Maria Bibiana do Espírito Santo
Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora, Oxum Muiuá, foi a terceira Ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá em Salvador, Bahia.
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Maria Bibiana do Espírito Santo nasceu no dia 31 de março de 1890, filha de Félix do Espírito Santo e Claudiana do Espírito Santo, na Ladeira da Praça em Salvador, Bahia. Tinha uma irmã chamada Felícia do Espírito Santo. Mãe Senhora é descendente da nobre família africana Assipá, originária de Oió na Nigéria e Queto no Benim. Sua mãe, Claudiana do Espírito Santo era filha de Madalena. Madalena era filha da Sra. Marcelina da Silva, Obá Tossi, uma das fundadoras da primeira casa de candomblé no Brasil: o Ilê Axé Airá Intilé, ou Candomblé da Barroquinha, depois Casa Branca do Engenho Velho, em Salvador. Foi iniciada na nação Queto em 4 de novembro de 1907, pela ialorixá Eugênia Ana dos Santos, Mãe Aninha, em sua casa na Ladeira da praça, no Pelourinho, centro histórico de Salvador. Mãe Aninha lhe entregou a cuia (contendo a faca, a tesoura e a navalha) no ritual de iniciação. A navalha fora de sua avó, Marcelina da Silva, Obá Tossi. A linhagem familiar é que permitiu a Mãe Senhora, ainda criança, a receber os símbolos do direito ao mais alto posto do candomblé. Mãe Aninha não queria iniciar Mãe Senhora tão jovem - pois sabia como é pesada a disciplina do sacerdócio - mas teve uma visão na qual Marcelina da Silva, Obá Tossi, ordenava-lhe o contrário. Segundo consta, os primeiros banhos rituais de Mãe Senhora, ainda menina, foram tomados no Ilê Axé Airá Intilé, em Salvador.
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Mãe Senhora tinha uma barraca na rampa do antigo Mercado Modelo que chamava de "A Vencedora", mais como forma de entretenimento do que de subsistência. Tinha o hábito de chegar ao mercado entre 8 e 9 horas da manhã para vender frutas que o pessoal do Opô Afonjá apanhava na roça: manga, araçá, tamarindo, mangabada etc. Quem ajudava era Celina de Jesus, Cosme, Valdeck. Sua neta, Inaicyra, filha de Mestre Didi, lembra com saudade que gostava muito de comer os bolinhos manauês e das bolachinhas de goma que ela fazia e as vezes vendia por lá. Entre 2 e 3 horas da tarde, já estava de volta em casa, com suas compras: rabada, fígado, o que mais tivesse bonito e fresco na ocasião. Foi também no Mercado Modelo que Camafeu de Oxóssi fez a aproximação de Jorge Amado com Mãe Senhora. Jorge Amado costumava frequentar muito a barraca de Camafeu. Mãe Senhora costumava vender na festa do Ribeira, no bairro de mesmo nome, em um ponto que era dela (e não uma barraca como no Mercado Modelo), quando vendia cocada e doces diversos. Esse ponto ela passou depois para uma senhora de nome Epifânia, sua filha de santo. Quando estava por lá, Mãe Senhora tinha o hábito de ir a Missa da Igreja de Nossa Senhora da Penha.
