Carl Leopold Voges
Carl Leopold Voges, foi um pastor luterano alemão naturalizado brasileiro de destacada atuação em Três Forquilhas, tornando-se um líder religioso e político e um dos principais comerciantes da região.
Primeiros anos
Filho de Ferdinand Voges e Anastacia (ou Auguste) Hammerstein, viajou para o Brasil em 1824, chegando ao Rio de Janeiro em 11 de outubro no navio Georg Friedrich. Embarcou para o Rio Grande do Sul em janeiro de 1825 no bergantim Flor de Porto Alegre, que naufragou na Lagoa dos Patos na altura de Mostardas. Os náufragos foram acolhidos pela população de Mostardas, e depois Voges seguiu até São Leopoldo, lá chegando em 11 de fevereiro. Voges chegou ao Brasil como sacristão, assinando nesta qualidade registros de casamento até agosto de 1826. Nunca conseguiu comprovar sua ordenação como pastor, alegando ter perdido seus documentos durante o naufrágio. Diz Rodrigo Trespach que nunca foram encontradas referências na Alemanha sobre a formação de Voges, e a própria cidade onde disse ter nascido não existia, mas ele dominava bem o alemão e o francês, sugerindo ter recebido uma boa educação. Há informações controversas de que teria estudado em um seminário católico. Não obstante, mesmo sem documentação, depois de 1826 passou a atuar como pastor protestante, permanecendo nesta função até falecer. No Brasil rapidamente aprendeu o português. Foi o terceiro pastor protestante a chegar ao Brasil e o segundo no Rio Grande do Sul.
Três Forquilhas
Em 1832 foi designado definitivamente para Três Forquilhas, onde viria a ganhar um relevo de primeiro plano. Sua casa tornou-se um ponto de referência naquele território, e antes de ele construir a igreja e a escola foi um local para culto e ensino. Com o lucro do seu comércio, que se tornou o principal da região, acumulou grande capital. Para Fernando Diehl, "nas colônias, a figura do pastor se tornou uma profissão de realce, especialmente os pastores viajantes que transitavam por várias colônias, devido à sua capacidade de constituir redes de contato. [...] Neste sentido, no período inicial o cargo de pastor se tornava, paulatinamente, de destaque pelo poder político e status social adquirido. [...] O pastor Carl Leopold Voges, que aderiu à bandeira liberal, acabou tornando a sua família em comerciantes muito importantes, principalmente no setor fluvial. [...] Voges soube utilizar o cargo de pastor para constituir redes que beneficiaram não apenas ele, mas a sua família".
A construção do templo
A construção do templo da Colônia Protestante de Três Forquilhas foi repleta de grandes obstáculos e dificuldades. O primeiro templo, em 1826, foi uma simples choupana construída por índios caingangues aculturados, que serviu de morada do pastor, de templo e de escola. Essa edificação precária e simples não recebeu uso pleno pois já em 1827 foi edificado um templo de madeira, com recursos do Governo Imperial. Porém o sonho dos colonos e do pastor era um templo mais sólido, de pedra. A motivação inicial foi boa e diversos colonos foram quebrar pedras e estabeleceram o alicerce. As obras pararam pois os colonos se revoltaram, indispostos com o peso do trabalho. Ouviam-se vozes dizendo: - Isso é trabalho de presidiário ou de escravo!. Tudo parou.
Assistência espiritual em tempos da Guerra dos Farrapos
Pastor Voges esteve presente em momentos difíceis como foi o caso do período da Guerra dos Farrapos, quando a Colônia também foi marcada pela dor. No ano de 1839 um grupo de farrapos desgarrados desobedecendo as ordens de General Canabarro, retardatários, foram em busca de alimentos. Atacaram casas de colonos, matando o velho Sparremberger e o menino Bobsin, além de ferir mais dois colonos. Esses farrapos foram mortos na reação dos colonos e sepultados no Cemitério do Passo. Pastor Voges revelou grande perspicácia, para enfrentar a situação difícil. Na oportunidade chegou à Colônia de Três Forquilhas um efetivo das forças imperiais comandadas pelo Coronel João Frederico Caldwell. Esse militar amparou a população de Três Forquilhas na hora difícil e concedeu ao pastor valiosas orientações para o exercício da liderança comunitária. Pastor Voges recebeu de Coronel Caldwell a autorização para acompanhar o médico do efetivo imperial, como intérprete, em visitas às casas de colonos feridos e à pessoas doentes da Colônia.
