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Emirado Numaírida

Os numaíridas foram uma dinastia árabe estabelecida em Diar Modar, na parte ocidental da Alta Mesopotâmia. Seus integrantes eram emires da tribo dos numairitas, da qual a dinastia derivava seu nome. O ramo principal da dinastia, fundado por Uatabe ibne Sabique em 990, governou, de maneira mais ou menos contínua, as cidades de Harrã, Saruche e Raca, no Eufrates, até o final do século XI. Durante a primeira parte do reinado de Uatabe (r. 990–1019), os numaíridas também controlaram Edessa, até sua conquista pelo Império Bizantino no início da década de 1030. Em 1062, perderam Raca para seus parentes distantes e antigos aliados mirdássidas, enquanto, em 1081, sua capital Harrã e a vizinha Saruche foram conquistadas pelos seljúcidas turcos e seus aliados árabes ucaílidas. Emires numaíridas continuaram a controlar fortalezas isoladas da Alta Mesopotâmia, como Calate Anajeme e Sine ibne Utair, nas proximidades de Samósata, até o início do século XII, mas não há mais notícias deles depois de 1120.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 28/08/2026
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Território

Os numaíridas governaram a região de Diar Modar, na parte ocidental da Jazira (Alta Mesopotâmia), controlando de maneira mais ou menos contínua, entre 990 e 1081, as terras situadas entre Harrã, Saruche e Raca. Durante grande parte desse período, seu território fazia fronteira, ao sul e a oeste, com o Emirado Mirdássida, sediado em Alepo; a leste, com o Emirado Ucaílida, sediado em Moçul; ao norte, com o Emirado Maruânida, sediado em Maiafariquim, e, a noroeste, com o Império Bizantino. Numaíridas, mirdássidas e ucaílidas eram dinastias árabes, enquanto os maruânidas eram curdos. Todas eram pequenas dinastias independentes surgidas no norte da Síria e na Alta Mesopotâmia entre o final do século X e o início do XI, em consequência da incapacidade das grandes potências regionais — o Califado Abássida, sediado em Baguedade, o Califado Fatímida, sediado no Cairo, e o Império Bizantino — de controlar ou anexar efetivamente essas regiões. Em diferentes momentos, os numaíridas reconheceram a suserania e estabeleceram alianças pouco rígidas com cada uma dessas três potências.

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História

Origens

Os emires numaíridas pertenciam aos numairitas, tribo da qual a dinastia recebeu seu nome. Os numairitas constituíam um ramo dos amiritas (Amir ibne Saçaa) e, portanto, pertenciam aos caicitas, de ascendência árabe setentrional. O nome "Numair" provavelmente está relacionado a nimr, palavra árabe que significa "leopardo". Ao contrário da maioria dos filhos de Amir ibne Saçaa que deram origem a grandes ramos tribais, Numair possuía ascendência materna distinta e seu grupo não estabelecia alianças com outras tribos. Durante grande parte de sua história, os numairitas constituíram um grupo nômade de poucos recursos, que recorria frequentemente à pilhagem. A tribo só passa a aparecer com alguma frequência nas fontes durante o Califado Omíada (661–750), quando ocupava as terras altas ocidentais de Iamama, na região central da Península Arábica. Em razão das pilhagens praticadas por seus integrantes, os numairitas foram dispersados numa expedição conduzida pelo general abássida Buga Alquibir em 846, embora tenham se reorganizado nas décadas seguintes.

Estabelecimento em Harrã

Após a morte de Ceife Adaulá, em 967, o emirado hamadânida de Alepo entrou num período de declínio administrativo. Isso prejudicou a capacidade dos hamadânidas de controlar efetivamente as regiões sudeste de Diar Modar, próximas à hostil fronteira bizantina, tornando necessário recorrer cada vez mais aos numairitas. Para esse fim, o sucessor de Ceife Adaulá, Sade Adaulá, concedeu a membros da tribo governos de cidades como Harrã, para a qual nomeou o emir numaírida Uatabe ibne Sabique. Em 990, Uatabe rebelou-se contra os hamadânidas e proclamou um emirado independente em Harrã, marcando o estabelecimento da dinastia numaírida. Ainda em 990, Uatabe apoderou-se da cidade fortificada de Saruche, a oeste de Harrã, e, em 1007, conquistou Raca de seu governador hamadânida, Almançor ibne Lulu. No início de seu reinado, Uatabe também tomou Edessa dos hamadânidas, ao norte de Saruche, e entregou-a a seu primo Utair. A conquista de Edessa colocou os numaíridas numa posição estratégica diante dos bizantinos, cujo território confinava com a cidade pelo norte e pelo oeste. Uatabe morreu em 1019–1020 e foi sucedido por seu filho Xabibe ibne Uatabe.

