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Abade

A palavra abade, que provém do substantivo latino abbas, abbatis, através da sua forma acusativa abbatem — a qual, por sua vez, deriva do siríaco abbâ —, significa pai e é utilizada como título clerical, no Cristianismo, com diversas acepções, ainda que se refira, na sua acepção original, à vida monástica e a quem governa uma abadia. Na Igreja Ortodoxa e em outras Igrejas orientais, o título que lhe é comparável é o de hegúmenos ou arquimandrita. Em língua portuguesa o feminino é abadessa.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 06/07/2026
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Designações

O título teve a sua origem nos mosteiros da Síria, no século IV, tendo-se espalhado pelo Mediterrâneo oriental, sendo adoptado, na generalidade das línguas europeias, para designar o governante de um dado mosteiro. O título de abade só começou a usar-se em 472, e o termo começou por se aplicar a vários tipos de clérigos. Por exemplo, na corte das monarquias Francas dos Merovíngios e carolíngios, o Abbas palatinus ou Abbas Curiae, referia-se ao capelão da corte (do palácio) e Abbas castrensis, ao capelão de campo, ou seja, do exército. No início, por influência de determinadas passagens da Bíblia da Vulgata, latina, era empregue como título de respeito para qualquer monge, mas rapidamente começou a ser utilizado exclusivamente para alguns superiores monásticos ou guias espirituais, quer governassem mosteiros ou não. Na Península Ibérica, durante a época visigótica, o termo manteve o significado de paternidade espiritual, uso que se manteve mesmo depois da Reconquista, especialmente no que actualmente corresponde ao norte de Portugal. Mais tarde, passou a designar especificamente os superiores de mosteiros e os párocos de algumas freguesias principais, que recebiam directamente os dízimos e outros tributos a que a população estava obrigada em relação à Igreja. Com o liberalismo, no século XIX, acabaram estas obrigações, mas o termo continuou a ser utilizado, inclusive para designar párocos que antes não recebiam esta designação. No sul de Portugal, contudo, o termo nunca foi utilizado com este sentido.

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História monástica

No Egipto, onde nasceu o monasticismo cristão, a jurisdição do abade ou arquimandrita estava muito vagamente definida. Superintendia uma única comunidade, ou, por vezes, várias, que tinham também o seu próprio abade. São Bento de Núrsia considerava que o abade era o representante de Cristo, o apoio das necessidades dos monges, além de ter autoridade jurídica e administrativa no mosteiro. João Cassiano escreveu sobre um abade de Tebaida que dirigia cerca de 500 monges. Segundo a Regra de São Bento, que, até à reforma de Cluny, era a norma no Ocidente, um abade deveria ter jurisdição apenas sobre uma comunidade. A regra, como era inevitável, foi alvo de frequentes violações. Com a fundação da Ordem de Cluny, passou a defender-se a ideia de um abade supremo responsável por todas as casas de uma Ordem. Os monges, por regra, eram leigos, e os abades não eram excepção. Para a recepção dos sacramentos, bem como para qualquer ofício religioso, o abade e os monges teriam de se dirigir à igreja mais próxima. Esta regra tornou-se, contudo, inconveniente quando um mosteiro se situava num deserto ou longe de qualquer cidade, o que obrigou à ordenação de alguns monges. Esta inovação não se deu sem polémica, já que a dignidade eclesiástica era considerada incompatível com uma vida totalmente devotada à espiritualidade e à santidade, mas, antes do fim do século V, quase todos os abades tornaram-se diáconos ou padres, pelo menos no Oriente. A mudança foi mais lenta a Ocidente, onde os leigos mantinham a maior parte das vezes o cargo até ao final do século VII. A liderança eclesiástica exercida pelos abades, apesar do seu estatuto de leigos, prova-se pela sua presença e participação em concílios eclesiásticos. Assim, no Concílio de Constantinopla, em 448, 23 arquimandritas e abades participaram, ao lado de 30 bispos.

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Modo de vida

Antes da era moderna, o abade era tratado com a maior das reverências pelos seus confrades. Quando entrava na igreja ou em reunião do capítulo, todos os presentes se levantavam e o reverenciavam. As suas ordens por escrito era recebidas de joelhos, como se se tratasse de um rei ou do Papa. Nenhum monge se poderia sentar na sua presença ou abandonar a sala sem a sua permissão, reflectindo aí as normas de etiqueta familiares e sociais devidas aos "pais". O lugar mais elevado era para ele reservado, tanto na Igreja como à mesa. No Oriente, comia com os outros monges. No Ocidente, segundo a Regra de São Bento, deveria comer numa mesa à parte, onde poderia conviver com estranhos à casa e convidados. Como esta regra poderia ser interpretada como uma permissão para uma vida de luxo, o Concílio de Aachen, em 817, decretava que o abade deveria comer com os seus confrades no refeitório, contentando-se com o alimento dado aos outros, a não ser quando houvesse visitas. Estas deliberações, contudo, raramente foram cumpridas à risca e os abades não ficaram para a história como exemplos de dieta austera. A literatura da época é pródiga em relatos satíricos e desbargados quanto à extravagância das mesas abaciais. Quando o abade condescendia em comer no refeitório, o seu capelão esperava-o, com os pratos, sendo por vezes necessário alguém que o servisse. Quando os abades comiam no seu compartimento, a Regra de São Bento obrigava-os a convidar os seus confrades para a mesa, desde que houvesse espaço, sendo de evitar conversas frívolas e querelas.

