentro da Arctoidea, porém de posicionamento não resolvido.
Subespécies ou Espécies
Tradicionalmente, o panda-vermelho é classificado como uma única espécie com duas subespécies: o panda-vermelho-himalaio (Ailurus fulgens fulgens F. Cuvier, 1825), encontrado nas regiões himalaias do Nepal, Assam, Sikkim e Butão, e o panda-vermelho-chinês (Ailurus fulgens styani Thomas, 1902), encontrado no sul da China e no norte de Mianmar. A subespécie himalaia tem uma pelagem mais clara especialmente na face, enquanto a subespécie chinesa têm a pelagem facial mais avermelhada e maior contraste nos anéis da cauda, além de diferenças na morfologia craniana. Entretanto, estudos moleculares recentes sugerem que as duas subespécies deveriam ser tratadas como duas espécies, A. fulgens e A. styani, ainda que a delimitação e a distribuição geográfica das duas espécies permaneçam sendo debatidas, com o rio Siang sendo sugerido como potencial divisor entre as duas espécies e o tempo de divergência entre elas sendo estimado entre 220 mil a 300 mil anos, em resposta a flutuações climáticas do Pleistoceno. O reconhecimento da eventual existência de duas espécies implica na necessidade de reavaliar o status e os esforços de conservação, uma vez que o panda-vermelho é considerado ameaçado de extinção e vem sofrendo redução de seu hábitat.
História evolutiva
Não são conhecidos fósseis congêneres do Ailurus fulgens. Entretanto, diversos fósseis de espécies relacionadas ao panda-vermelho tem sido descobertos na América do Norte, Europa e Ásia. Existem cerca de oito gêneros na família Ailuridae, entretanto, apenas o Ailurus é atual. Recentemente um fóssil, nomeado de Pristinailurus bristoli, descoberto do Mioceno da América do Norte, foi considerado o mais antigo e primitivo membro da família. Outros registros fósseis foram feitos no leste da China e no oeste da Grã-Bretanha.
Os pandas-vermelhos são encontrados principalmente em florestas temperadas, entre 2 200 e 4 800 metros de altitude, nos Himalaias, principalmente na região dos contrafortes ocidentais no oeste do Nepal, sul do Tibete, Sikkim, Assam e Butão, e em montanhas do norte de Mianmar e do sul da China, nas províncias de Sichuan (Montanhas Hengduan) e Yunnan (Montanhas Gongshan). A existência de pandas-vermelhos no sudoeste do Tibete e no norte de Arunachal Pradesh é muito provável, mas ainda não foi documentada. Ele foi extinto nas províncias chinesas de Guizhou, Gansu, Shaanxi e Qinghai. Sua presença nas montanhas do sul da China constitui um refúgio durante a última glaciação do Pleistoceno. Na China, o panda-vermelho e o panda-gigante são simpátricos nas montanhas de Qionglai, Minshan, Xiangling, e Liangshan na província de Sichuan. A distribuição dos pandas é disjunta, tendo a garganta do Rio Bramaputra, que faz uma curva em torno da extremidade oriental do Himalaia, como uma divisão natural entre as duas subespécies, embora alguns autores sugiram que a variedade A. f. fulgens se estenda mais para o oriente, em Yunnan, na China.[carece de fontes?]
Os pandas-vermelhos apresentam um comprimento moderado, com uma cauda relativamente longa e felpuda, marcada com cerca de 12 anéis alternando círculos vermelhos e camurças, não sendo preênsil. A cabeça é arredondada, o focinho curto, e as orelhas grandes, eretas e pontiagudas. Apresenta uma grossa pelagem sobre o corpo. Na região ventral a pelagem é macia, lanosa e densa. A face é predominantemente branca com marcações lacrimais castanho-avermelhadas abaixo dos olhos. A pelagem do dorso também é castanho-avermelhada, enquanto que ventralmente é de um negro uniforme. Os membros são negros e as solas dos pés e mãos são cobertas com pelos densos de coloração branca. Não há dimorfismo sexual na coloração e no tamanho de machos e fêmeas. Os membros torácicos são arqueados para dentro, fazendo com que seu andar seja gingado. Os seus pés são plantígrados. Também possui garras semi-retráteis e, como o panda-gigante, tem um "polegar falso" que é na verdade uma extensão do osso do pulso.
Os pandas-vermelhos são animais crepusculares (mais ativos ao amanhecer e ao entardecer) e noturnos, passando o dia dormindo nos ramos das árvores ou em tocas. Eles são sensíveis ao calor e sua temperatura ideal é entre 17°C e 25°C, e não toleram temperaturas acima de 25 °C. Como resultado, os pandas-vermelhos dormem durante as horas mais quentes do dia nas copas sombreadas das árvores, muitas vezes ficando esticados nos galhos bifurcados, ou então em tocas. Os pandas-vermelhos são animais muito hábeis e acrobáticos, vivendo predominantemente nas árvores. Habitam áreas territoriais demarcadas e são frequentemente solitários, raramente vivendo em casais ou em grupos familiares. Procuram alimento à noite, correndo ao longo do solo ou pelas árvores com velocidade e agilidade e, depois de encontrar comida, usam as suas patas dianteiras para colocar o alimento em suas bocas. Os pandas-vermelhos bebem mergulhando a sua pata na água e lambendo-a. Seus principais predadores são leopardo-das-neves (Uncia uncia) e os humanos.
