Monogamia
Monogamia é uma forma de relacionamento em que um indivíduo tem apenas um parceiro, seja sexual ou romântico, durante a sua vida ou durante períodos, diferente da poligamia ou do poliamor. O termo também é aplicado ao comportamento social de alguns animais, que têm apenas um companheiro sexual por vez. Esta não deve ser confundida com a monossexualidade.
A palavra monogamia vem do grego μονός, monos, o que significa "um" ou "sozinho", e γάμος, gamos, que significa casamento.
Incidência de monogamia social
De acordo com o Atlas Etnográfico, das 1231 sociedades analisadas em todo o mundo, 186 eram monogâmicas, 453 tinham poliginia ocasional, 588 tinha poliginia com mais frequência e quatro tiveram registros de poliandria. No entanto, isso não leva em conta a população relativa de cada uma das sociedades estudadas e a prática da poligamia em uma sociedade tolerante pode realmente ser baixa, sendo que a maioria dos polígamos praticam também o casamento monogâmico. Muitas sociedades que consideramos monogâmicas na verdade permitem um processo de divórcio simples e rápido. Em muitos países ocidentais, as taxas de divórcio se aproximam de 50%. Aqueles que se casam acabam por casar novamente, em média, três vezes ao longo da vida. O divórcio e um novo casamento podem, portanto, resultar na chamada "monogamia em série", ou seja, múltiplos casamentos, mas apenas um de cada vez. Isto pode ser interpretado como uma forma de acasalamento plural, como são aquelas em sociedades dominadas por famílias chefiadas por mulheres no Caribe, Ilhas Maurícias e no Brasil, onde há rotação frequente de parceiros não casados.
Incidência de monogamia sexual
A incidência da monogamia sexual pode ser grosseiramente estimada pela porcentagem de pessoas casadas que não se envolvem em relações sexuais extraconjugais. O "Standard Cross-Cultural Sample" descreve a quantidade de sexo extraconjugal feito por homens e mulheres em mais de 50 culturas pré-industriais. A quantidade de sexo extraconjugal por homens é descrita como "universal" em seis culturas, "moderada" em 29 culturas, "ocasional" em seis culturas e "incomum" em 10 culturas. A quantidade de sexo extraconjugal por mulheres é descrita como "universal" em seis culturas, "moderada" em 23 culturas, "ocasional" em nove culturas e "incomum" em 15 culturas. Estes resultados apoiam a alegação de que a quantidade de sexo extraconjugal difere entre culturas e sexos diferentes.
Incidência de monogamia genética
A incidência de monogamia genética pode ser estimada a partir de taxas de paternidade extrapar, que é quando a prole criada por um casal monogâmico vêm do acasalamento da mulher com outro homem. As taxas de paternidade extrapar não têm sido extensivamente estudadas na população. Muitos relatos de paternidade extrapar são pouco mais de cotações com base em boatos, anedotas e em resultados não publicados. Simmons, Firman, Rhodes e Peters avaliaram 11 estudos publicados sobre paternidade extrapar em vários locais nos Estados Unidos, França, Suíça, Reino Unido, México e entre os ianomâmis da América do Sul. As taxas de paternidade extrapar variaram de 0,03% a 11,8%, embora a maioria dos locais tenham tido baixas percentagens. A taxa média deste tipo de paternidade foi de 1,8%. Uma análise separada de 17 estudos por Bellis, Hughes, Hughes e Ashton encontrou taxas ligeiramente superiores de paternidade extrapar. As taxas variam de 0,8% a 30% nesses estudos, com uma taxa média de 3,7%. Uma gama de 1,8% a 3,7% de paternidade extrapar implica uma gama de 96% a 98% de monogamia genética. Embora a incidência de monogamia genética possa variar de 70% a 99% em diferentes culturas ou ambientes sociais, uma grande percentagem de casais permanecerem geneticamente monogâmicos durante as suas relações. Um artigo que revisou outros 67 outros estudos relatou que a paternidade extrapar em diferentes sociedades que varia de 0,4% a mais de 50%.
