Abedalá ibne Maçude
Abedalá ibne Gafil ibne Habibe ibne Hudail ibne Maçude, mais conhecido apenas como Ibne Maçude, foi um companheiro do profeta islâmico Maomé. Era de origem beduína e de nascimento humilde. Pelo lado paterno, foi cliente (maula) dos zuraítas, ramo dos coraixitas, o que lhe garantiu ocasional proteção de figuras como Zobair ibne Alauame e Sade ibne Abi Uacas. Foi um dos primeiros a abraçar o Islã, havendo divergência nas tradições quanto à sua posição cronológica entre os convertidos. Seu zelo lhe valeu a estima de Maomé, que lhe confiou tarefas modestas, como carregar suas sandálias e recolher o material do siwāk. Essa proximidade fez de Ibne Maçude uma fonte importante sobre episódios como o Miraje, o Isra e a data da Noite do Destino.
Abedalá ibne Maçude era de origem beduína e nascimento humilde. Seu pai era halife (aliado juramentado) Abedalá ibne Haris ibne Zura, por isso, era cliente (maula) dos zuraítas, um ramo dos coraixitas, o que lhe permitiu, mais tarde, contar ocasionalmente com a proteção de importantes membros desse clã, como Zobair ibne Alauame e Sade ibne Abi Uacas. Por ser filho de uma família pobre, trabalhou na infância como pastor dos rebanhos de Uqueba ibne Abi Muaite. Foi um dos primeiros muçulmanos. Algumas fontes chegam a afirmar (Assacaui) que teria sido a terceira pessoa a abraçar o Islã, depois de Cadija e Ali, enquanto o Iṣāba de Ibne Hajar coloca-o em sexto lugar. Há relatos que atribuem sua conversão a um milagre realizado por Maomé enquanto apresentava-lhe seus rebanhos, assim como tradições segundo as quais ele teria se tornado muçulmano antes de o Profeta se estabelecer na casa de Alarcame ou antes da conversão de Omar. A mãe de Abedalá, Ume Abede binte Abede Aluade, e seu irmão Uqueba também estavam entre os primeiros muçulmanos. Como pouco se sabe sobre seu pai, foi chamado tanto de companheiro (sahābī, filho do companheiro, quanto, em referência à mãe, de Ibne Ume Abde (Ibn Umm ʿAbd). Após tornar-se muçulmano, Ibne Maçude afastou-se de Uqueba ibne Abi Muaite — um dos mais ferrenhos inimigos do Islã — e dedicou-se inteiramente à religião e ao serviço de Maomé.
Hádices
Ibne Maçude ouviu numerosos hádices de Maomé e os transmitiu. Além disso, há hádices que transmitiu por intermédio de Omar, Otomão, Ali e de outros companheiros. Partem de Ibne Maçude isnades nos quais figuram nomes bem conhecidos como Abu Muça Alaxari, Ibne Abas, Inrane ibne Huceine, Jabir ibne Abedalá, Anas ibne Maleque, Abida Assalmani, Anre ibne Xurabil, Alharite ibne Cais, Ibraim Anacai, Alaçaude ibne Iázide e Alcama ibne Cais, associados a um pequeno círculo de íntimos, como Alharite ibne Suaide Alançari, Uabe ibne Zaide, Uail ibne Maana e o filho de Ibne Maçude, Abu Ubaida A estes se associam autoridades mais discutidas como Masruque, Abu Uail, Abu Adua e Habibe ibne Abi Tabite. Em etapas posteriores do isnade aparecem os grandes especialistas em hádice: Sufiane Atauri e Sufiane ibne Uiaina, e o mestre deles Solimão Alamaxe, cujo gosto por narrativas edificantes e belas lendas é bem conhecido. A Ibne Maçude são atribuídos hádices de conteúdo escatológico ou exortativo (como o hádice segundo o qual o Islã terminará no exílio, assim como começou; ou o hádice sobre o dever de manter intacta a unidade da comunidade islâmica).
Alcorão e exegese
Ibne Maçude lançou as bases da escola iraquiana de exegese. Assim como no direito, essa escola valorizou o raʾy (opinião fundamentada) também na interpretação corânica e formou muitos sábios de relevo que transmitiram essas disciplinas às gerações seguintes. Seu saber remontava diretamente a Maomé, que apreciava ouvir sua recitação do Alcorão. Ele estava entre os principais hafizes do Alcorão entre os companheiros e, segundo afirmou, aprendera mais de setenta suras diretamente do profeta. Existe uma cópia do muxafe que ele próprio reuniu e à qual seu nome é associado. As principais diferenças entre essa cópia e o muxafe oficial — reunido por ordem do califa Abacar e multiplicado por Otomão — dizem respeito à ordem das suras, à ortografia de algumas palavras e à presença, em certos pontos, de adições de caráter exegético. Essas adições explicativas e variantes de leitura, além de influenciarem o pensamento posterior, foram úteis para a compreensão das prescrições corânicas e para esclarecer palavras de difícil entendimento. Sabe-se que Ibne Maçude, após recitar uma sura a seus alunos, a explicava longamente e lhes expunha as normas extraídas dos versículos. Ao interpretar os versículos ambíguos (mutashābih), suas principais referências eram o próprio Alcorão e a suna do profeta; além disso, em certos temas, formulou também opiniões pessoais, exercendo o ijtihād.
Jurisprudência
Assim como nos campos do hádice e das ciências do Alcorão, Ibne Maçude ocupa também uma posição de destaque no domínio do fiqh. Quando Omar se tornou califa, encarregou Ibne Maçude de administrar as funções judiciais, educacionais e de ensino em Cufa, cidade habitada por pessoas de diferentes culturas, modos de vida e valores. Assim, ele permaneceu em Cufa por longo tempo, dirigindo as atividades intelectuais; e, assim como teve papel decisivo na fundação da escola de Cufa nas áreas do tafsīr e da leitura corânica (qirāʾa), desempenhou também o papel mais importante na formação dessa escola no campo do fiqh. Segundo as fontes, pode-se dizer que, entre os companheiros de Maomé, não há outro além de Ibne Maçude cujas opiniões e pareceres jurídicos (fátua) tenham sido sistematicamente postos por escrito por seus alunos. Por ter-se dedicado inteiramente à atividade intelectual, os discípulos que ele formou superaram os dos demais tanto em número quanto em qualidade. Como consequência, na região do Iraque difundiram-se sobretudo as opiniões de Ibne Maçude, ao lado das de Omar e Ali, e por essa razão passou-se a sustentar posteriormente que o verdadeiro fundador dessa escola — sistematizada mais tarde por Abu Hanifa — foi Ibne Maçude.


