Marquesado de Gótia
O ducado da Gótia ou marquesado da Gótia é o nome que os francos deram aos territórios conquistados aos muçulmanos entre 759 e 801 e que anteriormente tinham sido províncias do Reino Visigótico. A Gótia era constituída por toda a antiga Septimânia visigótica e pela parte norte da Tarraconense visigótica, enquanto a parte sul da antiga província permaneceu sob domínio islâmico. A campanha de conquista iniciou-se com o cerco de Narbona, prosseguiu do outro lado dos Pirenéus com o cerco de Girona (785), continuou com o cerco de Barcelona, mas não pôde culminar com a tomada de Tortosa, consolidando-se deste modo a fronteira do Llobregat. O ducado não estava sob a jurisdição única de um duque, mas, entre os vários condes nomeados pelos reis francos, aquele que detinha maior poder recebia o título honorífico de Dux. Com a extinção da dinastia carolíngia e a crise da monarquia franca, os condes situados a sul das Corbieres afirmaram a sua independência relativamente aos monarcas francos da nova dinastia capetiana, enquanto os territórios da antiga Septimânia visigótica permaneceram sob obediência franca, ficando a denominação de Marquesado da Gótia restringida a este território transpirenaico.
A Tarraconense, como boa parte da organização territorial romana, continuou a ser uma das divisões administrativas do Reino Visigótico ao longo dos séculos VI e VII. A Tarraconense foi utilizada como base pelos diferentes reis visigodos para defender as suas possessões da Gallia Narbonensis e travar os ataques promovidos pelos reis francos da antiga Gália.
Os duces provinciais
O governador visigótico de uma província era o dux provinciae; as competências de que gozava eram basicamente de ordem militar. Existem escassos dados sobre as funções dos governadores provinciais godos (denominados dux, no plural duces, isto é, dux provinciae ou duces provinciarum). As províncias eram frequentemente designadas ducatus. Os duces tinham autoridade sobre toda a província e sobre os condes (comites) das cidades. Ignora-se se tinham funções judiciais, embora se saiba que, em alguns casos, quando, pela personalidade dos indivíduos julgados, o assunto era submetido ao rei, este podia delegá-lo no dux ou no conde. Parece que a sua principal função era militar e que tinham o comando de um exército que constituía o maior contingente de tropas da província (os condes também dispunham de contingentes locais). O número de soldados do dux em tempo de paz é estimado em cerca de trezentos, enquanto os contingentes dos condes eram provavelmente de uma centena. Embora os cidadãos romanos estivessem excluídos de algumas funções, suspeita-se que pudessem tornar-se duques provinciais, conhecendo-se o nome romano de um dux (concretamente Cláudio ou Claudius, dux da Lusitânia, embora, apesar de ter um nome claramente romano, não exista evidência de que não fosse um godo que tivesse adotado um nome romano ao converter-se ao catolicismo). O facto de o cargo poder ser exercido por romanos e de o dux ter o comando das tropas confirmaria que não existia qualquer receio da hostilidade da população romana. Parece provável que os romanos não pudessem exercer o cargo de conde devido ao seu presumível desconhecimento das leis e costumes godos, que, pelas suas funções judiciais, era necessário conhecer.
Os comes municipais
A mais alta autoridade local visigótica era o comes civitatis, «conde da cidade», com jurisdição sobre os habitantes de nacionalidade visigótica de uma cidade e sobre o território circundante dela dependente, enquanto os habitantes romanos ou hispanos dispunham das suas próprias autoridades. Por isso, crê-se que apenas existiam condes nas cidades onde havia cidadãos visigodos. Assim, existiam condes, mas não havia uma divisão em condados, mas sim em territórios, dos quais alguns tinham conde e outros não. O conde da cidade era nomeado pelo rei e normalmente tinha de ser um homem rico e de nascimento nobre. Os condes recebiam um salário do tesouro público e não podiam fixar tributos sobre os cidadãos romanos. A principal função do conde era de carácter militar, estando sob o seu comando a guarnição militar da localidade e tendo controlo direto sobre o principal oficial militar, o Thiufadi. O conde tinha também funções administrativas, nas quais era auxiliado por um funcionário denominado vicarius. O vicarius não podia impor tributos aos romanos nem confiscar propriedades sem ordem judicial. Paralelamente à sua função militar e administrativa, o conde também tinha jurisdição sobre casos civis e criminais, mas deixava a maioria dos casos, sobretudo os civis, ao iudex loci. Alguns casos eram julgados pelo conde e pelo iudex loci conjuntamente, enquanto o conde tinha direito de recurso sobre as decisões do juiz local, de modo que, se alguém recorresse das decisões de um juiz, tinha de atender ao pedido. Do mesmo modo, o conde podia punir o juiz local se este negligenciasse os seus deveres. Por sua vez, os delitos cometidos por godos tinham de ser denunciados tanto perante o conde como perante o iudex loci. A detenção competia a este último, mas, se não pudesse realizá-la, estava autorizado a solicitar ajuda ao conde, que lha devia prestar, facultando-lhe homens armados.
