Reconquista
A Reconquista é um dos termos pelos quais é conhecido o processo histórico de um período de quase oitocentos anos ao longo do qual os reinos cristãos da Península Ibérica procuraram recuperar progressivamente os territórios ocupados pelos reinos mouros muçulmanos durante o período de Alandalus. Tal processo decorreu entre 718 ou 722 e 1492, com a conquista do Emirado de Granada pelos reinos cristãos. O controlo progressivo da península possibilitou a fundação de novos reinos cristãos, como o Reino de Portugal e o Reino de Castela, precursores de Portugal e de Espanha.[carece de fontes?]
O termo "Reconquista" não é globalmente aceito, uma vez que os reinos cristãos que "reconquistaram" os territórios da Península se constituíram posteriormente à conquista islâmica. Apesar de esses monarcas se autoproclamarem descendentes diretos e herdeiros do antigo Reino Visigótico, tal alegação, aparentemente, teria sido um mero recurso visando a legitimação política dos reinos cristãos e a justificação das suas guerras de conquista. No entanto, para a população moçárabe, que, apesar de cristã, era arabizada, havia, em Alandalus, maior tolerância religiosa do que nos reinos cristãos, seus sucessores, onde os moçárabes eram vistos como minoria. Seus hábitos litúrgicos, completamente contagiados pela influência árabe, eram considerados estranhos — uma afronta aos observadores estrangeiros. A extinção do rito hispano-moçárabe provocaria o desaparecimento destas comunidades, embora algumas, muito pequenas, tenham conseguido manter-se, mediante autorização papal.
Por volta do ano 711 a Península Ibérica foi invadida por soldados berberes, comandadas por Tárique, obrigando os visigodos a recolher-se principalmente na região de Astúrias, uma região no Norte da Península, que, pelas suas características naturais, colocava grandes dificuldades ao domínio muçulmano. Além disso, os muçulmanos podiam contornar essa região pois estavam mais interessados em atravessar os Pirenéus e derrotar os Francos, do outro lado, visto terem como objectivos conquistar todos os territórios à volta do Mediterrâneo, o que acabou por não acontecer, pois foram derrotados pelos Francos. Assim, o período compreendido entre 711 e 1492 foi marcado, na Península Ibérica, entre outros fatos, pela presença de governantes muçulmanos. Em nome da recuperação da região, ocorreu um longo processo de lutas, considerado por alguns como parte do movimento de cruzadas, que finalmente resultaria na completa reconquista do território por parte dos cristãos.
Antes de 750, os soldados berberes, que se acantonavam nas terras mais ao norte, revoltaram-se contra os árabes: estes eram pouco numerosos e chamaram tropas sírias, que dominaram a revolta. Em 718, Pelágio, chefe dos visigodos, aproveita a desorganização muçulmana e dá início a um processo de reconquista dos territórios hispânicos, que iria durar cerca de seis ou sete séculos. Não se sabe muito sobre Pelágio: o nome não é gótico: os autores de pequenas crónicas escritas pelo fim do século IX e X procuram relacioná-lo com os antigos reis visigodos, para estabelecerem uma relação entre os guerrilheiros montanheses e a «restauração» do cristianismo em Espanha. Um escritor árabe coevo diz que se tratava de um galego. Um historiador moderno supõe que seria um servo que se conseguiu impor aos companheiros no período de crise que seguiu a queda da monarquia; um outro considera-o um nativo das Astúrias; outros autores consideram que Pelágio era duque da Cantábria, parente, segundo a tradição, do rei Rodrigo.