Lutando pela integração na nova Pátria
No ano de 1850, Voges passou a insistir com os colonos para aceitarem a miscigenação cultural, com a inclusão do ensino da língua nacional no educandário por ele mantido e que até então era tido como sendo uma Escola Alemã. Em 1851 com a vinda do professor Christian Tietböhl, oficial prussiano de fina formação, o pastor passou a contar com o apoio deste educador experiente. Professor Tierboehl, além de radicar-se na Colônia, passou a incentivar outros ex-companheiros de farda, militares conhecidos como Brummer, que haviam chegado ao Brasil para reforçar o Exército Imperial na Guerra contra Oribe e Rosas, para também se fixarem na Colônia de Três Forquilhas e, o pastor, tornou-se um exemplo de como é pssível assumir um exercício pleno da cidadania.
Assistência espiritual aos Voluntários da Pátria
No período da Guerra do Paraguai o pastor teve intensa atuação visando oferecer assistência espiritual aos Voluntários da Pátria da Colônia de Três Forquilhas que partiam para a guerra, bem como aos familiares dos mesmos. Realizou um culto solene antes da partida dos voluntários, para invocar a assistência divina, para guiá-los e para encorajá-los, firmando-os na fé e, além de tudo, para não temerem o sacrifício de suas vidas caso necessário. Durante a guerra, cada vez que vinha um aviso do Governo Imperial, informando a morte de um Voluntário da Pátria filho da Colônia de Três Forquilhas, dona Elisabetha com a ajuda de Mãe Maria confeccionava uma coroa fúnebre e o pastor a fixava na parede do templo, acompanhado por orações e palavras de consolo, na presença dos familiares enlutados. Após a guerra passou a realizar cultos anuais, reunindo os soldados sobreviventes e os familiares que perderam um filho na guerra, visando manter viva a memória deles no seio da comunidade, e do sacrifício ao qual se dispuseram.
Faleceu na sede da Colônia Três Forquilhas em 3 de outubro de 1893, vitimado pele epidemia de cólera que grassou na Colônia de Três Forquilhas. Essa epidemia vitimou muita gente, em particular crianças, velhos e africanos, com menor resistência contra esse mal. Em janeiro de 1894 também faleceram Elisabetha, esposa do pastor, e Mãe Maria - mulher africana da casa pastoral, todos sepultados no Cemitério do Passo, que ficava ao norte da Colônia, às margens do rio Três Forquilhas.
Voges assumiu um papel de grande relevo na vida religiosa, política e econômica da região. Segundo Witt, é "difícil, inclusive, dissociar religião, economia e política, tudo tão imbricado que inviabiliza a desconstrução da rede que Voges montou a partir de sua sede, em Três Forquilhas. Ele serve de parâmetro, de ilustração, quando se usa o conceito de 'exponencial' para aqueles imigrantes e descendentes que se destacaram na economia e na política". Defendeu a integração entre as culturas alemã e brasileira e foi apontado como o responsável por trazer professores que trabalharam pela formação bilíngue de crianças e jovens. Atuou por mais de 60 anos no pastorado e a maior parte deste tempo foi dedicado à Colônia de Três Forquilhas, deixando marcas de uma profícua liderança. Foi elogiado pelo presidente da província do Rio Grande do Sul, João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu, que escreveu em 1855: "Visitei a colônia de S. Pedro de Alcântara das Três Forquilhas, no município de Santo Antonio da Patrulha, e fiquei satisfeito de ver o estado de prosperidade em que se acha, graças à uberdade de suas terras, ao gênio laborioso dos seus colonos, e aos bons conselhos do digno Pastor Carlos Leopoldo Voges".


