Batalha de Viena
A Batalha de Viena, ocorrida em 12 de setembro de 1683 no Monte Kahlenberg, marcou um ponto de virada crucial na história europeia. Após dois meses de cerco otomano à cidade, as forças combinadas do Sacro Império Romano-Germânico e da Comunidade Polaco-Lituana, sob a liderança do Rei João III Sobieski, enfrentaram e derrotaram o Império Otomano e seus vassalos. Esta foi a primeira vez que as duas potências cristãs cooperaram militarmente contra os otomanos. A vitória não apenas encerrou a expansão otomana na Europa, mas também levou à subsequente perda de grande parte da Hungria otomana para Leopoldo I, Sacro Imperador Romano-Germânico, na guerra que se estendeu até 1699.
Pontos-chave
- A Batalha de Viena ocorreu em 12 de setembro de 1683, após dois meses de cerco otomano à cidade.
- Foi a primeira vez que o Sacro Império Romano-Germânico e a Comunidade Polaco-Lituana uniram forças contra os otomanos.
- A vitória cristã marcou o fim da expansão otomana na Europa, que não mais ganharia território.
- A derrota otomana resultou na perda da maior parte da Hungria para os Habsburgos na guerra subsequente.
- O Rei João III Sobieski liderou as forças aliadas à vitória decisiva.
Viena era um alvo estratégico de longa data para o Império Otomano devido ao seu controle sobre o rio Danúbio e importantes rotas comerciais. Nos anos que antecederam o cerco de 1683, o Grão-vizir Kara Mustafá Paxá realizou extensos preparativos logísticos, incluindo a reparação de estradas, pontes e o transporte de suprimentos militares. A cidade não era ameaçada desde o cerco de Szigetvár em 1566, que interrompeu o avanço de Solimão, o Magnífico. Em 1679, Viena foi assolada pela peste. Politicamente, os otomanos apoiavam os húngaros e minorias não católicas na Hungria ocupada pelos Habsburgos, que se rebelavam contra a Contrarreforma de Leopoldo I. Em 1681, Imre Thököly, líder das forças anti-Habsburgo Kuruc, recebeu apoio militar otomano e foi reconhecido como Rei da 'Alta Hungria', com a promessa do 'Reino de Viena' caso a cidade caísse. Apesar disso, um estado de paz de 20 anos existia entre o Sacro Império Romano e o Império Otomano, resultado da Paz de Vasvár.
O exército otomano principal iniciou o cerco a Viena em 14 de julho. No mesmo dia, Kara Mustafá enviou a exigência tradicional de rendição da cidade, mas Ernst Rüdiger Graf von Starhemberg, comandante dos 15.000 soldados e 8.700 voluntários com 370 canhões, recusou-se a capitular. A recusa foi influenciada pelo massacre ocorrido em Perchtoldsdorf, onde cidadãos foram mortos após se renderem. As operações de cerco começaram em 17 de julho. Os vienenses demoliram casas ao redor das muralhas, criando uma planície para expor os otomanos ao fogo defensivo. Em resposta, Kara Mustafá Paxá ordenou a escavação de longas trincheiras em direção à cidade para proteger suas forças durante o avanço.
As informações sobre as vítimas do cerco otomano (17 de julho a 12 de setembro de 1683) variam. Embora os números de tropas domésticas e de séquito (78.500 e 44.200, respectivamente) sejam considerados certos, outros números, como 50.000 tártaros e 10.000 valáquios, são arredondados. Kahraman Şakul sugere que a tabela anônima existente apresenta números contados para as tropas domésticas e de séquito, enquanto os números de tropas provinciais (40.000 Tımarlı Sipahi) e de estados vassalos (100.000) são estimativas esperadas. Por exemplo, o número de tártaros, nogais e circassianos era superior a 100.000, mas a tabela indica 50.000 guerreiros tártaros. Relatos otomanos apontam que o exército doméstico era composto por 25.529 janízaros, 3.045 armeiros e 4.000 artilheiros, totalizando 32.574, em contraste com a estimativa de 60.000 na tabela. A avaliação de K. Şakul estima o exército otomano em aproximadamente 120.000 soldados e 156 armas, com 30.000 soldados posicionados em castelos capturados para interceptar o exército de socorro.
