Ortografia da língua portuguesa
A ortografia da língua portuguesa é o sistema de escrita padrão usado para representar a língua portuguesa. A ortografia do português usa o alfabeto latino de 26 letras complementado por sinais diacríticos. Com a excepção de Macau, actualmente a ortografia oficial da língua portuguesa é aquela consubstanciada no Acordo Ortográfico de 1990, que entrou em vigor no ano de 2009 e é a norma legal que rege a ortografia oficial em Portugal, desde maio de 2015, em Cabo Verde desde outubro de 2015 e no Brasil, a partir de 31 de dezembro de 2015.
O princípio fonético dos alfabetos estipula que cada letra deve representar um único som e que cada som deve ser representado por uma única letra. Na prática, a relação entre letras e sons é imperfeita na maioria das línguas, sendo impossível de ser plenamente atingida em idiomas como o português, nos quais o número de fonemas é maior que o número de grafemas que os representem. O princípio fonético também enfrenta obstáculos pela tendência natural de a língua falada se modificar com o tempo, deixando o sistema de escrita obsoleto. O princípio etimológico preza a manutenção de grafias não fonêmicas em nome da memória da origem e evolução das palavras. Uma ortografia perfeitamente fonética é possível no caso de línguas de poucos falantes e sem grande variação linguística (variações dialetais ou socioletais), mas deixa de ser desejável no caso de idiomas com uma grande distribuição geográfica (como o português). Nesse caso, é impossível uniformizar a escrita, pois uma grafia torna-se fonética para uma variante do idioma, mas não para outra.
A ortografia portuguesa tem, por um lado, sons representados por mais de uma letra, e, por outro, letras que podem representar mais de um som. Algumas dessas irregularidades existem para todos os falantes do português, mas a maioria só vale para alguns dialetos.
Irregularidades dialetais
As irregularidades seguintes ocorrem na pronúncia de algumas regiões, mas não de outras. Essa irregularidade não existe para os galegos, que não costumam sonorizar o S (casa se pronuncia /kas̺a/ e não /kaz̺a/). Em muitos dialetos, certos encontros consonantais são frequentemente desfeitos na oralidade com a introdução de uma vogal epentética entre as consoantes. Essa vogal não é registrada na escrita. No Brasil o fonema introduzido é /i/, fazendo com que segmento seja pronunciado assim como seguimento.
Ao contrário de outras grandes línguas europeias, como o espanhol, que nos fins do século XV encontrou em Antonio de Nebrija o seu codificador, tanto da grafia como da gramática, e mesmo do italiano que, após diversas vicissitudes, acabou por receber forma gráfica definitiva entre os séculos XII e XVIII, o português manteve até ao princípio do século XX uma pluralidade de grafias não padronizadas, por regra, inspiradas na etimologia. De acordo com o filólogo Giuseppe Tavani, em linhas gerais, a história da ortografia portuguesa pode dividir-se em três períodos:
Do século XIII a meados do XVI: ortografia fonética
Este primeiro período é genericamente caracterizado por uma adesão da escrita à pronúncia. Foi no século XIII que começaram a se estabelecer certas tradições gráficas na jovem língua vernácula. O Testamento de Afonso II, de 1214, já utilizava ch para a consoante fricativa [tʃ] — ex.: Sancho, chama (pronunciado: Santcho, tchama) —, consoante diferente do [ʃ], ao qual se aplicava a grafia x. Este ch, de origem francesa, já era usado em Castela com o mesmo valor. Para a nasal palatal [ɲ] e a lateral palatal [ʎ] só após 1250 começaram a se usar as grafias de origem provençal nh e lh; ex.: ganhar, velha. No entanto, a falta de um acordo mínimo entre os escribas tornou-se responsável pelas muitas incongruências dos textos antigos, podendo um mesmo som ser representado de modos diversos ou sons diferentes serem representados por uma única forma gráfica. Por exemplo, tal como actualmente, o som [ɡ], a oclusiva velar sonora, era representado por g antes de a, o, u e por gu antes de e e i; mas é frequente depararmos com uma troca de signos: gerra em vez de guerra, algem por alguém, língoa em vez de língua, amigua em vez de amiga, alguo em vez de algo. Analogamente, qu era usado para representar a oclusiva velar surda, o som [k], não só antes de vogal palatal (e e i), mas também de vogal gutural (a e o): cinquo por cinco, nunqua por nunca (talvez pela proximidade com as formas latinas quinque e nunquam). Outras incongruências surgem no uso indistinto de g, gi e j para representar a fricativa palatoalveolar sonora, [ʒ], (agia por haja, mangar por manjar e fugo por fujo); de i, y e j (aya por haja, iulgar por julgar, oye por hoje, ljuro por livro); de m, n e til (ãno e año por anno, camĩho por caminho, cimco por cinco, grãde por grande, hũildade por humildade, tẽpo por tempo, razõ por razom). Entre outros fins, o til era também usado em vez do m intervocálico para economizar espaço.
Do Renascimento ao início do século XX: ortografia etimológica
A partir do século XVI, com o despertar dos estudos humanísticos, difundiu-se o uso de grafias etimológicas (ou pseudo-etimológicas), denotando o desejo de justificar as palavras vernáculas através das suas antecedentes latinas ou gregas, genuínas ou imaginadas. O aparecimento da tipografia contribuiu para tornar cada vez mais correntes as novas grafias, abundantes em ch (com valor de [k]), ph, rh, th e y nas palavras de origem grega (archaico, phrase, rhetorica, theatro, estylo, etc.) e ct, gm, gn, mn, mpt nas palavras de origem latina (auctor, fructo, phleugma, assignatura, damno, prompto), não faltando, também, as falsas etimologias, como a de tesoura escrita thesoura, por sugestão de thesaurus, quando o étimo é tonsoria.
Dos finais do século XIX aos nossos dias: reformas ortográficas
Em 1885, Aniceto dos Reis Gonçalves Viana publica as Bases da ortografia portuguesa propondo uma simplificação da ortografia vigente, de base essencialmente etimológica. Na mesma linha, uma comissão da Academia Brasileira de Letras, após acirrada discussão, aprova em 1907 uma reforma ortográfica que, no entanto, ficou praticamente circunscrita às publicações da própria Academia. Com a implantação da república em Portugal, a 5 de outubro de 1910, foi nomeada uma comissão — constituída por Gonçalves Viana, Carolina Michaëlis, Cândido de Figueiredo, Adolfo Coelho, Leite de Vasconcelos, entre outros — para estabelecer uma ortografia simplificada a adotar nas publicações oficiais e no ensino, que foi oficializada por portaria de 1 de setembro de 1911.
Existem duas ortografias oficiais da língua portuguesa: a do português brasileiro seguida no Brasil e a do português europeu seguida em Portugal e nos restantes países de expressão portuguesa.
Consoantes mudas
O acordo ortográfico de 1990, vingente em Portugal, eliminou diversas consoantes mudas, grafando, por exemplo, as palavras óptica, óptimo, acto, actual ou eléctrico como ótica, ótimo, ato, atual e elétrico. A eliminação destas consoantes mudas é ainda um tema de polémica em Portugal [carece de fontes?], pois em certos casos as consoantes mudas indicavam a presença de vogais abertas, sendo agora ambíguo se serão abertas, mudas ou fechadas [carece de fontes?]. Exemplos são espectáculo, adoptar, afecto e acção, agora grafadas espetáculo, adotar, afeto e ação. O acordo eliminou ainda as consoantes mudas do português europeu em palavras como recepção, concepção e respectivo, escritas em Portugal como receção, conceção e respetivo, mas cuja consoantes são ainda mantidas no português do Brasil. Em sentido contrário, o acordo não alterou a grafia de palavras como facto, secção e contacto cuja consoante não é muda em português europeu, mas que o é em português brasileiro onde se escreve fato, seção contato. Palavras como corrupção, captura ou pacto são grafadas de igual forma nos portugueses de Portugal e Brasil. Finalmente, palavras como aspecto/aspeto, jacto/jato ou infecção/infeção aceitam dupla grafia em português europeu, enquanto que apenas uma ou a outra é usada em português brasileiro.
Acentuação
Subsistem, também, diferenças na acentuação de certas palavras (no Brasil, palavras como idôneo ou anônimo têm sílaba tónica fechada, enquanto que em Portugal e África são abertas, idóneo e anónimo). Casos em que o acento diferencial é opcional:


