Livro do Armeiro-Mor
O Livro do Armeiro-Mor é um manuscrito iluminado datado de 1509, durante o reino de D. Manuel I, décimo-quarto rei de Portugal. O códice é um armorial, isto é, uma coletânea de armas heráldicas, da autoria do Rei de Armas João do Cró. É considerado uma das obras-primas da iluminura conservadas em Portugal, a par de, por exemplo, o Apocalipse do Lorvão, do século XII, o Livro de Horas de D. Duarte, ou dos contemporâneos Bíblia dos Jerónimos e Livro de Horas de D. Manuel, também executados para o Venturoso. Por ser o mais antigo armorial português que sobreviveu até aos nossos dias, por ser a fonte mais antiga que hoje temos quanto a certas armas, e ainda pela beleza das suas magníficas iluminuras, é considerado o mais importante armorial português. Foi chamado o "monumento máximo do que poderemos chamar a cultura heráldica portuguesa."
O Livro do Armeiro-Mor contém 161 fólios de pergaminho, nas dimensões 403 x 315 mm, e está escrito em português. No fim da Monarquia pertencia à livraria particular do rei D. Carlos. Hoje conserva-se no arquivo nacional da Torre do Tombo (cota Casa Real, Cartório da Nobreza, liv. 19). O livro foi encomendado por D. Manuel I, conforme se pode ler no início da obra: Livro das Armas//que ho muyto alto//...//elrey Dom Manuell//...//mandou a my rey darmas Portuguall//juiz da nobreza que compossese e hordenasse//e nelle asentasse tadallas armas dos reys e princepes cristaãos// e asy udeus mouros e gentijos//domde primeiramente decendeo e começou a nobreza//a asy asentasse e possese todallas armas dos nobres destes reynos e senhorios cada//huuas em seu luguar proprio//... Trata-se assim de um livro oficial e normativo, resultante da tentativa de um monarca de ordenar o uso de armas heráldicas no seu reino:
Nacionalidade do autor
A autoria da obra tem sido disputada, principalmente a nacionalidade do Rei de Armas Portugal, tendo um Mestre Harriet inglês, o bacharel António Rodrigues, e um Jean du Cros francês sido sugeridos. Segundo os comentários à mais recente edição da obra, os dois primeiros estão definitivamente postos de lado, e parece confirmada a nacionalidade portuguesa de João do Cró.
Elmos e paquifes
O Livro do Armeiro-Mor destaca-se por não apresentar os timbres das respetivas armas - apenas inscrevendo a palavra timbre sobre 86 dos escudos portugueses, na última secção da obra -, dando toda a atenção ao escudo, e apenas ornamentando o mesmo com elmos e magníficos paquifes, e um virol. Sendo o escudo o elemento absolutamente fundamental das armas heráldicas, isto pode ser considerado uma tradição que dá a devida importância ao escudo e, mantendo as armas simples e limitadas ao fundamental, confere às mesmas uma grande dignidade. No entanto, no posterior Livro da Nobreza e Perfeição das Armas, de António Godinho, cuja iniciativa se deve a D. Manuel I mas que apenas foi completado no reinado de D. João III, optou-se por representar também os respetivos timbres.
O primeiro capítulo do Livro do Armeiro-Mor apresenta as armas dos chamados Nove da Fama, heróis históricos ou lendários de grande renome, e ainda uma figura fora dos da Fama. Ao todo dez iluminuras de grande beleza, onde cada escudo é apresentado por uma figura, ainda que as armas sejam em grande parte fantasiosas. Os heróis da Fama estão divididos em três grupos de três: três reis Hebreus, três reis Pagãos, e três reis Cristãos. A ordem de apresentação das dez figuras é cronológica, exceto entre os pagãos, onde Heitor, o lendário príncipe de Troia, é apresentado depois de Alexandre Magno. A outra figura lendária é o rei Artur, que encabeça a lista dos heróis cristãos. A figura fora dos da Fama representa Bertrand du Guesclin, condestável de França durante a Guerra dos Cem Anos.