Reinado de Xabibe

Os numaíridas podem ter perdido o controle de Harrã algum tempo depois da morte de Uatabe. Além disso, durante o início do reinado de Xabibe ibne Uatabe, os habitantes de Edessa tornaram-se cada vez mais hostis a Utair, provavelmente porque este havia assassinado o popular vice-governante da cidade. Em 1030, Nácer Adaulá, emir maruânida de Maiafariquim, interveio em favor dos habitantes de Edessa, matou Utair e tomou a cidade. As fontes divergem sobre se Nácer Adaulá ou o emir mirdássida de Alepo, Sale ibne Mirdas, arbitrou a divisão de Edessa após a queda de Utair. De todo modo, um filho de Utair, conhecido nas fontes apenas como Ibne Utair, foi nomeado governador da cidadela principal de Edessa, enquanto Xible Adaulá, um emir numaírida de menor importância, recebeu a cidadela secundária da cidade. Assim, embora Edessa permanecesse em mãos numaíridas, na prática estava fora do controle de Xabibe. Em 1030–1031, tiveram início negociações entre os bizantinos e Ibne Utair — ou seus protetores maruânidas — para a transferência da cidadela principal de Edessa ao controle bizantino. Naquele momento, Ibne Utair enfrentava a oposição de Xible Adaulá, que controlava a cidadela menor, o que levou Ibne Utair ou os maruânidas a vender a cidadela principal ao imperador Romano III por 20 mil dinares de ouro e várias aldeias. Após a compra, as tropas de Xible fugiram, os habitantes muçulmanos foram massacrados e as mesquitas da cidade foram incendiadas. Ibne Utair, por sua vez, aparentemente se transferiu para uma fortaleza próxima de Samósata que passou a levar seu nome, Sine ibne Utair.

Luta por Raca

Xabibe morreu sem deixar um herdeiro adulto em 1039–1040 e, como resultado, o território numaírida foi dividido entre seus irmãos Mutaine e Cauame, que passaram a controlar conjuntamente Harrã e Raca, e um certo Haçane, aparentemente filho de Xabibe, que governou Saruche. A morte de Xabibe marcou o início de uma longa disputa entre os numairitas e os quilabitas pelo controle de Raca e das férteis pastagens que cercavam a cidade. Na época da morte de Xabibe, Açaida Alauia vivia em Arrafica, imediatamente adjacente a Raca, para onde havia se transferido com Timal após a ocupação fatímida de Alepo. Ela procurou tomar Raca do vice-governador nomeado por seus irmãos e casou-se com Timal, segundo Ibne Aladim, para preservar sua autoridade e proteger seus interesses. Timal assumiu o controle de Raca, expandindo assim o território tribal dos quilabitas por toda a região entre os rios Balique e Eufrates. Por volta da mesma época, Anustaquim Adisbari, preocupado com a crescente base de poder de Timal na Alta Mesopotâmia, comprou de Mani ibne Xabibe, filho de Xabibe, a fortaleza de Calate Jabar, ao norte de Raca. Quando Anustaquim morreu em 1041, Mani imediatamente retomou Calate Jabar. Naquele momento, Timal já havia se reconciliado com os fatímidas e sido restaurado no governo de Alepo.

Apogeu

A entrega de Raca por Timal integrou uma mudança mais ampla no equilíbrio de poder do norte da Síria e da Alta Mesopotâmia, pois o emir também foi obrigado pelos fatímidas a abandonar Alepo em janeiro de 1058. Enquanto isso, Mani recebeu grandes somas de dinheiro dos fatímidas para garantir seu apoio à campanha de Albaçaciri. Esses recursos permitiram-lhe consolidar-se em Harrã, onde construiu um palácio-cidadela no local do antigo templo dos sabeus. Em janeiro de 1059, Albaçaciri conseguiu expulsar os seljúcidas de Bagdá, depor o califa abássida Alcaime e proclamar a soberania fatímida sobre a cidade. Nessa altura, Mani era mais rico e poderoso do que nunca. Apesar de sua aliança formal, os numaíridas não auxiliaram Albaçaciri nessa campanha. Ao mesmo tempo, Mani procurou fortalecer o emirado numaírida diante da possibilidade de uma restauração abássida-seljúcida no Iraque. A falta de apoio do Cairo tanto a Mani quanto a Albaçaciri, em meio a importantes mudanças políticas no Egito, pode ter contribuído para que Mani retornasse à esfera abássida-seljúcida.

