Gamal Abdel Nasser
Gamal Abdel Nasser foi um militar e político egípcio, presidente de seu país de 1954 até sua morte em 1970.
Gamal Abdel Nasser nasceu em 15 de janeiro de 1918 em Bakos, Alexandria, sendo o primeiro filho de Fahima e Abdel Nasser Hussein. O pai de Nasser era um funcionário dos correios nascido em Beni Mur, Alto Egito, e criado em Alexandria, e a família de sua mãe era de Mallawi, Minia. Seus pais casaram-se em 1917, e mais tarde tiveram mais dois meninos, Izz al-Arab e al-Leithi. Robert Stephens e Said Aburish, biógrafos de Nasser, escreveram que a família de Nasser acreditava firmemente na "noção árabe de glória", desde o nome dado ao irmão de Nasser, Izz al-Arab, cuja tradução é "Glória dos Árabes" — um raro nome no Egito. A família de Nasser viajava frequentemente devido ao trabalho de seu pai. Em 1921, mudaram-se para Assiut e, em 1923, para Khatatba, onde o pai de Nasser dirigiu uma estação de correios. Nasser frequentou uma escola primária para os filhos de ferroviários até 1924, quando foi enviado para viver com seu tio paterno no Cairo, e estudar na escola primária Nahhasin.
Influências iniciais
Aburish afirmou que Nasser não estava angustiado por suas frequentes deslocalizações, que ampliaram seus horizontes e mostraram-lhe divisões de classe da sociedade egípcia. Seu próprio status social estava bem abaixo da rica elite egípcia, e seu descontentamento com aqueles nascidos com riqueza e poder cresceu ao longo de sua vida. Nasser passou a maior parte do seu tempo livre lendo, particularmente em 1933, quando viveu perto da Biblioteca Nacional do Egito. Ele leu o Alcorão, os ditos de Maomé, as vidas de Sahaba (os companheiros de Maomé), e as biografias dos líderes nacionalistas Napoleão Bonaparte, Mustafa Kemal Atatürk, Otto von Bismarck, e Giuseppe Garibaldi, e a autobiografia de Winston Churchill.
Em 1937, Nasser candidatou-se à Academia Real Militar para o treinamento de oficiais do exército, mas seu registro policial por protestos contra o governo inicialmente bloqueou sua entrada. Decepcionado, matriculou-se na escola de direito da Universidade Rei Fuad (atual Universidade do Cairo), mas saiu depois de um semestre para se candidatar novamente à Academia Militar. De suas leituras, Nasser, que frequentemente falava sobre "dignidade, glória e liberdade" durante sua juventude, ficou encantado com as histórias de libertadores nacionais e conquistadores heroicos. Nesta mesma época, uma carreira militar tornou-se sua principal prioridade. Convencido de que precisava de um wasta, ou um intermediário influente que promovesse sua candidatura em detrimento de outras, Nasser conseguiu um encontro com o Subsecretário de Guerra Ibrahim Khairy Pasha, a pessoa responsável pelo comitê de seleção da academia, e solicitou sua ajuda. Pasha concordou e patrocinou a segunda candidatura de Nasser, que foi aceita no final de 1937. Nasser focou em sua carreira militar a partir de então, e teve pouco contato com sua família. Na academia, conheceu Abdel Hakim Amer e Anwar Sadat, ambos os quais se tornaram assessores importantes durante sua presidência. Depois de se formar na academia em julho de 1938, foi comissionado como segundo-tenente na infantaria, e enviado para Mankabad. Foi ali que Nasser e seus camaradas mais próximos, incluindo Sadat e Amer, discutiram pela primeira vez a insatisfação deles com a corrupção generalizada no país e o desejo de derrubar a monarquia. Sadat escreveu mais tarde que por causa de sua "energia, pensamento lúcido e julgamento equilibrado", Nasser emergiu como o líder natural do grupo.
Guerra árabe-israelense de 1948
A primeira experiência de Nasser no campo de batalha foi na Palestina durante a Guerra árabe-israelense de 1948. Ele inicialmente se ofereceu para servir com a Alta Comissão Árabe, liderada por Mohammad Amin al-Husayni. Nasser encontrou-se e impressionou al-Husayni, mas o governo egípcio recusou seu ingresso nas forças da Alta Comissão por razões pouco claras. Em maio de 1948, após a retirada britânica, o rei Faruque enviou o exército para a Palestina, com Nasser servindo no 6.º Batalhão de Infantaria. Durante a guerra, ele escreveu sobre o despreparo do exército egípcio, dizendo "nossos soldados foram restritos por fortificações". Nasser era o vice-comandante das forças egípcias que protegeram Al-Faluja. Em 12 de julho, foi levemente ferido nos combates. Em agosto, sua brigada foi cercada pelo exército israelense. Apelos por ajuda para a Legião Árabe da Jordânia não foram atendidos, mas a brigada se recusou a render-se. As negociações entre Israel e Egito finalmente resultaram na cedência de Faluja a Israel. De acordo com o jornalista veterano Eric Margolis, os defensores de Faluja, "incluindo o jovem oficial do exército Gamal Abdel Nasser, tornaram-se heróis nacionais" por resistirem ao bombardeamento israelense enquanto estavam isolados de seu comando.
Oficiais Livres
O regresso de Nasser ao Egito coincidiu com o golpe de Estado na Síria promovido por Husni al-Za'im. Seu sucesso e evidente apoio popular entre o povo sírio encorajou as pretensões revolucionárias de Nasser. Logo após seu retorno, foi convocado e interrogado pelo primeiro-ministro Ibrahim Abdel Hadi sobre suspeitas de que ele estava formando um grupo secreto de oficiais dissidentes. De acordo com relatos de segunda mão, Nasser negou convincentemente as alegações. Abdel Hadi também hesitava em tomar medidas drásticas contra o exército, especialmente na frente de seu chefe de gabinete, que esteve presente durante o interrogatório, e posteriormente libertou Nasser. O interrogatório impulsionou Nasser a acelerar as atividades de seu grupo.
Revolução de 1952
Em 25 de janeiro de 1952, um confronto entre as forças britânicas e a polícia em Ismailia resultou na morte de 40 policiais egípcios, provocando distúrbios no Cairo no dia seguinte, deixando 76 mortos. Posteriormente, Nasser publicou um programa simples de seis pontos em Rose al-Yūsuf para desmantelar o feudalismo e a influência britânica no Egito. Em maio, Nasser recebeu a notícia de que o Rei Farouk conhecia os nomes dos Oficiais Livres e pretendia prendê-los; Ele imediatamente confiou ao Oficial Livre, Zakaria Mohieddin, a tarefa de planejar a tomada do governo. A intenção dos Oficiais Livres não era se instalar no governo, mas restabelecer uma democracia parlamentar. Nasser não acreditava que um oficial de baixa patente como ele (um tenente-coronel) fosse aceito pelo povo egípcio e assim escolheu o general Naguib para ser seu "chefe" e liderar o golpe. A revolução foi lançada em 22 de julho e foi declarada um sucesso no dia seguinte. Os Oficiais Livres tomaram o controle de todos os prédios do governo, estações de rádio e delegacias de polícia, bem como da sede do exército no Cairo. Enquanto muitos dos oficiais rebeldes estavam liderando suas unidades, Nasser vestiu roupas civis para evitar ser detectado pelos monarquistas e se movimentou pelo Cairo para monitorar a situação. Em um movimento para evitar a intervenção estrangeira dois dias antes da revolução, Nasser notificou os governos americano e britânico de suas intenções e ambos concordaram em não ajudar Farouk. Sob pressão dos americanos, Nasser concordou em exilar o rei deposto com uma cerimônia honorária.
Em janeiro de 1953, Nasser superou a oposição de Naguib e proibiu todos os partidos políticos, criando um sistema de partido único sob o Rally de Libertação, um movimento vagamente estruturado cuja tarefa principal era organizar comícios e palestras pró-RCC, com Nasser como seu secretário-geral. Apesar da ordem de dissolução, Nasser foi o único membro da RCC que ainda era favorável a realização de eleições parlamentares, segundo seu colega oficial Abdel Latif Boghdadi. Embora vencido, ele ainda defendia a realização de eleições em 1956. Em março de 1953, Nasser liderou a delegação egípcia que negociava uma retirada britânica do Canal de Suez. Quando Naguib começou a mostrar sinais de independência de Nasser, distanciando-se dos decretos de reforma agrária do RCC e aproximando-se das forças políticas estabelecidas no Egito, Nasser resolveu depô-lo. Em junho, Nasser assumiu o posto de ministro do Interior que era de Sulayman Hafez, aliado de Naguib, e pressionou Naguib a concluir a abolição da monarquia.
Assumindo a presidência
Em 26 de outubro de 1954, Mahmoud Abdel-Latif, membro da Irmandade Muçulmana, tentou assassinar Nasser enquanto discursava em Alexandria, transmitido ao mundo árabe por rádio, para celebrar a retirada militar britânica. O atirador estava a 7,6 m de distância dele e disparou oito tiros, mas todos erraram Nasser. O pânico irrompeu na audiência, mas Nasser manteve sua postura e levantou a voz para pedir calma. Com grande emoção, ele exclamou o seguinte: Meus compatriotas, meu sangue derrama para você e para o Egito. Eu vou viver por vocês e morrer por causa de sua liberdade e honra. Deixe-os me matar; isso não me preocupa desde que eu tenha incutido orgulho, honra e liberdade em vocês. Se Gamal Abdel Nasser morrer, cada um de vocês deve ser Gamal Abdel Nasser […] Gamal Abdel Nasser é de vocês e ele está disposto a sacrificar sua vida pela nação.
Adoção do neutralismo
Na Conferência de Bandung, na Indonésia, no final de abril de 1955, Nasser foi tratado como o principal representante dos países árabes e foi uma das figuras mais populares da cúpula. Ele fez visitas ao Paquistão (9 de abril), Índia (14 de abril), Birmânia e Afeganistão a caminho de Bandung, e cimentou anteriormente um tratado de amizade com a Índia no Cairo em 6 de abril, fortalecendo as relações entre Egito e Índia. políticas internacionais e frentes de desenvolvimento econômico. Nasser mediou as discussões entre as facções da conferência pró-ocidente, pró-soviética e neutralista sobre a composição do "Comunicado Final", abordando o colonialismo na África e na Ásia e promovendo a paz global em meio à Guerra Fria entre o Ocidente e a União Soviética. Em Bandung, Nasser buscou uma proclamação para evitar alianças de defesa internacionais, apoio à independência da Tunísia, Argélia e Marrocos do domínio francês, apoio ao direito palestino de retorno e a implementação de resoluções da ONU sobre o conflito árabe-israelense. Ele conseguiu pressionar os participantes a aprovar resoluções sobre cada uma dessas questões, especialmente assegurando o forte apoio da China e da Índia.
Constituição e presidência em 1956
Com sua posição doméstica consideravelmente fortalecida, Nasser foi capaz de assegurar a primazia sobre seus colegas da RCC e ganhou autoridade de decisão relativamente incontestada, particularmente em relação à política externa. Em janeiro de 1956, a nova Constituição do Egito foi elaborada, o que implicou o estabelecimento de um sistema de partido único sob a União Nacional (NU), um movimento que Nasser descreveu como o "quadro por meio do qual realizaremos nossa revolução". A NU foi uma reconfiguração do Rally da Libertação, que Nasser determinou ter fracassado na geração de participação pública em massa. No novo movimento, Nasser tentou incorporar mais cidadãos, aprovados por comitês partidários locais, a fim de solidificar o apoio popular de seu governo. A NU selecionaria um candidato para a eleição presidencial cujo nome seria fornecido para aprovação pública.
Depois que o período de transição de três anos terminou com a assunção oficial de poder de Nasser, suas políticas externas, domésticas e independentes colidiram cada vez mais com os interesses regionais do Reino Unido e da França. Este último condenou seu forte apoio à independência da Argélia e a campanha de Nasser contra o Pacto de Bagdá. Além disso, a adesão de Nasser ao neutralismo em relação à Guerra Fria, o reconhecimento da China comunista e o acordo de armas com o bloco oriental incomodaram os Estados Unidos. Em 19 de julho de 1956, os EUA e o Reino Unido retiraram abruptamente sua oferta para financiar a construção da represa de Assuã, alegando preocupações de que a economia do Egito ficaria sobrecarregada pelo projeto. Nasser foi informado da retirada britânico-estadunidense em um comunicado à imprensa a bordo de um avião que retornava ao Cairo a partir de Belgrado e se sentiu ofendido. Embora as ideias para nacionalizar o Canal de Suez estivessem a caminho depois que o Reino Unido concordou em retirar seus militares do Egito em 1954 (as últimas tropas britânicas foram embora em 13 de junho de 1956), o jornalista Mohamed Hassanein Heikal afirma que Nasser tomou a decisão final de nacionalizar a hidrovia entre 19 e 20 de julho. O próprio Nasser declararia posteriormente que decidira em 23 de julho, depois de estudar o assunto e deliberar com alguns de seus conselheiros da antiga RCC e o especialista técnico Mahmoud Younis em 21 de julho. Os demais ex-membros da RCC foram informados da decisão em 24 de julho, enquanto a maior parte do gabinete desconhecia o esquema de nacionalização até horas antes de Nasser o anunciar publicamente. Segundo fontes próximas, a decisão de Nasser de nacionalizar o canal foi uma decisão solitária, tomada sem consulta.
