Sistema imunitário
O sistema imunitário, também conhecido como sistema imunológico ou imune, é uma rede complexa de estruturas e processos biológicos que protegem o organismo contra doenças. Para funcionar eficazmente, ele precisa identificar uma vasta gama de agentes, de vírus a parasitas, e diferenciá-los dos tecidos saudáveis do próprio corpo. O termo foi cunhado em 1882 por Ilya Ilyich Mechnikov, considerado o pai da imunologia.
Pontos-chave
- O sistema imunitário protege o corpo contra doenças, distinguindo agentes externos de tecidos próprios.
- Sua defesa é estratificada, começando por barreiras físicas e evoluindo para respostas inatas e adquiridas.
- A imunidade inata oferece uma resposta imediata e não específica, presente em todos os animais e plantas.
- A imunidade adquirida, exclusiva de vertebrados, adapta-se e cria memória imunológica para respostas futuras mais rápidas.
- Falhas no sistema imunitário podem levar a imunodeficiências, autoimunidade e hipersensibilidades.
O sistema imunitário protege o organismo contra infecções através de mecanismos de defesa organizados em camadas, com especificidade crescente. Primeiramente, barreiras físicas bloqueiam a entrada de patógenos. Se um patógeno ultrapassa essas barreiras, o sistema imunitário inato, presente em todas as plantas e animais, entra em ação com uma resposta imediata, mas não específica. Caso o patógeno persista, os vertebrados ativam um segundo nível de defesa: o sistema imune adquirido. Este é ativado pela resposta inata e adapta sua ação durante a infecção, identificando o patógeno. Graças à memória imunológica, o corpo 'lembra' essa resposta, permitindo ataques mais rápidos e eficazes em futuras exposições ao mesmo patógeno. Ambos os sistemas, inato e adquirido, dependem da capacidade de diferenciar moléculas externas (não próprias) das moléculas do próprio corpo (próprias). Antígenos são um tipo de molécula não própria que se liga a receptores imunológicos e desencadeia uma resposta.
O sistema imune inato é composto por mecanismos de defesa não específicos, que reagem de forma indiferenciada a qualquer agente invasor. Representa as estratégias de defesa mais antigas, com algumas formas encontradas até nos seres multicelulares mais primitivos, plantas e fungos.
Barreiras Físicas: Proteção Externa e Interna
Diversas barreiras mecânicas, químicas e biológicas protegem os organismos contra infecções. Exemplos incluem a cutícula cerosa de folhas, o exoesqueleto de insetos, a casca de ovos e a pele, que atuam como primeira linha de defesa. Para orifícios corporais como pulmões, intestino e sistema geniturinário, existem outros sistemas protetores. Nos pulmões, a tosse e os espirros expelem patógenos e irritantes. A lavagem por fluidos como lágrimas e urina também remove patógenos, enquanto o muco nos tratos respiratório e digestivo retém microrganismos.
Barreiras Químicas: Respostas Não Específicas
Microrganismos ou toxinas que conseguem penetrar no organismo encontram as células e mecanismos do sistema imune inato. A resposta inata é geralmente ativada quando receptores de reconhecimento de padrões identificam componentes comuns a muitos microrganismos, ou quando células danificadas, lesionadas ou estressadas emitem sinais de alarme, muitos dos quais são reconhecidos pelos mesmos receptores. As defesas do sistema imune inato não são específicas, respondendo a patógenos de forma genérica e sem conferir imunidade permanente. É o sistema de defesa predominante na maioria dos organismos.
Barreiras Celulares: Leucócitos em Ação
Os leucócitos (glóbulos brancos) formam a segunda linha de defesa do sistema imune inato, agindo como organismos unicelulares independentes. Eles identificam e eliminam patógenos, seja atacando os maiores por contato, seja fagocitando e matando microrganismos ou células infectadas. As células inatas também são importantes mediadoras na ativação do sistema imune adquirido, função realizada pelas Células Apresentadoras de Antígenos. A fagocitose, processo em que células chamadas fagócitos englobam e 'se alimentam' de patógenos ou partículas, é uma característica crucial da imunidade inata celular. Fagócitos patrulham o corpo e podem ser direcionados por citocinas para locais específicos. Após englobar um patógeno, este fica imobilizado em um fagossoma, que se funde com um lisossoma para formar um fagolisossoma, onde o patógeno é morto por enzimas digestivas ou por uma 'explosão oxidativa' que libera radicais livres. A fagocitose é considerada a forma mais antiga de defesa imunitária, presente em vertebrados e invertebrados, e evoluiu de uma função de obtenção de nutrientes para um mecanismo de defesa contra patógenos.
