Preciso admitir que eu não sou um grande fã do primeiro Mortal Shell. Por mais que tenha tentado gostar dele e da sua mecânica de petrificação, eu não conseguia me acostumar com sua jogabilidade, achava tudo muito travado, sentia falta de uma fluidez maior.
Então, ao ver tantas pessoas elogiando sua sequência independente, Mortal Shell II, fiquei curioso para ver se ele realmente era tudo isso. E agora, com uma beta aberta disponibilizada pelo estúdio, posso afirmar que ele é tudo o que elogiaram e muito mais.
O despertar do Arauto e a busca pelos ovos
Mortal Shell II nos ambienta em um universo sombrio, no qual uma divindade chamada apenas de mãe governava com “benevolência”, mas um grande mal a derrotou e roubou sua fonte de poder, seus ovos sagrados. Mas, mesmo com os esforços adversários, sobrou um; dele nasce o protagonista, um ser magro e sem rosto, denominado apenas de Arauto.
Agora ele deve partir, explorando regiões interconectadas em ruínas, repletas de criaturas monstruosas, para conseguir recuperar a fonte do poder da mãe e fazê-la ascender novamente ao seu lugar de direito. A beta traz uma narrativa bem mais cinematográfica que a primeira, com uma trama que aparentemente vai apostar em algo mais voltado para cultos religiosos ou, melhor, uma seita a essa divindade.
Essa ideia é reforçada nas cenas iniciais, que passam uma atmosfera muito semelhante à presente no filme Midsommar, mostrando o despertar do personagem principal em um evento religioso com direito aos fiéis dançando em volta de fogueiras, fazendo sacrifícios de sangue e tudo terminando com um ritual que, digamos, faz você questionar a índole dessa tal mãe.
Fiquei bastante surpreso com essa mudança na direção da narrativa, e isso conseguiu me deixar genuinamente interessado em descobrir mais sobre esse universo. Um elemento importante para seu desenrolar e também sua expansão volta às cascas, cadáveres de grandes guerreiros que o Arauto possui para conseguir lutar.
Eles tiveram um aprofundamento grande na questão da história, tendo como liberar memórias de suas vidas passadas, o que ajudou a entender melhor quem eles foram e o que fizeram para perecer. Na demonstração, a única disponível era o corpo de Tiel, o acólito que curiosamente estava no primeiro jogo.
Eles são muito mais do que apenas cadáveres
Não foi apenas a campanha que recebeu uma atenção maior; outro ponto de grande diferença é a sua jogabilidade, que está mais refinada. Agora os comandos estão mais responsivos, aproximando-o de um soulslike mais moderno que opta por ritmo mais rápido nos combates, como o Bloodborne e Lies of P.
As esquivas, aparos e defesas correspondem melhor aos comandos e conseguem ser facilmente intercaladas com sequência de ataques fortes e fracos, seguidos de golpes especiais proporcionados por runas que podem ser equipadas nas armas ou pelas próprias habilidades que cada Carcaça possui.
Além disso, duas adições modificaram ainda mais os embates: a primeira delas é a remoção da barra de stamina, que permite que o jogador seja mais agressivo contra os adversários comuns e principalmente nos embates contra chefões.
Essa, a meu ver, foi uma das melhores mudanças, não só pela chance de optar por uma abordagem mais bruta, como ela combina com o nível de violência extra que o título traz com os golpes, causando desmembramentos e, após algumas aparadas, sendo possível realizar um contra-ataque violento e muito satisfatório nos alvos. Talvez esse tenha sido o motivo de eu ter gostado tanto de defletir golpes.
A segunda adição foi de armas de longo alcance; na prévia está disponível uma exótica “escopeta”, bastante forte a ponto de os inimigos explodirem se estiverem muito perto, e no final da prévia é possível encontrar uma besta que também é divertida de utilizar, mas não se compara à primeira.
Todavia, achei os chefes um pouco fáceis nesta demonstração — claro que morri inúmeras vezes no processo —, mas os confrontos não foram tão desafiadores e as sequências de ataques deles estavam levemente previsíveis. Mas descobri que, por meio das redes sociais da desenvolvedora, existe um item que aumenta ainda mais a dificuldade e um que a facilita, o que é uma proposta que deve conseguir agradar a quem curte um souls que faz você entrar em desespero e àqueles que preferem um desafio mais justo.
Entrando na moda do “mundo aberto” com estilo
O último ponto a se falar sobre a experiência é talvez a sua maior mudança: Mortal Shell II possui um mundo aberto interconectado, surfando na onda que Elden Ring criou. Como ainda é uma versão de demonstração, só estava disponível a base principal, o Covil de Lúgubre. O recinto é um local importante, tendo vários NPCs com funções essenciais, como ferreiros, comerciantes de armas e uma treinadora que ensina como utilizar as várias defesas existentes na obra.
O local é visualmente chamativo, com arquitetura bem única, misturando vários biomas diferentes dentro. É difícil fazer um julgamento para os NPCs mencionados, pois tive pouco contato com eles, mas suas aparências bastante exóticas já conquistaram minha atenção.
Mas o que de verdade importa é o teletransporte que existe no topo da estrutura. Com ele, podemos viajar para pontos específicos do mapa. Agora, sobre o mapa, realmente, o jogo consegue entregar um misto entre biomas muito bons. Temos florestas, pântanos, vilarejos, tudo isso apenas em uma pequena parte da região e com um desempenho louvável. Minha experiência, que durou umas três horas, foi no PlayStation 5. Mesmo normalmente preferindo o modo qualidade, o modo desempenho conseguia manter uma resolução alta junto ao fps.
Além disso, como agora temos áreas maiores para explorar, existem atividades secundárias para se fazer; algumas clássicas, como masmorras e minichefes, estão presentes. Mas, dentre esses dois, as dungeons são mais envolventes; elas são divertidas de fazer e muito diferentes umas das outras, chegando a me lembrar das presentes em The Legend of Zelda: Breath of The Wild.
Algumas tinham quebra-cabeças envolvendo mover peças pesadas, enquanto outras optaram por charadas envolvendo estátuas ou espelhos que mudaram a realidade. Tudo isso dava uma diferença entre elas que sempre garantia que fossem interessantes.
Claro que as recompensas também são ótimas, podendo ser armas, relíquias que dão buffs ou habilidades para cada ferramenta e vultos, os quais são o equivalente ao “xp” da obra, utilizados para melhorar os atributos do Arauto e da Carcaça que ele estiver utilizando.
De atividade muito diferente mesmo, só encontrei os julgamentos. São desafios de combate, mas estavam bugados. Durante os confrontos, eles simplesmente travavam no meio, parando de aparecer inimigos assim. Portanto, não consegui completar nenhum, mas eles parecem interessantes.
Um soulslike com potencial para ser excelente
Mortal Shell II deixa uma primeira impressão muito surpreendente. O jogo entrega um combate reformulado com melhorias, como uma precisão maior e o abandono da barra de stamina. Uma história intrigante envolve uma suposta divindade “benevolente” e um mundo aberto promissor. Resta agora aguardar até o dia 20 de agosto para conseguir experimentar esse projeto com potencial para ser um dos souls mais interessantes do ano.
Texto de impressões produzido com beta aberta disponível na PlayStation Store

