Review: Beast of Reincarnation começa devagar, mas engrena
Com Beast of Reincarnation, a Game Freak mostra sua visão desprendida de Pokémon e cheia de ousadia
Quem diria que a Game Freak estava, finalmente, preparando algo que não fosse Pokémon, não é mesmo? Beast of Reincarnation chega ao mercado cercado por uma expectativa inevitável.
Assinado pelo estúdio mundialmente conhecido pela franquia exclusiva da Nintendo, o novo título representa uma aposta ambiciosa do time fora do seu âmbito familiar em anos. Deixando de lado as criaturas fofinhas e a fórmula de turnos tradicional, o projeto mergulha num RPG de ação sombrio, técnico e cheio de camadas, ambientado num Japão pós-apocalíptico no ano de 4026.
A proposta demora para engrenar, mas, ao pegar no tranco, o horizonte se mostra promissor.
Beast of Reincarnation: inspirações familiares e notável direção de arte
A premissa narrativa de Beast of Reincarnation coloca o jogador no controle de Emma, uma jovem infectada por uma praga botânica que lhe confere habilidades mágicas ligadas à natureza, ao lado de Koo, seu fiel cão companheiro. Se você gosta do clássico A História sem Fim, sentirá sinais familiares (e positivos) aqui. A dupla precisa navegar por um ecossistema arruinado e tomado por aberrações mutantes, autômatos descontrolados por uma inteligência artificial problemática e biomas em constante metamorfose.
Trata-se de uma ambientação melancólica que flerta diretamente com o tom de produções como NieR: Automata ou até The Last of Us. A construção visual, impulsionada pela Unreal Engine 5, é um divisor de águas na trajetória do estúdio – como tem sido com muitos jogos que adotam o motor gráfico. A direção de arte equilibra paisagens de ruínas industriais tomadas pela vegetação com um design de criaturas visceral e perturbador.
A iluminação e as texturas provam que a Game Freak, quando munida das ferramentas certas e de um ciclo de desenvolvimento dedicado, tem capacidade para entregar um espetáculo gráfico.
Combate e exploração: a sinergia de uma dupla
Um dos destaques de Beast of Reincarnation reside na sinergia entre Emma e Koo durante as mecânicas de combate e exploração. O game conta com um sistema em tempo real que não coloca o cão apenas como um elemento estético ou companheiro passivo: o enorme canino é essencial para quebrar posturas de chefes, rastrear fraquezas no cenário e executar combinações de ataques devastadoras. Essa dinâmica traz um frescor bem-vindo ao gênero, exigindo que o jogador gerencie duas fontes de ação simultaneamente com boa precisão. Sim, imagine um sistema similar ao adotado no remake de Final Fantasy 7 e você tem uma visível referência.
O combate de Beast of Reincarnation tem camadas que se revelam ao longo do tempo, não de imediato. A experiência requer uma imersão inicial de algumas horas para engrenar
A fluidez do combate também merece elogios. A transição entre os ataques de espada em curta distância e as habilidades de controle de multidão baseadas nas plantas de Emma cria um ritmo frenético e satisfatório. Pode se preparar para “a braba”: sim, há elementos de soulslike aqui, com direito a encontrar pontos de descanso (que funcionam como fogueiras) e dominar a curva geral de aprendizado do combate, que desafia os reflexos do jogador com parry e esquivas no tempo certo.
A trilha sonora complementa bem a atmosfera desoladora do mundo de Beast of Reincarnation em 4026. Misturando composições acústicas melancólicas nos momentos de exploração com batidas eletrônicas e orquestrais rápidas e pesadas durante as batalhas contra chefes, o áudio dá tons necessários à imersão e um certo quê de urgência para a jornada do par de protagonistas.
O ritmo de progressão e a estrutura do mundo, por outro lado, revelam algumas inconsistências. Embora as áreas abertas sejam impressionantes à primeira vista, o nível de interatividade e a variedade de atividades secundárias deixam a desejar em determinados trechos. A sensação de caminhar por corredores bonitos, porém relativamente vazios entre um grande confronto e outro, pode incomodar jogadores que esperavam um mundo aberto mais denso. Aqui há uma clara intenção em entregar travessias mais contidas, mas nem sempre estas funcionam bem com os saltos ora precisos e ora imprecisos de Emma.
Outro aspecto crucial do combate de Beast of Reincarnation reside no balanceamento da inteligência artificial de Koo. O comportamento do animal costuma ser irregular em batalhas mais caóticas, mas funciona bem durante confrontos individuais contra chefes, por exemplo. A movimentação do seu companheiro ocasionalmente sofre com problemas de colisão e câmera, a qual, aliás, às vezes desampara Emma também. Há tempo para que isso seja ajustado em futuras atualizações.
Tecnicamente falando, Beast of Reincarnation vai bem, mas tem seus momentos de oscilação. Em meus testes, feitos no PS5 Pro, há um modo específico para o console da Sony, que busca equilibrar gráficos e performance para que nenhum seja muito sacrificado. No entanto, a taxa de quadros por segundo é inconsistente nessa opção, oscilando entre 40 e 60 fps em mudanças bruscas que podem atrapalhar algumas batalhas.
Já o modo performance, que abre mão da riqueza visual para buscar os 60 fps com estabilidade, se mostrou o mais indicado para essa experiência, mas também tem espaço para melhorias em futuras atualizações. Beast of Reincarnation usa o Unreal Engine 5, vale lembrar.
A exigência técnica do motor gráfico cobra seu preço em sequências com excesso de partículas, luzes e múltiplos modelos na tela. Ainda não é uma tecnologia perfeita ou dominada por todos os estúdios de games, mas, quando bem manuseada, entrega invejável poderio técnico.
Em suma, Beast of Reincarnation é uma declaração de independência corajosa da Game Freak. Mesmo tropeçando em alguns vícios estruturais e na otimização geral, o jogo entrega uma experiência de ação sólida, visual impressionante e uma relação marcante entre seus protagonistas.
Um código de Beast of Reincarnation foi gentilmente fornecido pela Fictions para a realização desta análise.
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