Agressão
Agressão é um ato em que um indivíduo prejudica ou lesa outro(s) de sua própria espécie. O comportamento agressivo em humanos pode ser definido em termos gerais como um comportamento social hostil, como o de infligir dano ou causar prejuízo a uma pessoa ou grupo. Ainda é um tema controverso se esse comportamento de causar danos em alguém é devido à existência de um instinto ou se é resultante de múltiplas determinações motivacionais e circunstanciais. Desde o final do século XX, diversos estudos têm apontado para o fato de que ambos os fatores estão presentes na manifestação desse fenótipo. A agressão pode ter benefícios adaptativos ou impactos negativos para a espécie. Na espécie humana, além da agressão capaz de causar lesão corporal, existem vários tipos de agressão: dirigida, verbal, deslocada etc., definidas por critérios de classificação jurídicos ou oriundos de diversas disciplinas científicas. A agressão distingue-se da predação por corresponder ao instinto de combate do animal e do homem dirigido contra o seu próprio congénere.
De acordo com Wierviorka, 1997, os problemas da violência estão ligados a representações sociais que os codificam positiva ou negativamente. Associados ao conceito de violência voluntária, surgem os conceitos de abuso, agressão e agressividade. A agressão pode assumir uma variedade de formas. Diversas classificações e dimensões têm sido propostas para estimar tais diferenças. A agressão pode ser classificada quanto a sua forma (isto é, agressão direta ou agressão indireta) ou quanto a um excesso ou falta de sensibilidade emocional (isto é, agressão impulsiva-reativa/agressão instrumental-proativa). Muitas são as possibilidades ou critérios para classificar a agressão, especialmente humana, como por exemplo os que a própria linguagem ou os idiomas e culturas utilizam, aparentemente designando a intensidade da ação ou sentimento. As categorias jurídicas de classificação de crimes, por sua vez, tomam, como parâmetros, a intensidade do dano provocado (ofensa moral, lesão corporal, morte), a motivação e forma de execução. Os crimes hediondos, por exemplo, se caracterizam por motivos fúteis e realização por meios cruéis. Explorando ainda as possibilidades linguísticas e forma de manifestação da agressão, temos:
Agressão direta
Esta é definida como comportamentos físicos ou verbais com a intenção manifesta de causar dano direto a alguém. O comportamento agressivo dirige-se à pessoa ou ao objecto que justifica a agressão. Na agressão sexual, o objeto almejado confunde-se com o motivo da agressão. Os motivos fúteis opõem-se à defesa da vida como critério de gravidade do ato agressivo. Nessa categoria, podem, ainda, ser incluídos os crimes de ódio, sadismo ou agressão sociopática.
Agressão indireta
A agressão indireta é caracterizada por um comportamento que visa a causar prejuízo às relações sociais de um indivíduo ou grupo. É, frequentemente, relacionada com uma maior expressividade no gênero feminino.
Agressão impulsiva ou reativa
A agressão impulsiva é definida como um ato hostil em resposta a um estímulo percebido como ameaçador ou frustrante. Este tipo de agressão apresenta um forte componente emocional e uma elevada excitação autonômica, além de estar associado a um reduzido controle de impulsos e a uma percepção de hostilidade enviesada. Este tipo de agressão é, geralmente, associado à raiva, o que o coloca em oposição à agressão premeditada. Em termos neurobiológicos, este tipo de agressão apresenta um alto componente amigdalar e reduzido controle de cima para baixo e de funções do Córtex Pré-Frontal. A agressão sem motivo algum denomina-se "agressão gratuita" e é conhecida legalmente como constrangimento ilegal.
Agressão instrumental ou proativa
É um tipo de agressão que visa a um objecto; que tem, por fim, conseguir algo independentemente do dano que possa causar. É, frequentemente, planejada e, portanto, não impulsiva, sendo uma forma de combatividade ofensiva. Assim, este comportamento agressivo premeditado e controlado, a agressão impulsiva, é um padrão comportamental planejado deliberadamente para atingir uma meta, sendo relacionado com a ocorrência de crime e falta de remorso. Podemos apontar, como exemplo de agressão instrumental, o assalto a um banco: pode ocorrer, no decurso da ação, uma agressão, mas não é esse o objectivo. O seu fim é conseguir o dinheiro, a agressão que possa surgir é um subproduto da ação.
Outros tipos de classificação de comportamento agressivo
É o conjunto de confrontos adaptativos para o indivíduo ou espécie contra seus semelhantes em situações de competição por objeto de motivação comum, podendo, ainda, se distinguirem formas mais ofensivas ou defensivas. O sujeito dirige a agressão a um alvo que não é responsável pela causa que lhe deu origem. Em animais, também se observa esse mecanismo de controle dos impulsos agressivos. O sujeito desloca a agressão para si. Ver o verbete Suicídio. Este tipo de franca agressão, que se pode manifestar pela violência física ou psicológica, é explícita, isto é, concretiza-se, por exemplo, em espancamentos, ataques à autoestima, humilhações. Este tipo de agressão recorre a meios não abertos para agredir. O sarcasmo e o cinismo são formas de agressão que visam a provocar o outro, feri-lo na sua autoestima, gerando ansiedade. A teoria psicanalítica tem, como explicação desta forma de agressão, a motivação inconsciente.
