A Comédia de Deus
A Comédia de Deus é um filme português de 1995, realizado por João César Monteiro, a segunda longa-metragem da trilogia que o retrata como alter-ego na figura de João de Deus, sendo a primeira delas Recordações da Casa Amarela e a terceira As Bodas de Deus.
Imagem: Universo Produção · BY-NC-ND · Openverse
Perseguido pelas recordações, «Saído do manicómio, João de Deus prosperou, tornando-se responsável pelo Paraíso do Gelado e inventando mesmo a especialidade da loja. Passa o tempo livre em casa, solitário, com uma colecção de pelos do púbis feminino, que ciosamente guarda num Livro de Pensamentos. A dona do Paraíso, Judite, ambiciona alargar o negócio a uma congénere francesa, contando com uma delícia do protegido, para convencer o virtual sócio parisiense. Mas as coisas correm mal, enquanto o próprio comportamento de Deus começa a deteriorar-se com uma mal sã insanidade. A causa mais próxima é Joaninha, a filha do severo talhante do bairro» (Cit.: José de Matos-Cruz, o Cais do Olhar. Ed. da Cinemateca Portuguesa, 1999. Em suma, o esforçado João consegue um dia levar lá à casa a linda Joaninha de olhos verdes. Convence-a a tomar um delicioso banho de leite de vaca, porque de burra não há. E dá-lhe tantas guloseimas que a pobre menina tem de ir a correr para a retrete. Tocada pelo desvelo, solicita, ela pergunta então: «Quer que lhe guarde a caquinha?». O João, apreciador de bons perfumes, mas sempre na medida certa, desabafa: «Não, tudo o que é demais cheira mal». Vai-se a rapariga embora. Aproveita ele para coar o leite do banho e meter os púberes pentelhos deixados pela deleitosa donzela no seu Livro Sagrado.
Imagem: Universo Produção · BY-NC-ND · Openverse
As recordações são o leitmotiv da obra de Monteiro (ver: Recordações da Casa Amarela). Têm origem no início dos anos sessenta (ver: Quem espera por sapatos de defunto morre descalço). É por essa altura que o abelhudo João se põe a ler coisas que não devia. A prova provada está contida no veemente discurso proferido por João de Deus perante um ilustre representante da Igreja, que se desloca ao Paraíso para abençoar os gelados que lá se fazem. Numa célebre passagem desse discurso, ele confessa: «O meu sonho, talvez irrealizável, é fabricar um perfume que concentre em si todos os perfumes. Harmoniosamente, chegar-me a Deus, à quintessência dos perfumes». Diz ele que tem um «forte sentido religioso» e que se sente ser «o último dos crentes». Está a ser sincero, apesar da balofa grandiloquência, apesar de ser por natureza trapaceiro, apesar do humor negro que percorre todos os filmes da sua vida. É isso que acham os seus mais fiéis amigos, que não duvidam da sua palavra, pessoas de palavra de quem ninguém duvida.


