Batalha de Carbala
A Batalha de Carbala ou Querbela foi travada em 10 de outubro de 680 entre o exército do segundo califa omíada Iázide I (r. 680–683) e uma pequena força liderada por Huceine ibne Ali, neto do profeta islâmico Maomé, em Carbala, no Sauade.
Após o assassinato do terceiro califa, Otomão, por rebeldes em 656, estes e os habitantes de Medina proclamaram Ali, primo e genro do profeta islâmico Maomé, como califa. Alguns dos companheiros de Maomé, incluindo Tala ibne Ubaide Alá, Zobair ibne Alauame e Moáuia ibne Abi Sufiane (então governador da Síria), bem como a viúva de Maomé, Aixa, recusaram-se a reconhecer Ali. Eles exigiam vingança contra os assassinos de Otomão e a eleição de um novo califa por meio da xura (consulta). Esses acontecimentos precipitaram a Primeira Fitna (Primeira Guerra Civil Muçulmana). Quando Ali foi assassinado pelo carijita Abederramão ibne Muljame em 661, seu filho mais velho, Haçane ibne Ali, sucedeu-lhe, mas logo firmou um tratado de paz com Moáuia para evitar mais derramamento de sangue. Pelo tratado, Haçane entregaria o poder a Moáuia sob a condição de que este governasse com justiça e não estabelecesse uma dinastia.[c] Após a morte de Haçane em 670, seu irmão mais novo, Huceine ibne Ali, tornou-se chefe dos haxemitas ao qual também pertencia o profeta Maomé. Embora os partidários de seu pai em Cufa lhe tenham jurado lealdade, ele respeitou o tratado de paz entre Haçane e Moáuia enquanto este permaneceu vivo.
Ao suceder ao pai, Iázide encarregou o governador de Medina, Alualide ibne Oteba ibne Abi Sufiane, de obter a lealdade de Huceine, Ibne Azobair e Abedalá ibne Omar, recorrendo à força se necessário. Alualide consultou seu parente omíada Maruane ibne Aláqueme, que sugeriu que Ibne Azobair e Huceine fossem obrigados a prestar juramento, por representarem perigo, enquanto Ibne Omar poderia ser deixado em paz por não constituir ameaça. Alualide convocou ambos, mas Ibne Azobair fugiu para Meca. Huceine compareceu, porém recusou-se a prestar juramento em ambiente reservado, sugerindo que isso fosse feito publicamente. Maruane aconselhou Alualide a prendê-lo ou decapitá-lo, mas, devido ao parentesco de Huceine com Maomé, Alualide não quis agir contra ele. Poucos dias depois, Huceine partiu para Meca sem reconhecer a autoridade de Iázide. Chegou à cidade no início de maio de 680 e ali permaneceu até o começo de setembro.
Huceine deixou Meca com cerca de cinquenta homens e sua família em 9 de setembro de 680 (8 de Dulrija de 60 A.H.), um dia antes do Haje. Seguiu pela rota setentrional através do deserto da Arábia. Por insistência do primo de Huceine, Abedalá ibne Jafar, o governador de Meca, Anre ibne Saíde Alasdaque, enviou seu irmão e Ibne Jafar atrás de Huceine para garantir-lhe segurança em Meca e convencê-lo a regressar. Huceine recusou-se a voltar, afirmando que Maomé lhe havia ordenado em sonho que prosseguisse, independentemente das consequências. Em um lugar conhecido como Tanim, apoderou-se de uma caravana que transportava plantas tintoriais e roupas enviadas pelo governador do Iêmen a Iázide. Mais adiante, em um local chamado Talabia, a pequena caravana recebeu a notícia da execução de Ibne Aquil e da indiferença dos habitantes de Cufa. Relata-se que Huceine teria considerado retornar nesse momento, mas foi persuadido a prosseguir pelos irmãos de Ibne Aquil, que desejavam vingar sua morte; segundo Madelung e I. K. A. Howard, esses relatos são duvidosos. Mais tarde, em Zubala, Huceine soube da captura e execução de seu mensageiro Caice ibnr Muçair Açaidaui, que havia enviado do Hejaz (oeste da Arábia) a Cufa para anunciar sua chegada.[d] Ele informou seus seguidores sobre a situação e pediu-lhes que partissem. A maioria dos que haviam se juntado a ele durante o caminho foi embora, enquanto seus companheiros vindos de Meca decidiram permanecer ao seu lado.