Crise de Suez
A França e o Reino Unido, os maiores acionistas da Companhia do Canal de Suez, viram sua nacionalização como mais uma medida hostil dirigida a eles pelo governo egípcio. Nasser estava ciente de que a nacionalização do canal instigaria uma crise internacional e acreditava que a perspectiva de intervenção militar dos dois países era 80% provável. Nasser acreditava que o Reino Unido não seria capaz de intervir militarmente por pelo menos dois meses após o anúncio e descartou a ação israelense como "impossível". No início de outubro, o Conselho de Segurança da ONU se reuniu para discutir o assunto e adotou uma resolução reconhecendo o direito do Egito de controlar o canal, desde que ele continuasse permitindo a passagem para navios estrangeiros. Segundo Heikal, após esse acordo, "Nasser estimou que o perigo de invasão caiu para 10%". Pouco depois, entretanto, o Reino Unido, a França e Israel fizeram um acordo secreto para tomar o Canal de Suez e derrubar Nasser.
Em 1957, o pan-arabismo havia se tornado a ideologia dominante no mundo árabe, e o cidadão árabe comum considerava Nasser seu líder indiscutível. O historiador, Adeed Dawisha, creditou o status de Nasser ao seu "carisma, reforçado por sua percepção de vitória na crise de Suez". A rádio Voz dos Árabes, do Cairo, difundiu as ideias de Nasser sobre a ação árabe em todo o mundo de fala árabe, tanto que o historiador Eugene Rogan escreveu: "Nasser conquistou o mundo árabe por rádio". Simpatizantes libaneses de Nasser e da embaixada egípcia em Beirute — o centro de imprensa do mundo árabe — compraram meios de comunicação libaneses para disseminar ainda mais os ideais de Nasser. O Egito também expandiu sua política de destacamento, despachando milhares de profissionais egípcios altamente qualificados (geralmente professores politicamente ativos) em toda a região. Nasser também contou com o apoio de organizações civis e paramilitares nacionalistas árabes em toda a região. Seus seguidores eram numerosos e bem financiados, mas careciam de estrutura e organização permanentes. Eles se chamavam "nasseritas", apesar da objeção de Nasser ao rótulo (ele preferia o termo "nacionalistas árabes").
República Árabe Unida
Apesar de sua popularidade com o povo do mundo árabe, em meados de 1957 seu único aliado regional era a Síria. Em setembro, tropas turcas se concentraram ao longo da fronteira com a Síria, dando crédito a rumores de que os países do Pacto de Bagdá estavam tentando derrubar o governo esquerdista da Síria. Nasser enviou uma força contingente à Síria como uma demonstração simbólica de solidariedade, elevando ainda mais seu prestígio no mundo árabe e particularmente entre os sírios. Com o aumento da instabilidade política na Síria, delegações do país foram enviadas a Nasser exigindo imediata unificação com o Egito. Nasser inicialmente recusou o pedido, citando os sistemas políticos e econômicos incompatíveis dos dois países, a falta de contiguidade, o histórico militar de intervenção na política síria e o profundo partidarismo entre as forças políticas da Síria. No entanto, em janeiro de 1958, uma segunda delegação síria conseguiu convencer Nasser de uma iminente aquisição comunista e consequente deslize para a guerra civil. Nasser posteriormente optou pela união, embora sob a condição de que seria uma fusão política total com ele como seu presidente, ao qual os delegados e o presidente sírio Shukri al-Quwatli concordaram. Em 1.º de fevereiro, a República Árabe Unida (UAR) foi proclamada e o mundo árabe reagiu com "espanto perplexo, que rapidamente se transformou em euforia descontrolada". Nasser ordenou uma repressão contra os comunistas sírios, dispensando muitos deles de seus postos governamentais.
