José Saramago
José de Sousa Saramago ComSE • GColSE • GColCa foi um escritor português premiado com o Nobel de Literatura de 1998. Também ganhou, em 1995, o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa. Saramago foi considerado o responsável pelo efetivo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa.
José Saramago nasceu na vila de Azinhaga, no concelho da Golegã, oriundo de uma família de agricultores, filho de José de Sousa Saramago (1896–1964), e Maria da Piedade (1898–1982). A origem do apelido Saramago remete à alcunha da família, Saramago, que é uma planta herbácea com flor que cresce na região da Golegã. À data do registo de nascimento de José, o conservador erroneamente regista a criança com a alcunha pela qual se conhecia a família e, posteriormente, o pai, José de Sousa, assume também o nome José de Sousa Saramago. As dificuldades financeiras dos pais impediram que Saramago completasse os estudos liceais no Liceu Gil Vicente, onde esteve matriculado durante dois anos e cuja conclusão poderia tê-lo levado a frequentar a universidade. Por conseguinte, formou-se na Escola Industrial de Afonso Domingues, onde estudou até 1940, e teve o seu primeiro emprego como serralheiro mecânico.
Percurso profissional e literário
Aos 25 anos, publicou o seu primeiro romance, Terra do Pecado (1947), título imposto pelo seu editor por motivos comerciais, sendo que o seu título original era A Viúva. Em 1955, para aumentar os rendimentos, começou a fazer traduções de Hegel, Tolstói, Baudelaire, entre outros. Depois de Terra do Pecado, Saramago em 1953 apresentou a uma editora o livro Clarabóia que, depois de rejeitado, permaneceu inédito até 2011. Persiste, contudo, nos esforços literários e, 19 anos depois, funcionário então da Editorial Estudos Cor, troca a prosa pela poesia, lançando Os Poemas Possíveis. Em 1975, retorna ao DN como diretor-adjunto, onde permaneceu por dez meses até 25 de novembro do mesmo ano. Nesta data, militares portugueses intervêm na publicação, reagindo ao que consideravam os excessos do 25 de Abril, causando a demissão de vários funcionários e suspendendo o DN. Enquanto diretor-adjunto, foi responsável pelo saneamento de 24 jornalistas, em Agosto de 1975, que haviam protestado contra a linha editorial comunista desse jornal. Com a demissão, Saramago resolveu dedicar-se apenas à literatura, substituindo de vez a sua função de jornalista pela de ficcionista: "[…] Estava à espera de que as pedras do puzzle do destino — supondo-se que haja destino, não creio que haja — se organizassem. É preciso que cada um de nós ponha a sua própria pedra, e a que eu pus foi esta: "Não vou procurar trabalho", disse Saramago em entrevista à revista Playboy, em 1995.
Vida pessoal
Em 26 de Novembro de 1944, Saramago casou-se no registo civil com uma antiga colega de escola, Ilda Reis. Em 1947 o casal teve uma filha, Violante. Em 1970, Ilda quis a separação de Saramago, tendo o divórcio ocorrido por sentença transitada em 20 de maio de 1974, com efeitos retroactivos a 20 de julho de 1970. À data do casamento, Saramago era empregado de escritório. Entre 1970 e 1986, Saramago viveu em união de facto com a escritora Isabel da Nóbrega, com quem começara a relacionar-se em 1968, que lhe foi profundamente dedicada e que teve uma influência determinante na sua formação literária e até na sua valorização pessoal e social. Não obstante, após a sua separação, Saramago não teve qualquer pejo em retirar das reedições dos seus livros as dedicatórias que havia feito a Isabel.
Morte
Saramago morreu em 18 de junho de 2010, aos 87 anos de idade, na sua casa em Lanzarote onde residia com Pilar del Río, devido a leucemia crónica. O escritor estava doente havia algum tempo e o seu estado de saúde agravou-se na sua última semana de vida. O seu funeral teve honras de Estado, tendo o seu corpo sido cremado no Cemitério do Alto de São João, em Lisboa. As cinzas do escritor foram depositadas aos pés de uma oliveira, em Lisboa, um ano depois, em 18 de junho de 2011.