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No dia 25 de Dezembro de 1937, Mãe Stella conta que conheceu Mãe Aninha e Mãe Senhora (Ossi Dagã), numa visita com seus familiares ao Ilê Axé Opô Afonjá: "Esse espaço era uma fazenda com pouquíssimas casas, muita vegetação, muitas árvores e muito mistério - sem água corrente nem luz elétrica, mas era tudo lindo! No decorrer da visita, escutei muitas vezes mãe Aninha, a quem eu chamava de tia, solicitar a presença da ossidagã para as funções as mais variadas. Dava pra notar que era um pessoa de extrema confiança e que se dedicava carinhosamente, com respeito e sem medo, às funções que lhe eram impostas. A ossidagã era uma figura que emanava simpatia e segurança. Corpo rechonchudo, seios fartos, olhos grandes, lindo riso, pouca estatura, pernas curtas - fazia tudo com a mão esquerda. Era uma deusa de ébano! Voltei para casa com a imagem de tia Aninha, imponente e misteriosa, que com um gesto meio mágico tirou uma fruta - uma maçã vermelha - de uma grande gamela que estava no altar de Xangô, e me entregou. Achei ótimo, esnobei meus irmãos, ainda mais quando me disseram: - Só você ganhou a fruta do pé do Santo... Não me saía da cabeça a imagem da ossidagã. Só falava nela e, então, fui informada de que ossidagã era o cargo que ela ocupava no Axé. Um ano depois, voltei com minha tia Arcanjá, a Sobaloju do Opô Afonjá, e Joaninha, companheira de todas as horas. Tia Aninha já tinha falecido e a ossidagã reinava como Ialorixá do Axé Opô Afonjá. Desse tempo em diante, o destino do Candomblé de São Gonçalo ficou a cargo de mãe Senhora, o que ocorreu após o afastamento de mãe Bada, a sucessora imediata de mãe Aninha."
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No final de 1967, Mãe Agripina, Obá Deyi, morreu. No São Gonçalo do Retiro, Mãe Senhora se ocupava do axexê da irmã-de-santo, filha de Xangô Aganju, durante sete dias. Na quinta-feira 19 de Janeiro, Luiz Domingos, Obá Otum-Téla do Ilê Axé Opô Afonjá, visitou Mãe Senhora no terreiro: - Olhe, meu escurinho, no sábado eu quero comer peixe trazido por você. Na sexta-feira, dia 20, enquanto fazia as obrigações, ela passou mal, deixando os filhos preocupados. No sábado, manhã do dia 21 de Janeiro, Luiz mandou as tainhas bem frescas, que preparavam para ela no almoço. À tarde, Jorge Amado, Obá Arolu do Ilê Axé Opô Afonjá, apareceu, trazendo o médico Menandro Novais. A recomendação foi repouso: - Repouso! Quem tem uma aflição, um punhal no peito, não consegue repousar. Ademais não posso descuidar das obrigações de Xangô – disse Mãe Senhora. Mãe Senhora foi dormir e, na madrugada de domingo, 22 de Janeiro, morreu.
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Seguem abaixo algumas obras de Mãe Senhora:
Ampliação do Corpo de Obás de Xangô
Ao assumir o posto de ialorixá, Mãe Senhora ampliou o corpo dos Obás de Xangô, criando os subcargos de Otum e ossi. Então cada Obá passou a ter seus auxiliares, um Otum e um ossi. A formação do corpo dos Obás passou então de 12 para 36 componentes.
Mãe Preta do Brasil pela Federação Umbandista do Rio de Janeiro
Segundo Muniz Sodré, Obá Arexá do Ilê Axé Opô Afonjá, em Maio de 1965, quando Mãe Senhora "chegou ao Rio de Janeiro para receber o título de "mãe preta" do ano, eu acabava de chegar da Bahia, para mourejar na imprensa carioca. A serviço da revista Fatos & Fotos, acompanhei-a até o Maracanã, que naquela época só enchia em dias de decisão de campeonato de futebol. Pois bem, na noite de 13 de maio - data de comemoração da Lei Áurea - as cadeiras e arquibancadas do estádio ficaram superlotadas: o povo-de-santo queria ver de perto a Oxum Muiuá, Mãe Senhora. É interessante rememorar o evento, por suspeitarmos de que hoje, na virada do milênio, talvez já não fosse possível realizar algo semelhante nas mesmas proporções. Pelo menos, no estádio do Maracanã, açambarcado pelos evangélicos - cujos representantes se espalham por câmaras municipais, estaduais e federais. De certo modo, os anos sessenta no Brasil, apesar do clima militar, eram bem mais receptivos para com as diferenças reais do que a atualidade. Havia divergências (por parte dos umbandistas, conforme se depreende do texto publicado na revista), mas a tolerância ainda reinava. Interessante também é o tratamento dado ao acontecimento pela revista. Lembro-me de ter entregado um texto de várias páginas, que terminaram reduzidas a oito linhas pelo editor. E mesmo assim não faltaram os clichês do imaginário oficial no que se refere aos cultos afro-brasileiros. O ato simbólico-religioso foi co notado como "espetáculo folclórico", as imagens sobrepuseram-se à explicação do significado cultural do evento ao público-leitor."
Visita de Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir
Jorge Amado e Zélia Gattai apresentaram Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir a Mãe Senhora. No livro "Casa do Rio Vermelho", Zélia conta que "levávamos muitos visitantes, amigos nossos que vinham à Bahia, alguns muito ilustres, para conhecê-la. A gente avisava antes: Vamos levar uma pessoa muito importante, formidável. E ela dizia: "Hum, mais importante do que tu não tem", ela dizia para Jorge. Numa destas vezes levamos Sartre e Simone de Beauvoir. Ela dizia: - Como é o nome dele? Jorge dizia Jean Paul Sartre. E ela: - É muito complicado. E Jorge explicou que Paul é Paulo... Ela, então, sentenciou: - Então pronto, Sr. Paulo. Ai, era seu Paulo para cá, seu Paulo para lá, mas sem dar muita bola, sabe? Ela não ficava tímida diante de uma personalidade tão grande. E dona Simone? Para dona Simone e seu Paulo ela jogou os búzios e deu que D. Simone tinha a mesma Oxum que eu. E ela disse, concluindo: - Explique isso a ela que daqui em diante ela vai ter que lhe obedecer, tu vai ser a mãe pequena dela, o que ela fizer tem que lhe pedir conselhos. Eles ficaram muito impressionados com ela. Sempre que a gente se encontrava, eles perguntavam por ela."
Amizade com Edison Carneiro
Segundo Cid Teixeira, historiador, conta que "Havia aqui na Bahia um homem, chamado Professor Souza Carneiro, pai de Edison Carneiro, pai de Nelson Carneiro, um ilustre professor da Escola Politécnica e ligadíssimo à Casa de São Gonçalo. Os filhos dele, mais especificamente um dos filhos, estava vinculado à esquerda. Não somente Edison Carneiro, como Jorge Amado, Milton Sales de Brito, Aydano Couto Ferraz, João Cordeiro e outros mais que já não me lembro agora, que estavam, jovens, abertos aos movimentos literários e culturais próprios da época e homens de esquerda. Quando desencadeou-se aqui na Bahia uma perseguição, um trabalho de repressão muito forte ao pensamento comunista ou cripto-comunista, não sei bem se eles todos tão ortodoxamente comunistas - em todo caso, gente nova de esquerda - Souza Carneiro, teve a competência e a liderança de evitar que baixasse sobre o filho e os amigos do filho, jovens tão politizados da época, o braço da repressão, o braço da punição. E estes jovens foram assim homiziados, não sei se a palavra cabe, lá na Roça de São Gonçalo. Isto significou uma integração - mesmo os mais empedernidos ateus, os mais divorciados de qualquer relação com o orum, ou com o sobrenatural de qualquer natureza, passaram a olhar aquilo com respeito humano, de religioso, e a aprofundar bem mais as suas informações a este respeito. Estes jovens foram acolhidos por D. Senhora e disso resultou um benefício recíproco - para eles que passaram a ver o mundo sob outras óticas e para o Candomblé de um modo geral e especificamente para o Axé do Opô Afonjá, um trânsito muito mais fluido, muito mais amigo com todos os segmentos da comunidade. E isto foi basicamente devido à forte personalidade de D. Senhora, que era, realmente, e não estou exagerando, uma personalidade majestática. Poucas pessoas já vi e conheci com tanta encarnação do poder e da liderança quanto ela."
Carta do Alafim de Oió, Nigéria – Iá Nassô
Pierre Verger foi portador de uma carta escrita pelo alafim de Oió para Mãe Senhora em 14 de Agosto de 1952, no qual ele dava a ela o título honorífico de "Iá Nassô" . Pierre Verger explica que nesse momento Mãe Senhora torna-se espiritualmente a fundadora dessa família de terreiros de candomblé da nação Queto, na Bahia, todos originários da Barroquinha.
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Maira Bibiana é homenageada na música Enterro de Iyalaorixá (ialaorixá) do grupo Os Tincoãs. ==Notas e referências==