Influência no mundo árabe
No Líbano, confrontos entre facções pró e contra Nasser (liderados pelo então presidente Camille Chamoun), culminaram em conflitos civis em maio. Os pró-Nasser procuraram unir-se à UAR, enquanto os contra Nasser procuraram a independência do Líbano. Nasser delegou a supervisão da questão a Abdel Hamid Sarraj, que forneceu ajuda limitada aos apoiadores libaneses por meio de dinheiro, armas leves e treinamento de oficiais. Nasser não cobiçou o Líbano, vendo-o como um "caso especial", mas tentou impedir Chamoun de obter um segundo mandato presidencial. Em 14 de julho de 1958, os oficiais do exército iraquiano Abdul Karim Kassem e Abdul Salam Arif derrubaram a monarquia iraquiana e, no dia seguinte, o primeiro-ministro iraquiano e principal antagonista árabe de Nasser, Nuri al-Said, foi morto. Toda a família real iraquiana foi morta e o corpo do príncipe herdeiro Al-Said e do Iraque, Abd al-Ilah, foi mutilado e arrastado por Bagdá. Nasser reconheceu o novo governo e afirmou que "qualquer ataque ao Iraque equivalia a um ataque à UAR". Em 15 de julho, americanos desembarcaram no Líbano e forças especiais britânicas na Jordânia, a pedido dos governos desses países, para impedir que caíssem em favor das forças pró-Nasser. Nasser sentiu que a revolução no Iraque abriu o caminho para a unidade pan-árabe. Em 19 de julho, pela primeira vez, ele declarou que estava optando por uma união árabe completa, embora não tivesse planos de fundir o Iraque com a UAR. Enquanto a maioria dos membros do Conselho de Comando Revolucionário Iraquiano (RCC) favoreceu a unidade iraquiana-UAR, Qasim procurou manter o Iraque independente e ressentiu-se da grande base popular de Nasser no país.
Colapso da união e rescaldo
Em resposta à piora da economia na Síria, que Nasser atribuiu ao seu controle pela burguesia, em julho de 1961, ele decretou medidas socialistas que nacionalizaram amplos setores da economia síria. Ele também dispensou Abdel Hamid al-Sarraj em setembro para conter a crescente crise política. Said Aburish afirma que Nasser não era totalmente capaz de resolver os problemas sírios porque eles eram "estranhos para ele". No Egito, a situação econômica foi mais positiva, com um crescimento do PIB de 4,5% e um rápido crescimento da indústria. Em 1960, Nasser nacionalizou a imprensa egípcia, que já vinha cooperando com seu governo, para orientar a cobertura das questões socioeconômicas do país e galvanizar o apoio público às suas medidas socialistas.
Renascimento no palco regional
A posição regional de Nasser mudou inesperadamente quando oficiais iemenitas liderados pelo partidário de Nasser, Abdullah as-Sallal, derrubaram Muhammad al-Badr do Iêmen do Norte em 27 de setembro de 1962. Muhammad Al-Badr e seus partidários tribais começaram a receber apoio crescente da Arábia Saudita para ajudar a restabelecer o reino, enquanto Nasser subsequentemente aceitou um pedido de Abdullah as-Sallal para ajudar militarmente o novo governo em 30 de setembro. Consequentemente, o Egito se envolveu cada vez mais na prolongada guerra civil até retirar suas forças em 1967. A maioria dos antigos colegas de Nasser questionou a sabedoria de continuar a guerra, mas Abdel Hakim Amer assegurou a Nasser sua futura vitória. Nasser mais tarde observou em 1968 que a intervenção no Iêmen era um "erro de cálculo".
Al-Azhar
Em 1961, Nasser procurou estabelecer firmemente o Egito como o líder do mundo árabe e promover uma segunda revolução no Egito com o objetivo de fundir o pensamento islâmico e socialista. Para conseguir isso, ele iniciou várias reformas para modernizar o al-Azhar e para assegurar sua proeminência sobre a Irmandade Muçulmana e o wahabismo mais conservador promovido pela Arábia Saudita. Nasser usou o ulema (eruditos) mais disposto a al-Azhar como contrapeso à influência islâmica da Irmandade, a partir de 1953. Nasser instruiu al-Azhar a criar mudanças que gotejou para os níveis mais baixos da educação egípcia, consequentemente permitindo o estabelecimento de escolas coeducacionais e a introdução da evolução no currículo escolar. As reformas também incluíram a fusão de tribunais religiosos e civis. Além disso, Nasser forçou al-Azhar a emitir um fatwa admitindo muçulmanos xiitas, alauitas e drusos no islamismo dominante; por séculos antes, al-Azhar os considerou "hereges".