Argumentos biológicos
A monogamia, ou pelo menos a monogamia social, não existe em muitas sociedades ao redor do mundo, o que é importante para entender como esses sistemas de casamento podem ter evoluído. Em todas as espécies, há três aspectos principais que se combinam para promover um sistema de acasalamento monogâmico: cuidados parentais, o acesso a recursos e a escolha de um companheiro. No entanto, em seres humanos, as principais fontes teóricas da monogamia são o cuidado parental e as tensões ecológicas extremas. O cuidado parental deve ser particularmente importante em humanos devido à exigência nutricional extra de terem cérebros maiores e um período de desenvolvimento mais longo. Portanto, a evolução da monogamia pode ser um reflexo deste aumento da necessidade de cuidar da prole. Da mesma forma, a monogamia deve evoluir em áreas de tensão ecológica, porque o sucesso reprodutivo masculino deve ser maior se os seus recursos estão focados em garantir a sobrevivência da prole ao invés de procurar outros companheiros. No entanto, as evidências não apoiam estas alegações. Devido à sociabilidade extrema e ao aumento da inteligência dos humanos, o Homo sapiens têm resolvido muitos dos problemas que geralmente levam a monogamia, como os mencionados acima. Por exemplo, a monogamia é certamente correlacionada com o cuidado parental, como mostrado por Marlowe, mas não é causada por ele, é causada porque os seres humanos diminuem a necessidade de cuidados parentais do casal com a ajuda de irmãos e outros membros da família na criação dos filhos. Além disso, a inteligência humana e a cultura material permitem uma melhor adaptação a diferentes e hostis áreas ecológicas, reduzindo, assim, o nexo de causalidade e até mesmo de correlação do casamento monogâmico e dos climas extremos.
Argumentos culturais
Apesar da capacidade humana de evitar a monogamia sexual e genética, a monogamia social ainda se desenvolve em muitas condições diferentes, mas a maioria dessas condições são consequências de processos culturais. Estes processos culturais podem não ter nada a ver com o sucesso reprodutivo relativo. Por exemplo, o estudo comparativo do antropólogo Jack Goody utilizando o Atlas Etnográfico, demonstrou que a monogamia é parte de um complexo cultural encontrado na ampla faixa de sociedades da Eurásia, entre Japão e Irlanda, que praticam a monogamia social, a monogamia sexual e o dote. Goody demonstra uma correlação estatística entre este complexo cultural e o desenvolvimento da agricultura, com o arado intensivo nessas áreas. Com base na obra de Ester Boserup, Goody observa que a divisão sexual do trabalho varia na agricultura por arado intensivo e horticultura de deslocamento. Na agricultura com arado, em grande parte o trabalho é dos homens e está associado com a propriedade privada; o casamento tende a ser monogâmico para manter a propriedade dentro da família nuclear. Perto da família (endogamia) estão os parceiros de casamento preferidos para manter a propriedade dentro do grupo. Um estudo genético molecular da diversidade genética humana global argumentou que a poligamia sexual era típica e comum em padrões reprodutivos humanos até a mudança para as comunidades sedentárias agrícolas, aproximadamente 10 000 a 5 000 anos atrás, na Europa e na Ásia, e mais recentemente na África e na América. Um outro estudo com base no Atlas Etnográfico mostrou uma correlação entre o aumento do tamanho da sociedade, a crença em deuses para apoiar a moralidade humana e a monogamia. Um estudo de outras amostras transculturais confirmou que a ausência do arado era o único preditor da poligamia, embora outros fatores, como a alta mortalidade masculina em guerras (em sociedades sem Estado) e o estresse (patógeno nas sociedades com Estado), também tivessem algum impacto.
A monogamia enquanto modelo de relacionamento idealizado é parte da cultura de algumas das sociedades mais populosas do mundo, como as das nações ocidentais. Trata-se do único modelo de relacionamento que hoje em dia é recomendado pelas mais diversas doutrinas do cristianismo e do judaísmo, apesar de essas religiões terem em suas escrituras narrativas com personagens poligâmicos em posições bastantes privilegiadas, como a história do Rei Salomão, alegadamente o rei mais rico de seu período, considerado pela tradição o homem mais sábio de todos e que, pelo que se tem conhecimento no capítulo 11 do Primeiro Livro dos Reis, casou-se com 700 esposas e 300 concubinas. O casal monogâmico Judith Lipton (psiquiatra) e David Barash (psicólogo) pesquisaram o tema da monogamia numa perspectiva biológica e consideram que ela é possível (usando seu próprio relacionamento como exemplo) mas não é a forma de relação que eles consideram o mais próximo da natureza do corpo humano, devido ao milhares de anos que a espécie, antes da agricultura, viveu em grupos de caçadores-coletores com práticas sexuais mais abertas dentro dos grupos.