Os muçulmanos desembarcaram em 711 em Gibraltar e pouco depois venceram os visigodos na Batalha de Guadalete. Com a destruição do Reino Visigótico, o sistema de administração territorial da Hispânia herdado do Império Romano desapareceu e, com ele, a província Tarraconense. Ainda assim, a zona oriental desta serviu como último bastião de resistência aos dois últimos monarcas visigodos, Áquila II (711–713) e Ardão (713–720). Na primavera de 714, os muçulmanos chegaram ao vale do Ebro e, uma vez assegurada a retaguarda através da submissão de Córdova, Sevilha, Mérida e Toledo, a ocupação do território passava pelo domínio dos centros urbanos mais importantes do Reino Visigótico, entre eles Cesaraugusta. A entrada dos muçulmanos em Cesaraugusta foi pacífica, mas alguns nobres visigodos e altos dignitários eclesiásticos fugiram para os Pirenéus. Depois da conquista da Tarraconense, o vali da Hispânia, Al-Samh ibn Malik al-Khawlani, invadiu a Gália Narbonense, estabelecendo a sua capital em Narbona em 720, oferecendo aos habitantes condições generosas e uma rápida pacificação das outras cidades. Com Narbona assegurada, e sobretudo com o seu porto, os marinheiros árabes dominavam o Mediterrâneo ocidental, submetendo rapidamente as cidades controladas pelos condes visigodos. Em 721 chegaram reforços para preparar o cerco de Toulouse, que era a chave para dominar a Gália Aquitânia nas mesmas condições que a Gália Narbonense, mas estes planos falharam devido à derrota na Batalha de Toulouse (721). As forças árabes, solidamente instaladas na Gália Narbonense e facilmente abastecidas por mar, continuaram a atacar para leste, chegando até Autun em 725. Em 731, o vali berbere de Narbona e da região da Cerdanha, Uthman ibn Naissa, rebelou-se contra Abderramão ibne Abdalá, devido à opressão sofrida pelos berberes no norte de África, e estabeleceu uma trégua com o duque da Aquitânia Eudo, o Grande. Em represália, al-Ghafiqi enviou uma missão para capturar Uthman, que, durante o Combate de Llívia, ficou cercado e foi morto.
Em 732, al-Ghafiqi retomou a ofensiva contra o reino dos francos e escolheu a rota de Pamplona e Roncesvales para penetrar na Gália Aquitânia. Depois da Batalha de Bordéus, conquistou a cidade e saqueou-a com violência. O duque da Aquitânia, Eudo, o Grande, saiu ao encontro dos invasores quando estes atravessavam o rio Dordonha, mas foi derrotado na Batalha do Garona, razão pela qual se viu obrigado a recompor a sua relação com Carlos Martel, oferecendo-lhe submissão e ajuda para fazer frente aos muçulmanos. Carlos Martel enviou rapidamente um exército enquanto Al-Ghafiqi avançava sem encontrar resistência. Depois de saquear a região de Poitiers, Al-Ghafiqi prosseguiu o avanço para norte, em direção à abadia de São Martinho de Tours, mas, no caminho entre Poitiers e Tours, foram-lhe ao encontro as forças do duque Eudo e os reforços enviados por Carlos Martel, travando-se a decisiva Batalha de Tours em outubro de 732. As tropas árabes foram derrotadas e Al-Ghafiqi morreu. Os sobreviventes retiraram-se em desordem para Narbona. Depois da Batalha de Tours, as novas agressões dos muçulmanos na zona de Arles e a aliança de Mauronte com Iúçufe ibne Abderramão Alfiri contra os francos obrigaram Carlos Martel a promover uma nova expedição, reunindo um grande exército de francos e borgonheses que se apoderou de Avinhão. Depois de tomar a cidade, Carlos Martel atravessou o Ródano e entrou na Gália Narbonense, onde iniciou o cerco de Narbona em 737, cidade que finalmente não conseguiu tomar. Em 742, a eclosão da Revolta berbere do Valiado de al-Andalus e a posterior Revolta iemenita do Valiado de al-Andalus em 745 desembocaram na reconquista omíada de 756.