Após a oração matinal de 10 de outubro, ambos os lados assumiram posições de combate. Huceine designou Zuair ibne Caine para comandar o flanco direito de seu exército, Habibe ibne Muzair para comandar o flanco esquerdo e seu meio-irmão Abas como porta-estandarte. Segundo a maioria dos relatos, os companheiros de Huceine somavam trinta e dois cavaleiros e quarenta infantes, embora algumas fontes mencionem quarenta e cinco cavaleiros e cem soldados de infantaria, ou um total de algumas centenas de homens. O exército de Ibne Sade totalizava quatro mil homens. Segundo as fontes xiitas, contudo, mais tropas haviam se juntado a Ibne Sade nos dias anteriores, elevando seu exército a trinta mil homens. A vala cheia de madeira foi incendiada. Huceine então discursou aos adversários, recordando-lhes sua condição de neto de Maomé e censurando-os por tê-lo convidado e depois abandonado. Pediu que lhe permitissem partir. Responderam-lhe que primeiro deveria submeter-se à autoridade de Iázide, o que ele se recusou a fazer. O discurso de Huceine comoveu Alur, que desertou para o seu lado.
Morte de Huceine ibne Ali
Os soldados omíadas hesitavam em atacar Huceine diretamente, mas ele foi atingido na boca por uma flecha quando se dirigia ao rio para beber. Recolheu o próprio sangue com a mão em concha e lançou-o em direção ao céu, queixando-se a Deus de seu sofrimento. Mais tarde, foi cercado e golpeado na cabeça por Maleque ibne Nuçair. O golpe atravessou seu manto com capuz, que Huceine retirou enquanto amaldiçoava o agressor. Colocou um gorro na cabeça e enrolou um turbante sobre ele para estancar o sangramento. Ibne Nuçair apoderou-se do manto ensanguentado e retirou-se. Xinre avançou com um grupo de soldados de infantaria em direção a Huceine, que então estava preparado para lutar, pois restavam poucas pessoas ao seu lado. Um jovem do acampamento de Huceine escapou das tendas, correu até ele e tentou defendê-lo de um golpe de espada, mas teve o braço decepado. Ibne Sade aproximou-se das tendas, e a irmã de Huceine, Zainabe, protestou: "Omar ibne Sade, Abu Abedalá — a cúnia de Huceine — será morto enquanto permaneces aí observando?" Ibne Sade chorou, mas nada fez. Conta-se que Huceine matou muitos de seus agressores. Estes, contudo, ainda se mostravam relutantes em matá-lo, e cada um desejava deixar a tarefa para outra pessoa. Por fim, Xinre gritou: "Que vergonha! Por que estais esperando diante desse homem? Matai-o, que vossas mães sejam privadas de vós!" Os soldados omíadas então avançaram contra Huceine e feriram-no na mão e no ombro. Ele caiu de bruços no chão, e um agressor chamado Sinane ibne Anas apunhalou-o e depois o decapitou.
Setenta ou setenta e duas pessoas morreram do lado de Huceine, das quais cerca de vinte eram descendentes de Abu Talibe, pai de Ali. Entre elas estavam dois filhos de Huceine, seis de seus irmãos paternos, três filhos de Haçane ibne Ali, três filhos de Jafar ibne Abi Talibe e três filhos e três netos de Aquil ibne Abi Talibe. Após a batalha, as roupas de Huceine foram retiradas, e sua espada, calçados e bagagem foram levados. As joias e os mantos das mulheres também foram apreendidos. Xinre quis matar o único filho sobrevivente de Huceine, Ali Zainal Abidim, que não havia participado dos combates devido a uma enfermidade, mas foi impedido por Ibne Sade. Há relatos de mais de sessenta ferimentos no corpo de Huceine, que foi então pisoteado por cavalos, conforme ordenado anteriormente por Ibne Ziade. Os corpos dos companheiros de Huceine foram decapitados. Houve oitenta e oito mortos no exército de Ibne Sade, que foram sepultados antes de sua partida. Depois que ele partiu, membros da tribo dos Banu Assade, oriundos da aldeia vizinha de Gadíria, sepultaram os corpos decapitados dos companheiros de Huceine.
