Abílio de Nequete
Abílio de Nequete foi um barbeiro, professor e ativista político libanês-brasileiro. Nascido em uma família de cristãos ortodoxos, imigrou para o Brasil aos 14 anos, em 1903, estabelecendo-se na cidade de São Feliciano, distrito de Encruzilhada do Sul. Lá se tornou mascate, trabalhando junto ao seu pai, com quem teve uma relação conflituosa, inclusive politicamente, já que seu pai era federalista e Abílio aderiu ao Partido Republicano.
Abílio de Nequete nasceu em 15 de fevereiro de 1888 na aldeia de Fih-el-Khoura, no norte do Líbano, com o nome de Abdo Nakt, no seio de uma família cristã ortodoxa. Sua mãe morreu algum tempo depois do seu nascimento e aos dois anos de idade seu pai, Miguel Nakat, imigrou para o Brasil. Nequete ficou com uma irmã mais velha, que também imigraria alguns anos depois. Aos 14 anos, em 1903, sem notícias do pai, ele decidiu viajar a fim de encontrá-lo, embarcando em um navio cargueiro em direção ao Brasil. Chegando à cidade de Rio Grande, Nequete entrou em contato com a comunidade árabe local e, com as informações que obteve, se dirigiu para São Feliciano (atualmente Dom Feliciano), distrito de Encruzilhada do Sul. Neste local, Abílio de Nequete se tornou mascate, trabalhando junto a seu pai. Abílio teve uma relação conflituosa com o pai, inclusive politicamente, já que Miguel era federalista e Abílio aderiu ao Partido Republicano. Entre 1907 e 1908, Abílio mudou-se para Porto Alegre, onde aprendeu o ofício e começou a exercer a profissão de barbeiro. Na capital gaúcha, Nequete foi viver na Rua Conde de Porto Alegre, localizada no Quarto Distrito, núcleo industrial da cidade onde viviam os operários fabris. Em Porto Alegre, converteu-se ao espiritismo e passou a militar no movimento operário.
Em 1917, Abílio de Nequete presenciou uma série de violências populares contra os imigrantes alemães em Porto Alegre, por ocasião da campanha pela entrada do Brasil na Primeira Guerra Mundial. Tais violências o deixaram comovido, lhe convencendo da necessidade de organizar a população. Em agosto do mesmo ano, exerceu um papel central na Liga de Defesa Popular (LDP), articulada durante a greve geral. Nequete tornou-se editor do periódico A Epocha, órgão da LDP. Sua condição de barbeiro fez de Abílio um sujeito conhecido e com capacidade de articular contatos pessoais, e seu interesse por questões filosóficas lhe conferiu um status especial, como um trabalhador letrado a quem poderia ser confiada a editoria de um jornal. Com o fim da greve geral, Nequete partiu, em dezembro de 1917, para uma iniciativa pessoal de militância, distribuindo panfletos entre os militares de baixa patente, numa tentativa de aproximá-los dos operários. Um de seus panfletos, chamado “Ao povo rio grandense”, apresentava uma retórica bastante nacionalista, que procurava sensibilizar os soldados da situação da classe trabalhadora, sugerindo que estes suspendessem o pagamento dos seus aluguéis, para doar 5% da quantia para a Cruz Vermelha Brasileira e para o desenvolvimento da aviação. As autoridades consideraram tal atividade como subversiva e foi aberto um Inquérito Policial Militar contra Nequete.
Depois de sua saída do PCB, Nequete volta a se aproximar do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR). De qualquer forma, em um panfleto de 1924, mesmo estando fora do PCB, conclamava os “companheiros comunistas” a votar na chapa republicana em maio daquele ano. O apoio teria mais um caráter moral do que oficial, mas com isso se esperava apoio para a libertação de Leopoldo Silva, preso durante a greve de 1919, além de visar um espaço no periódico A Federação, órgão do PRR, para a divulgação das ideias comunistas, enquanto estes não editavam um jornal próprio. Apoiou Borges de Medeiros e aderiu à Liga dos Operários Republicanos em 1925. Nesse período, passou a demonstrar certo interesse pela tecnocracia. Em 1925, quando escrevia no jornal A Evolução, da Liga dos Operários Republicanos, ele já não considerava mais os operários dignos de atenção. Em um artigo em que tentava rebater o historiador Aurélio Porto sobre a questão do imposto único, ele afirmou, depois de elogiar o papel dos técnicos na sociedade, que “um exame assim desapaixonado, levou-me a considerar os técnicos como os únicos produtores, os únicos sustentadores de tudo, considerando os trabalhadores manuais como os mesmos parasitas”. As suas novas ideias foram desenvolvidas em um livro lançado em 1926, chamado A technocracia: O V estado. Neste livro, cuja estrutura era semelhante ao Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels, Nequete defendeu a ideia de uma evolução da humanidade em cinco estágios, iniciando pelas civilizações antigas, passando pela fase feudal, que seria superada pelo capitalismo e esta, por sua vez, pelo comunismo, que por fim seria substituído pelo estado tecnocrático, em que os técnicos deveriam ser os responsáveis pela reorganização da sociedade. Em 1927, fundou um Partido Tecnocrata, que, no entanto, recebeu apenas 15 votos nas eleições estaduais.