Os francos nomearam conde de Barcelona Berá I, filho de Guilherme de Toulouse. Nesta expedição também tinha sido conquistado o Castelo de Terrassa, o núcleo populacional mais importante depois de Barcelona e que dominava o Vallès. Deste modo, a fronteira do Llobregat foi fortemente reforçada e, posteriormente, fizeram-se três tentativas falhadas de conquista de Tortosa, em 804, 807 e 808, e de Huesca nos anos 807 e 812. A primeira expedição para levar a fronteira até ao Ebro foi dirigida por Luís I, o Piedoso, e chegou a Tarragona, destruindo algumas aldeias. Quando Aláqueme I soube do ataque, ordenou ao infante Abderramão ibne Aláqueme que reunisse as tropas de Saragoça com as do vali de Valência e enfrentasse o invasor. Os francos dividiram-se num lugar chamado Santa Columba, em dois corpos de exército. Um era comandado pelo próprio Luís, que marchou em direção a Tortosa, e o outro era comandado por Berá, Ademar de Narbona e Borrell I de Osona, cobrindo o flanco ocidental e devendo atacar Tortosa pelo sul. A secção de Berá atravessou o Ebro perto da confluência com o Cinca e chegou a Vila-Rubea, mas os ataques dos muçulmanos obrigaram-nos a retirar-se, ficando à beira de serem aniquilados num lugar chamado Vallis Ibana, talvez Vallibona, perto de Morella. Conseguiram reunir-se com Luís, que entretanto tinha estado a cercar Tortosa durante oito dias sem qualquer resultado, e todos juntos retiraram-se para norte.
O marchio ou dux da Gótia
No reino dos francos, a denominação Gótia começou a ser utilizada por volta do século IX e esteve em vigor até à primeira metade do século X, desaparecendo progressivamente no início do século XII. O governador da Gótia ostentava o título de marchio ou dux; o primeiro governante a utilizá-lo foi o godo Sunifredo (?–848), conde de Barcelona, Cerdanha e Urgel, e de Narbona, e pai de Vifredo, o Cabeludo; e o último governante que se intitulou dux da Gótia foi o seu descendente, o conde Borrell II (927–992). A intitulação de dux tinha conotações militares e era adotada por um dos condes das cidades quando tinha sob o seu poder vários condados; quando estes eram fronteiriços do reino franco, era também intitulado marquês.
Os comes municipais
A mais alta autoridade local visigótica era o comes civitatis, «conde da cidade», com jurisdição sobre os habitantes de nacionalidade visigótica de uma cidade e sobre o território circundante dela dependente, enquanto os habitantes romanos ou hispanos dispunham das suas próprias autoridades. Por isso, crê-se que apenas existiam condes nas cidades onde havia cidadãos visigodos. Assim, existiam os condes, mas não havia uma divisão em condados, mas sim em territórios, dos quais alguns tinham conde e outros não. O conde da cidade era nomeado pelo rei e normalmente tinha de ser um homem rico e de nascimento nobre. Os condes recebiam um salário do tesouro público e não podiam fixar tributos sobre os cidadãos romanos. A principal função do conde era de carácter militar, estando sob o seu comando a guarnição militar da localidade e tendo controlo direto sobre o principal oficial militar, o Thiufadi. Do mesmo modo, o conde tinha funções administrativas, nas quais era auxiliado por um funcionário denominado vicarius. O vicarius não podia impor tributos aos romanos nem confiscar propriedades sem ordem judicial. Paralelamente à sua função militar e administrativa, o conde também tinha jurisdição sobre casos civis e criminais, mas deixava a maioria dos casos, sobretudo os civis, ao iudex loci. Alguns casos eram julgados conjuntamente pelo conde e pelo iudex loci, enquanto o conde tinha direito de recurso sobre as decisões do juiz local, de modo que, se alguém recorresse das decisões de um juiz, o conde tinha de atender ao pedido. Do mesmo modo, o conde podia punir o juiz local se este negligenciasse os seus deveres. Por sua vez, os delitos cometidos por godos tinham de ser denunciados tanto perante o conde como perante o iudex loci. A detenção competia a este último, mas, se não pudesse realizá-la, estava autorizado a solicitar ajuda ao conde, que lha devia prestar, facultando-lhe homens armados.