O panda-vermelho, apesar de ter um sistema digestivo mais adequado a uma dieta carnívora, é um animal omnívoro que se alimenta maioritariamente de bambu apesar de não poder digerir a celulose, portanto deve consumir uma grande quantidade de bambu para sobreviver. A sua dieta consiste de aproximadamente dois terços de bambu, e ele a suplementa com bagas, frutos, cogumelos, raizes,bolotas, líquens e gramíneas, além de se alimentarem ocasionalmente com filhotes de pássaros, ovos, pequenos roedores e insetos. Em cativeiro, também se alimentam de carne. Os pandas-vermelhos são excelentes escaladores e forrageiam basicamente em árvores.[carece de fontes?] Os brotos de bambu são mais facilmente digeridos do que as folhas e apresentam uma maior digestibilidade no verão e no outono, intermediária na primavera, e baixa no inverno. Essas variações tem relação com os conteúdos nutritivos do bambu. O panda-vermelho não digere completamente o bambu, especialmente a celulose e componentes da parede celular. Isto implica que a digestão microbiana desempenhe somente um pequeno papel em sua estratégia digestiva, semelhante ao panda-gigante. O trânsito do bambu pelo intestino do panda-vermelho é muito rápido (entre duas e quatro horas). Para sobreviver nesta dieta com baixo teor calórico, o panda tem de selecionar partes de alta qualidade, como folhas tenras e brotos. Eles ingerem uma grande quantidade de alimento (mais de 1,5 quilogramas de folhas frescas e 4 quilogramas de brotos frescos diariamente), a fim de maximizar a absorção de nutrientes, já que este passa pelo trato digestivo rapidamente.
Pandas-vermelhos adultos raramente se interagem fora da estação de acasalamento. Ambos os sexos podem se acasalar com mais de um parceiro durante a estação. O acasalamento ocorre entre meados de janeiro até o começo de março (período do inverno), e os filhotes nascem entre junho e o final de julho (primavera e verão). O período de gestação varia de 112 a 158 dias, e a fêmea dá à luz entre um a quatro filhotes, que nascem cegos e pesando 110-130 gramas. Alguns dias antes do nascimento a fêmea começa a reunir material, como capim e folhas para usar na confecção do ninho. O ninho é normalmente localizado em uma árvore oca ou uma fenda de rocha. Após o parto, a fêmea limpa os filhotes e deste modo estabelece um elo olfativo com cada filhote. Nos primeiros dias, ela permanece cerca de 60% a 90% do seu dia junto aos recém-nascidos. Após uma semana, ela já passa mais tempo fora do ninho, retornando apenas algumas horas por dia para alimentá-los e limpá-los. Os filhotes abrem os olhos com dezoito dias de idade, e com noventa dias já apresentam a coloração típica para a espécie, e ingerem os primeiros alimentos sólidos aos 125-135 dias. A ninhada permanece no ninho durante doze semanas. Depois deixam-no, mas permanecem com sua mãe, sendo desmamados aos 6-8 meses de idade.[carece de fontes?]
O panda-vermelho é classificado, pela IUCN como sendo vulnerável, e na CITES, aparece no "Appendix I". A população foi estimada em menos de 2 500 animais adultos em 1999, e entre 16 mil e 20 mil em 2001. As principais ameaças ao panda-vermelho são perda do habitat pela agricultura, pecuária e desmatamento, caça ilegal e mudanças na dinâmica das espécies nativas. A importância relativa destes diferentes fatores varia entre as diferentes regiões em que o panda-vermelho é encontrado e não está muito bem compreendida. O panda-vermelho é protegido em todos os países nos quais vive e sua caça é considerada ilegal. No sudoeste da China, o panda-vermelho é caçado pela sua pelagem e especialmente por sua cauda felpuda altamente valiosa, da qual são produzidos chapéus. Nessas áreas, a pele muitas vezes é usada para cerimônias culturais e em casamentos. Os "chapéus" são tidos como amuletos de boa sorte e usados pelos chineses recém-casados. Até recentemente, pandas-vermelhos eram capturados e vendidos a jardins zoológicos. Em um artigo no International Zoo News, Munro (1969) descreve que pessoalmente capturou 350 pandas em dezessete anos. Esse número diminuiu substancialmente nos últimos anos, devido às ações da CITES no combate ao tráfico internacional de animais selvagens. Entretanto, a caça clandestina continua e eles muitas vezes são vendidos a colecionadores particulares a preços exorbitantes. Em alguns lugares do Nepal e da Índia, o panda-vermelho é mantido como animal de estimação.
Cativeiro
O panda-vermelho é relativamente comum em jardins zoológicos ao redor do mundo. Em 1992 existiam mais de 300 animais distribuídos em 85 zoológicos. Em 2006 eram 511 indivíduos da subespécie fulgens em 173 instituições, e 306 da refulgens (=styani) em 81 instituições. Ele se reproduz com relativo sucesso em cativeiro, desde que suas necessidades sejam atendidas. Há vários programas regionais de procriação em cativeiro (América do Norte, Europa, Austrália, Japão e China), que são coordenados num programa global sobre os cuidados da International Studbook e da International Red Panda Management Group. Na América do Norte existe uma população de 182 indivíduos (2001) que são mantidos e administrados pela Species Survival Plan (SSP).


