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Abinavagupta

Abinavagupta foi um filósofo, místico e teórico da estética da Caxemira. Ele também foi considerado um influente músico, poeta, dramaturgo, exegeta, teólogo e lógico—uma personalidade polimática que exerceu fortes influências na cultura indiana.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 14/07/2026
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Vida

"Abhinavagupta" não era seu nome verdadeiro, mas sim um título que ganhou de seu mestre, carregando um significado de "competência e autoridade".:20 Em sua análise, Jayaratha (1150–1200):92 – que foi o mais importante comentador de Abinavagupta – revela ainda mais três significados: "estar sempre vigilante", "estar presente em todo o lado" e "protegido por louvores".:4 Raniero Gnoli, o único estudioso de sânscrito que completou uma tradução do Tantrāloka para uma língua europeia, menciona que "Abhinava" também significa "novo", como uma referência à sempre nova força criativa de sua experiência mística. Com Jayaratha, aprendemos que Abinavagupta possuía todas as seis qualidades exigidas para os destinatários do tremendo nível de śaktipāta, conforme descrito nos textos sagrados (Śrīpūrvaśāstra): uma fé inabalável em Deus, realização de mantras, controle sobre princípios objetivos (referentes aos 36 tattvas), conclusão bem-sucedida de todas as atividades realizadas, criatividade poética e conhecimento espontâneo de todas as disciplinas.:21

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Origem social, família e discípulos

Nascimento "mágico" ou divino

O termo pelo qual o próprio Abinavagupta define sua origem é "yoginībhū", 'nascido de uma yoginī'.:20 No xivaísmo da Caxemira e especialmente no Kaula, considera-se que uma progênie de pais "estabelecida na essência divina de Bhairava" é dotada de excepcional capacidade espiritual e intelectual. Supõe-se que tal criança seja "o depositário do conhecimento", que "mesmo quando criança no útero, tem a forma de Xiva", para enumerar apenas alguns dos atributos clássicos do tipo. Com essa cosmovisão, Abinavagupta descreve seu nascimento nos versos iniciais de seu Tantrasara de forma poética, como vinculado ao nascimento da Criação por Xiva, conforme escreve:

Pais

Abinavagupta nasceu em uma família brâmane na Caxemira. Sua mãe, Vimalā (Vimalakalā) morreu quando Abinavagupta tinha apenas dois anos;:31 como consequência da perda de sua mãe, por quem ele era supostamente muito apegado, ele ficou mais distante da vida mundana e se concentrou ainda mais no empreendimento espiritual. O pai, Narasiṃhgupt, após a morte de sua esposa, favoreceu um estilo de vida ascético, enquanto criava seus três filhos. Ele tinha uma mente cultivada e um coração "extraordinariamente adornado com devoção a Mahesvara (Xiva)" (nas próprias palavras de Abinavagupta). Foi o primeiro professor de Abinavagupta, instruindo-o em gramática, lógica e literatura.:30

Família

Abinavagupta tinha um irmão e uma irmã. O irmão, Manoratha, era um devoto versado de Xiva. Sua irmã, Ambā (nome provável, segundo Navjivan Rastogi), dedicou-se à adoração após a morte de seu marido no final da vida.:22 Seu primo Karṇa demonstrou desde a juventude que compreendeu a essência do xivaísmo e estava desapegado do mundo. A esposa dele era provavelmente a irmã mais velha de Abinavagupta, Ambā,:24 que olhava com reverência para seu ilustre irmão. Ambā e Karṇa tiveram um filho, Yogeśvaridatta, que era precocemente talentoso em ioga.:23 Abinavagupta também menciona seu discípulo Rāmadeva como fielmente devotado ao estudo das escrituras e ao serviço de seu mestre.:24 Outro primo era Kṣema, possivelmente o mesmo que o ilustre discípulo de Abinavagupta, Kṣemarāja. Mandra, um amigo de infância de Karṇa, foi o anfitrião deles em uma residência suburbana; ele não apenas era rico e possuidor de uma personalidade agradável, mas também igualmente culto.:25 E por último, mas não menos importante, Vatasikā, tia de Mandra, que recebeu uma menção especial de Abinavagupta por cuidar dele com excepcional dedicação e preocupação; para expressar sua gratidão, Abinavagupta declarou que Vatasikā merecia o crédito pela conclusão bem-sucedida de seu trabalho.:26

Ancestrais

Segundo o próprio relato de Abinavagupta, seu ancestral mais remoto conhecido chamava-se Atrigupta, nascido em Madhyadeśa, ou seja, o País Médio. Nascido em Madhyadeśa, ele viajou para a Caxemira a pedido do rei Kayastha Lalitāditya,:28:3 por volta do ano 740 d.C.

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Mestres

Abinavagupta é famoso por sua sede voraz de conhecimento. Para estudar ele buscou muitos professores (até quinze), tanto filósofos místicos quanto estudiosos. Ele se aproximou dos vaixnavas, dos budistas, dos xivaístas do Śiddhānta e dos estudiosos do Trika.:33 Entre os mais proeminentes de seus professores, ele enumera quatro, dois dos quais eram Vāmanātha, que o instruiu no xivaísmo dualista,:54 e Bhūtirāja na escola dvaita-advaita. Além de ser professor do famoso Abinavagupta, Bhūtirāja também foi pai de dois eminentes estudiosos.:34 Lakṣmaṇagupta, discípulo direto de Utpaladeva, na linhagem de Trayambaka, foi altamente respeitado por Abinavagupta e ensinou-lhe todas as escolas de pensamento monista: Krama, Trika, e Pratyabhijña (exceto a Kaula). Śambhunātha ensinou-lhe a quarta escola (Ardha-trayambaka). Esta escola é na verdade Kaula e foi emanada da filha de Trayambaka.:54 Para Abinavagupta, Śambhunātha era o guru mais admirado. Descrevendo a grandeza de seu mestre, ele comparou Shambhunātha ao Sol, em seu poder de dissipar a ignorância do coração, e, em outro lugar, com "a Lua brilhando sobre o oceano de conhecimento do Trika".:7 Abinavagupta recebeu iniciação kaula através da esposa de Śambhunātha (agindo como dūtī ou canal). A energia desta iniciação é transmitida e sublimada ao coração e finalmente à consciência. Tal método é difícil, mas muito rápido e é reservado para aqueles que abandonam suas limitações mentais e são puros. Foi Shambhunātha quem solicitou que ele escrevesse Tantrāloka. Como guru, ele teve profunda influência na estrutura do Tantrāloka e na vida de seu criador, Abinavagupta.:44–54

