Ciência indígena
A ciência indígena refere-se aos sistemas de conhecimento e práticas dos povos indígenas, que estão profundamente enraizados em suas tradições culturais e compreensão das relações de um território ou lugar das Nações Indígenas. A ciência indígena é a aplicação e interseção do conhecimento indígena e da ciência. Em ecologia, isso às vezes é chamado de conhecimento ecológico tradicional. A ciência indígena é holística, seguindo os mesmos métodos da ciência ocidental, incluindo : observação, previsão, interpretação, questionamento. Porém, enquanto o método científico ocidental busca um distanciamento do objeto ou fenômeno, o pensamento indígena é essencialmente relacional: o fenômeno é percebido “em termos de relações que o ligam as forças naturais e a todas as formas de vida".
O conhecimento e as experiências indígenas têm sido tradicionalmente transmitidos oralmente de geração em geração. Este ponto de vista tem sido empregado por cientistas e formuladores de políticas para adotar novos paradigmas para a interpretação e gestão humana dos processos naturais. Embora existam diferenças no uso e na estrutura entre a ciência indígena e o conhecimento científico, a ciência indígena tem uma base empírica e tem sido tradicionalmente usada para prever e compreender o mundo. O conceito de ciência indígena se fundamenta na ideia de que cada cultura tem sua própria ciência e compreensão do mundo. Gregory Cajete argumenta que as tradições indígenas têm sido historicamente observadas a partir da percepção ocidental e, para que seja possível entender, de fato, essas culturas, “deve-se ser capaz de ver através de suas lentes e ouvir suas histórias em suas vozes e através de suas experiências". Segundo o autor, embora não haja (ou não precise haver) termo nas línguas indígenas que remetam à “ciência”, a ciência indígena mantém sua importância para a vida nativa, ao ser vista enquanto processo de conhecimento e compreensão da realidade, que se acumula ao longo do tempo. Assim, a ciência indígena é essencialmente relacional: resulta da percepção adquirida a partir da experiência e da relação com o mundo. Trata-se de uma “metáfora para uma ampla variedade de processos tribais de percepção, pensamento, ação e o “’vir a conhecer’”.
Licenciaturas Interculturais Indígenas
É crescente o número de estudantes autodeclarados indígenas nas universidades brasileiras, um aumento de 374% entre 2011 e 2021, segundo dados do último Censo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No período, as matrículas desses estudantes passaram de 9.764 para 46.252. Além da presença de indígenas em cursos “tradicionais” como direito, medicina, engenharia, entre outros, as universidades brasileiras têm absorvido a demanda por formação de professores indígenas, em nível universitário. Os cursos de Licenciaturas Interculturais surgiram a partir da reivindicação dos povos indígenas por Educação Superior e pelo acesso à Educação Escolar Indígena Qualificada e diferenciada:
A Ciência Indígena é frequentemente usada pelo termo "conhecimento ecológico tradicional". No entanto, a ciência indígena refere-se a um pensamento multicontextual. Apesar de se referir a um termo dado por cientistas ocidentais para explicar mais sobre ecologia é uma boa representação de uma categoria de ciência indígena. O estudo da Ecologia enfoca as relações e padrões entre os organismos em seu ambiente, que é um aspecto fundamental da Ciência Indígena. O objeto da ecologia é um bom ponto inicial para ver os diferentes caminhos de ligação entre a ciência indígena e a ciência ocidental. No entanto, como esse conhecimento é baseado no local, é importante entender que os vários saberes podem variar dependendo das perguntas e respostas necessárias. Muitas vezes é visto na ciência ocidental, a combinação de duas ciências para criar um novo sujeito com uma nova forma de compreensão. Por exemplo, a etnobiologia combina a biologia com a ecologia, permitindo que os etnobotânicos utilizem métodos de conhecimento indígena e botânica para fins de identificação e classificação de espécies. O uso da ecologia também pode ser um ótimo começo ao tentar entender a perspectiva do pensamento holístico, pensando em impactos, como o declínio da população de peixes afeta a natureza, a cadeia alimentar e os ecossistemas costeiros.