Para romper o cerco, um exército de socorro composto por forças polonesas e imperiais foi rapidamente mobilizado. Apesar da diversidade de nacionalidades e do curto prazo de seis dias, uma estrutura de liderança eficaz foi estabelecida, centrada no Rei da Polônia e sua poderosa cavalaria (hussardos poloneses). A Liga Santa financiou a operação com fundos governamentais, empréstimos de banqueiros e nobres, e contribuições papais. Habsburgos e poloneses acordaram que a Polônia custearia suas tropas em território polonês, e o Imperador as financiaria ao entrarem em território imperial. Sobieski também teve seus direitos de pilhagem do campo inimigo reconhecidos em caso de vitória. As forças sitiantes otomanas, lideradas por Kara Mustafá, estavam menos coesas, enfrentando problemas de motivação e lealdade, e dificuldades em se preparar para o ataque. Mustafá confiou a defesa da retaguarda ao Cã da Crimeia, com 30.000 a 40.000 homens, mas a participação dos tártaros na batalha final é questionável. O Cã recusou-se a atacar a força de socorro ao cruzar o Danúbio e ao emergir dos Bosques de Viena. Os aliados otomanos da Valáquia e da Moldávia também se mostraram pouco confiáveis; Jorge Ducas, Príncipe da Moldávia, foi capturado, e Șerban Cantacuzino da Valáquia, simpático à coalizão cristã, juntou-se à retirada após a carga de cavalaria de Sobieski. Cantacuzino havia negociado com as forças imperiais para que a Valáquia se unisse ao lado cristão, buscando a proteção dos cristãos nos Bálcãs e, em troca, os Habsburgos prometeram-lhe o trono de Constantinopla.
A batalha começou antes da completa mobilização das unidades. Às 4:00h de 12 de setembro, o exército otomano atacou para tentar desorganizar a implantação das tropas da Liga Santa. Os alemães iniciaram o contra-ataque, com Carlos de Lorena avançando pela esquerda e outras forças imperiais pelo centro. Após intensos combates e múltiplos contra-ataques otomanos, posições-chave como as aldeias fortificadas de Nussdorf e Heiligenstadt foram tomadas. Ao meio-dia, o exército imperial havia infligido danos significativos e estava próximo de um avanço. Simultaneamente, Cantacuzino e seus soldados, que secretamente apoiavam a coalizão cristã, tentaram sabotar o cerco otomano abandonando a ponte sobre o Danúbio na Ilha Brigittenau, onde os valáquios estavam posicionados para cobrir o flanco esquerdo otomano. Mustafá Paxá lançou contra-ataques com a maioria de suas forças, mas reteve unidades de elite de janízaros e sipahi para um ataque simultâneo à cidade. A liderança otomana havia planejado, sem sucesso, capturar Viena antes da chegada das forças de Sobieski. Seus sapadores prepararam uma grande detonação final sob o Löbelbastei para abrir uma brecha nas muralhas, mas as dez minas programadas foram localizadas e desarmadas pelos defensores.
O historiador otomano contemporâneo Silahdar Findiklili Maomé Agha (1658–1723) descreveu a Batalha de Viena como a derrota mais desastrosa para o Império Otomano desde sua fundação em 1299. Os otomanos perderam pelo menos 20.000 homens durante o cerco, e suas perdas na batalha contra as forças de Sobieski totalizaram cerca de 15.000 mortos (segundo Podhorodecki) ou 8.000–15.000 mortos e 5.000–10.000 capturados (segundo Tucker). Em contraste, as baixas da força de socorro sob Sobieski foram muito menores, aproximadamente 3.500 mortos e feridos, incluindo 1.300 poloneses (Tucker estima 4.500). A guarnição vienense de 10.000 homens e a população civil perderam cerca de metade de seu número inicial durante o cerco. As tropas da Liga Santa e os vienenses saquearam uma vasta quantidade de bens do exército otomano, conforme descrito por Sobieski em uma carta à sua esposa dias após a batalha.
A vitória em Viena abriu caminho para a reconquista da Hungria e, temporariamente, de terras nos Bálcãs nos anos seguintes, por figuras como Luís de Baden, Maximiliano II Emanuel da Baviera e o Príncipe Eugênio de Saboia. Os otomanos lutaram por mais 16 anos, mas acabaram perdendo o controle da Hungria e da Transilvânia. O Tratado de Karlowitz, assinado em 1699 entre o Sacro Império Romano e o Império Otomano, cedeu grande parte da Hungria aos Habsburgos. A batalha marcou o fim histórico da expansão otomana na Europa. As ações de Luís XIV da França, que iniciou a Guerra das Reuniões no Sacro Império Romano enfraquecido no mês seguinte, intensificaram a inimizade franco-alemã. Em reconhecimento à vitória, que Sobieski atribuiu à proteção da Santíssima Virgem (Nossa Senhora de Częstochowa), o Papa Inocêncio XI estendeu a festa do Santo Nome de Maria para toda a Igreja, transferindo-a para 12 de setembro, o dia da vitória. O Papa também adicionou a Águia Branca coroada da Polônia ao brasão papal e concedeu a Sobieski o título de 'Defensor da Fé' ('Defensor Fidei'). Em homenagem ao rei polonês, os austríacos ergueram uma igreja no topo da colina Kahlenberg, ao norte de Viena.
Os Ataques de 11 de Setembro e a Batalha de Viena
Alguns teóricos sugerem que a Al-Qaeda escolheu 11 de setembro de 2001 para realizar os ataques terroristas nos Estados Unidos devido à percepção da importância da data como o ponto de viragem na Batalha de Viena. Segundo Lawrence Wright, 11 de setembro de 1683 foi visto pela Al-Qaeda como o dia em que o mundo ocidental obteve domínio sobre o Islã; 11 de setembro, 318 anos depois, marcaria o renascimento do poder islâmico.