Revolta dos Penitentes
Alguns destacados partidários dos álidas em Cufa sentiram-se culpados por terem abandonado Huceine depois de convidá-lo a se rebelar. Para expiar aquilo que consideravam seu pecado, iniciaram um movimento conhecido como penitente (Tawwabin), sob a liderança de Soleimão ibne Surade, companheiro de Maomé, com o objetivo de combater os omíadas. Enquanto o Iraque permaneceu sob o domínio omíada, o movimento atuou na clandestinidade. Após a morte de Iázide, em novembro de 683, os habitantes do Iraque expulsaram o governador omíada Ibne Ziade; os penitentes conclamaram a população a vingar a morte de Huceine e conquistaram amplo apoio. Desprovidos de um programa político, pretendiam punir os omíadas ou sacrificar-se na luta. Seu lema era "Vingança por Huceine". Almoquetar Atacafi, outro destacado partidário dos álidas em Cufa, tentou dissuadir os penitentes dessa iniciativa em favor de um movimento organizado para assumir o controle da cidade, mas a posição de Ibne Surade como companheiro de Maomé e antigo aliado de Ali impediu que a maioria de seus seguidores aceitasse a proposta de Almoquetar. Embora dezesseis mil homens tenham se alistado para combater, apenas quatro mil se apresentaram. Em novembro de 684, os penitentes partiram para enfrentar os omíadas, após passarem um dia em luto junto ao túmulo de Huceine, em Carbala. Os exércitos encontraram-se em janeiro de 685 na Batalha de Aine Aluarda, que durou três dias, no atual norte da Síria; a maioria dos penitentes, incluindo Ibne Surade, foi morta. Alguns escaparam para Cufa e se juntaram a Almoquetar.
Revolta de Almoquetar Atacafi
Almoquetar foi um dos primeiros colonos de Cufa, tendo chegado ao Iraque após a conquista inicial da região pelos muçulmanos. Participou da revolta fracassada de Muslim ibne Aquil, razão pela qual foi preso por Ibne Ziade, antes de ser libertado após a intervenção de Abedalá ibne Omar. Almoquetar dirigiu-se então a Meca e estabeleceu uma aliança de curta duração com Abedalá ibne Azobair, que havia se estabelecido na cidade em oposição a Iázide. Após a morte de Iázide, retornou a Cufa, onde defendeu a vingança contra os assassinos de Huceine e a criação de um califado álida em nome do meio-irmão de Huceine, Maomé ibne Hanafia, declarando-se seu representante. A derrota dos penitentes deixou em suas mãos a liderança dos partidários dos álidas em Cufa. Em outubro de 685, Almoquetar e seus seguidores, entre os quais havia um número significativo de convertidos locais (maulas), derrubaram o governador nomeado por Ibne Azobair e tomaram Cufa. Seu domínio estendeu-se sobre a maior parte do Iraque e áreas do noroeste do Irã. Sua atitude em relação aos maulas, aos quais concedeu numerosos privilégios e estatuto igual ao dos árabes, provocou uma revolta da aristocracia árabe descontente. Depois de sufocar a rebelião, Almoquetar executou os cufanos envolvidos na morte de Huceine, entre eles Ibne Sade e Xinre, enquanto milhares de pessoas fugiram para Baçorá. Em seguida, enviou seu general Ibraim ibne Alastar para enfrentar um exército omíada que se aproximava, comandado por Ibne Ziade e enviado para reconquistar a província. O exército omíada foi derrotado na Batalha de Cazir, em agosto de 686, e Ibne Ziade foi morto. Enquanto isso, as relações entre Almoquetar e Ibne Azobair deterioraram-se, e os refugiados cufanos em Baçorá persuadiram Muçabe ibne Azobair, governador da cidade e irmão mais novo de Abedalá Ibne Azobair, a atacar Cufa. Diante da derrota em campo aberto, Almoquetar e os partidários que lhe restavam refugiaram-se no palácio de Cufa, onde foram sitiados por Muçabe. Quatro meses depois, em abril de 687, Almoquetar foi morto, enquanto cerca de seis a oito mil de seus seguidores foram executados. Segundo Mohsen Zakeri, a atitude de Almoquetar em relação aos maulas foi uma das razões de seu fracasso, pois Cufa ainda não estava preparada para tais "medidas revolucionárias". Os partidários de Almoquetar sobreviveram ao colapso de sua revolução e formaram uma seita conhecida como caissanitas. A Haximia, grupo dissidente dos caissanitas, foi posteriormente assumida pelos abássidas, que acabaram por derrubar os omíadas em 750.