Resposta Inflamatória: Sinal de Alerta e Cura
A inflamação é uma das primeiras respostas do sistema imunitário à infecção, manifestando-se por vermelhidão, inchaço, calor e dor localizada, devido ao aumento da circulação sanguínea nos tecidos afetados. É causada pela ação de eicosanoides e citocinas liberadas por células danificadas ou infectadas. Eicosanoides como prostaglandinas causam febre e vasodilatação, enquanto leucotrienos atraem leucócitos. Citocinas comuns incluem interleucinas (para comunicação entre leucócitos), quemoquinas (promovem quimiotaxia) e interferons (com propriedades antivirais, como paralisar a síntese proteica). Fatores de crescimento e citotóxicos também podem ser liberados. As citocinas e outros químicos recrutam células imunes para o local da infecção e promovem a cura dos tecidos danificados após a eliminação dos patógenos.
O sistema imune adaptativo concentra-se na capacidade das células imunitárias de distinguir proteínas produzidas pelas células do próprio corpo (antígenos 'self') de proteínas produzidas por invasores ou por células humanas sob controle viral (antígenos 'non-self'). Essa distinção é feita por receptores como TCR (T-cell receptors) e BCR (B-cell receptors, que são anticorpos presos à membrana). Para serem eficazes, esses receptores precisam ter milhões de conformações diferentes para se ligarem a diversos tipos de proteínas invasoras. Essa diversidade não caberia no genoma de uma célula. Em vez disso, existem famílias de genes com vários membros ligeiramente diferentes que, através de um processo especial e único nos linfócitos humanos, recombinam-se aleatoriamente em um único gene, gerando a vasta diversidade de receptores necessários.
Linfócitos B e Produção de Anticorpos
Os linfócitos B possuem um BCR (B-cell receptor) que é um anticorpo preso à membrana. Eles se concentram nos gânglios linfáticos, filtrando a linfa em busca de moléculas 'não próprias' que reajam especificamente com seu receptor aleatório. Para cada molécula possível, existem vários linfócitos B específicos. Ao haver uma ligação específica antígeno-receptor e se o linfócito for estimulado por citocinas dos linfócitos T CD4+ (Helper), ele se multiplica e se diferencia em plasmócitos e células-memória (Linfócito B de memória). As células-memória permitem uma resposta mais rápida em caso de reinfecção futura. Os plasmócitos, por sua vez, produzem grandes quantidades de BCR solúvel (não preso à membrana), ou seja, anticorpos específicos para aquela molécula.
Linfócito T CD8+: Os 'Killers' Citotóxicos
Os Linfócitos T CD8+ são os linfócitos citotóxicos, também chamados de 'Killers'. É importante notar que as Natural Killers (NK) não são a mesma coisa, pois não possuem TCR (T-cell receptor), embora também sejam linfócitos. Cada linfócito T CD8+ possui um tipo de receptor específico em sua membrana, o TCR, gerado aleatoriamente durante o desenvolvimento. Esses receptores se ligam a outros presentes em todas as células humanas (complexo MHC I), que exibem peptídeos (fragmentos de proteínas) produzidos pela célula. Se um complexo MHC I-peptídeo for reconhecido por um linfócito T CD8+, este desencadeia a morte da célula que apresenta o peptídeo, utilizando enzimas citolíticas chamadas perforinas que induzem a apoptose (morte celular programada) por desequilíbrio osmótico.
Fagócitos: Atuando na Imunidade Inata e Adaptativa
Embora os fagócitos sejam mecanismos inatos por responderem a qualquer corpo estranho, eles também são efetores de primeira linha das decisões dos linfócitos. Fagócitos, especialmente os macrófagos, respondem a citocinas geradas pelos linfócitos (como a IL-1). Os monócitos, precursores dos macrófagos, transformam-se em macrófagos quando estimulados por citocinas dos linfócitos T CD4+. Além disso, são atraídos por outras citocinas e fatores liberados de células em locais de infecção ativa. Se estimulados apropriadamente pelas citocinas liberadas de forma localizada e controlada pelos linfócitos T CD4+, os macrófagos liberam quantidades suficientes de enzimas e radicais livres para destruir completamente uma região localizada, eliminando tanto invasores quanto células humanas.
Linfócito T CD4+: O Maestro da Resposta Imune
Os Linfócitos T CD4+, ou 'Helper', são os controladores de toda a resposta imunitária. Eles 'decidem' quais reações desenvolver a uma invasão, ativando ou inibindo outras células imunitárias através de citocinas (hormônios ou mediadores moleculares). Por isso, na SIDA/AIDS, que ataca os T CD4+, todo o sistema imunitário colapsa. Os linfócitos T CD4+ decidem se há invasão porque cada um contém um TCR (T-cell receptor) gerado aleatoriamente. Fagócitos e outras células, como as dendríticas ou de Langerhans, após digerir proteínas do invasor, apresentam peptídeos (pedaços) dessas proteínas em uma proteína membranar, o MHC II (major histocompatibility complex). Os TCR dos T CD4+ ligam-se a esses MHC II com peptídeo e, se a ligação for eficaz, liberam citocinas. Nenhum linfócito T CD4+ tem receptores para proteínas do próprio corpo, pois esses foram destruídos durante seu desenvolvimento no Timo. Se os níveis dessas citocinas forem altos o suficiente e outros fatores existirem no sangue, o T CD4+ 'decide' que há uma invasão e de que tipo é, gerando uma resposta imunitária específica. Ele então produz outras citocinas, estimulando todas as outras células para a resposta apropriada. Assim como outros linfócitos, os T CD4+ estimulados se multiplicam, e alguns se tornam células-memória para uma resposta mais rápida a futuras exposições ao mesmo invasor.
Complementando os mecanismos já vistos, os mastócitos são células do tecido conjuntivo, originadas de células mesenquimatosas. Possuem citoplasma rico em grânulos basófilos e sua principal função é armazenar potentes mediadores químicos da inflamação, como histamina, heparina, ECF-A (fator quimiotáxico de eosinófilos) e fatores quimiotáxicos de neutrófilos. Eles participam de reações alérgicas (de hipersensibilidade), atraindo leucócitos para o local e promovendo vasodilatação. A vasodilatação aumenta a temperatura local, dificultando a proliferação de microrganismos e estimulando a migração de células de defesa. Algumas substâncias liberadas na inflamação alcançam o centro termorregulador no hipotálamo, causando febre. Apesar do desconforto, a febre é crucial no combate a infecções, pois é desfavorável para microrganismos e estimula os mecanismos de defesa do corpo.
As citocinas são hormônios do sistema imunitário que permitem a comunicação entre as células imunes e com células de outros órgãos. Constituem um sistema incrivelmente complexo e inteligente, ainda em grande parte desconhecido. Algumas citocinas importantes incluem interleucinas, quemoquinas e interferons, que desempenham papéis cruciais na regulação e coordenação das respostas imunes.
O sistema imune é uma estrutura notável que incorpora especificidade, indutibilidade e adaptação. No entanto, podem ocorrer falhas em sua defesa, classificadas em três grupos principais: imunodeficiências, autoimunidade e hipersensibilidades.
Imunodeficiências: Quando a Defesa Falha
As imunodeficiências ocorrem quando um ou mais componentes do sistema imunitário estão inativos. A capacidade de resposta imune é menor em idades extremas (muito jovens e muito idosos), com o declínio começando por volta dos 50 anos devido à imunossenescência. Em países desenvolvidos, obesidade, alcoolismo e uso de drogas são causas comuns de insuficiência imunitária. Contudo, a má nutrição é a causa mais frequente em países em desenvolvimento. Uma dieta deficiente em proteínas está ligada a fraquezas na imunidade mediada por células, atividade do complemento, função dos fagócitos, concentrações de anticorpos IgA e produção de citocinas. Além disso, a perda precoce do timo, por mutação genética ou remoção cirúrgica, causa imunodeficiência severa e alta suscetibilidade a infecções.
Autoimunidade: O Ataque ao Próprio Corpo
No extremo oposto das disfunções imunes estão as respostas imunes excessivas, especialmente os transtornos autoimunes. Nestes casos, o sistema imunitário não consegue distinguir as células externas das suas próprias células e ataca partes do próprio corpo. Em condições normais, muitos linfócitos T e anticorpos reagem com peptídeos próprios. Existem células especializadas no timo e na medula óssea cuja função é apresentar aos novos linfócitos os antígenos produzidos pelo corpo e eliminar as células capazes de reconhecer antígenos próprios, prevenindo assim a autoimunidade.
Hipersensibilidade: Reações Imunes Danosas
A hipersensibilidade é uma resposta imunitária que causa danos aos tecidos do próprio corpo. É dividida em quatro classes (tipos I a IV) com base nos mecanismos envolvidos e no tempo de reação. A hipersensibilidade do tipo I é uma reação anafilática, geralmente associada a alergias, com sintomas que variam de desconforto leve à morte. É mediada pela imunoglobulina E (IgE), que desencadeia a degranulação de mastócitos e basófilos quando ligada a um antígeno. A hipersensibilidade do tipo II ocorre quando anticorpos se ligam a antígenos nas próprias células do indivíduo, marcando-as para destruição. Também chamada de hipersensibilidade citotóxica dependente de anticorpos, é mediada por anticorpos IgG e IgM. A hipersensibilidade do tipo III é desencadeada por complexos imunes (agregados de antígenos, proteínas do complemento e anticorpos IgG e IgM) depositados em vários tecidos. A hipersensibilidade do tipo IV (mediada por células) geralmente leva de dois a três dias para se desenvolver e está presente em muitas doenças autoimunes e infecciosas, podendo também estar associada à dermatite de contato. Essas reações são mediadas por linfócitos, monócitos e macrófagos.
É provável que o sistema imune adaptativo e multicomponente tenha surgido com os primeiros vertebrados, visto que invertebrados não produzem linfócitos ou respostas imunitárias humorais. No entanto, muitas espécies utilizam mecanismos que parecem ser precursores desses aspectos da imunidade em vertebrados. Sistemas imunitários podem ser observados até nas formas de vida mais simples. Bactérias usam um mecanismo de defesa único, o sistema de restrição-modificação, contra patógenos virais (fagos). Procariontes também possuem imunidade adquirida através de um sistema que usa sequências CRISPR para conservar fragmentos do genoma de fagos com os quais tiveram contato, bloqueando a replicação viral por interferência de RNA. Receptores de reconhecimento de padrões são proteínas usadas por quase todos os organismos para identificar moléculas associadas a patógenos. Defensinas, peptídeos antimicrobianos, são um componente evolutivamente conservado em todos os animais e plantas, sendo a principal forma de imunidade sistêmica em invertebrados. O sistema complemento e os fagócitos também são usados pela maioria das formas de vida invertebrada. A ribonuclease e o processo de interferência de RNA estão presentes em todos os eucariotos e acredita-se que desempenhem um papel na resposta imunitária contra vírus.
Um papel crucial do sistema imunitário é a identificação e eliminação de tumores. As células tumorais modificadas expressam antígenos que não estão presentes em células normais. O sistema imunitário interpreta esses antígenos como externos, levando as células imunitárias a atacar as células do tumor. Os antígenos expressos por tumores podem ter várias origens. Alguns derivam de vírus carcinogênicos, como o vírus do papiloma humano (HPV) que causa câncer de colo do útero. Outros se originam de proteínas do próprio organismo, que têm baixa intensidade em células normais, mas atingem níveis elevados em células tumorais. Um exemplo é a tirosinase que, em níveis elevados, transforma melanócitos (células da pele) em melanomas. Uma terceira fonte de antígenos tumorais são proteínas importantes para a regulação do crescimento celular, que frequentemente sofrem mutação para moléculas indutoras de câncer, chamadas oncogenes.
Hormônios podem atuar como imunomoduladores, alterando a sensibilidade do sistema imunitário. Por exemplo, hormônios sexuais femininos são imunoestimulantes, tanto para a resposta adquirida quanto para a inata. Algumas doenças autoimunes, como o lúpus eritematoso, são mais prevalentes em mulheres e frequentemente coincidem com a puberdade. Em contraste, hormônios sexuais masculinos, como a testosterona, parecem ser imunossupressores. Outros hormônios que regulam o sistema imunitário incluem prolactina, hormônio do crescimento e vitamina D. Ao encontrar um patógeno, um linfócito T estende um receptor de vitamina D, um dispositivo de sinalização que permite ao linfócito ligar-se à forma ativa da vitamina D, o calcitriol. Os linfócitos T têm uma relação simbiótica com a vitamina D: eles não apenas estendem o receptor, mas também expressam o gene CYP27B1, que converte a pré-hormona da vitamina D (calcidiol) na forma ativa (calcitriol). Somente após se ligarem ao calcitriol, os linfócitos podem desempenhar suas funções. Células do sistema imunitário que expressam o gene CYP27B1 e ativam o calcidiol incluem células dendríticas, queratinócitos e macrófagos.
Nutrição e Dieta: Impacto na Saúde Imune
A sobrenutrição está associada a doenças como diabetes e obesidade, que sabidamente afetam a função imune. A desnutrição moderada, assim como deficiências específicas de minerais e nutrientes, também pode comprometer a resposta imune. O subdesenvolvimento fetal pode resultar em deficiências imunológicas ao longo da vida. Por outro lado, alimentos ricos em certos ácidos graxos podem promover um sistema imunitário saudável.