O sistema comtal carolíngio
Predefinição:Infotaula As necessidades de defesa da fronteira propiciavam a concentração de poder em poucas mãos, de modo que os reis carolíngios se habituaram a confiar vários condados, por vezes quase toda a portione Hispaniae, a um único conde. Assim, houve condes de grande poder, mas nunca um só governou todos os condados. Os condes dependiam do monarca, que os nomeava, e mantinham contacto com ele por meio de embaixadores ou diretamente quando participavam nas assembleias gerais do reino. Como representantes do monarca, dirigiam os assuntos administrativos, sobretudo de ordem fiscal, comandavam o exército, garantiam a ordem pública e eram responsáveis pela administração da justiça. Para desempenhar estas funções dispunham de colaboradores, que a chancelaria carolíngia considerava funcionários (personae publichae).
A guerra civil dos francos e a revolta de Bernardo de Septimânia
Mas quatro décadas depois a unidade do Império Carolíngio rompeu-se devido às lutas dinásticas entre os sucessores do imperador Carlos Magno. Assim, no ano 840, após a morte do imperador Luís I, o Piedoso, eclodiu a guerra entre os seus filhos pela posse do vasto império. Os irmãos mais novos Carlos II, o Calvo e Luís, o Germânico aliaram-se contra o filho primogénito, Lotário I, e o seu aliado Pepino II da Aquitânia. Estes foram derrotados na Batalha de Fontenoy-en-Puisaye em 25 de junho de 841. Um dos aliados do filho primogénito Lotário I tinha sido Bernardo de Septimânia, conde de Barcelona, Girona, Narbona, Béziers, Agde, Magalona, Nimes e Toulouse. Este não quis participar na batalha final porque, pouco antes, o candidato pelo qual lutava, Lotário I, tinha mandado executar os seus irmãos. Depois da derrota, Lotário I, o seu aliado Pepino II da Aquitânia, refugiou-se nas terras de Bernardo de Septimânia; este decidiu enviar o seu filho Guilherme de Septimânia para oferecer a sua obediência ao vencedor, Carlos II, o Calvo, prometendo que conseguiria que Pepino II da Aquitânia também lhe prestasse obediência.
O assassinato do conde visigótico Sunifredo, pai de Vifredo, o Cabeludo
Depois da execução do cavaleiro franco Bernardo de Septimânia em 844, Carlos II, o Calvo concedeu os condados de Barcelona, Girona, Narbona, Nimes, Agde, Béziers e Magalona a um cavaleiro visigótico, Sunifredo I de Urgel, conde de Urgel e Cerdanha e pai de Vifredo, o Cabeludo. Este teve de prosseguir a luta contra Guilherme de Septimânia, filho do decapitado Bernardo, e o seu aliado Pepino II da Aquitânia, enquanto, no ano seguinte, travava a incursão muçulmana de 845. Em 848, Guilherme de Septimânia apoderou-se do Condado de Barcelona e do Condado de Empúries, capturando Sunifredo I de Urgel e Sunier I de Empúries, que mandou executar. No verão de 849, Carlos II, o Calvo, contra-atacou e invadiu a Aquitânia. Pepino II da Aquitânia e Guilherme de Septimânia fugiram, e Carlos investiu o franco Alerão como conde de Barcelona, Empúries e Rossilhão e marquês de Septimânia; ao cavaleiro Vifredo I de Girona investiu-o como conde de Girona e Besalú, e ao cavaleiro Salomão como conde de Cerdanha, Urgel e Conflent.