“Dificílimo acto é o de escrever, responsabilidade das maiores. […] Basta pensar no extenuante trabalho que será dispor por ordem temporal os acontecimentos, primeiro este, depois aquele, ou, se tal mais convém às necessidades do efeito, o sucesso de hoje posto antes do episódio de ontem, e outras não menos arriscadas acrobacias […]” José Saramago foi conhecido por utilizar um estilo oral, coevo dos contos de tradição oral populares em que a vivacidade da comunicação é mais importante do que a correcção ortográfica de uma linguagem escrita. Todas as características de uma linguagem oral, predominantemente usada na oratória, na dialéctica, na retórica e que servem sobremaneira o seu estilo interventivo e persuasivo estão presentes. Assim, utiliza frases e períodos compridos, usando a pontuação de uma maneira não-convencional; os diálogos das personagens são inseridos nos próprios parágrafos que os antecedem, de forma que não existem travessões nos seus livros. Este tipo de marcação das falas propicia uma forte sensação de fluxo de consciência, a ponto do leitor chegar a confundir se um certo diálogo foi real ou apenas um pensamento. Muitas das suas frases (i.e. orações) ocupam mais de uma página, usando vírgulas onde a maioria dos escritores usaria pontos finais. Da mesma forma, muitos dos seus parágrafos ocupariam capítulos inteiros de outros autores.
Prémios
Entre as premiações destacam-se o Prémio Camões (1995), distinção máxima oferecida aos escritores de língua portuguesa, e o Nobel de Literatura (1998), o primeiro concedido a um escritor de língua portuguesa.
Militante do Partido Comunista Português
José Saramago aderiu ao Partido Comunista Português em 1969, pertencendo à Organização dos Intelectuais de Lisboa do PCP, e tornando-se após a Revolução dos Cravos membro da então criada Célula dos Escritores do Sector Intelectual de Lisboa. Nas Eleições autárquicas portuguesas de 1989 é candidato pelo Partido Comunista na lista da coligação Por Lisboa, sendo eleito Presidente da Assembleia Municipal de Lisboa. Em todas as Eleições europeias desde 1987, quando Portugal integrou a União Europeia, até 2009, última eleição antes do seu falecimento, José Saramago foi candidato a deputado no Parlamento Europeu pela Coligação Democrática Unitária, ocupando, porém, posições que tornavam virtualmente impossível a sua eleição.
Polémicas
Após a Revolução dos Cravos, no dia 25 de abril de 1974, José Saramago ingressa na direcção do Diário de Notícias como adjunto do director Luís de Barros. Com a nacionalização do jornal, após o 11 de Março de 1975, o jornal remodelou a sua direcção. Saramago manteve o seu cargo, mas para efeitos práticos, as suas funções assemelhavam-se mais ao cargo de director do que director-adjunto. Entre Abril e Novembro do mesmo ano, redigiu cerca de 95 textos na primeira página sob o título de "Apontamentos", que acabavam por funcionar como editoriais do jornal. Estes textos não eram assinados, e por uma só vez surge a assinatura de José Saramago junto com a de Luís de Barros, nas páginas do DN num texto intitulado "Uma Direcção Nova" e publicado a 11 de Abril: "O DN é importante de mais para que os seus trabalhadores aceitem vê-lo transformar-se em feudo de alguém. Esta Casa precisa de todos e será obra de todos". Contrariando estas palavras, 22 jornalistas serão despedidos a 27 de Agosto por delito de opinião, juntando-se-lhes 2 em solidariedade, no chamado "Saneamento dos 24", no contexto do Verão Quente. Explicará o DN "informação revolucionária não se faz com jornalistas contra-revolucionários. Por isso, os que o eram foram afastados", a 4 de Setembro, em prosa não assinada.[carece de fontes?]
Acerca do prémio Nobel
Em outubro de 1997, a Feira Internacional do Livro de Frankfurt tem neste ano Portugal como país em destaque, estando José Saramago neste local, em 8 de outubro de 1998, quando recebe a informação de ter ganho o prémio, que, em 7 de dezembro de 1998, Saramago recebe em Estocolmo. Segundo o Diário de Notícias, o director da empresa sueca Jerry Bergström AB afirmou: "Portugal nunca tinha tido um Prémio Nobel da literatura e uma parte da nossa missão consistia em mudar essa situação".[carece de fontes?] Comentando esta atribuição, Sture Allén, então secretário da Academia Sueca, negou que a decisão tenha sido afectada por "campanhas publicitárias, comentários de académicos ou escritores, ou qualquer outro tipo de pressão".[carece de fontes?]
Religião
Saramago encontrou sempre fortes críticas e oposição na Igreja Católica, facto pelo qual ele se refere a esta como "fascista" com frequência. Alguns protestantes (ou evangélicos) já declararam publicamente apoiar a liberdade de expressão do autor. E essa relação de tensão com a Igreja Católica é agravada devido à origem portuguesa de Saramago, local onde o catolicismo é muito forte e discuti-lo ainda é um tabu. Devido à sua origem portuguesa e a toda a influência cultural exercida pelo catolicismo em tal contexto, Saramago sente a necessidade de abordar a Bíblia no seu trabalho de escritor — esse texto faz parte do seu património cultural, ao contrário do corão, que Saramago entende não ser a sua tarefa abordá-lo.