Rivalidade com Amer
Após a secessão da Síria, Nasser ficou preocupado com a incapacidade de Abdel Hakim Amer de treinar e modernizar o exército. No final de 1961, Nasser estabeleceu o Conselho Presidencial e decretou a autoridade para aprovar todas as nomeações militares seniores, em vez de deixar essa responsabilidade exclusivamente para Amer. Além disso, ele instruiu que o principal critério de promoção deveria ser o mérito e não a lealdade pessoal. Nasser retratou a iniciativa depois que os aliados de Amer no corpo de oficiais ameaçaram se mobilizar contra ele. No início de 1962, Nasser tentou novamente tomar o controle do comando militar de Amer e ele respondeu confrontando Nasser pela primeira vez e secretamente reunindo seus oficiais leais. Nasser finalmente recuou, desconfiado de um possível confronto violento entre os militares e seu governo civil. De acordo com Boghdadi, o estresse causado pelo colapso da UAR e a crescente autonomia de Amer forçaram Nasser, que já tinha diabetes, a viver praticamente de analgésicos a partir de então.
Carta Nacional e segundo mandato
Em outubro de 1961, Nasser embarcou em um importante programa de nacionalização do Egito, acreditando que a adoção total do socialismo era a resposta para os problemas de seu país e teria evitado a secessão da Síria. A fim de organizar e solidificar sua base popular com os cidadãos do Egito e combater a influência do exército, Nasser introduziu a Carta Nacional em 1962 e uma nova constituição. A carta pedia cuidados de saúde universais, habitação a preços acessíveis, escolas vocacionais, maiores direitos das mulheres e um programa de planeamento familiar, bem como a ampliação do Canal de Suez. Nasser também tentou manter a supervisão do serviço civil do país para evitar que ele inflasse e, consequentemente, se tornasse um fardo para o estado. Novas leis proporcionaram aos trabalhadores um salário-mínimo, participação nos lucros, educação gratuita, assistência médica gratuita, redução do horário de trabalho e incentivo para participar da administração. As reformas agrárias garantiram a segurança dos agricultores arrendatários, promoveram o crescimento agrícola e reduziram a pobreza rural. Como resultado das medidas de 1962, a propriedade governamental de empresas egípcias chegou a 51%, e a União Nacional foi renomeada como União Socialista Árabe (ASU). Com essas medidas, houve mais repressão interna, com a prisão de milhares de islâmicos, incluindo dezenas de oficiais militares. A inclinação de Nasser em direção a um sistema de estilo soviético levou seus assessores Boghdadi e Hussein el-Shafei a apresentarem suas renúncias em protesto.
Em meados de maio de 1967, a União Soviética emitiu alertas a Nasser sobre um ataque israelense iminente à Síria, embora o chefe do Estado-Maior, Mohamed Fawzi, considerasse os alertas "sem fundamento". Segundo Hamdi Qandil, sem a autorização de Nasser, Abdel Hakim Amer usou as advertências soviéticas como pretexto para despachar tropas para Sinai em 14 de maio e posteriormente Nasser exigiu a retirada da UNEF. Mais cedo naquele dia, Nasser recebeu um aviso do Rei Hussein da Jordânia sobre o conluio entre israelenses e americanos para arrastar o Egito para a guerra. A mensagem foi originalmente recebida por Abdel Hakim Amer em 2 de maio, mas foi retida por Nasser até o desdobramento do impasse de Sinai em 14 de maio. Embora nos meses anteriores, Hussein e Nasser tivessem se acusado mutuamente de evitar uma briga com Israel, Hussein, apesar de tudo, desconfiava que uma guerra egípcia-israelense arriscaria a ocupação da Cisjordânia por Israel. Nasser ainda achava que os EUA impediriam que Israel atacasse devido às garantias que recebeu dos EUA e da União Soviética. Por sua vez, ele também garantiu a ambos os poderes que o Egito só agiria defensivamente.