A ciência indígena, ao contrário da ciência ocidental, difere em perspectiva porque a ciência indígena é subjetiva e não reducionista e objetiva como é a ciência ocidental. O que isso significa é que a compreensão de ciência de uma pessoa é holisticamente baseada em seu território, práticas culturais e experiências/ensinamentos ao longo da vida. Essa compreensão nos cenários contemporâneos tem levado à colaboração entre comunidades indígenas e cientistas em projetos, "indigenizando" o método científico. Isso permite que os projetos liderados por indígenas e o trabalho comunitário respeitem e legitimem seus conhecimentos e entendimentos. Estudos de climatologia fizeram uso do conhecimento tradicional (Qaujimajatuqangit) entre os Inuit ao estudar mudanças de longo prazo no gelo marinho. Assim como na ecologia, o conhecimento indígena tem sido usado em áreas biológicas, incluindo comportamento animal, evolução, fisiologia, histórias de vida, morfologia, conservação da vida selvagem, saúde da vida selvagem e taxonomia.
Astronomia indígena é o nome dado ao uso e ao estudo de assuntos astronômicos e seus movimentos por grupos indígenas. Esse campo engloba a cultura, o conhecimento tradicional e a astronomia. A astronomia tem sido praticada por grupos indígenas para criar calendários astronômicos que informam sobre o clima, a navegação, a migração, a agricultura e a ecologia. Além dos usos em calendários, as constelações têm nomes e histórias que informam cerimônias e estruturas sociais com significados culturais específicos e profundos para os respectivos grupos indígenas. A astronomia indígena é um aspecto dos sistemas de conhecimento indígena, que são usados para explicar e prever a natureza. Ela envolve a noção de uma relação viva com o céu, os objetos e processos celestes. Essa relação viva é um produto de tradições de observação e participação de longa data, reconhecendo a espiritualidade e a relação dentre os seres vivos.
A definição de tecnologia é "a aplicação do conhecimento científico para fins práticos, especialmente na indústria". Isso implicaria que, quando uma tecnologia indígena foi desenvolvida, a ciência ou conhecimento dela veio primeiro. Existem muitos exemplos de tecnologias indígenas que foram desenvolvidas para uso específico com base em sua localização e cultura, como: jardins de mariscos, açudes de peixes, árvores culturalmente modificadas (CMTs), teares, têxteis, joias etc. Também é importante notar que essas tecnologias não eram tão simples quanto fornecer experiências turísticas, mas abrangem uma ampla variedade de assuntos, como: agricultura e maricultura, pesca, manejo florestal e exploração de recursos, técnicas de manejo atmosférico e terrestre. Os povos indígenas desenvolveram, ao longo dos séculos, uma enorme ama de tecnologias adaptadas às suas necessidades específicas, culturas e ambientes naturais. Tais tecnologias abrangem diversos campos, incluindo agricultura, pesca, construção, medicina e artesanato, refletindo um profundo entendimento e respeito pela natureza. Na Mesoamérica, civilizações como os astecas e maias implementaram sistemas agrícolas sofisticados, como as chinampas, que são ilhas artificiais construídas em lagos rasos para cultivo intensivo. De um ponto de vista da história da tecnologia, esse tipo de método permitia a produção agrícola eficiente e sustentável, maximizando o uso do solo disponível.
O caso da Usina Hidroelétrica de Belo Monte, localizada em Altamira (PA), é emblemático para exemplificar as disputas entre os sabres tradicionais indígenas sobre a gestão da água e os argumentos da ciência ocidental e do discurso exploratório. O argumento tradicional sobre os malefícios da construção da usina, com a seca que a barragem provocaria, foi rebatido sob os argumentos de que a barragem apenas alaga uma parte do território. O conhecimento indígena inclui uma compreensão detalhada dos ciclos naturais das águas, como cheias e vazantes dos rios. As comunidades puderam destacar como a construção da barragem alteraria esses ciclos, afetando não apenas a pesca, mas também o uso da água para outros fins, como a agricultura. Além do impacto direto na região alagada e o deslocamento de populações tradicionais de seu território de origem, a construção da barragem secou trechos importantes do rio, o que ocasionou perdas na fauna e flora do local. O debate sobre esse tipo de energia ser limpa em comparação à usinas nucleares ou termoelétricas prevaleceu, e após cerca de 40 anos, a usina de Belo Monte foi inaugurada. Os saberes tradicionais que apontavam para os impactos ambientais dessa construção se mostraram reais pouco tempo depois, porém, com pouco espaço para uma ação efetiva em poder reverter o caso.
As cerâmicas e habitações indígenas expressam a profunda relação entre técnica, cultura e natureza. São formas de conhecimento ancestral que revelam tecnologias adaptadas ao ambiente e modos de vida coletivos, preservando memórias, identidades e saberes transmitidos por gerações.
