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Acabou Chorare

Acabou Chorare é o segundo álbum de estúdio do grupo musical brasileiro Novos Baianos marco da expressão de contracultura durante os anos 1970. O disco foi lançado em 1972 pela gravadora Som Livre, após o relativo sucesso de É Ferro na Boneca (1970), que ainda procurava identidade. Adotando a guitarra expressiva de Jimi Hendrix e a brasilidade de Assis Valente, sobretudo a influência estrondosa de João Gilberto, além de exercer o papel de mentor do grupo na época da realização do disco. Assim, o grupo realizou uma obra que apresenta grande versatilidade de gêneros musicais. Se constituindo como marco relevante de experiência contracultural à brasileira em face da ditadura civil - militar período de chegada da influência da contracultura internacional no Brasil.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 11/07/2026
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Antecedentes

Sob a cartilha da transgressão, Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão, Baby Consuelo e Moraes Moreira realizaram o primeiro disco dos Novos Baianos, É Ferro na Boneca (1970), em São Paulo. Tocaram juntos pela primeira vez em Salvador, 1969, no espetáculo "Desembarque dos bichos depois do dilúvio", com a banda dos irmãos Pepeu e Jorginho Gomes, que era baterista. Em 1971, mudaram-se para o Rio de Janeiro, onde, depois de dividirem uma cobertura, terminaram dividindo um sítio na estrada para Jacarepaguá: o Cantinho/Sítio do Vovô (onde gravariam Acabou Chorare). Mas, antes disso, para pedir proteção musical na nova cidade, Galvão contatou João Gilberto, que conhecia desde a adolescência em Juazeiro, e este prometeu visitá-los um dia em Botafogo, dizendo "Sempre sonhei ter um grupo que todo mundo morasse junto. Sempre sonhei com isso. Nunca consegui". Sobre a mudança para Jacarepaguá, Paulinho Boca explica: "Acabamos saindo do centro porque estávamos manjados, dando pinta. Todo mundo estava cabeludo, nego dando recado. Era melhor arranjar um lugar tranquilo, natural, que tivesse mato." Paulinho e Moraes chegaram a ser presos num armazém pelo aspecto cabeludo deles, mas logo foram soltos. O comportamento hippie não deixou de ser registrado nas obras. O primeiro disco traz canções, dentre as muitas do grupo, que possuem várias menções às drogas, porém não eram censuradas pelo regime militar: a faixa-título, por exemplo, diz olhe o produto que há na bagagem, e não é uma estrada, é uma viagem... Refletiam sobre aspectos sociais, políticos e históricos do período.

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Gravação e produção

Sob tal influência, Acabou Chorare foi composto e gravado. No sítio de Jacarepaguá, vivia toda a banda junto com mais outros parentes e amigos, no estilo de vida comunitário típico dos hippies; a quantidade de moradores era suficiente para promover animadas peladas nos finais de tarde, o que os fez criar o time Novos Baianos F.C. e lançarem o disco pós-Acabou Chorare justamente com tal título, Novos Baianos F.C. (1973). Como conta Moreira, "Podia faltar grana para a comida, mas sempre tínhamos dinheiro para comprar maconha e equipamentos esportivos." A rotina do Cantinho do Vovô era simples. Como conta Paulinho Boca, "Depois do café da manhã, Galvão ia compor, Moraes ficava tocando. A gente se exercitava muito, ia pra praia de bicicleta. Quando o sol estava acabando, começava o baba", diz, referindo-se ao codinome baiano para as peladas de futebol. A capa do disco, uma mesa de madeira que havia sido construída por Pepeu, mostra pratos e copos espalhados, talheres e panelas desarrumadas, moscas e farinha, simbolizando "mistura" musical e o espírito comunitário do grupo no sítio. Em 1972, ela recebeu prêmio de melhor produção gráfica do ano; a arte leva assinatura de Antônio Luis Martins, mais reconhecido como "Lula", protagonista do cult-movie Meteorango Kid - O Herói Intergalático (1970), de André Luiz de Oliveira.

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Resenha musical

Estilo

Grande parte da diversidade e criatividade do disco deve-se à mistura de samba com rock. Segundo Galvão, "Samba naquela época era coisa só de universitário. Muito ruim, porque universitário não sabe fazer samba mesmo. Aí a gente nasceu anti-samba." Mas, por intermédio de João Gilberto, o grupo, que antes adotava formas de música pesada, elétricas, tomou gosto pelo samba e o "apresentou" ao rock. O resultado é que a beleza sonora do disco consiste em cavaquinhos, percussão brasileira e guitarra elétrica. Isto é, uma fusão de instrumentos de choro e samba (cavaquinho e violões) com guitarras, e um toque joãogilbertiano de bossa nova. Os Novos Baianos não eram, no entanto, os primeiros a unir a energia do rock com ritmos de samba. A regravação d'Os Mutantes para a canção "A Minha Menina", originalmente de Jorge Ben Jor, também tinha a mesma proposta. Mas foram eles, sim, os primeiros a orientar todo um álbum nesse sentido. Gilberto também apresentou aos Novos Baianos músicos como Ary Barroso, Herivelto Martins e Noel Rosa e o grupo teve a sensibilidade de incorporar os ensinamentos do pai da bossa nova com suas influências de rock. Então, os gêneros frevo, baião, choro, afoxé, samba e rock'n'roll foram ajustados ao vocal do grupo e, embora sejam distintos um do outro, convivem pacificamente junto a cavaquinhos e guitarras elétricas no ambiente sonoro do disco. Como explica Moraes Moreira,