As incursões muçulmanas e os ataques vikings
Perante a contraofensiva de Carlos II, o Calvo, Guilherme de Septimânia pediu auxílio ao emir Abderramão II; no ano seguinte, em 850, depois da partida de Carlos II, o Calvo, Guilherme de Septimânia contra-atacou novamente e apoderou-se de Barcelona com soldados muçulmanos comandados por Abd al-Karim ibn Abd al-Wahid ibn Mughith; passou depois a cercar Girona, que não conseguiu submeter. Informado da nova rebelião, Carlos II, o Calvo, enviou reforços para o sul e, finalmente, Guilherme de Septimânia foi derrotado, sendo capturado e executado em Barcelona por nobres partidários do rei Carlos II, o Calvo. No ano seguinte, os muçulmanos vingaram a execução de Guilherme de Septimânia e lançaram a incursão de 851, que devastou completamente a cidade de Barcelona. Em 859 começou um dos ataques vikings mais espetaculares; Björn Järnsida e Hastein comandaram sessenta e dois navios em direção ao Mediterrâneo. Repelidos pelos muçulmanos na costa ocidental da Península Ibérica, depois de saquearem Algeciras, atravessaram o Estreito de Gibraltar, atacando a costa oriental peninsular e as Ilhas Baleares. Durante o inverno estabeleceram-se na Camarga, saqueando o vale do Ródano, apoderando-se de Elne, Santa Maria d'Arles, Sant Genís de Fontanes e devastando Empúries, chegando talvez até Banyoles.
Vifredo, «o Cabeludo», conde de Urgel e Cerdanha
Está documentado que Salomão foi conde de Urgel, Cerdanha e Conflent até 868, ano a partir do qual desaparece da documentação. Está também documentado que, em 873, Vifredo, o Cabeludo, se intitulava conde e, por documentos posteriores, que se intitulava conde de Urgel, conde de Cerdanha e conde de Conflent, os mesmos condados que tinham estado nas mãos de Salomão. Porém, o que não está documentado é quando, porquê ou como Vifredo, o Cabeludo, se apoderou dessas terras. A Lenda de Vifredo, o Cabeludo sustenta que magnatas francos tinham assassinado Vifredo de Arria, pai lendário de Vifredo, o Cabeludo, facto que coincide com a realidade, pois Sunifredo de Urgel, o verdadeiro pai de Vifredo, o Cabeludo, foi assassinado pelo magnata franco Guilherme de Septimânia. Depois, a lenda continua explicando que o condado de Barcelona tinha sido usurpado por um magnata franco chamado Salomão e que, quando Vifredo, o Cabeludo, regressou a Barcelona, matou o conde intruso Salomão e recuperou o condado de Barcelona. Os factos coincidem parcialmente com a lenda, pois existiu um nobre franco chamado Salomão, que era conde, não de Barcelona, mas de Urgel, e que em 868 desaparece da documentação histórica, sendo substituído por Vifredo, o Cabeludo.
Capitular de Quierzy (877)
Chamado a socorrer o Papa João VIII, ameaçado pelos muçulmanos, Carlos II, o Calvo empreende uma expedição a Itália. Previamente, reúne uma assembleia em Quierzy para controlar o bom andamento do seu império. Nessa mesma assembleia foram promulgados dois capítulos que regulariam a questão das honras laicas e eclesiásticas durante aquele período: Depois de promulgar esta capitular, Carlos II, o Calvo iniciou a sua viagem, mas, quando se encontrava a meio da expedição, foi informado da revolta de vários magnatas, empreendendo imediatamente a viagem de regresso; Carlos II, o Calvo morreu em 6 de outubro de 877. Porém, este alcance temporal e contextual tornou-se definidor e os dois artigos foram considerados fundadores do feudalismo, pois instituíam legalmente a hereditariedade das honras, algo que até então era uma Potestas (poder) reservada à coroa imperial.
A revolta do conde franco Bernardo de Gótia
Em 865, o rei Carlos II, o Calvo tinha investido o magnata franco Bernardo como conde de Barcelona, Rossilhão, Narbona, Agde, Béziers, Magalona e Nimes. Porém, em setembro de 877, aproveitando a partida do rei para Itália, ocorreu uma rebelião geral dos nobres francos contra a política do rei; a grande coligação de magnatas francos era encabeçada por Bosão V da Provença, Bernardo Plantevelue, o Abade Hugo de Nêustria e Bernardo de Gótia. Alertado para a rebelião, Carlos II, o Calvo, decidiu regressar aos seus domínios, mas morreu em 6 de outubro de 877. Ainda assim, os rebeldes continuaram a lutar contra as tropas fiéis ao filho do rei, Luís II, o Gago. Vifredo, o Cabeludo, e os seus irmãos Sunifredo e Miró, o Velho permaneceram fiéis ao filho de Carlos II, o Calvo e, dispostos a combater a rebelião, avançaram pela Septimânia, onde eliminaram os nobres fiéis a Bernardo de Gótia, unindo as suas tropas às do visconde Lindoí de Narbona; o conde Vifredo, o Cabeludo, e o visconde Lindoí devastaram as terras de Bernardo de Gótia, ocuparam os seus castelos e expulsaram das igrejas os sacerdotes partidários do rebelde Bernardo. Finalmente, o bispo Hincmaro de Reims persuadiu os líderes Bosão V da Provença, o Abade Hugo de Nêustria e Bernardo Plantevelue a abandonarem a rebelião, que apenas foi mantida por Bernardo de Gótia com o apoio dos seus familiares. Luís II, o Gago, filho e sucessor do falecido rei Carlos, foi coroado em 8 de dezembro de 877 e, pouco depois, as tropas leais ao rei conseguiram submeter os familiares de Bernardo de Gótia.
