Abuçaíde Faraje
Abuçaíde Faraje ibne Ismail (1248–1320) foi uma figura proeminente da dinastia nacérida de Granada. Atuou como conselheiro próximo dos sultões Maomé II (1273–1302) e Maomé III (1302–1309), e desempenhou um papel crucial como governador de Málaga de 1279 até o início de 1310. Filho de Ismail ibne Nácer, governador de Málaga e irmão do sultão Maomé I, Abuçaíde foi levado à corte após a morte de seu pai, onde se tornou amigo do futuro Maomé II. Sua inteligência e habilidades o levaram a ser um conselheiro influente em políticas econômicas e militares. Casado com Fátima, filha de Maomé II, foi nomeado governador de Málaga, o porto mais vital do reino, após sua recuperação de uma rebelião e ocupação merínida. Em Málaga, implementou políticas de pacificação, melhoria econômica e fortalecimento naval, além de liderar tropas em campanhas militares.
Pontos-chave
- Abuçaíde Faraje foi um membro da dinastia nacérida, nascido em 1248, filho do governador de Málaga e irmão do sultão Maomé I.
- Tornou-se conselheiro de confiança dos sultões Maomé II e Maomé III, influenciando políticas econômicas e militares.
- Serviu como governador de Málaga de 1279 a 1310, cargo que assumiu após a cidade ser recuperada de uma rebelião e ocupação merínida.
- Em Málaga, implementou políticas de pacificação, melhoria econômica e construção naval, fortalecendo a marinha granadina.
- Foi deposto por seu filho Ismail durante uma rebelião contra o sultão Nácer, vindo a falecer na prisão em 1320.
Detalhes sobre a vida de Abuçaíde Faraje, desde sua infância na corte até sua ascensão como governador de Málaga e os eventos que levaram à sua queda.
Primeiros Anos e Origens
Nascido em 1248, Abuçaíde Faraje era filho de Ismail ibne Nácer, irmão do fundador do Reino Nacérida de Granada, Maomé I. Seu pai foi governador de Málaga até sua morte em 1257. Após o falecimento de Ismail, o sultão Maomé I acolheu o jovem Abuçaíde, então com nove anos, em sua corte em Granada. Málaga, por sua vez, foi entregue ao governo de Abu Maomé ibne Asquilula, um sobrinho de Maomé I e membro da família Banu Asquilula, então aliada dos nacéridas.
Ascensão na Corte e Casamento
Na corte, Abuçaíde Faraje desenvolveu uma forte amizade com seu primo, o futuro sultão Maomé II (nascido em 1235; reinou de 1273 a 1302). Durante este período, Málaga tornou-se o epicentro de uma rebelião dos Banu Asquilula, que se estendeu por quase duas décadas, iniciando em 1266. Com a ascensão de Maomé II ao trono em 1273, Abuçaíde tornou-se seu conselheiro de confiança, reconhecido por sua inteligência em questões econômicas e militares. Ele é creditado por influenciar a decisão do sultão de expandir e consolidar as terras da coroa, substituindo pastagens por áreas cultivadas. Para solidificar os laços familiares, Abuçaíde casou-se com Fátima, filha de Maomé II. Embora uma obra anônima, al-Dahira al-Saniyya, date o casamento em 1265/66, a historiadora María Jesús Rubiera Mata questiona essa data, considerando que Fátima (nascida em 659 AH) seria uma criança na época e que o texto apresenta inconsistências genealógicas. Rubiera Mata sugere que o casamento ocorreu mais próximo de 1279, ano do nascimento do primeiro filho do casal, Ismail. Em 1279, Granada recuperou Málaga do Império Merínida, que havia ocupado a cidade após os rebeldes Banu Asquilula a entregarem um ano antes. Abuçaíde foi então nomeado governador real de Málaga, partindo para a cidade em 11 de fevereiro de 1279, enquanto Fátima provavelmente permaneceu na Alhambra para dar à luz Ismail, nascido em 3 de março.