A principal fonte da narrativa de Carbala é a obra do historiador cufano Abu Miquenafe, intitulada Kitab Maqtal al-Husayn. Outras monografias antigas sobre a morte de Huceine, atualmente perdidas, foram escritas por Alasbague ibne Nubata, Jabir ibne Iázide Aljufi, Amar ibne Moáuia Alduni, Auana ibne Aláqueme, Uaquidi, Hixame ibne Alcalbi, Nasre ibne Muzaim e Almadaini; dentre elas, a de Alasbague talvez tenha sido a mais antiga. Embora a data de nascimento de Abu Micnafe seja desconhecida, ele já era adulto na época da revolta de Ibne Alaxate, ocorrida em 701, cerca de vinte anos após a Batalha de Carbala. Dessa forma, conheceu muitas testemunhas oculares e recolheu relatos de primeira mão, alguns deles transmitidos por cadeias muito curtas, geralmente com apenas um ou dois intermediários. As testemunhas pertenciam a dois grupos: participantes do lado de Huceine e integrantes do exército de Ibne Sade. Como poucos sobreviventes permaneceram do acampamento de Huceine, a maioria das testemunhas provinha do segundo grupo. Segundo Julius Wellhausen, muitos deles lamentavam sua atuação na batalha e embelezaram os relatos em favor de Huceine para atenuar sua culpa. Embora fosse iraquiano e apresentasse inclinações pró-álidas, os relatos de Abu Micnafe geralmente não contêm grande parcialidade de sua parte.
Com base em um relatório oficial enviado ao califa Iázide, que descreve a batalha de forma muito breve e afirma que ela não durou mais do que uma sesta, Lammens concluiu que não houve propriamente uma batalha, mas um massacre rápido, encerrado em cerca de uma hora. Ele sugeriu que os relatos detalhados encontrados nas fontes primárias seriam fabricações iraquianas, pois seus autores estavam insatisfeitos com a ideia de que seu herói tivesse sido morto sem oferecer resistência. Essa interpretação foi contestada pela historiadora Laura Veccia Vaglieri, que argumentou que, embora alguns relatos tenham sido inventados, o conjunto das narrativas contemporâneas forma uma "narrativa coerente e verossímil". Ela criticou a hipótese de Lammens por se basear em um único relato isolado e carecer de análise crítica. De forma semelhante, Madelung e Wellhausen sustentaram que a batalha se prolongou do nascer ao pôr do sol e que o relato geral do confronto é confiável. Vaglieri e Madelung explicaram a duração da batalha, apesar da disparidade numérica entre os dois lados, como resultado da tentativa de Ibne Sade de prolongar o combate e pressionar Huceine a se submeter, em vez de procurar rapidamente subjugar e matar seus homens.
Interpretações históricas modernas sobre as motivações de Huceine
Wellhausen descreveu a revolta de Huceine como uma campanha prematura e mal preparada, conduzida por uma pessoa ambiciosa. Escreveu: "Ele estende a mão para a Lua como uma criança. Faz as maiores exigências e não realiza o mínimo; os outros devem fazer tudo... Assim que encontra resistência, tudo acaba para ele; quer voltar quando já é tarde demais." Lammens concordou com essa interpretação e considerou Huceine alguém que perturbava a paz pública. Segundo Heinz Halm, tratou-se de uma disputa pela liderança política entre a segunda geração de muçulmanos, na qual o pretendente mal equipado acabou derrotado. Fred Donner, G. R. Hawting e Hugh N. Kennedy interpretaram a revolta de Huceine como uma tentativa de recuperar aquilo a que seu irmão Haçane havia renunciado.
A morte do neto de Maomé chocou a comunidade muçulmana. A imagem de Iázide foi prejudicada e surgiu a percepção de que ele era ímpio. O acontecimento teve profundo impacto emocional entre os sunitas, que o recordam como um episódio trágico e consideram mártires aqueles que morreram ao lado de Huceine. Seu impacto sobre o islamismo xiita, contudo, foi muito mais profundo.