O seguinte capítulo da obra, intitulado no índice "dos Brasões", apresenta as armas de 49 grandes e pequenos estados, em outras tantas páginas. Entre estes estados encontramos os principais reinos da Europa Ocidental, incluindo os reinos das Ilhas Britânicas e da Escandinávia. Encontramos ainda certas armas históricas de reinos já não existentes à altura da execução da obra em 1509, nomeadamente três reinos cristãos da Terra Santa fundados na era das Cruzadas: o reino de Jerusalém, o reino arménio da Cilícia, e o reino do Chipre. Do mesmo modo encontramos as armas do Império Bizantino e da dinastia Paleólogo, a última dinastia do Império. Por fim encontramos também neste capítulo, à semelhança do visto no primeiro capítulo, armas de reinos ou figuras lendárias, como a Rainha Branca. Algumas de estas armas lendárias, mais ou menos fantasiosas, ou não identificadas estão representadas na seguinte lista em itálico.
O terceiro capítulo do Livro do Armeiro-Mor trata da eleição do imperador do Sacro Império Romano-Germânico. O Império encontrava-se divido em centenas de estados de maior ou menor dimensão; o imperador era eleito por um grupo seleto de príncipes. O capítulo abre por uma página escrita, que descreve a forma de eleição no Império estipulada na Bula Dourada de 1356, ainda vigente à época da execução da obra. O capítulo contém depois sete belas iluminuras que representam as armas dos sete Príncipes-eleitores do Império; tal como no primeiro capítulo dos Nove da Fama, cada escudo é apresentado por uma figura magnificamente executada. Para além dos sete Príncipes-eleitores, o capítulo contém ainda uma oitava iluminura, que representa o imperador sentado no trono imperial, de ceptro e orbe nas mãos, e com as armas de quatro outros duques do Império a seus pés, a saber (da esquerda a direita): duque da Suábia, duque de Braunschweig-Wolfenbütel, duque da Baviera, e duque da Lorena. Repare-se que as duas primeiras destas quatro armas se encontram volvidas, de forma a que os leões de ambas estejam como que curvados perante o imperador, assim como as águias da Lorena no lado oposto (ver galeria de imagens infra).
O quarto capítulo da obra, tal como o precedente, abre com um curto texto, no caso sobre a sagração dos reis de França. Nesta solene cerimónia os doze pares da França - seis eclesiásticos, e seis leigos, dos quais seis tinham dignidade de duque, e seis de conde - tinham cada um a responsabilidade de carregar, entregar, ou afixar certos objetos, da coroa e cetro às esporas e cinto reais. O capítulo contém doze magníficas iluminuras dos pares de França, encabeçados pelo Arcebispo de Reims e o duque da Borgonha, os primeiros pares eclesiástico e leigo; cada iluminura mostra o respetivo atributo (ver ainda galeria de imagens).
O corpo do Livro do Armeiro-Mor trata das Casas nobres de Portugal, ao todo 287 armas, encabeçadas pela Casa Real. Após a Família Real são referidas as principais Casas do reino de Portugal. Para um estudo das mais importantes linhagens nobres, ver os Brasões da Sala de Sintra. Para a relativa importância das linhagens na corte nos séculos XIV e XV e as flutuações da mesma, refletidas na ordem em que as suas armas são apresentadas no Livro do Armeiro-Mor, ver, por exemplo, a obra de Rita Costa Gomes. Algumas das primeiras Casas no topo da lista são referidas pelo título nobiliárquico da família, sem a mesma ser referida. No entanto, nem todos os títulos existentes em 1509 são referidos. No seguinte, à exceção dos vários títulos associados às Casas de Bragança e de Vila Real, acrescenta-se, entre parêntesis, as respetivas Casas ou títulos associados às Casas existentes em 1509. Nota: No seguinte mantém-se a correspondência e ortografia da última edição do Livro do Armeiro-Mor (2007). Assim, FEBUS MUNJS = Moniz de Lusignan, BETENCOR = Bethancourt, etc.
Outras Casas e nobres
A partir do fólio 117 a obra apresenta quatro armas por página. Estas são essencialmente Casas de menor categoria e mais recente nobreza. Entre as 72 armas da Sala de Sintra, apenas umas se encontram nesta secção: as dos Carvalhos. Estas não eram, em 1509, grandes Casas senhoriais; eram linhagens cujos filhos ocuparam por exemplo cargos menores na corte ao longo dos séculos XIV e XV, como no caso dos Azambujas, Cogominhos, Portocarreiros, etc. Ainda outras armas são pessoais e diretamente relacionadas com a Era dos Descobrimentos, como nos casos de Fernão Gomes da Mina, Diogo Cão, Nicolau Coelho, etc. As armas desta secção não apresentam paquife nem virol.