Abades comendatários

Os abades comendatários, leigos, (designados em latim, defensores, abbacomites, abbates laici, abates milites, abbates saeculares ou irreligiosi, abbatiarii, ou, por vezes, apenas abbates) apareceram como resultado do desenvolvimento do sistema feudal, a partir do século VIII, com a prática da atribuição de comendas pelo rei ou pelo Papa, que obrigavam as comunidades a pagar determinadas rendas a senhores, leigos, geralmente cavaleiros de ordens militares, em troca da sua protecção ou como forma de pagamento por serviços militares. Em geral, a gestão destes abades, desligada dos interesses dos mosteiros, foi quase sempre danosa para os mesmos.

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Hierarquia abacial

Em muitas Ordens existia uma relação piramidal entre uma abadia maior, a matriz, que, geralmente, teria sido palco de uma reforma monástica ou mesmo origem de uma nova Ordem, e outras a ela submetidas como prioratos, algumas com abades próprios. Como uma abadia secundária podia tornar-se matriz, a "árvore genealógica" destas abadias torna-se particularmente complexa, reconhecendo-se o papel fundador da primeira abadia, que passa a ser reconhecida como a abadia superior. Em Portugal isso acontecia com o Mosteiro de Tibães, onde presidia o abade geral da congregação Beneditina e no Mosteiro de Alcobaça, para a congregação Cisterciense. Por vezes, mantinha-se uma posse real sobre as abadias incorporadas na congregação. O Abade de Cluny, por exemplo, recebia das abadias subordinadas um ganho considerável, pelo que se tornou um dos senhores mais poderosos da Igreja, e dos preferidos para ocupar a cadeira de São Pedro. Noutros casos, a precedência era apenas honorífica.

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Pronomes de tratamento

De acordo com Paul (2008, p. 41), os pronomes de tratamento oficiais para abade são:

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Heráldica

Os abades têm direito a usar brasão de armas segundo as regras próprias da heráldica eclesiástica. O Abade apõe ao seu brasão o capelo negro de 12 borlas e o báculo abacial (difere dos báculos episcopais devido a ter um lenço preso no topo). Já o Abade Territorial apõe ao seu brasão o capelo verde de 12 borlas (próprio da dignidade episcopal, pois tal como os bispos também os abades territoriais administram uma circunscrição territorial) e o báculo abacial.

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Utilização do termo em épocas mais recentes

O título correspondente em francês, abbé (em italiano: abbate), tal como é utilizado pela Igreja Católica no continente europeu, é aplicado a todos os que receberam a tonsura. Este uso do título terá tido origem no direito concedido pelo rei de França, por concordata entre o Papa Leão X e Francisco I de França, ao designar abades comendatários para quase todas as abadias de França. A esperança de obterem estas sinecuras levou muitos jovens a ingressar na carreira eclesiástica. Passaram a ser conhecidos por abbés de cour – "abades de corte" ou, por vezes, chamados ironicamente de abbes de sainte esperance – abades de Santa Esperança. A ligação de muitos com a Igreja era na maior parte dos casos o mais relaxada possível, consistindo, basicamente, em adoptar o título, depois de um curso pouco exigente de teologia, na prática do celibato e no uso de vestes distintivas, geralmente uma capa curta, de cor violeta escura, com um colarinho curto. Sendo considerados, presumivelmente, homens cultos, eram frequentemente admitidos nas casas nobres como tutores ou conselheiros. Quase todas as grandes famílias tinham o seu próprio abbé. Esta classe não sobreviveu à Revolução Francesa; mas o título de cortesia de abade, tendo perdido a sua ligação com qualquer função eclesiástica, permaneceu como um termo aplicável à generalidade dos clérigos.

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Protestantismo

Na Igreja Evangélica Alemã, o título de abade (Abt) é, por vezes, também utilizado como distinção honorífica, tendo sobrevivido também como título que passou para os directores das instituições resultantes da conversão de mosteiros, pela Reforma Protestante. Um dos casos mais notáveis é o da abadia de Lokkum, em Hanôver, fundada como mosteiro Cisterciense em 1163 pelo Conde Wilbrand de Hallermund, e reformada em 1593. O abade de Lokkum, que mantém actualmente o seu báculo pastoral, tem precedência sobre todo o clero de Hanôver, e era, ex officio, membro do consistório do reino. O corpo governante da abadia consistia em abade, prior e "convento" de cónegos (Stiftsherren). Na Igreja Anglicana, o Bispo de Norwich, por decreto real emanado por Henrique VIII, detém, também o título honorário de "Abade de St. Benēt." Com a separação da Igreja de Inglaterra da alçada da Santa Sé, Henrique, como dirigente supremo da nova Igreja Independente, tomou para si todos os mosteiros e suas possessões, exceptuando o de St. Benēt, que foi poupado, tendo em conta que o seu abade e monges viviam apenas de esmolas, como simples pedintes. Em consequência, o bispo de Norwich foi deposto, passando o abade desta Ordem a ocupar os dois cargos.

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