Islamismo xiita
Antes da Batalha de Carbala, a comunidade muçulmana estava dividida em duas facções políticas. Ainda assim, não havia surgido uma seita religiosa dotada de doutrinas teológicas distintas e de um conjunto próprio de rituais. Carbala conferiu identidade religiosa própria a esse antigo partido político pró-álida e contribuiu para transformá-lo em uma seita religiosa distinta. Heinz Halm escreveu: "Não havia aspecto religioso no xiismo antes de 680. A morte do terceiro imame e de seus seguidores representou o 'big bang' que criou o cosmos do xiismo, em rápida expansão, e o pôs em movimento." Os xiitas acreditam que a morte de Huceine em Carbala constituiu um sacrifício realizado para impedir que governantes tirânicos corrompessem o Islã e para proteger sua doutrina. Acredita-se, assim, que ele tinha plena consciência de seu destino e do desfecho de sua revolta, que havia sido determinado por vontade divina. Por isso, é lembrado como o príncipe dos mártires (Sayyid al-Shuhada). O historiador G. R. Hawting descreveu a Batalha de Carbala como o exemplo "supremo" de "sofrimento e martírio" para os xiitas. Segundo Abdulaziz Sachedina, os xiitas a consideram o ponto culminante do sofrimento e da opressão, cuja vingança se tornou um dos principais objetivos de muitas revoltas xiitas. Acredita-se que essa vingança seja um dos objetivos fundamentais da futura revolução do décimo segundo imame xiita, Muhammad al-Mahdi, cujo retorno é aguardado. Com seu retorno, espera-se que Huceine e seus setenta e dois companheiros sejam ressuscitados juntamente com seus assassinos, que então serão punidos.
Política
O primeiro uso político da morte de Huceine parece ter ocorrido durante a revolta de Almoquetar, quando este tomou Cufa sob o lema "Vingança por Huceine". Embora os Penitentes tivessem utilizado o mesmo lema, aparentemente não possuíam um programa político. Para reforçar sua legitimidade, os governantes abássidas alegaram ter vingado a morte de Huceine ao destronarem os omíadas. Durante os primeiros anos de seu governo, também incentivaram os rituais de Moarrão. Os buídas, uma dinastia xiita originária do Irã que posteriormente ocupou a capital abássida, Bagdá, embora reconhecesse a suserania do califa abássida, promoveram os rituais públicos de Moarrão para se apresentarem como patronos da religião e fortalecerem a identidade xiita no Iraque. Após conquistarem o Irã em 1501, os safávidas, que anteriormente constituíam uma ordem sufista, declararam o xiismo duodecimano religião oficial do Estado. Nesse contexto, os rituais de Carbala e Moarrão tornaram-se instrumentos da propaganda safávida e meios de consolidar a identidade xiita da dinastia. Riza Yildirim afirmou que o impulso da revolução safávida foi a vingança pela morte de Huceine. O fundador da dinastia, xá Ismail I, considerava-se o Mádi — o décimo segundo imame xiita — ou seu precursor. De forma semelhante, os cajares também patrocinaram rituais de Moarrão, como procissões, ta'ziyeh e majalis, para melhorar as relações entre o Estado e a população. Ao longo dos séculos XX e XXI, os xiitas de países como Irã, Iraque e Líbano interpretaram o martírio de Huceine em Carbala como símbolo da resistência religiosa e política contra a opressão de seu tempo. Nesses países, os xiitas veem Huceine como um modelo para a vida cotidiana e inspiram-se nele em sua resistência religiosa e política contra forças consideradas antixiitas, sejam elas internas ou estrangeiras.
O filósofo e poeta sul-asiático Muhammad Iqbal considerou o sacrifício de Huceine semelhante ao de Ismael e comparou a oposição de Iázide a Huceine à oposição do faraó a Moisés. O poeta de língua urdu Ghalib comparou o sofrimento de Huceine ao de Almançor Alhalaje, sufista do século X executado sob a acusação de reivindicar divindade.