Os cristãos ibéricos esperavam esses combates na esperança de um avanço na reconquista, e encontravam nas montanhas das Astúrias um campo propício. Delas desceu um dia um grupo de godos, capitaneados pelo referido Pelágio, que infligiria aos sarracenos uma formidável derrota na batalha de Cangas de Onís (cerca de 722), e que seria o primeiro elo dessa cadeia de combates que, prolongando-se através de quase oito séculos, fez recuarem os dominadores ibero-muçulmanos para as praias de África. Seguiu-se uma prolongada guerra civil, a cerca de 740, em consequência da qual as terras para o norte do Douro ficaram livres, ou quase livres, dos invasores, porque os berberes, que lá estavam, marcharam para o sul para fazer guerra aos árabes. As populações hispano-góticas dessas regiões puderam, então, levantar cabeça e colocaram-se do lado dos cristãos contra esses mouros. A Galiza foi uma zona onde essa luta foi mais renhida e devastadora. Antes de terminar o século VIII, por efeito do recuo dos mouros, divididos por guerras internas, a Península Ibérica tinha duas zonas, cujo limite passava, aproximadamente, por Coimbra, seguia o curso do Mondego por Talavera, Toledo, Tudela e Pamplona. As populações não estavam submetidas a nenhuma organização definida permanente, a não ser ao clero.
Em situação de constante conflito, a guerra e a vida cotidiana foram fortemente interligados durante este período. Pequenos exércitos, levemente equipados reflete como a sociedade tinha que estar em estado de alerta em todos os momentos. Estas forças são capazes de percorrer grandes distâncias em tempos curtos, permitindo um rápido retorno para casa depois de eliminar e saquear um alvo. As batalhas que tiveram lugar foram, principalmente entre clãs, expulsando exércitos intrusos ou expedições de saque e pilhagem. No contexto do relativo isolamento da Península Ibérica do resto da Europa, e o contato com a cultura mourisca, as diferenças geográficas e culturais implicava o uso de estratégias militares, táticas e equipamentos que eram marcadamente diferentes daqueles encontrados no restante da Europa Ocidental durante este período. Os exércitos ibéricos medievais foram compostos principalmente de dois tipos de forças: a cavalaria (principalmente de nobres, mas incluindo os cavaleiros vilões a partir do século X) e a infantaria ou os peões (os camponeses). A infantaria somente iria para a guerra, se era necessário, o que não era comum.
Imagem: No machine-readable author provided. Phi-Gastrein~commonswiki assumed (based on copyright claims). · BY-SA · Openverse
As táticas ibéricas de cavalaria envolvem os cavaleiros que se aproximavam do inimigo e atirando dardos, antes de retirar-se para uma distância segura, antes de iniciar um outro assalto. Uma vez que a formação dos inimigos estava suficientemente enfraquecida, os cavaleiros encarregados de empunhar lanças (as lanças pesadas não chegariam a Hispânia até o século XI). Havia três tipos de cavaleiros: os cavaleiros reais, os nobres cavaleiros (os cavalheiros fidalgos) e os cavaleiros plebeus (os cavalheiros vilões). Os cavaleiros reais eram principalmente nobres com uma estreita relação com o rei, e, portanto, reivindicavam uma herança gótica direta. Os cavaleiros reais foram equipados da mesma maneira como seus antecessores góticos — os braceletes, o escudo pipa, uma espada longa (projetado para lutar a partir do cavalo) e, assim como os dardos e as lanças, um machado de origem gótico similar à francisca dos francos. Os cavaleiros nobres vieram das fileiras dos nobres menores, enquanto os cavaleiros plebeus não eram nobres, mas eram ricos o suficiente para pagar um cavalo. Excepcionalmente, na Europa, esses cavaleiros compreendeu uma força de cavalaria de milícia sem ligações feudais, estando sob o controle exclusivo do rei ou a contagem de Castela por causa das "charters" (ou foros). Os cavaleiros entre nobres e plebeus usavam armaduras de couro e levava dardos, lanças e escudos redondos (influência dos escudos mouriscos), bem como uma espada.
Imagem: CarlosVdeHabsburgo · BY-SA · Openverse
Este estilo de guerra permaneceu dominante na Península Ibérica até o final do século XI, quando expressa as táticas da lança pesada de cavalaria pesada chegaram da França, embora as técnicas tradicionais de arremessos de dardos com cavalos continuaram a ser usados. Nos séculos XII e XIII, os soldados normalmente carregavam uma espada, uma lança, um dardo, e quer um arco e flechas ou uma besta e virotes/setas. A armadura consistia de uma cota de malha sobre um casaco de couro acolchoado, estendendo-se pelo menos até os joelhos, um elmo ou um capacete de ferro, e as braçadeiras para proteger os braços e os coxetes para as coxas, feitos de couro ou metal. Os escudos eram redondos ou triangulares, feito de madeira, coberto com couro, e protegido por uma faixa de ferro, os escudos dos cavaleiros e nobres suportaria o emblema de armas da família. Os cavaleiros andavam tanto no estilo muçulmano, a la ginete (ou seja, o equivalente a um assento de jóquei moderno), um cinto de estribo curto e joelhos permitidos para um melhor controle e velocidade, ou no estilo francês, a la brida, uma cinta de estribo longo permitiu mais segurança na sela (ou seja, o equivalente ao assento de cavalaria moderna, que é mais seguro) quando atua como uma cavalaria pesada. Os cavalos foram ocasionalmente também equipados com uma cota de malha.