Governador de Málaga: Desafios e Sucessos
Málaga, a segunda maior cidade do reino e seu porto mediterrâneo mais crucial, era vital para Granada. Sua reocupação após uma rebelião de mais de uma década apresentava um desafio complexo, e Abuçaíde foi escolhido devido à sua experiência administrativa e ao legado de seu pai na cidade. Segundo Rubiera Mata, ele 'superaria brilhantemente' esses desafios. Com seu secretário, ibne Issa, implementou políticas que, combinando firmeza e gentileza (conforme ibne Alcátibe), pacificaram a população e impulsionaram a economia local. Ele também acumulou riqueza através das receitas fiscais da região. Abuçaíde iniciou um ambicioso projeto de construção naval em Málaga, que Rubiera Mata atribui à 'grande potência da frota nacérida nos anos seguintes'. Seu prestígio pessoal era elevado, tanto por sua posição na família real quanto por suas conquistas administrativas e militares, levando-o a receber dedicatórias em obras literárias. Ibne Alcátibe registrou que ele cuidava de seu filho Ismail, que desfrutava do 'favor de seu pai'. Abuçaíde também teve um filho mais novo, Maomé, cuja data de nascimento é desconhecida.
A Rebelião e a Queda de Maomé III
Em 14 de março de 1309, Maomé III foi deposto por um golpe de palácio, sendo substituído por seu meio-irmão Nácer. Simultaneamente, uma tríplice aliança entre merínidas, Castela e Aragão atacou Granada, resultando em perdas territoriais significativas, incluindo o retorno de Ceuta aos merínidas em 20 de julho de 1309. Abuçaíde provavelmente retornou a Málaga após essa derrota, continuando em seu posto de governador. Diferentemente do sultão anterior, Abuçaíde e sua esposa Fátima não tinham um bom relacionamento com Nácer. Durante uma visita à capital para prestar seus respeitos, Abuçaíde percebeu a impopularidade do novo sultão na corte. Além das perdas na guerra, Nácer era malvisto por sua dedicação à astronomia – construindo astrolábios e encomendando tabelas astronômicas – em vez de focar nos assuntos de estado. Havia também suspeitas de suas simpatias cristãs, devido à sua mãe cristã, seu estilo de vestir castelhano e seus laços com Fernando IV de Castela. O vizir do sultão, Maomé ibne Alhaje, que cresceu em terras cristãs e adotava costumes castelhanos, intensificou a antipatia contra a coroa. Uma facção da corte se uniu a Abuçaíde, pedindo-lhe que depusesse Nácer. O estudioso arabista Antonio Fernández-Puertas sugere que Abuçaíde ficou ainda mais indignado com o afogamento de Maomé III por ordem de Nácer, após uma tentativa frustrada de restaurá-lo ao trono, embora outras fontes, como Francisco Vidal Castro, apontem fevereiro de 1314 como a data mais provável para esse assassinato, bem depois do início da rebelião.
A Queda de Abuçaíde e a Ascensão de Ismail
Temendo a retaliação do sultão, Abuçaíde enviou ibne Issa para negociar um acordo secreto com os merínidas, oferecendo Málaga em troca do governo de Salé, no norte da África. Quando essa trama foi descoberta pelo povo de Málaga, foi considerada uma traição. A população se rebelou, depôs Abuçaíde e proclamou seu filho Ismail como novo governador. Abuçaíde permaneceu livre, mas sob vigilância de Ismail. Durante uma saída da cidade, foi suspeito de tentar fugir e foi capturado pelos cidadãos. Ismail interveio antes que seu pai fosse ferido, ordenando sua prisão e transferência para um castelo em Cártama. Enquanto isso, a conspiração contra Nácer na corte continuava, e Ismail reiniciou a rebelião com o apoio de sua mãe Fátima e Otomão ibne Abi Alulá, comandante dos Voluntários da Fé em Málaga. À medida que Ismail avançava em direção a Granada, seu exército crescia, e os habitantes da capital abriram os portões da cidade para ele. Nácer, sitiado na Alhambra, concordou em abdicar e retirou-se para Guadix. Ismail assumiu o trono em 1314 e ordenou a transferência de Abuçaíde para a prisão da família real nacérida em Salobreña. Ele permaneceu neste castelo, sem permissão para sair, até sua morte em 24 de abril de 1320 (14 Rabi Alaual 720 AH). Seus restos mortais foram levados para a capital e enterrados no cemitério real (rauda) da Alhambra, próximo ao túmulo de Maomé II. Seu funeral contou com a presença de Ismail I e dignitários de Granada. Séculos depois, com a rendição de Granada, o último sultão Maomé XII (Boabdil) exumou os corpos deste cemitério e os enterrou novamente em Mondújar, em suas propriedades nas Alpujarras.