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Canções

Imagem: Rafa.ela Ely · BY · Openverse

Moraes Moreira e Pepeu Gomes serviram de arranjadores das canções, este primeiro também tocando violão base e cantando e o segundo encarregando-se da craviola e da guitarra elétrica; quando não era a cantora principal, Baby Consuelo tocava maracas, triângulo e afoxé; Dadi Carvalho toca baixo elétrico, enquanto Paulinho Boca de Cantor usava a voz e pandeiro e Jorginho Gomes tocava bateria, cavaquinho e bongo. A faixa que abre o disco, "Brasil Pandeiro", foi sugestão de João Gilberto, e é uma canção que, ao lado de "Recenseamento", havia sido composta por Assis Valente à sua musa Carmen Miranda, que retornava ao Brasil em 1940. Carmen gravou a segunda canção, mas, sobre "Brasil Pandeiro", soltou: "Assis, isso não presta. Você ficou borocoxô." O compositor, magoado, não compreendeu os motivos, principalmente por considerar a canção de boa qualidade, e mais ainda depois que os Anjos do Inferno fizeram sucesso com ela. Compatível à "Aquarela do Brasil" que, inclusive, possui um motivo rítmico do acompanhamento repetido na canção de Valente, com intenção de imitar o tamborim, "Brasil Pandeiro" mostra que a escolha do pandeiro como instrumento enquanto adjetivo da nação eleva a batucada ao patamar de valor cultural relevante, pertencente ao domínio dos personagens do mundo do samba. Foi a primeira canção (e a única) do disco sem ser da autoria do grupo que eles gravaram. Seu refrão, que na voz dos Novos Baianos é cantado pela primeira vez como uma prece e, depois, em forma de festa, evoca o seguinte:

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Recepção

Imagem: Belisa Giorgis · BY · Openverse

"Em uma época que o Brasil estava triste, cinzento, a gente aparecia na maior alegria cantando músicas como: Besta é tu, besta é tu. Ninguém entendia muito isso. E o João dizia assim: Olha como o Brasil é lindo. Ninguém estava vendo aquele Brasil. Só ele. Começamos a incorporar esse Brasil." Acabou Chorare foi um estouro e permaneceu entre os primeiros colocados nas paradas por mais de trinta semanas. Aos Novos Baianos foi dado um alto status na cena cultural brasileira, fazendo com que eles participassem do Carnaval de Salvador de forma decisiva. Em cima do trio elétrico, inseriram suas vozes e teclados, dando novo brilho ao som do Carnaval. Embora tenham brigado com a Som Livre tempos depois do lançamento do disco, o grupo foi reconhecido definitivamente graças a ele e isso lhes possibilitou apresentações em diversos espetáculos e festivais pelo Brasil afora. Os principais jornais do país o tratavam como uma grande promessa musical e foram elogiados por Caetano Veloso e Gilberto Gil.

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Legado

Imagem: epoca mouco · BY-NC · Openverse

Acabou Chorare se inscreve como pioneiro ou, em último caso, o único bem-sucedido, numa categoria de obras e atos musicais que pretendiam ajustar elementos da música moderna e o rock universal à música popular brasileira. O disco acabou apontando para quase todos os caminhos que seriam seguidos por rock e MPB nas décadas seguintes. Em finais dos anos 1990, por exemplo, este álbum criou um terreno no cenário musical do Brasil, que outrora era fértil apenas para o rock dos anos 80, já preparado para o samba—de onde viriam várias regravações feitas por Cássia Eller, Zélia Duncan e até o diálogo de Lobão com o gênero, ao incrementar bateria da Mangueira em sua música e realizar dueto com Elza Soares, em 1986, com "A Voz da Razão". Além disso, por preparar o samba de qualidade numa época em que os gêneros e os sons estrangeiros imperavam e o país acabava de deixar seu movimento roqueiro da década de 80, o álbum influenciou principalmente as cantoras surgidas nas últimas décadas, que eram baseadas exclusivamente no samba, como Vanessa da Mata, Céu, Roberta Sá, Mariana Aydar e Marisa Monte, que em 1996 regravou "A Menina Dança", sétima faixa de Chorare, no disco Barulhinho Bom.

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Relançamentos

Imagem: Rafaela Ely · BY · Openverse

Depois do lançamento original em 1972, o disco ganhou formato de CD pela primeira vez em 1992 e foi relançado durante o decorrer dos anos, com capas alternadas, como em 2004, junto a outros álbuns bem conceituados da Som Livre. No final de 2010, saiu em CD na coleção "Grande Discoteca Brasileira", do Estadão e da Zero Hora, com livreto explicativo escrito por Ricardo Moreira. No início de 2011, atendendo a consumidores exigentes e colecionadores, a Som Livre inovou, relançando Acabou Chorare em vinil novamente, quase 40 anos após a data do lançamento original, num custo mais alto e junto a duas outras obras aclamadas de seu catálogo—Barão Vermelho (estreia do grupo, 1982) e A Voz, O Violão e a Música (1976), de Djavan.

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Equipe e colaboradores

Imagem: Rafaela Ely · BY · Openverse

Todo o processo de elaboração de Acabou Chorare atribui os seguintes créditos:

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