As razias eram feitas nos lugares onde os saques podiam ser compensadores, e o facto de se repetirem várias vezes mostra que as populações estavam enraizadas. À aproximação dos soldados (umas vezes mouros, outras vezes cristãos), os aldeões faziam como em Coimbra: refugiavam-se nos montes e voltavam depois para construir novas choupanas e continuar as sementeiras. E estas dificuldades iam fortalecendo o poder popular. As condições sociais desta época são pouco conhecidas. Apesar disso, há indicações de conflitos sociais violentos entre os servos e os senhores feudais. A Crónica Sebastianense e a crónica Albeldense falam-nos de uma revolta de libertinos, isto é, descendentes de antigos escravos. Diz que se revoltaram contra os senhores mas foram vencidos e «reconduzidos à escravidão». Em alguns casos, as populações revoltavam-se após a incorporação dos territórios em que habitavam no domínio cristão. Essas revoltas não eram de carácter religioso: não existem indícios de uma profunda adesão dos povos ao credo islâmico. Mas os «reconquistadores» não aceitavam as organizações dos vizinhos que, entretanto, se tinham enraizado.
Santiago Mata-Mouros
De acordo com outras tradições, Santiago teria aparecido miraculosamente em vários combates travados em Hispânia durante a Reconquista Cristã, sendo a partir de então apelidado de Matamoros (Mata-Mouros). Santiago y cierra España foi desde então o grito de guerra dos exércitos da Península. Santiago era também protector do exército português até à crise de 1383-1385, altura em que o seu brado foi substituído pelo de São Jorge, trazido pelos ingleses contra as hostes castelhanas.
O primeiro reino cristão foi o das Astúrias, fundado por Pelágio, e mais tarde o Reino de Leão. Nos princípios do século X, a província de Navarra tornou-se independente, formando o Reino de Navarra. Os reis ásturo-leoneses foram alargando os domínios cristãos que atingiram o rio Mondego (Afonso III de Leão, e, ao mesmo tempo, iam repovoando terras e reconstruindo igrejas e mosteiros, ficando célebre na parte ocidental o Mosteiro de Guimarães – com grandes propriedades rústicas e muitos castelos por todo o norte do país. Porém, já no século X, as discórdias entre os chefes cristãos enfraqueceram o reino, e Almançor tomou a ofensiva destruindo Leão, a capital, e reduzindo o reino cristão ao último extremo. No século XI, Sancho de Pamplona, rei de Navarra, anexou o condado de Castela e, por sua morte, os seus estados foram divididos pelos três filhos, sendo nessa altura os condados de Aragão e de Castela elevados à categoria de reinos. O reino de Castela coube a Fernando I, o Magno, mas este em breve se apoderou também do reino de Leão.
Portugal na Reconquista
D. Afonso Henriques, filho de D. Henrique e D. Teresa, iria revoltar-se contra a sua mãe, conquistando a Independência de Portugal e retomando a reconquista portuguesa autonomamente. Desde o início do Condado de Portucale e do Reino de Portugal, documentamos os seguintes acontecimentos e batalhas: * — Considerada lendária pela historiografia moderna
Imagem: Original Madman2001. Arrows, frontiers, etc: Chabacano · BY-SA · Openverse
A cronologia da reconquista pode ser dividida em três fases: A primeira fase é de hegemonia muçulmana 722-1085; A segunda fase é de equilíbrio cristão-muçulmano 1085-1212; A terceira fase é de hegemonia cristã 1212-1492;


