Maria da Conceição Tavares
Maria da Conceição de Almeida Tavares foi uma economista, política, matemática e escritora luso-brasileira.
Primeiros anos
Maria da Conceição nasceu na freguesia de São Lourenço do Bairro, concelho (município) de Anadia, no distrito de Aveiro, mas cresceu em Lisboa. Era filha de Fausto Rodrigues Tavares e de Maria Augusta de Almeida Caiado. Sua mãe era católica e seu pai um anarquista que abrigou refugiados da Guerra Civil Espanhola, em plena era Salazar. Após iniciar o curso de Engenharia na Universidade de Lisboa, Maria transferiu-se para Ciências Matemáticas, licenciando-se em 1953. Para fugir da ditadura salazarista em Portugal, transferiu-se para o Brasil em fevereiro de 1954, já casada com seu primeiro marido, o engenheiro Pedro José Serra Soares, e grávida de sua filha Laura. Ela se estabeleceu com a família no Rio de Janeiro.
Brasil
Quando chegou ao Brasil, começou a participar das atividades e debates promovidos pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Por não conseguir a equivalência de diplomas que lhe permitiria dar aulas em universidade, em 1955 começou a trabalhar como estatística no Instituto Nacional de Imigração e Colonização (INIC), atual Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Em 1957, adotou a cidadania brasileira. Nessa época, depois de ter percebido que o conhecimento da matemática não era suficiente para o caminho profissional que pretendia seguir, matriculou-se, ainda em 1957, no curso de Economia da Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro. No ano seguinte, tornou-se analista matemática do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), onde trabalhou até 1960. Entre 1958 e 1960 foi também membro do Grupo Executivo de Indústria Mecânica Pesada (Geimape), um dos grupos executivos surgidos durante o governo do presidente Juscelino Kubitschek. Seu trabalho era ligado ao Conselho do Desenvolvimento, organismo central de planejamento subordinado diretamente à presidência da República, encarregado de elaborar e coordenar os programas setoriais definidos pela política econômica do governo. Participou da elaboração do Plano de Metas do governo de Juscelino.
Morte
Em 2020 sofreu um acidente em sua casa e submeteu-se a uma cirurgia em uma perna. Depois foi levada pela família para viver em Nova Friburgo, onde faleceu em 8 de junho de 2024, aos 94 anos. Seu desaparecimento foi amplamente divulgado na imprensa, recebendo muitos elogios de acadêmicos e políticos, reconhecendo-a como um dos grandes nomes da economia brasileira e louvando-a por sua visão humanista e sua determinação na defesa de uma economia que promovesse a igualdade social. Seu corpo foi cremado, e em 17 de junho suas cinzas foram depositadas no jardim do Instituto de Economia da Unicamp. Uma árvore foi plantada no mesmo local em homenagem ao seu trabalho relacionado ao Instituto.
Sua teoria econômica começou a se consolidar entre o fim da década de 1950 e início da seguinte, direcionando seus estudos para o desenvolvimento econômico, a acumulação endógena de capital, as peculiaridades do sistema financeiro do país, os mecanismos inflacionários e outros tópicos, a partir de uma perspectiva histórico-estrutural. Estudou a obra de vários pensadores da tradição da Economia Política, como Karl Marx, John Maynard Keynes, Joseph Schumpeter, Michal Kalecki e Josef Steindl, e autores estruturalistas interessados especificamente na questão das periferias, sendo influenciada pelas análises da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe sobre o capitalismo periférico, com as contribuições de Raúl Prebisch, Aníbal Pinto, Caio Prado Jr. e Celso Furtado, entre outros, rejeitando a ideia convencional do subdesenvolvimento como etapa transitória em direção ao desenvolvimento e entendendo-o como estrutural nas economias periféricas. Recebeu influência também de Ignácio Rangel, que a despertou para as questões relacionadas ao capital financeiro e à inflação. Seus referenciais teóricos com o tempo foram ampliados, fazendo com que revesse algumas posições iniciais. Se na primeira parte da sua carreira deu mais ênfase ao estudo dos processos de crescimento econômico e desenvolvimento, a partir de meados da década de 1980 se direcionou para a identificação das causas da sua ausência, dando mais atenção à geopolítica, à economia política internacional e à dinâmica das finanças globalizadas, fazendo uma crítica do modo de desenvolvimento do capitalismo e seus esquemas de dominação, buscando compreender as razões para o atraso das economias periféricas da América Latina em relação às economias centrais desenvolvidas, e como a hegemonia da economia norte-americana repercute nas periferias.
Tavares foi considerada uma das mais importantes economistas do Brasil, em particular entre os atuantes na linha heterodoxa, e uma referência central para o pensamento desenvolvimentista, fazendo renomada carreira acadêmica e docente, ganhando reconhecimento internacional, e exercendo grande influência sobre os pensadores econômicos nacionais. Seu trabalho foi reconhecido também pela constante preocupação com a preservação da democracia e da justiça social. Influenciou gerações de economistas e políticos, e nas últimas décadas, com seus gestos firmes, vozeirão e frases contudentes, virou figura pop nas redes sociais. Deixou significativa contribuição escrita para o pensamento econômico brasileiro, em livros e centenas de artigos em revistas e jornais de grande circulação. Entre junho de 1993 e setembro de 2004 assinou a coluna "Lições Contemporâneas" para o jornal Folha de S.Paulo. Entre suas obras mais importantes, destaca-se Auge e Declínio do Processo de Substituição de Importações no Brasil – Da Substituição de Importações ao Capitalismo Financeiro, de 1972, que se tornou um clássico da literatura econômica latino-americana e um marco nos estudos sobre o processo de industrialização do Brasil. Dentre os textos que compõem esse livro, o ensaio Além da estagnação, escrito com seu assistente José Serra, constatava, ao contrário do afirmado por Celso Furtado nos anos 1960, que era possível atingir elevado crescimento econômico, como demonstrara a fase do Milagre Econômico, embora com aumento ainda maior da concentração de renda. Também são importantes os livros Acumulação de Capital e Industrialização do Brasil, de 1975, e Ciclo e Crise: o movimento recente da economia brasileira, de 1978. No ano de 1998, venceu o Prêmio Jabuti na categoria Economia, em reconhecimento da sua contribuição para o pensamento econômico no Brasil.
Maria da Conceição Tavares recebeu diversos prêmios e honrarias pelo seu trabalho, destacando-se:


