Doença de Machado-Joseph
Doença de Machado-Joseph (DMJ), também conhecida por ataxia SCA3, é uma neuropatologia rara, de origem genética, que se manifesta por uma progressiva ataxia cerebelar traduzida em crescente perda do controle muscular e da coordenação motora nos membros superiores e inferiores, oftalmoplegia, perturbações da visão e dificuldades na fala e no engolir.
A doença de Machado–Joseph (DMJ) é um tipo de degeneração espinocerebelar, sendo a causa mais comum de ataxia com origem autossómica dominante. A doença causa oftalmoplegia, dismetria e ataxia sensorial mista e cerebelar, com sintomas que incluem défices de memória, espasticidade, disartria, dificuldades na articulação de sons e na deglutição, fraqueza nos braços e pernas, descoordenação motora, micção frequente e movimentos involuntários dos olhos (nistagmo). Outras manifestações da doença incluem distúrbios do sono, como o transtorno comportamental do sono REM e síndrome das pernas inquietas. Contudo, o principal sintoma da ataxia é a alteração do equilíbrio e da coordenação motora, de que resulta o paciente ter dificuldades em caminhar e segurar objectos. O quadro é leve no início, agravando-se com o passar do tempo em resultado do carácter degenerativo progressivo da doença. Com a evolução da ataxia, podem ser percebidos sintomas como alterações na fala, dificuldades em engolir, visão dupla e parkinsonismo, que são outros sintomas semelhantes aos do mal de Parkinson.
A doença é causada por uma mutação no gene ATXN3, localizado no cromossoma 14q, que se traduz em repetições longas e irregulares do código "CAG" (normalmente o número de cópias é entre 13 e 41) e na consequente produção de uma proteína mutante designada por ataxina-3. Nas células afectadas, esta proteína acumula-se e forma corpúsculos de inclusão. Postula-se que estes agregados insolúveis interferem com a actividade normal do núcleo celular e induzem a degenerescência e morte da célula. A DMJ é uma doença autossómica dominante, o que significa que a transferência do gene por qualquer dos progenitores resulta sempre num indivíduo que mais tarde ou mais cedo apresentará sintomas da doença. A DMJ é assim uma doença crónica hereditária dominante, pelo que se um dos progenitores for portador do gene deficiente a probabilidade de transmissão é de 50%. A ponte (uma estrutura localizada no tronco cerebral) é uma das áreas afectadas pela DMJ. O corpo estriado (a área cerebral ligada ao equilíbrio e à coordenação motora) é também afectada pela doença, o que pode explicar as duas principais afecções motoras causadas pela DMJ: a contracção e torção dos membros e os movimentos abruptos e irregulares.
A esperança de vida após o diagnóstico da doença varia em função da idade do paciente e da severidade dos sintomas. Pacientes com formas suaves da doença apresentam esperança de vida normal para o seu grupo etário. Os casos mais severos e mais precoces da doença apresentam forte redução da esperança de vida, que nos casos extremos se reduz aos 35 anos de idade. A causa de morte nos casos de mortalidade precoce é em geral pneumonite por aspiração que degenera em broncopneumonia ou pneumonia. Uma equipa do ICVS - Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde da Universidade do Minho identificou um fármaco, o citalopram, para o tratamento da doença de Machado-Joseph. Os testes em ratinhos confirmaram melhorias significativas na coordenação dos movimentos e no equilíbrio. A próxima etapa é o estudo clínico em humanos, mas para já os resultados são bastante positivos. A espasticidade pode ser reduzida com recurso a drogas antiespasmódicas, com destaque para o baclofeno. O parkinsonismo pode ser reduzido com recurso a uma terapia com base na levodopa e os distúrbios visuais resultantes da diplopia podem ser minorados com o recurso a lentes prismáticas.
A DMJ pode ser diagnosticada pelos respectivos sintomas, em particular quando associada a famílias em que existem antecedentes familiares da afecção. Para o efeito, os clínicos inquerem sobre a existência de casos na família do potencial paciente, sintomatologia que apresentaram, idade de surgimento dos sintomas e sua severidade. Sendo uma doença autossómica, isto é ligada a um cromossoma independente do sexo, é significativa a história familiar de ambos progenitores. Por ser uma doença ligada a um gene dominante, há uma forte probabilidade da doença já se ter manifestado em várias gerações da família. A diagnose pré-sintomática da DMJ pode ser feita recorrendo a um teste genético que permite a detecção directa da mutação responsável pela doença. O teste destinado à detecção da mutação causadora da doença está disponível desde 1995 e permite detector o número de repetições do tripleto "CAG" na região do cromossoma 14 que codifica o gene ATXN3.
A doença foi identificada pela primeira vez em 1972 em indivíduos da comunidade açoriana emigrada na Nova Inglaterra. O nome da patologia, ao contrário do que é habitual, não derivou do nome dos investigadores que a descobriram, mas sim do apelido dos patriarcas das famílias em cujos membros a afecção foi descrita. Estes dois homens, William Machado e Antone Joseph, eram açorianos emigrados em Massachusetts, um grupo étnico no qual a doença apresenta a máxima prevalência, em particular entre a população da Ilha das Flores, na qual cerca de 1 em cada 140 indivíduos é diagnosticado com DMJ. O ator brasileiro Guilherme Karan foi diagnosticado com a doença de Machado–Joseph, afecção que herdou de sua mãe, de ascendência açoriana. Faleceu em 7 de julho de 2016.