Em muitos casos, os anos de formação da pessoa agressiva são marcados pelo mau exemplo dos pais ou por negligência total. Muitos agressores vêm de lares onde os pais eram frios, desinteressados ou onde eles tenham realmente ensinado a seus filhos a usar a fúria e a violência para resolver problemas. Crianças educadas num ambiente desses talvez nem reconheçam como sendo agressividade seus próprios ataques verbais e físicos; podem até mesmo pensar que seu comportamento é normal e aceitável.
Concepção psicanalítica
Na concepção psicanalítica, a agressividade designa uma tendência especificamente humana marcada pelo carácter ou vontade de cometer um acto violento sobre outro. Pode, também, ser definida como uma tendência ou conjunto de tendências que se actualizam em condutas reais ou fantasmáticas, as quais visam a causar dano a outro, destruí-lo, coagi-lo, humilhá-lo etc. (Laplanche e Pontalis). Manifesta-se a partir de uma experiência que é subjetiva por sua própria constituição, subjetividade esta que não pode ser objetada por falta de mensuração ao se rejeitar como observáveis os resultados da introspecção e comunicação verbal, pois são visíveis seus resultados, assim como o são muitos fenômenos físicos de que só conhecemos os efeitos.
Teorias comportamentais sobre a agressão
Uma das teorias mais divulgadas sobre o comportamento agressivo foi proposta por psicólogos da Universidade Yale em 1939 (John Dollard, Leonard Doob, Neal Miller, O. Hobart Mowrer e Robert Sears). Seu postulado básico é a suposição de que a agressão é sempre uma consequência da frustração, ou seja, a resposta emocional a um bloqueio de uma resposta orientada para um objectivo numa sequência de comportamentos. Variando a intensidade ou força da agressão de acordo com a quantidade de frustração. Sabe-se hoje da considerável variação individual quanto à tolerância à frustração, interpretada por sua vez em distintas teorias psicológicas.
Contribuições da neurociência e genética
Do ponto de vista da genética, apesar de ser nítido, em algumas espécies e/ou nas variedades de uma espécie (cães, por exemplo), a predominância de comportamentos agressivos na sua adaptação, ainda não há consenso sobre a existência de genes para agressão e mesmo sobre doenças genéticas que possuam a agressividade como característica patognomônica, a exemplo da Síndrome XYY e Epilepsia do lobo temporal, especialmente quanto à determinação genética dessa última. A gênese da sociopatia e personalidades sádicas e agressivas têm que ser consideradas de natureza multifatorial, envolvendo tanto características da origem psicossocial como biológica.
Antropologia
Observe-se que tanto nos seres humanos como nos animais existem sistemas específicos de fibras nervosas e núcleos ou grupos específicos de células nervosas adequados funcionalmente no cérebro para cumprir as específicas funções de agressão ou ataque. Contudo, como assinala o antropólogo Ashley Montagu (1905-1999), mais que nos animais, nos seres humanos tais elementos pré-funcionais são organizados pela experiência, ou história de punições e reforçamentos do comportamento, como diriam os behavioristas analisando o processo de aprendizagem e/ou inibição do comportamento agressivo. Montagu, 1978 destaca ainda que, nos seres humanos em geral, as influências genéticas per se não podem ser responsabilizadas pelo comportamento agressivo, e que na maioria dos casos esse comportamento depende muito da interação com os fatores do meio, apesar de não se poder descartar que existem influências genéticas e que, em alguns casos, estes fatores têm grande influência.
Os estudos da agressão ou violência, assim como os da sexualidade, são tidos como próprios para uma abordagem interdisciplinar, pois o seu enquadramento em qualquer uma das disciplinas científicas revela-se insuficiente. Já se aceita com naturalidade a expressão sexologia como uma espécie de interciência que reuniu: psicologia; antropologia e diversas especialidades médicas (ginecologia; urologia; psiquiatria; endocrinologia), além das disciplinas básicas que cuidam da descrição anatômica e pesquisa das funções do aparelho reprodutor humano (fisiologia), sendo ainda mais comuns estudos com o enfoque clínico visando ao tratamento das disfunções sexuais, da infertilidade e/ou da contracepção fundamentados em critérios sociológico–demográficos. Os estudos da agressão, já denominados agressiologia (Agressiologie na França em 1983), parecem seguir a mesma tendência de agregação multidisciplinar, situando-se, porém, o enfoque dominante na área jurídica – a criminologia - e não na área médica. São inúmeras as contribuições das ciências sociais, psicologia e ciências biológicas, em especial a etologia, e, mais recentemente, da Saúde Pública face à elevação da agressão como causa de morte em populações.