Declínio e queda

Em 1060, Mani apoiou seu sobrinho e governante mirdássida, Mamude ibne Nácer, filho de Nácer ibne Sale e Açaida Alauia, contra a tentativa de Timal de recuperar Alepo. Mamude acabou derrotado e recebeu abrigo de Mani. Açaida Alauia então interveio e mediou uma trégua entre Timal e Mani. Apesar disso, Mani sofreu outro sério revés diante dos mirdássidas quando o irmão de Timal, Atia ibne Sale, tomou Raca em 1062. Pouco depois, em julho de 1062 ou abril de 1063, Mani morreu após sofrer uma convulsão, sem deixar um sucessor capaz. Segundo Heidemann, com sua morte os numairitas perderam grande parte de sua importância e rapidamente caíram no esquecimento. A expansão do poder seljúcida sobre a Síria e a Alta Mesopotâmia após a vitória sobre os bizantinos na Batalha de Manzicerta, em 1071, passou a ameaçar diretamente o Emirado Numaírida; a derrota bizantina privou tanto os numaíridas quanto os mirdássidas de um poderoso protetor. Em 1081, o emir ucaílida Muslim ibne Coraixe, apoiado pelos seljúcidas, conquistou Harrã dos sucessores de Mani, cujos nomes não foram preservados pelas fontes. Segundo Ibne Alatir, Muslim nomeou Iáia ibne Axatir, um gulam numaírida e administrador que o havia auxiliado, como governador de Harrã. Já Sibte ibne Aljauzi afirma que um certo Jafar Alucaili foi nomeado governador e promoveu o xiismo na cidade. No mesmo ano, os ucaílidas tomaram Saruche de Haçane, que a controlava de forma contínua desde 1039. Em troca, Haçane recebeu Nísibis, que passou a governar como vassalo ucaílida.

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Cultura

Governo

Depois de se estabelecerem no poder, os numaíridas passaram a proteger, administrar e tributar as comunidades que habitavam os territórios agrícolas e as cidades sob seu domínio, em vez de simplesmente saqueá-las. Nesse aspecto, aproximavam-se dos quilabitas do norte da Síria e dos ucaílidas de Diar Rabia. Em contraste, outros grupos beduínos contemporâneos dos numaíridas, particularmente os jarráidas da Transjordânia e da Palestina, saqueavam seus próprios territórios e atacavam regularmente a população. Ainda assim, os numaíridas conservaram elementos de seu modo de vida nômade, entre eles certa relutância em residir em ambientes urbanos. Por isso, os emires e chefes numaíridas geralmente evitavam viver nas cidades que controlavam e formavam pequenos principados rurais nas áreas de pastagem em torno de suas fortalezas. A administração das cidades, incluindo a arrecadação de impostos, era confiada a um representante que governava em nome do emir, normalmente um gulam. Uma exceção foi Mani ibne Xabibe, que residiu em Harrã. Segundo Heidemann, as obras realizadas por Mani em Harrã e provavelmente em Raca demonstram que o emir não via as cidades apenas como fontes de receita fiscal, mas procurava também apresentar-se como governante urbano, sem abandonar sua principal base de poder entre os numairitas nas áreas de pastagem. Assim como seus vizinhos maruânidas, os Numaíridas empregavam o título de emir. Os emires Xabibe ibne Uatabe e Mani utilizaram também, respectivamente, os títulos de Saniate Adaulá (Ṣanīʿat ad-Dawla) e Najibe Adaulá (Najīb ad-Dawla), ambos influenciados pela titulatura fatímida. É provável que tenham adotado essas designações durante períodos de fidelidade formal ao Califado Fatímida. Os Numaíridas mantiveram casas da moeda em Harrã e, durante o governo de Mani, também em Raca. As moedas traziam os nomes dos emires reinantes, prática que no mundo islâmico medieval constituía uma manifestação de soberania política.

Legado arquitetônico

Em 1059, durante o auge de seu poder, Mani transformou o templo sabeu de Harrã numa residência fortificada e ricamente ornamentada. Escavações realizadas na atual cidadela de Harrã mostraram que parte da construção consistia em duas pequenas torres quadradas de basalto, ligadas por um arco decorado. Fragmentos de uma inscrição em escrita cúfica, encontrados num bloco de basalto da cidadela, datam a construção do palácio de 1059. Segundo Rice, a inscrição constitui o mais antigo texto islâmico até então encontrado em Harrã e o único documento epigráfico preservado da dinastia numaírida. Heidemann considera provável que também tenham ocorrido atividades construtivas durante o governo de Mani em Raca e na cidade vizinha de Arrafica, incluindo uma possível restauração da mesquita congregacional desta última. Contudo, não foram identificados vestígios arquitetônicos que possam ser atribuídos com segurança aos numaíridas em Raca ou Arrafica.

Religião

Assim como os hamadânidas, os fatímidas e os quilabitas/mirdássidas, grande parte dos numairitas seguia o xiismo. Inicialmente, os numaíridas reconheceram formalmente a autoridade do Califado Abássida sunita, mas, nos últimos anos do governo de Xabibe, transferiram sua fidelidade ao Califado Fatímida xiita. Sob Mani, retornaram à obediência abássida, reconheceram novamente os fatímidas entre 1056 e 1059 e, depois disso, voltaram nominalmente à esfera abássida.

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Fontes consultadas

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