Renúncia e rescaldo
Durante os primeiros quatro dias da guerra, a população geral do mundo árabe acreditava nas fabricações de emissoras de rádio árabes sobre uma iminente vitória árabe. Em 9 de junho, Nasser apareceu na televisão para informar os cidadãos do Egito sobre a derrota de seu país. Ele anunciou sua renúncia na televisão mais tarde naquele dia e cedeu todos os poderes presidenciais ao seu então vice-presidente Zakaria Mohieddin, que não tinha informações prévias sobre essa decisão e se recusou a aceitar o cargo. Centenas de milhares de simpatizantes foram para as ruas em manifestações em massa por todo o Egito e em todo o mundo árabe, rejeitando sua renúncia, gritando: "Nós somos seus soldados, Gamal!" Nasser retratou sua decisão no dia seguinte.
Reformas domésticas e mudanças governamentais
Nasser nomeou a si mesmo para os cargos adicionais de primeiro-ministro e comandante supremo das forças armadas em 19 de junho de 1967. Irritados com a aparente clemência do tribunal militar com oficiais da força aérea acusados de negligência durante a guerra de 1967, trabalhadores e estudantes lançaram protestos pedindo reformas políticas importantes no final de fevereiro de 1968. Nasser respondeu às manifestações, o desafio público mais significativo ao seu governo desde os protestos dos trabalhadores em março de 1954, removendo a maioria dos militares do seu gabinete e apontando oito civis no lugar de vários membros do alto escalão da União Socialista Árabe (ASU). Em 3 de março, Nasser ordenou que o aparato de inteligência do Egito se concentrasse na espionagem externa, e não na doméstica, e declarou a "queda do estado de mukhabarat".
Guerra do Atrito e iniciativas diplomáticas regionais
Enquanto isso, em janeiro de 1968, Nasser iniciou a Guerra de Atrito para recuperar o território capturado por Israel, ordenando ataques contra posições israelenses a leste do então bloqueado Canal de Suez. Em março, Nasser ofereceu os braços e fundos do movimento Fatah, de Yasser Arafat, após o seu desempenho contra as forças israelenses na Batalha de Karameh naquele mês. Ele também aconselhou Arafat a pensar na paz com Israel e no estabelecimento de um Estado palestino que incluísse a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. Nasser efetivamente cedeu sua liderança da "questão da Palestina" para Arafat. Israel revidou contra os bombardeios egípcios com ataques de comando, bombardeios de artilharia e ataques aéreos. Isso resultou em um êxodo de civis de cidades egípcias ao longo da margem ocidental do Canal de Suez. Nasser cessou todas as atividades militares e iniciou um programa para construir uma rede de defesas internas, enquanto recebia o apoio financeiro de vários estados árabes. A guerra recomeçou em março de 1969. Em novembro, Nasser intermediou um acordo entre a OLP e os militares libaneses que concediam aos guerrilheiros palestinos o direito de usar o território libanês para atacar Israel.
Quando a cúpula foi encerrada em 28 de setembro de 1970, horas depois de escoltar o último líder árabe para partir, Nasser sofreu um ataque cardíaco. Ele foi imediatamente transportado para sua casa, onde seus médicos cuidaram dele. Nasser morreu várias horas depois, por volta das 18h. Mohamed Hassanein Heikal, Anwar Al Sadat e a esposa de Nasser, Tahia Kazem, estavam em seu leito de morte. Segundo seu médico, al-Sawi Habibi, a provável causa de morte de Nasser foi arteriosclerose, varizes e complicações da diabetes de longa data. Nasser era um fumante com uma história familiar de doença cardíaca — dois de seus irmãos morreram em seus cinquenta anos da mesma condição. O estado da saúde de Nasser não era conhecido do público antes de sua morte. Ele já havia sofrido ataques cardíacos em 1966 e setembro de 1969. Após o anúncio da morte de Nasser, o Egito e o mundo árabe ficaram em estado de choque. O cortejo fúnebre de Nasser no Cairo em 1.º de outubro contou com a participação de pelo menos cinco milhões de pessoas. A procissão de 10 quilômetros para seu local de enterro começou na antiga sede da RCC com um viaduto pelos jatos MiG-21. Seu caixão coberto por uma bandeira estava preso a uma carruagem puxada por seis cavalos e liderada por uma coluna de cavaleiros. Todos os chefes de estado árabes compareceram, com exceção do Rei Faisal da Arábia Saudita. O Rei Hussein da Jordânia e Yasser Arafat choraram abertamente, e Muammar Gaddafi, da Líbia, desmaiou de problemas emocionais duas vezes. Alguns dos principais dignitários não árabes estavam presentes, incluindo o primeiro-ministro soviético Alexei Kossygin e o primeiro-ministro francês Jacques Chaban-Delmas.