Literatura maqtal e relatos lendários
As obras denominadas maqtal (pl. maqātil) narram a história da morte de uma pessoa. Embora tenham sido escritos maqātil sobre as mortes de Ali, Otomão e várias outras pessoas, o gênero concentrou-se principalmente na história da morte de Huceine. Além do Maqtal de Abu Micnafe, foram escritos outros maqātil em árabe sobre Huceine. A maioria combina história e lenda e apresenta descrições elaboradas de seu nascimento milagroso, que teria ocorrido em 10 de Moarrão, coincidindo com a data de sua morte. O universo e a humanidade também são descritos como tendo sido criados no dia de Axura — 10 de Moarrão. Afirma-se ainda que Axura teria sido o dia do nascimento de Abraão e de Maomé, da ascensão de Jesus ao céu e de diversos outros acontecimentos relacionados aos profetas. Atribuem-se a Huceine vários milagres, entre eles matar a sede de seus companheiros colocando o polegar em suas bocas, saciar-lhes a fome fazendo descer alimentos do céu e matar vários milhares de atacantes omíadas. Outros relatos afirmam que, quando Huceine morreu, seu cavalo derramou lágrimas e matou muitos soldados omíadas; o céu tornou-se vermelho e choveu sangue; anjos, gênios e animais selvagens choraram; uma luz emanou da cabeça decepada de Huceine, que recitou o Alcorão; e todos os seus assassinos tiveram fins calamitosos. O gênero maqtal foi posteriormente incorporado às literaturas persa, turca e urdu e inspirou o desenvolvimento da rawda.
Marthiya e rawda
Quando o xiismo se tornou a religião oficial do Irã no século XVI, governantes safávidas como o xá Tahmasp I patrocinaram poetas que escreveram sobre a Batalha de Carbala. Segundo o estudioso da literatura persa Wheeler Thackston, o gênero da marthiya — poemas em memória dos mortos, cujas formas populares relacionadas a Carbala incluem a rawda e a nawha — foi "particularmente cultivado pelos safávidas". Diversos autores persas escreveram textos que recontavam versões romantizadas e sintetizadas da batalha e de acontecimentos a ela relacionados, entre eles o Rawdat al-Islam ("Jardim do Islã"), de Saíde Aldim, e o Maqtal nur 'al-'a'emmah ("Local do assassinato da luz dos imames"), de Alcuarismi. Essas obras influenciaram a composição do texto mais popular Rawdat al-Shuhada ("Jardim dos Mártires"), escrito em 1502 por Huceine Uaiz Caxefi. A obra de Caxefi foi um fator importante para o desenvolvimento da rawda khwani, narrativa ritual dos acontecimentos da batalha realizada nos majalis.
Poesia sufista
No sufismo, em que a aniquilação do eu (nafs) e o sofrimento no caminho de Deus constituem princípios fundamentais, Huceine é considerado um modelo de sufista. O poeta sufista persa Sanai descreveu Huceine como um mártir de posição superior à de todos os demais mártires do mundo, enquanto Faridadim Atar o considerou o protótipo do sufista que se sacrificou por amor a Deus. Jalaladim Rumi descreveu o sofrimento de Huceine em Carbala como um meio de alcançar a união com o divino e, por isso, considerou-o motivo de júbilo, e não de pesar. O poeta sufista de língua sindi Xá Abdul Latife Bitai dedicou uma seção de seu Shah Jo Risalo à morte de Huceine, na qual o acontecimento é recordado por meio de lamentos e elegias. Ele também interpretou a morte de Huceine como um sacrifício realizado no caminho de Deus e condenou Iázide por ser desprovido do amor divino. O sufista turco Yunus Emre chamou Huceine e seu irmão Haçane de "fontes dos mártires" e "reis do Paraíso" em suas canções.
Pinturas e murais
Embora o clero islâmico tenha desaprovado representações pictóricas das primeiras figuras do Islã, a popularidade das encenações da Paixão conhecidas como ta'ziyeh no Irã favoreceu a aceitação pública dessas representações na forma de pinturas que retratavam cenas da batalha. As pinturas, chamadas shamayel ou parda, surgiram durante a era Cajar e não eram concebidas como obras profissionais de arte erudita, mas como representações populares destinadas às cenas da ta'ziyeh. As pinturas, geralmente em "estilo de história em quadrinhos", costumam representar várias cenas da batalha em uma única tela, além de episódios da vida após a morte, nos quais Huceine e seus partidários aparecem desfrutando do paraíso, enquanto seus inimigos ardem no inferno. São frequentemente utilizadas para decorar husseinias. Os shamayel deram posteriormente origem aos murais, quando as cenas passaram a ser pintadas diretamente nas paredes.


