Agostinho de Jesus
Frei Agostinho de Jesus foi um sacerdote católico e frei beneditino brasileiro, reconhecido como um dos primeiros escultores e um dos primeiros grandes artistas da tradição europeia ativos no Brasil. Sua produção foi toda no campo da imaginária de culto e realizada em terracota, e influenciou gerações de santeiros eruditos e populares espalhados por São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás.
Nascido no Rio de Janeiro no início do século XVII, voltou-se desde cedo para a vida religiosa. Iniciou seus estudos no mosteiro beneditino de Salvador da Bahia. Ali conheceu trabalhos do escultor português Frei Agostinho da Piedade, outro nome referencial dos primórdios da introdução no Brasil da arte da escola europeia. Embora não haja prova documental, geralmente é aceito que Agostinho da Piedade foi seu mestre. Quando chegou o momento de ser ordenado sacerdote, em 19 de junho de 1628 foi notificado de que, como a sede episcopal estava vacante, seria obrigado a dirigir-se a Portugal para receber a ordenação. A viagem teria um impacto na sua formação artística também. Segundo o historiador Clemente Maria da Silva-Nigra, "esta viagem a Portugal, soube proporcionar a graça e o caráter sacerdotais ao monge brasileiro, ofereceu-lhe o melhor ensejo para desenvolver seu gênio artístico. Pôde então contemplar muitas obras de arte, tanto de pintura como escultura, e certamente não terá faltado ocasião para encontrar-se com bons mestres, capazes de orientar seus múltiplos talentos".
A obra de Frei Agostinho se situa estilisticamente na passagem do Maneirismo para o Barroco. A historiadora da arte Adalgisa Arantes Campos comparou o estilo da produção do Frei Agostinho da Piedade com o do seu discípulo brasileiro. Inicia falando sobre o primeiro: A importância das encomendas que recebeu atesta que fez reputação como artista enquanto viveu, e sua obra influenciou gerações de santeiros ativos em São Paulo, e através deles muitos outros, mas depois foi esquecido. Há pouca documentação coeva sobre ele. Uma pequena biografia foi compilada em manuscrito pelos monges em 1773, onde é dito que "ocupava-se na pintura e em fazer imagens de barro, para o que tinha especial graça e direção. Ainda hoje se veneram nos altares do mosteiro de São Paulo imagens perfeitas obradas por este monge quando lá residiu: e piamente se pode inferir que na glória estará acompanhando aqueles santos, cujas imagens expôs na terra à pública veneração dos católicos".
Através da comparação estilística alguns estudiosos postularam que a venerada estátua de Nossa Senhora de Aparecida, padroeira do Brasil, deve ser atribuída à sua autoria, mas outros discordam. Praticamente nada se sabia sobre sua origem até a década de 1940, quando foram encontrados documentos do século XVIII alegando que teria sido achada por pescadores no fundo do rio Paraíba do Sul, iniciando-se a devoção. Não foi citada em fontes da época da sua criação, não há nenhuma comprovação ou indício documental apontando Frei Agostinho como autor ou relacionado diretamente a ela, e o assunto permanece controverso. Porém, seu estilo é consistente com o da escola fundada por Frei Agostinho, que influenciou os santeiros do Vale do Paraíba, onde a estátua foi achada, e na opinião da maioria dos especialistas, se não foi obra do próprio mestre, pelo menos provavelmente foi criada dentro do seu círculo de seguidores. Os peritos que restauraram a estátua depois do atentado de 1978 que a destruiu declararam que é seguramente de autor ativo em São Paulo na primeira metade do século XVII, mas não indicaram um nome específico. O Santuário Nacional de Aparecida não lhe dá um autor definitivo, mas reconhece a atribuição a Frei Agostinho.