A cerâmica paulista e a persistência das práticas tupiniquim
No artigo “A cerâmica paulista: cinco séculos de persistência de práticas tupiniquim em São Paulo e Paraná, Brasil” (NOELLI; SALLUM, 2019) propõem uma reinterpretação ampla da história da cultura material no Brasil colonial e pós-colonial, tomando como eixo o estudo da cerâmica produzida em São Paulo e no Paraná. Longe de considerar esses objetos apenas como vestígios de um passado artesanal ou popular, os autores situam a chamada “cerâmica paulista” como resultado de um “processo histórico de longa duração”, em que se entrelaçam saberes indígenas e práticas europeias sob a dinâmica da colonização. O texto apresenta uma abordagem que combina “arqueologia da persistência” e “perspectiva descolonizadora”, deslocando o foco da perda cultural para a agência e a continuidade das populações nativas.
Habitações Indígenas do Alto do Rio Negro
No artigo “A maloca e a aldeia: transformações das formas de habitação e organização social entre os povos indígenas do Alto Rio Negro” os pesquisadores (SILVA et al., 2022) analisam as transformações históricas e culturais das “formas de habitação coletiva e organização social” entre os povos indígenas do “Alto Rio Negro”, noroeste da Amazônia brasileira, com foco na passagem da “maloca tradicional” para o modelo atual de “aldeia dispersa”. O estudo parte do pressuposto de que as mudanças nas arquiteturas e nos modos de ocupação do espaço estão profundamente relacionadas às dinâmicas sociopolíticas, aos processos de colonização missionária e às redefinições identitárias das populações indígenas da região.
A ciência indígena está profundamente ligada às cosmovisões dos diferentes povos originários, que compreendem o mundo de forma relacional e integrada. Nessa perspectiva, não há uma separação rígida entre seres humanos, ambiente e dimensões espirituais. Os fenômenos da natureza são percebidos como parte de uma rede de interdependências que inclui plantas, animais, rios, antepassados e entidades espirituais. Essa abordagem holística contrasta com modelos analíticos típicos da ciência ocidental moderna, que tendem a fragmentar e isolar elementos para estudo. As cosmovisões indígenas orientam práticas cotidianas e sistemas de conhecimento transmitidos por meio da oralidade, de rituais e da observação direta do ambiente. A aprendizagem ocorre de forma comunitária, vinculada ao modo de vida e às necessidades de sobrevivência, manejo da terra, cura e convivência coletiva. Por isso, a ciência indígena não é apenas um conjunto de técnicas, mas um modo de compreender e agir no mundo, fundamentado em relações de reciprocidade, responsabilidade e cuidado com a natureza.
A ciência indígena dialoga com diversas áreas da etnociência, campo que investiga os sistemas de saberes de diferentes culturas, reconhecendo-os como formas legítimas de produção de conhecimento. Entre seus principais desdobramentos estão a etnobotânica, etnoecologia, etnomedicina e etnoastronomia, áreas que buscam compreender como os povos indígenas classificam espécies, interpretam fenômenos naturais, organizam calendários ecológicos e desenvolvem tecnologias tradicionais. Estudos de etnobotânica demonstram que muitas comunidades indígenas brasileiras utilizam centenas de plantas com finalidades medicinais, alimentares ou cerimoniais, empregando critérios de seleção e preparo transmitidos ao longo de gerações. Pesquisas na Amazônia revelam redes complexas de manejo agrícola, como sistemas agroflorestais, roçados itinerantes e técnicas de adubação natural, que garantem a conservação da biodiversidade e a manutenção da fertilidade do solo.
Além dos conhecimentos ecológicos e cosmológicos, a ciência indígena envolve uma série de tecnologias desenvolvidas antes do contato com europeus e ainda utilizadas ou adaptadas atualmente. Exemplos incluem técnicas avançadas de cerâmica, cestaria, tecelagem, preparo de tinturas, construção de habitações e o domínio de materiais naturais para fins diversos. Na Amazônia, estudos arqueológicos mostram que sociedades indígenas pré-coloniais desenvolveram sofisticados sistemas de engenharia, como campos elevados, canais, barragens e extensos aterros. A produção da chamada “terra preta de índio”, um tipo de solo altamente fértil composto por carvão vegetal, restos orgânicos e cerâmica triturada, é considerada uma das maiores inovações agroecológicas da história das Américas, com implicações modernas para práticas de manejo sustentável. Essas tecnologias demonstram que muitos povos originários elaboraram sistemas de inovação, experimentação e adaptação contínua, que podem ser compreendidos dentro do que a literatura contemporânea reconhece como práticas científicas tradicionais.


