A Nintendo tem poucos rivais quando se trata de criar obras-primas. A empresa tem praticamente uma em cada gênero com o qual já trabalhou: desde jogos de ação até jogos de plataforma, passando por aventuras, RPG e até mesmo estratégia. Mas, da mesma forma, a Grande N também é “especialista” em deixar muitas de suas grandes franquias caírem no esquecimento. Sem dúvida, eles têm motivos para isso, mas é impossível não ficar decepcionado quando já se passaram tantos anos sem um novo F-Zero, ou quando nos fazem implorar, geração após geração, por um novo Golden Sun. Esta série de RPG surgiu nos circuitos do Game Boy Advance e rapidamente se tornou uma das mais queridas pelos fãs de RPG e fantasia — e não é à toa.
Voltar a jogar Golden Sun depois de 25 anos continua sendo uma experiência tão especial quanto no primeiro dia. Seus belos gráficos, seu sistema de combate, a história e seus personagens... tudo neste clássico da Camelot nos transporta para a era de ouro dos JRPGs e, por essa mesma razão, ano após ano, geração após geração de consoles, seus fãs pedem que ele volte. Esta retrospectiva retrô é uma homenagem particular a essa grande saga esquecida da Nintendo.
A guerra dos portáteis só poderia ser vencida com um JRPG
Com seu novíssimo Game Boy Advance recém-lançado, a Nintendo tinha bem claro que, para triunfar no mercado de portáteis, não poderia recorrer exclusivamente às suas séries já consagradas. É claro que Super Mario, Donkey Kong, The Legend of Zelda e F-Zero, entre outros, faziam parte dos planos da empresa para consolidar seu domínio como a rainha dos portáteis; mas faltava algo mais. E foi o lendário Hiroshi Yamauchi, presidente da Nintendo por décadas e principal responsável pelo sucesso da empresa, quem se empenhou mais no nascimento dessa nova franquia criativa: Golden Sun.
Uma aventura de RPG no estilo clássico criada pela experiente equipe da Camelot Software, conhecida por seu trabalho nas séries Shining Force, Mario Golf ou Mario Tennis, entre outras, com a qual a Nintendo esperava não apenas atrair a atenção dos amantes desse tipo de videogame, mas também de todos aqueles que, por um motivo ou outro, ainda não haviam se aventurado nesse gênero. O resultado? É evidente. Quase 25 anos após seu lançamento, Golden Sun continua surpreendendo como no primeiro dia.
Porque, sim, era um jogo para um console portátil, mas isso não o impediu de almejar o que há de melhor.
À noite. Sob uma chuva intensa que ameaça arrasar tudo em seu caminho, Hans e seus amigos tentam desesperadamente proteger os moradores da bela e pacífica vila de Tale, onde, há gerações, um grupo de sábios guarda os segredos mais bem guardados da alquimia. Mas algo está errado. A montanha sobre a qual se ergue essa vila ruge com uma fúria sobrenatural, e nem mesmo os mais poderosos da vila são capazes de acalmar sua ira. O que está acontecendo? Por que a Mãe Natureza se mostra tão agressiva? As respostas surgirão exatamente três anos depois, quando o herói desta aventura partir, ao lado de Garet e outros jovens, em uma jornada que eles nunca esquecerão.
Apesar do caráter prototípico desse início, a história de Golden Sun é um dos grandes pilares de uma aventura de RPG que também surpreende, e muito, pela engenhosidade de seu sistema de combate. Tradicionalismo e inovação se complementam, portanto, nesta obra da Camelot Software que nos convida a explorar com grande liberdade um vasto mundo de fantasia repleto de perigos, sim, mas também de belos cenários nos quais nos perder, personagens divertidos com quem conversar e, claro, inimigos a serem derrotados.
Tudo com o objetivo final de proteger os amigos de Hans e, de quebra, salvar o mundo de uma destruição certa causada por Saturos, Menardi e tantos outros vilões que vão nos dar muito trabalho. Enfim, os ingredientes habituais em qualquer grande obra-prima do gênero.
O sistema de combate que fez a diferença
Golden Sun é uma aventura de RPG clássica ao extremo. Disso não há dúvida. Mas essa obra da Camelot e da Nintendo também soube se destacar dos concorrentes graças ao seu sistema de combate atraente e inovador. Sim, estamos falando de batalhas por turnos, como as de sempre; e sim, elas surgiam “de surpresa”, com o também muito tradicional sistema de encontros aleatórios. Mas havia algo mais: os Djinn. Criaturas pequenas, mas muito poderosas, que precisávamos caçar para ampliar nosso poder com base nos quatro elementos: fogo, água, vento e terra.
E o melhor é que essas criaturas não apenas concediam novas habilidades especiais ou potencializavam determinados atributos dos heróis. Elas também funcionavam como poderosas invocações às quais podíamos recorrer para derrotar os inimigos mais difíceis. Tudo isso com uma apresentação audiovisual absolutamente espetacular, considerando que se tratava de uma aventura portátil. E isso não é tudo.
A aventura de Hans se destacou — e continua se destacando até hoje — por sua enorme versatilidade, ao nos permitir alterar a classe do nosso herói e de seus aliados com extrema rapidez. Bastava “equipar” determinados Djinns e deixar o restante inativo para, por exemplo, transformar Hans em um Escudeiro, Cavaleiro, Mestre, Defensor… ou qualquer uma das muitas outras classes de guerreiros disponíveis no jogo. Cada uma delas, é claro, com atributos especiais que podiam alterar significativamente o desenrolar dos combates. Assim, vocês já podem imaginar a grande liberdade de ação que esta obra nos proporciona.
Um videogame que também nos conquistou pelo design de seu universo de fantasia: enorme, variado e repleto de recantos onde nos perder. Nesse sentido, uma das peculiaridades de Golden Sun é que muitas das habilidades de combate de nossos heróis também tinham utilidade fora das lutas. Assim, por exemplo, podíamos usar redemoinhos para eliminar a vegetação que bloqueava nosso caminho e, assim, abrir áreas secretas onde encontrar tesouros de grande valor; ou usar o poder “Mover” para deslocar grandes blocos de pedra em alguns dos interessantes quebra-cabeças que também faziam parte dessa esplêndida aventura de RPG.
Muito querida por aqueles que, em sua época, desfrutaram de toda a sua magia e encanto, Golden Sun continua sendo uma das séries da Nintendo menos conhecidas pelo grande público. O que faz sentido, considerando que, ao longo de seus mais de dez anos de história, foram lançados apenas três jogos baseados nela: os dois primeiros para o Game Boy Advance e uma sequência muito aguardada, lançada muitos anos depois para o Nintendo DS. Com poucas novidades, é verdade; mas vale reconhecer que aquele espírito retrô que esta série exala desde suas origens continua nos cativando como no primeiro dia.
Suas batalhas, o caráter épico de seu enredo, a possibilidade de interagir com os ambientes de diversas maneiras para descobrir áreas secretas, o colorido e a beleza de seus gráficos… tudo em Golden Sun transmite tanto amor pelas aventuras de RPG lançadas na década de 90 que, seja você fã do gênero ou não, dificilmente conseguirá resistir aos seus encantos. E é justamente essa sensação que nos faz gritar constantemente, desesperadamente: “Queremos mais Golden Sun!”. Será que nossos sonhos se tornarão realidade?