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Estilo de vida

Abinavagupta permaneceu solteiro durante toda a sua vida, e como adepto de Kaula, pelo menos inicialmente manteve o brahmacharya e supostamente usou a força vital de sua energia (ojas) para aprofundar sua compreensão do sistema nervoso espiritual que ele delineou em suas obras—um sistema que envolve a união ritual entre Puruxa (como Xiva) e Xácti. Tal união é essencialmente não física e universal, e assim Abinavagupta se concebeu como sempre em comunhão com Xiva-Xácti. No contexto de sua vida e ensinamentos, Abinavagupta compara Xiva como asceta e desfrutador.:32 Abinavagupta estudou assiduamente pelo menos até os trinta ou trinta e cinco anos de idade. Para conseguir isso, ele viajou, principalmente dentro da Caxemira.:6 Pelo seu próprio testemunho, ele alcançou a libertação espiritual através da sua prática de Kaula, sob a orientação do seu mais admirado mestre, Śambhunātha.:44–54 Ele morava em sua casa (funcionando como um ashram) com seus familiares e discípulos, e não se tornou um monge errante, nem assumiu os deveres regulares de sua família, mas viveu sua vida como escritor e um professor.:7 A personalidade de Abinavagupta foi descrita como uma realização viva de sua visão.

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Obras

As obras de Abinavagupta dividem-se em múltiplas seções: manuais de ritual religioso, canções devocionais, obras filosóficas e filosofia da estética. Aqui estão enumeradas a maioria de suas obras.

Obras religiosas

Seu trabalho mais importante foi Tantrāloka ("Elucidação do Tantra"), uma síntese de todo o sistema Trika.:20 Sua única tradução completa para uma língua europeia – o italiano – é creditada a Raniero Gnoli, já em sua segunda edição. O capítulo esotérico 29 sobre o ritual Kaula foi traduzido para o inglês junto com o comentário de Jayaratha por John R. Dupuche.:4 Um estudo complexo sobre o contexto, autores, conteúdos e referências do Tantrāloka foi publicado pelo professor Navjivan Rastogi. Embora não existam traduções para o inglês do Tantrāloka até o momento, o último mestre reconhecido da tradição oral do xivaísmo da Caxemira, Swami Lakshman Joo, deu uma versão condensada dos principais capítulos filosóficos do Tantrāloka em seu livro Kashmir Shaivism – The Secret Supreme.

Hinos devocionais

Abinavagupta compôs uma série de poemas devocionais, a maioria dos quais foram traduzidos para o francês por Lilian Silburn:

Obras filosóficas

Uma das obras mais importantes de Abinavagupta é Īśvarapratyabhijñā-vimarśini ("Comentário aos Versos sobre o Reconhecimento do Senhor") e Īśvarapratyabhijñā-vivṛti-vimarśini ("Comentário sobre a explicação de Īśvarapratyabhijñā"). Este tratado é fundamental na transmissão da escola Pratyabhijña (o ramo do xivaísmo da Caxemira baseado no reconhecimento direto do Senhor) até os nossos dias.[carece de fontes?] Nele, Abinavagupta expõe como os objetos "possuem a mesma natureza da consciência" e desta emanam. Assim, afirma: "A forma do Sujeito, que é uma unidade de consciência, contém também um excesso, uma abundância de consciência. Esta é depositada no lado do objeto que será criado. Assim, interiormente o objeto tem o atributo de śakti, Energia que não é outra senão a forma da consciência."

Obras poéticas e dramáticas

A obra mais importante de Abinavagupta sobre filosofia da arte é Abhinavabhāratī – um longo e complexo comentário sobre Natya Shastra de Bharata Muni. Este trabalho tem sido um dos fatores mais importantes que contribuíram para a fama de Abinavagupta até os dias atuais. Sua contribuição mais importante foi para a teoria do rasa (sabor estético), tendo analisado racionalmente a epistemologia Dhvani e feito uma síntese. Segundo Daniele Cuneo, suas obras realizaram uma segunda grande mudança de paradigma na teoria estética da poética indiana, ao conceberem para a experiência estética (rasa) uma diferença ontológica entre a realidade ordinária e a realidade criada pela arte. Assim, Abinavagupta investigou essa diferença e afirmou a natureza intrínseca das emoções despertadas pelas obras de arte. Para ele, as emoções estéticas despertadas pelas obras (rasas) não ocorrem fora do contexto artístico, e as distingue das emoções cotidianas (bhāvas). Em estados emocionais agudos, Abinavagupta considera que é somada uma pulsação (spanda) à percepção que faz com que a própria natureza da consciência seja vibrada reflexivamente a si mesma. Em seu estado final, rasa é uma apercepção, que contém um frêmito prazeroso (camatkara, spanda), e é um estado de repouso autorreflexivo da consciência, que ultrapassa a atividade cognitiva.

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Fontes consultadas

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