Lealdade aos Carolíngios. Vifredo, o Peludo, conde de Barcelona e Girona
Em 11 de agosto de 878 reuniu-se o Concílio de Troyes, convocado pelo papa João VIII. Neste concílio estiveram presentes os bispos de Barcelona, de Girona, de Elna e de Urgel como principais personalidades eclesiásticas da Gótia. As primeiras sessões do concílio foram dedicadas a questões de ordem religiosa, e em 7 de setembro de 878 realizou-se a solene coroação do novo rei Luís II de França, que já havia sido consagrado no ano anterior. Os Anais de São Bertino registam que depois prosseguiram as sessões políticas e, em 11 de setembro de 878, foram repartidos os honores (propriedades) do derrotado Bernardo de Gótia: Barcelona, Rossilhão, Narbona, Béziers, Nimes e Magalona. Os principais beneficiários foram potentados francos, mas os Anais também assinalam que houve «outros dispostos secretamente», sem especificar os seus nomes. O historiador Léonce Auzias sustenta a teoria de que entre esses «outros dispostos secretamente» estaria Vifredo, o Peludo, que recebeu Barcelona e Girona, e o seu irmão Mirão, o Velho, que recebeu o Rossilhão; fundamenta a sua teoria no facto de que, pouco depois do Concílio de Troyes, são estes que aparecem como detentores destes condados. Josep Maria Salrach i Marès coincide com a teoria que aponta para uma investidura legal e observa que, tal como quando Vifredo recebeu os condados de Urgel e Cerdanha cedeu a administração do pagus de Conflent ao seu irmão Mirão, nesta ocasião teria cedido o pagus de Besalú ao seu outro irmão Radulfo; do mesmo modo, Vifredo, o Peludo, cedeu a abadia de Arles ao seu irmão Sunifredo e o bispado de Elna ao último irmão, Riculfo. Tanto Ramon d'Abadal como Josep Maria Salrach coincidem, portanto, em aceitar a teoria da investidura legal de Vifredo, o Peludo, assinalando que esta teria sido a recompensa que o rei Luís II de França, filho de Carlos II de França, concedeu a Vifredo e a Mirão por se terem mantido leais à dinastia carolíngia durante a revolta dos magnatas francos.
Morto Luís, o Gago (879), o reino franco foi dividido entre os seus filhos, ambos menores de idade: Luís III, o Cego recebeu a Nêustria, a Austrásia e a Lorena; Carlomano II, o Ducado da Borgonha, a Aquitânia, a Septimânia e os condados sul-pirenaicos. O vazio de poder causado por esta sucessão agravou-se, precisamente, pelas mortes de Luís III (882) e de Carlomano (884); então, devido aos difíceis momentos do reino causados pelos contínuos ataques dos normandos contra as costas atlânticas, descartou-se a entronização de Carlos, o Simples — filho póstumo de Luís, o Gago, de apenas cinco anos — e, procurando um monarca capaz de fazer frente aos invasores escandinavos, na assembleia de Ponthion (885) os magnatas optaram por oferecer a coroa ao filho de Luís, o Germânico, Carlos III, o Gordo, rei da Germânia, coroado imperador pelo papa João VIII em 881. Todo o território carolíngio ficava, assim, novamente sob o domínio de um único soberano. Contudo, o imperador Carlos III, o Gordo, neto de Luís, o Pio, depressa demonstrou que não tinha a têmpera do seu avô — nem, muito menos, a do seu bisavô —: perante o cerco de Paris pelos normandos entre novembro de 885 e outubro de 886, Carlos apenas foi capaz de comprar a retirada destes mediante o pagamento de um tributo; além disso, na Frância Oriental, também não se mostrou capaz de dominar as revoltas da Francónia, Saxónia, Turíngia, Baviera e Suábia. Por tudo isto, em 887 Carlos foi destronado.
