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Cabo Anselmo

José Anselmo dos Santos, mais conhecido como Cabo Anselmo,, foi um marinheiro, militante e delator brasileiro conhecido por liderar, em 1964, a Revolta dos Marinheiros, pouco tempo antes do golpe que derrubou o então presidente João Goulart e instaurou a ditadura militar brasileira; e, também, por ter sido agente duplo, colaborando com informações que levariam à tortura e à morte de diversos militantes de esquerda, dentre os quais sua namorada, Soledad Barrett Viedma, que carregava um filho seu.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 13/07/2026
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Carreira na Marinha

Entrou na Marinha através da Escola de Aprendizes-Marinheiros da Bahia, em 1958, servindo na graduação de marinheiro de primeira classe. Apesar do apelido, não era cabo; o título foi erroneamente atribuído por jornalistas. Em março de 1962 filiou-se à Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil (AMFNB), onde foi eleito diretor de relações públicas. A AMFNB era uma das principais associações de classe dentro dos movimentos dos subalternos militares, responsáveis também pela revolta dos sargentos de 1963. Ela exigia direitos negados aos marinheiros e fuzileiros navais abaixo da graduação de cabo, como o casamento, voto e uso de trajes civis fora do expediente, e a reforma dos regulamentos disciplinares. Em abril de 1963 foi eleito presidente da Associação graças à desistência de três outros candidatos mais fortes. Sua eleição foi apoiada por uma facção mais militante que criticava o presidente anterior, João Barbosa de Almeida, por sua atitude conciliatória. Anselmo é conhecido entre a esquerda e os militares como líder mais radical, mas pelas fontes dos marinheiros, o mais combativo era o vice-presidente Marcos Antônio da Silva Lima. Segundo Pedro Viegas, cabo envolvido em A Tribuna do Mar, o jornal da AMFNB, Anselmo tinha função principal como representante de relações públicas, com o poder efetivo nas mãos de Marcos Antônio. Depoimentos dos marinheiros são unânimes em afirmar a habilidade oratória de Anselmo. Ele ganhou notoriedade e a Associação crescia rapidamente. Ela radicalizou-se à esquerda, aproximou-se de movimentos de fora da Marinha e apoiou as reformas propostas pelo presidente João Goulart. Ao mesmo tempo, entrou em conflito com o Conselho do Almirantado. A Marinha dispersou os diretores para dificultar a reunião. Em janeiro de 1964, Anselmo foi transferido do Centro de Instrução da Marinha para uma pequena unidade em terra, isolado da massa dos marinheiros.

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Acusações de ser agente infiltrado antes do golpe

Somente após a prisão nos anos 70, na qual teria sido supostamente coagido e torturado, Anselmo reconhece ter aceitado trabalhar para o Governo Militar, quando infiltrou-se em grupos de esquerda e movimentos sindicalistas. Porém, havia suspeitas de que antes de 1964, Anselmo já fosse um agente infiltrado nesses movimentos, sendo sua função fornecer informações para os órgãos de repressão do governo. Tal suspeita tem base em depoimentos como o do policial Cecil Borer, ex-diretor do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) do Rio de Janeiro. Cecil afirma que Cabo Anselmo já possuía treinamento específico para trabalhos de infiltração antes do golpe militar. Apesar de negativas de Anselmo e seus apoiadores, citam-se evidências documentais das próprias Forças Armadas de que ele realmente já fosse agente de infiltração, antes de 1964 e da Revolta dos Marinheiros. Um documento do Centro de Informações da Aeronáutica, datado de 1966, corrobora as afirmações de Borer de que a fuga de Anselmo naquele ano foi falsa. Já o chefe do Serviço Federal de Informações e Contrainformação no governo Goulart, Ivo Acioly Corseuil, declarou em 1977 que Anselmo era à época agente da Central Intelligence Agency (CIA) americana. Segundo o fuzileiro naval Narciso Júlio Gonçalves, ele e outros companheiros suspeitavam à época de Anselmo ser um agente provocador.

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Ações durante a ditadura militar

Imagem: Guillermo Llamos · BY · Openverse

Com a vitória do golpe, teve seus direitos políticos suspensos por dez anos pelo Comando Supremo da Revolução. A AMFNB foi dissolvida, e todos os seus dirigentes, expulsos da Marinha. Anselmo foi julgado pelos crimes de motim e revolta. Chegou a ser preso, mas fugiu, exilando-se por último em Cuba e voltando ao Brasil somente em 1970, quando tornou-se membro atuante do movimento guerrilheiro brasileiro que combatia a ditadura. Acabou preso por Sérgio Paranhos Fleury e levado para o DOPS. Mesmo considerada apenas sua atuação assumida como agente da repressão, Anselmo levantou com sucesso uma grande quantidade de dados sobre os movimentos dos guerrilheiros brasileiros, resultando na prisão, morte e tortura de vários de seus integrantes. Entre eles, estava a noiva de Anselmo, Soledad Barrett Viedma, grávida de quatro meses. Mesmo assim, Anselmo, que seria "justiçado" e assassinado pelos companheiros da noiva, a entregou para o delegado Sérgio Paranhos Fleury. Soledad não resistiu as torturas e morreu.

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Volta após a redemocratização

Imagem: Guillermo Llamos · BY · Openverse

A desconfiança a respeito de sua morte desapareceu a partir do momento em que a entrevista concedida por Anselmo ao jornalista Octavio Ribeiro foi publicada pela Revista Isto É, na edição de 28 de março de 1984. Foi também entrevistado pelo jornalista Percival de Souza, em 1999. A 30 de agosto de 2009, Cabo Anselmo participa ainda do programa Canal Livre, da Rede Bandeirantes de Televisão. Participou ainda do Programa Roda Viva da TV Cultura, a 17 de outubro de 2011. Na entrevista revelou detalhes sobre episódios ocorridos durante a ditadura e afirmou não sentir culpa por entregar militantes.

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Aposentadoria

Imagem: Gobernación Provincial de Arica · BY · Openverse

Cabo Anselmo pleiteava uma identidade formal, pois desde que foi cassado nunca mais conseguiu documentos que provassem ser ele José Anselmo dos Santos. Requereu junto ao Governo de São Paulo o pagamento da indenização devida aos que foram presos e torturados no Estado durante a ditadura militar. O ex-marinheiro reivindicava ainda uma aposentadoria condizente com o posto que ocuparia hoje na Marinha, que seria o de suboficial aposentado. O argumento de Anselmo é que a indenização da Comissão de Anistia não deve beneficiar apenas os militantes de esquerda. Ele alegava que todos que foram de alguma forma prejudicados ou cassados em seus postos em razão do golpe militar deveriam ser contemplados. O então ministro durante o Governo Lula, Paulo Vannuchi, afirmou em 2009 que era remota a possibilidade de Cabo Anselmo vir a receber qualquer tipo de indenização ou aposentadoria. Ele afirmou que a reivindicação de Anselmo não procede porque desde o início da ditadura o ex-marinheiro teria sido um agente do Estado.

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Morte

Anselmo morreu aos 80 anos de idade, num hospital de Jundiaí, devido a uma infeção renal.

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