Os condes da Gótia e a crise da monarquia franca
Seguindo a tradição dos condes da Gótia de ascendência visigótica, os condes Guifré, o Peludo, Mirão de Rossilhão-Conflente e os condes de Empúries Delà e Sunier II acataram os monarcas carolíngios Carlomano (879-884) e Carlos, o Gordo (885-888), tal como o testemunham a visita à corte real de 881, realizada pelos dignitários catalães para solicitar privilégios, e o preceito concedido em 886 por Carlos, o Gordo, a Teotário, bispo de Girona. Contudo, esta lealdade assume, após a morte de Luís, o Gago, um caráter passivo; os condes catalães, embora nunca se tenham levantado contra os carolíngios, evitaram envolver-se nas lutas do reino. Em 879, Luís III e Carlomano marcharam contra Bosão, autoproclamado rei da Provença, título exclusivo dos descendentes de Carlos Magno; os condes catalães posicionaram-se a favor de Carlomano, mas não se juntaram à expedição, atitude bastante diferente da atuação decidida e firme, apenas dois anos antes, de Guifré e Mirão na Septimânia contra os seguidores de Bernardo da Gótia; do mesmo modo, nenhum dos dignitários sul-pirenaicos assistiu à assembleia de Ponthion (885), uma vez que, para os condes catalães, os ataques normandos representavam uma questão alheia e distante.
Os reis francos tinham perdido a faculdade, que haviam tido no século IX, de nomear e destituir os condes, os quais, por isso, deixaram de ser delegados do monarca para se tornarem pequenos soberanos nos seus domínios. A transmissão hereditária dos condados era uma prática que, além de negligenciar a autoridade do rei franco, convertia um cargo público em património familiar. Esta prática foi iniciada em 895, com a morte de Mirão, o Velho. O seu condado de Rossilhão passou, sem qualquer intervenção do rei franco Odão, para Sunier II de Empúries, e o Conflente ficou para Guifré, o Peludo. Após a morte de Guifré, os seus filhos —Guifré Borrell, Mirão, Sunifred e Sunier— optaram inicialmente por governar conjuntamente todos os domínios do pai e administrá-los sob a presidência do primogénito, Guifré Borrell. Contudo, pouco depois, quando cada um dos condes cogovernantes teve descendência, foi necessário abandonar a ideia de herança conjunta e, então, cada filho transmitiu individualmente aos seus herdeiros a parte do conjunto condal que governava:
Dado o termo «marca», Josep Calmette (1873-1952) julgou encontrar a prova de que nos territórios conquistados na Hispânia os carolíngios tinham instituído, como noutras regiões fronteiriças —caso da Bretanha, Saxónia, Panónia ou do Friul—, um distrito de carácter militar e administrativo governado por um marquês, com jurisdição sobre os condes. Contudo, segundo observou Ramon d'Abadal, no reino franco nunca existiu o cargo de marquês da Hispânia, mas sim os de duque de Tolosa, duque da Septimânia e o de duque ou marquês da Gótia. Além disso, seguindo Abadal, nos documentos oficiais expedidos pela chancelaria não foi empregue em nenhum caso a expressão Marca Hispânica, termo caído em desuso por volta de 850 e recuperado pelos historiadores apenas no século XVIII, por via erudita. Por tudo isso, Abadal concluiu que, contrariamente à tese de Josep Calmette, a locução Marca Hispânica foi uma mera designação geográfica sem qualquer valor jurídico, criada por alguns escritores e cronistas da época carolíngia —mas não pelos escrivães da corte, os redatores dos documentos oficiais— com o propósito de satisfazer a necessidade de dispor de um termo adequado para se referir a um território geográfico pertencente à Hispânia, mas incluído no reino franco em consequência da conquista. E assim, por analogia com outras áreas fronteiriças, utilizaram o termo marca, embora este não correspondesse, na realidade, à organização administrativa desta área.
{{Árvore genealógica |E1| | | | | | | | | |E3| | | | | | | | | | |E1=Bernardo Amato de Claramunt(visconde de Cardona) |E2=Arnaldo Guilherme(visconde de Fenollet) |E3=Maria Díaz de Vivar(filha do Cid)}
Borrell II de Barcelona
{{Árvore genealógica | | | | | | | | | | | | | | | | | | | | | | | | |E3=[[Riquilda de Tolosa]|}}


